Quando o camp é vitalício: os 35 anos de Darkman – Vingança sem Rosto

Cena do filme DarkmanNa imagem, o personagem Darkman olha para frente com expressão de desespero. Ele possui o rosto desfigurado, com cicatrizes na região da boca, bochechas e olhos, com exceção do lado esquerdo do rosto e o nariz. Na face, há ataduras. Darkman é um homem de pele branca e olhos azuis. Ele veste um paletó preto.
Darkman possui duas sequências, mas com Raimi fora da direção (Foto: Universal Pictures)

Davi Marcelgo

Entre as discussões sobre as produções da Marvel Studios, há aquelas que apontam o cinismo como principal característica dos longas. Um desprezo em abraçar o estilo cafona e ingênuo dos gibis, material base dessas adaptações. Ao contrário de Kevin Feige, chefe por trás do maquinário, o diretor Sam Raimi é alguém que jamais renegou a natureza barata das histórias de super-heróis, presente, principalmente, na sua obra mais popular: a trilogia Homem-Aranha. Porém, 12 anos antes do lançamento da primeira teia, o americano criou seu próprio (anti) herói e assumiu o espírito cartunesco como ninguém em Darkman – Vingança sem Rosto (1990). Continue lendo “Quando o camp é vitalício: os 35 anos de Darkman – Vingança sem Rosto”

Amores Materialistas é fútil e previsível, mas, ainda sim, realista

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme Amores Materialistas. A cena retrata um casal, Pedro Pascal e Dakota Johnson, em um ambiente urbano, com estilo casual e foco nas expressões e interações sutis entre eles. O homem, mais alto, tem cabelos castanho-escuros, bigode e veste casaco bege com camisa castanho-alaranjada, exibindo expressão neutra. A mulher, de cabelos castanho-escuros em camadas com franja, veste um casaco de couro preto e apresenta semblante levemente sério. O enquadramento é próximo, destacando o casal contra um fundo urbano desfocado, criando profundidade e realce visual. A iluminação natural e difusa indica uma cena ao ar livre durante o dia, com tons neutros e abordagem realista, sem efeitos estilísticos marcantes.
Os três protagonistas do filme já participaram da Marvel (Foto: Killer Films)

Marcela Jardim

Vendido como uma comédia romântica charmosa e leve, Amores Materialistas chega aos cinemas embalado por cartazes luminosos, diálogos espirituosos e a promessa de um romance improvável. No entanto, sob a direção de Celine Song, a obra se revela muito mais próxima de um estudo sociológico do que de um escapismo açucarado. Ao centro da trama está Lucy (Dakota Johnson), cuja construção é deliberadamente marcada por uma frieza controlada e uma beleza comum. Ela é a síntese da protagonista superficial: elegante, discreta, previsível e incapaz de se despir da persona que criou para si. A personagem atua como casamenteira em uma agência que trata encontros como transações de mercado — uma espécie de ‘Tinder humano’ em que o amor é reduzido a compatibilidades de status, aparência e renda.

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Após 15 anos, o remake de Karatê Kid segue controverso e reafirmando o futuro de Hollywood

Fotografia de Jaden Smith, rapaz negro de tranças verticais por todo seu cabelo preto, vestido em uma regata branca, calça cinza e tênis da adidas das mesmas cores, fazendo flexões inclinadas no quintal de uma casa vermelha de arquitetura tradicional asiática enquanto Jackie Chan, homem chinês de cabelo escuro, vestindo botas surradas pretas, calça azul e blusa branca, aponta com um leque a posição de sua cabeça.
Karatê Kid foi o primeiro filme desde O Último Imperador (1987) a conseguir a autorização para gravar dentro da Cidade Proibida na China (Foto: Sony Pictures Entertainment)

Livia Queiroz

Em 2009, um grande burburinho se espalhou por Hollywood: Will Smith está planejando um remake do sucesso cinematográfico dos anos 80, Karate Kid. Logo depois, Ralph Macchio recebe um roteiro e a proposta de dar vida ao senhor Han, réplica do senhor Miyagi. A família Smith recebeu como resposta uma negação assídua e depois do lançamento do trailer, uma declaração irritada do ator. O motivo? Ele viu o filme como uma falta de criatividade absurda da indústria do cinema e do produtor. Mesmo assim, o desenvolvimento da obra seguiu e foi lançado pela direção de Harald Zwart em junho de 2010. 

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40 anos de Mr. Bad Guy: uma declaração entusiasmada de um Freddie Mercury totalmente reinventado

Capa de um álbum musical do artista Freddie Mercury, onde aparece de óculos escuros reflexivos e bigode, olhando por cima do ombro com expressão confiante. Ele está ao ar livre sob luz do sol, com fundo esverdeado desfocado. No topo, o nome do cantor é destacado em azul e o nome “Mr. Bad Guy (Special Edition)” é posto abaixo.
O álbum Mr. Bad Guy foi o primeiro álbum musical da carreira solo de Freddie Mercury durante um intervalo da banda Queen (Foto: Musicland Studios)

Gabriel Diaz

Após quatro décadas de seu lançamento, Mr. Bad Guy permanece como um testamento da reinvenção audaciosa de Freddie Mercury, revelando-se como um diamante irregular que expõe o homem por trás do mito. Longe do peso das expectativas do Queen, o início de sua carreira solo foi seu manifesto de liberdade pessoal e artística, onde finalmente pôde explorar sem limites o pop eletrônico, a disco music e baladas de arena – territórios que seus colegas Brian May e Roger Taylor viam com desconfiança. Gravado entre 1983 e 1985, durante um intervalo da banda, o disco é um mergulho sem redes na alma de um artista exausto de ser apenas ‘o vocalista do Queen’.

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As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo: um mergulho íntimo na nova obra da Lagum

A capa do álbum é uma fotografia aérea de um prédio com design moderno e curvas suaves, vista de cima. Quatro homens estão sobre a borda do edifício, em poses descontraídas: um está deitado com o peito nu, outro está sentado no chão com as pernas esticadas, e dois caminham pelo espaço. Abaixo, é possível ver a rua com carros brancos e árvores margeando a calçada. A cena sugere um ensaio fotográfico ousado, com forte contraste entre o ambiente urbano e a sensação de liberdade dos modelos.
A banda se formou em 2014, em Belo Horizonte, quando o vocalista Pedro Calais postou um vídeo com uma composição no Facebook (Foto: A Ilha Records)

Marcela Jardim

Com As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo, a banda mineira Lagum entrega sua obra mais madura até aqui — um disco breve em duração, mas profundo em afetos, estética e intenção. Lançado em maio de 2025, o álbum representa um respiro dentro da cena pop nacional: sem pressa, sem espetáculo e sem a ansiedade de um hit. Em vez disso, o grupo opta por criar um espaço de contemplação e escuta, no qual cada música funciona como uma pincelada em um quadro maior. 

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Há 5 anos, Taylor Swift transformava isolamento em enredo e silêncio em poesia com folklore

Capa do álbum folklore. Fotografia em preto e branco de uma floresta alta e densa envolta por neblina, com árvores longilíneas e um ambiente silencioso e etéreo. No centro inferior da imagem, Taylor Swift aparece sozinha, de pé entre as árvores, vestindo um longo sobretudo xadrez de estilo vintage. Sob o casaco, vislumbra-se um vestido fluido. Seu cabelo está solto, levemente ondulado e natural, caindo sobre os ombros. Ela mantém uma postura estática e contemplativa, com os braços relaxados ao lado do corpo. Sua figura humana se funde ao cenário melancólico, evocando introspecção e solidão bucólica.
folklore é o 8° álbum de estúdio da cantora (Foto: Universal Republic Records)

Marcela Jardim

Cinco anos atrás, em julho de 2020, Taylor Swift surpreendia o mundo ao lançar folklore, um disco inesperado em todos os sentidos. Lançado sem anúncio prévio, no auge do isolamento pandêmico, o álbum marcava uma guinada radical em sua estética musical e narrativa. Longe da grandiosidade colorida de Lover (2019) ou da pulsação icônica de Reputation (2017), folklore é cinza, úmido e contido. Um mergulho no íntimo. Em meio ao silêncio coletivo que marcava aquele momento da história, Swift parecia responder com um disco que não gritava, mas sussurrava. Que não seduzia com batidas, mas encantava com palavras, texturas e histórias fragmentadas. A obra é, antes de tudo, um disco de escuta – não para tocar no carro em movimento, e sim para ouvir como quem lê um diário escondido entre folhas velhas.

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Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado pesca o que há de melhor no Terror de shopping

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão PassadoNa imagem, a câmera está no ângulo de baixo para cima, com o gancho do assassino em destaque. A arma possui formato de anzol e é prateado. O assassino está em desfoque, ele usa capa de chuva e chapéu, ambos na cor preta.
Após 27 anos longe das telonas, novo filme tenta ressuscitar franquia (Foto: Sony Pictures)

Davi Marcelgo 

A força motriz de Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (1997) é o conteúdo de que a história trata: adolescentes ambiciosos com o futuro, cansados da cidade natal, ficam condenados a viver ou retornar sempre ao local. Esta temática aparece não somente no texto, mas na forma como o diretor Jim Gillespie isolava as personagens do resto da população, a tragédia era algo particular do grupo de amigos. A premissa se perdeu na sequência de 1998 e no remake de 2006, mas retorna com força total, embora reimaginada, no filme que chegou aos cinemas em 2025; a requel sem medo de ser a ‘irmã feia’ de Pânico (2022).

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Em Nada, Adriano Guimarães transforma o invisível em presença

Imagem do filme Nada. A cena é observada do exterior de uma casa, através de uma janela retangular dividida por duas colunas de madeira pintadas de azul vivo. No interior, três mulheres estão reunidas em torno de uma mesa coberta por uma toalha estampada com motivos florais vermelhos e verdes. Uma lâmpada incandescente pendurada no teto ilumina a cena. À esquerda, uma mulher com cabelos curtos e óculos veste um casaco vinho sobre uma blusa clara. Ao centro, de costas para o observador, outra mulher com cabelos castanhos curtos veste um suéter branco texturizado. À direita, uma terceira mulher com cabelos escuros presos veste uma camisa listrada em tons de rosa e branco e parece estar escrevendo ou lendo algo sobre a mesa. Sobre a mesa, notam-se objetos como copos, jarras e um recipiente com alimento.
Silêncios, gestos mínimos e atmosferas carregadas constroem a narrativa subjetiva de Nada (Embaúba Filmes)

Arthur Caires

Com seu olhar intensamente sensorial, o experiente diretor de teatro brasiliense, Adriano Guimarães, estreia na ficção com Nada, um filme que aposta em pausas e silêncios de uma presença quase tátil. Distribuído pela Embaúba Filmes, o longa já passou por diversos festivais internacionais e foi premiado no Festival de Brasília nas categorias de Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor Edição de Som. 

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Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é familiar, fantasioso, divertido e, de fato, fantástico

Aviso: O texto contém alguns spoilers

A imagem mostra os quatro integrantes do Quarteto Fantástico — Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm — em uma rua da cidade, ao lado de um veículo futurista azul. Distribuídos em diferentes pontos da cena, os heróis exibem poses de alerta e nervosismo, encarando um novo desafio. A atmosfera é fria e dramática, reforçada pelo cenário de cidade grande em pleno inverno. Usam uniformes azul-claro com variações de branco e o número 4 em destaque no peito, reforçando a identidade do grupo. Reed, esguio e sério, veste um traje inteiramente azul; Sue, de postura atlética e serena, tem gola branca no uniforme e aparência etérea; Johnny, jovem e confiante, exibe braços e gola brancos, com chamas vivas nas mãos; Ben, corpulento e coberto por pele rochosa alaranjada, usa faixas brancas até os cotovelos e roupas de estilo retrô. O fundo é urbano, com tonalidade azulada, e a iluminação clara e uniforme destaca os detalhes dos trajes e os efeitos visuais, criando uma atmosfera neutra e moderna centrada na apresentação dos heróis.
O filme marca o retorno do Quarteto Fantástico ao MCU, após a aquisição da Fox pela Disney em 2019 (Foto: Marvel Studios)

Marcela Jardim

Quase vinte anos depois da versão morna de 2005 e do desastre completo de 2015, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) chega como a reinvenção mais ambiciosa da equipe que, por tanto tempo, parecia amaldiçoada no cinema. Sob uma Marvel Studios mais madura, o filme surpreende ao deslocar o foco da ação pela ação e propor uma narrativa centrada na ideia de família como núcleo emocional e político, sem abandonar o tom aventureiro típico do gênero. A aposta é clara: em vez de heróis distantes e inatingíveis, o longa apresenta figuras profundamente humanas, cujos poderes servem mais como extensão de seus vínculos do que como ferramentas de ego. Em conjunto com Superman (2025), o longa veio para aquecer os corações – nerds ou não –, trazendo uma boa adaptação e com mensagens sensíveis.

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Em I quit, HAIM questiona se os relacionamentos ainda fazem sentido na modernidade líquida

 

Fotografia em formato quadrado. No centro, Danielle Haim aparece com um vestido azul de paetês, segurando uma placa eletrônica vermelha com a frase “I quit” em letras minúsculas. Ela está atrás de um vidro, com reflexos de luz e objetos ao redor. Ao fundo, as irmãs Alana e Este observam a cena em segundo plano. O ambiente é uma loja com paredes envidraçadas, diplomas e prêmios expostos em prateleiras.
Em I quit, HAIM troca a superação melodramática por uma rendição consciente (Foto: Polydor Records)

Arthur Caires

Desistir já foi sinônimo de fraqueza. Era o verbo da derrota, da frustração, daquilo que não deu certo. Mas, aos poucos, entendemos que tem coisas que simplesmente não merecem o nosso esforço. Tem causa que é melhor abandonar do que insistir. E tem relações, fases e até versões de nós mesmos que precisam ficar para trás. É nesse espírito que HAIM lança I quit, uma coleção de músicas que se recusa a dramatizar e escolhe simplesmente seguir em frente.

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