Arlequina e as Aves de Rapina em: o feminismo liberal

Como a luta das mulheres mascara o caráter mercadológico das produções

O colorido mosaico de Aves de Rapina explode em tela a loucura e extravagância de suas personagens (Foto: Reprodução) 

Julia Paes de Arruda

Empresas como Avon, Boticário e Marisa têm as mulheres como seu público alvo. Recentemente, elas vêm integrando o movimento feminista aos seus produtos. O exemplo clássico é a adesão de um GirlPower nas camisetas. Porém, isso não fica restrito à beleza e vestuário. O cinema também acompanha essa onda. Não é à toa que Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa, a nova produção da DC Studios ganhou esse título. 

Após estrelar em Esquadrão Suicida (2016), de David Ayer ao lado de Will Smith e Jared Leto, Arlequina (Margot Robbie) ganha seu primeiro filme solo. A escolhida para direção foi Cathy Yan. De origem chinesa, ela tem no currículo o longa Dead Pigs (2018) e o curta According To My Mother (2016). Seu novo trabalho conta a trajetória da então vilã, depois do término de seu relacionamento com o Coringa. Agora, Arlequina precisa enfrentar seus inimigos sozinha, vivendo às escondidas de todos à sua volta na companhia de Bruce, sua hiena de estimação. 

Simultaneamente à história da anti-heroína, conhecemos o percurso da jovem ladra Cassandra Cain (Ella Jay Basco). A cidade inteira está em busca da garota pois a pequena carrega um precioso diamante do vilão Máscara Negra (Ewan McGregor). É nesse momento que os caminhos de Arlequina, Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) e Renee Montoya (Rosie Perez) se cruzam. Sem muita escolha, elas se unem para que possam agir em defesa de Cain.

Seria muita coincidência o nome da hiena ser o mesmo que a verdadeira identidade do Cavaleiro das Trevas? (Foto: Reprodução)

O primeiro passo da emancipação, além do corte de cabelo, é a mudança de traje. No filme anterior, a anti-heroína usava uma camiseta com os escritos Daddy’s Lil Monster. Referência clara ao seu relacionamento com o Palhaço do Crime. Como a própria protagonista diz, a profissão de arlequim é seguir um mestre: no seu caso, o Coringa. Já no de Yan, seu traje apresenta o nome de seu alter ego: Harley Quinn. Um detalhe pequeno, mas significante já que a partir daí, Arlequina começa contar sua história com seus próprios passos. Seu empoderamento individual, porém, não é reflexo do que acontece na realidade. 

O movimento feminista é antissistêmico que se baseia na luta contra as opressões sofridas pelas mulheres e pela igualdade de gênero. O auge no Brasil começou a partir com o movimento Primavera das Mulheres, em 2015, seguido da criação da hashtags #PrimeiroAssédio após o episódio do Masterchef envolvendo a menina Valentina, além da campanha #MeuAmigoSecreto, que mostrava casos de machismo no cotidiano das mulheres. 

Com o aumento do público e de interesse por esse tema, se tornou algo lucrativo. O primeiro indício do feminismo mercadológico surgiu em 2014, quando as marcas Whistles e Fawcett Foundation criaram uma camiseta com os dizeres “This is what a feminist looks like”. Muitas celebridades começaram a aderir e todo o dinheiro seria usado para caridade. A grande ironia é que as roupas eram produzidas por mulheres em situação análogas à escravidão. 

As peças eram produzidas por mulheres das Ilhas Maurício, no Oceano Índico (Foto: Reprodução) 

Dali em diante, mais marcas foram surgindo com essa proposta de “feminismo”.  A questão é que esse discurso, apesar de parecer inovador, só mascara o que realmente está intrínseco na sociedade e esvazia de sentido o movimento em si. De volta às Aves de Rapina, temos a personagem da Canário Negro. Aos olhos do telespectador, ela é uma mulher cheia de si e independente. Porém, Dinah vive como prisioneira do Máscara Negra, realizando todos os seus desejos. Uma clara visão distorcida do que é ser empoderada. 

Pouco se é debatido sobre as outras personagens. Renee Montoya é quem mais sai prejudicada. E, querendo ou não, ela é o exemplo mais concreto do que se pode encontrar na nossa realidade: mulher, lésbica e policial. Além disso, a detetive não é levada a sério por seus colegas de trabalho, ainda mais depois que seu parceiro foi promovido a tenente no seu lugar. Muitas vezes, ela é taxada de “ciumenta” e invejosa por causa disso e seus pressentimentos não levados em conta nas investigações. 

O personagem de Ewan McGregor é outro que não ganha aprofundamento. As informações dadas sobre o vilão são sobre o olhar de Arlequina, porém as imagens complementam o que não é exposto por palavras. Independente disso, a atuação de McGregor é surpreendente. Não há como discordar de que suas expressões fizeram que o vilão não caísse no esquecimento. Ele se mostra muito à vontade nas cenas, dando vida ao papel que lhe foi designado.

Na ausência do Coringa, Máscara Negra é o grande nêmesis de Harleen (Gif: Reprodução)

O jogo de câmeras de Yan foi essencial para a construção da narrativa. Em contrapartida com Esquadrão Suicida, o olhar da diretora favorece a luta e a ação das personagens em detrimento da sua sensualidade. Não dá pra esquecer a cena bizarra do primeiro filme, a qual Arlequina começa a trocar de roupa em meio a muitos homens. Tirando o fato de que, enquanto ela troca de roupa, a câmera de Ayer caminha pelo corpo de Margot Robbie.

Esse tipo de situação foi semelhante em outro filme da DC Studios. Em 2017, Mulher Maravilha chegou contando a história de Diana Prince. É o primeiro filme com uma super-heroína como protagonista. Assim como em Aves de Rapina, a direção estava em mãos femininas, dessa vez Patty Jenkins (Monster: Desejo Assassino). No mesmo ano, Diana teve sua participação em Liga da Justiça, mas desta vez retratada pelo olhar masculino de Zack Snyder e Joss Whedon. A diferença entre os dois é nítida. 

A representatividade é tão importante que não só abrange o contexto do filme. Ter um olhar feminino é ótimo não só para a direção, mas também para as outras áreas da criação. No caso de Aves de Rapina, a grande maioria dos encarregados eram mulheres. Margot Robbie, inclusive, também atuou como produtora. Quanto mais profissionais femininas estiveram envolvidas, menos do olhar masculino será visto.

Mesmo a produção sendo de maior parte feminina, a direção de fotografia é de Matthew Libatique, de Cisne Negro e Nasce uma Estrela (Gif: Reprodução)

O ponto central do enredo é a quebra do paradigma da competição. Todas as personagens se unem e trabalham juntas contra seu inimigo em comum, deixando para trás qualquer tipo de desavença ou preconceito umas das outras. O trabalho em equipe ressalta ainda mais o contexto da sororidade. E, independente do resultado do confronto final, elas já saem vitoriosas. 

Mesmo com o filme passando uma imagem de feminista, sua principal função é gerar lucro. Nesse contexto, o discurso da vida real deve ser uma exposição de que os preceitos vinculado à mulheres são ultrapassados e inaplicáveis hoje em dia. O interesse pelo feminismo é cada vez maior. Por isso, não há como deixar que ele acabe se tornando uma arma do capitalismo para deslegitimar o movimento. 

É interessante que mais filmes abordem essa temática. Porém, não devemos nos satisfazer na lógica de mercado que nos é apresentado. O feminismo de verdade acontece nas ruas, nas conversas e nas nossas atitudes. Vivenciá-lo na prática  e observá-lo em diferentes campos de visão é defender a sororidade. Só assim nossa emancipação, como em Aves de Rapina, será fantabulosa. 

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