Cineclube Persona – Abril/2018

Cena de Vidas Secas (1963), filme mais conhecido de Nelson Pereira dos Santos. O diretor faleceu semana passada, aos 89 anos (Foto: Reprodução)

Gabriel Leite Ferreira e Nilo Vieira

Atenção: contém spoilers!

Nem só de herois viveu o cinema em abril. No mês que findou, as telonas foram também invadidas por obras que usam a religião cristã como base para tramas clichês. Que Deus nos proteja!

Exorcismos e Demônios

Tão genérico quanto seu título (a tradução e o original, The Crucifixion), Exorcismos e Demônios já nasceu fadado ao fracasso. Dentre os subgêneros de terror, filmes de exorcismo baseiam-se numa fórmula esgotada há pelo menos 40 anos. Neste, a jornalista Nicole Rawlins (Sophie Cookson) começa a investigar o caso de um padre preso por homicídio após realizar um exorcismo. Seria realmente um caso de assassinato ou uma possessão demoníaca genuína?

O longa não chega a sanar completamente essa dúvida. Em vez disso, gasta tempo com diálogos desconexos (a falta de desenvoltura da protagonista é notável), um romance repentino e mal resolvido e tentativas de envolver o espectador em uma tensão que invariavelmente termina com jump scares óbvios. O final apressado não deixa dúvidas: não há nada aqui que já não tenha sido feito melhor na década de 1970. – Gabriel Leite Ferreira


Nada a Perder – Contra Tudo, Por Todos

Papo reto: o filme que conta a trajetória do bispo Edir Macedo é horrível. Atuações sem vida, caracterizações incoerentes (incluindo aí imitação pastelão do Silvio Santos), trilha sonora pomposa e roteiro enganoso estão entre os piores defeitos da obra. Não é novidade que biópicos tomam a liberdade de ocultar fatos e facetas sombrias de protagonistas, mas o fanatismo de Nada a Perder vai além do aceitável e retrata o fundador da Igreja Universal como o Jesus brasileiro. Pra piorar, a produção da Netflix – pelo visto, nem tão esquerdista como alguns pintavam – termina já anunciando a parte 2.

Mesmo com valor cinematográfico nulo, não deixa de impressionar. O enredo não poupa farpas a concorrentes evangélicos, outras religiões e membros do governo federal; o bispo não é santo, mas segue como entidade quase intocável no Brasil. Antes da sessão, são entregues lenços com um versículo da bíblia, cujo real significado vai além de mero souvenir. Após o fim do filme, o Edir Macedo real aparece na tela e coordena uma oração, afirmando que bençãos estão sendo repassadas através de cada lenço. É megalomania acima de qualquer Orson Welles, Werner Herzog ou Michael Bay. Macedo não precisa nem usar de personagens para rir da nossa cara. – Nilo Vieira

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