Capa de Bossa Sempre Nova busca evocar a sofisticação e o imaginário cosmopolita do gênero (Foto: Pam Martins)
Arthur Caires
A Bossa Nova sempre foi mais do que um gênero musical. É um ideal de sofisticação e elegância que remonta os primórdios da música e do nosso contexto social. Desde que surgiu, carrega consigo a promessa de um Brasil cosmopolita, delicado e exportável – um imaginário que atravessou décadas e segue sendo sinônimo de credibilidade artística. É a partir desse desejo que Bossa Sempre Nova se apresenta. Para além de um disco, o álbum se impõe como uma estratégia: a de uma cantora pop contemporânea que decide vestir essa herança, buscando nela um repertório e, principalmente, um reposicionamento. A pergunta que paira, então, não é apenas se Luísa Sonza canta bem bossa nova, porém o que significa, hoje, querer caber dentro dela.
Despir-se de sua carapaça é um dos atos de coragem mais lindos presentes na produção de Luedji Luna (Foto: Álvaro Migotto)
Victor Hugo Aguila
Após quase três anos desde seu último lançamento, Luedji Luna retornou ao mundo da Música fazendo jus ao termo “artista”. Lançado no fim de abril de 2025, Um Mar Pra Cada Um abarca as angústias e prazeres do amor – ou da falta dele. Expoente da nova face do MPB e marcando o jazz e o neo soul com sua própria identidade, a indicada ao Grammy Latino utiliza o disco como uma resposta às questões íntimas que podem atravessar qualquer um que permita revelar humanidade.
O terceiro disco da cantora se apresenta como o mais maduro e artístico da sua carreira (Foto: Gabriela Schmidt/Sony Music Brasil)
Guilherme Barbosa
Desde sua estreia notável com De Primeira, Marina Sena tem trilhado uma jornada louvável na música brasileira. Transitando maravilhosamente entre o pop, a MPB e outros ritmos, seu estilo singular rapidamente cativou o público, garantindo-lhe um lugar de destaque no cenário mainstream do Brasil. Em Vício Inerente, a mineira demonstrou ainda mais audácia, explorando ritmos urbanos e experimentações sonoras que evidenciaram sua identidade artística. Agora, com o lançamento de Coisas Naturais, ela consolida essa evolução de forma surpreendente, apresentando um trabalho mais maduro, criativo e conectado com suas influências. Essa nova fase mostra que a cantora não tem medo de inovar e está sempre expandindo suas sonoridades e visuais de um jeito único.
Nos primeiros dez dias de lançamento, Caju recebeu 30 milhões de streams (Foto: BREU ENTERTAINMENT)
Jamily Rigonatto
Caju, um alimento popular da cultura brasileira que se desmancha em possibilidades: pode ser suco, pode ter a castanha extraída, pode ser polpa, só não pode ser por inteiro fruto, apesar de se parecer com um. É o tal pseudofruto, em parte fruta, em partepedúnculo floral. Na miscelânea de ser e não ser, Liniker escolhe sentir o gosto do indefinido e tirar a pele de Caju, álbum lançado em Agosto de 2024.
Jorge Ben Jor incorporou influências árabes, africanas e outros estilos como baião, rock e samba em sua Música, resultando em uma sonoridade única e inovadora (Foto: Philips)
Leticia Stradiotto
A Bossa Nova surgiu em 1958 no Rio de Janeiro, nas melodias de João Gilberto, que simplificou a batida do samba, dando origem a um estilo musical único e característico. Logo em 1962, Tom Jobim e Vinicius de Moraes juntam a beleza lírica e a melodia suave do estilo musical para originar o pote de ouro da música brasileira: a canção Garota de Ipanema.De fato, a chegada da década de 1960 trouxe efervescência ao cenário brasileiro, e quase parece que entre a Bossa Nova e o movimento da Tropicália não existia mais nenhum lugar de destaque no País Tropical. Mas ainda há um sobrando e que, graças aos deuses de outras galáxias ou de um planeta de possibilidades impossíveis, foi preenchido por Jorge Ben Jor.
O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui foi o primeiro disco de estúdio de Emicida (Foto: Laboratório Fantasma Produções)
Tharek Alves
Em 2013, com duas mixtapes e dois EPs lançados, Emicida já tinha grande impacto dentro do cenário do rap e era reconhecido como um grande músico e compositor. Contudo, foi apenas com o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio que ele atingiu o público geral e consagrou seu nome dentro da música nacional. Após dois anos sem lançar novas composições, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui foi uma volta do cantor para os fãs e, ao mesmo tempo, uma estreia para aqueles que ainda não conheciam suas obras.
Lançado em 21 de Agosto daquele ano, Emicida buscou no álbum a inovação, para evitar a mesmice e a repetição daquilo que já havia lançado. O rapper conseguiu isso através da mistura do rap com outros estilos musicais, como samba, rock e funk. Com letras pesadas e impactantes como Bang!, que relata as dificuldades de não se desviar de seu caminho e o racismo escancarado de nossa sociedade, e faixas suaves e românticas como a declaração de amor que é Alma Gêmea, o debute do artista veio para alcançar variados públicos e mostrar sua versatilidade musical.
O Escândalo Íntimo de Luísa Sonza é obra intimista e reveladora sobre o que se é, e o que não é (Foto: Olga Fedorova)
Costanza Guerriero
No dia 15 de Agosto, o Twitter ficou polvoroso com o lançamento de Campo de Morango, o lead single do terceiro álbum de Luísa Souza,Escândalo Íntimo. Tanto o videoclipe quanto a música em si pareciam ser uma confirmação de que a cantora só sabe compor letras vulgares e superficiais. Contudo, aqueles que estavam bem atentos sabiam que essa pequena prévia serviria para provar um ponto, que é uma das premissas do novo projeto: Luísa Sonza, como antes se conhecia, é uma fraude. Nesse lançamento, a artista potencializa sua voz e traz sua trajetória de amadurecimento como o centro da narrativa. Ela elabora conceitos visuais e sonoros acurados, apresentando referências explícitas e cristalinas, para que até mesmo aqueles que não querem possam enxergar.
A capa do novo disco de Adriana Calcanhotto tem fotos de seus próprios vistos (Foto: Modern Recordings)
Guilherme Dias Siqueira
Viajar sem rumo, conhecer um novo lugar a cada mês, ser um cidadão do mundo. Com sete passaportes completos e dezenas de vistos, Adriana Calcanhotto nos traz uma experiência nômade no universo da Música Popular Brasileira em seu décimo terceiro álbum, Errante. Pode parecer contraditório, mas, apesar do título e da temática, se há algo que Calcanhotto sabe é onde quer chegar e, especialmente, de onde veio.
Errante foi concebido no olho do furacão que foi a pandemia de Covid-19, mais especificamente em 2021, sendo, segundo a própria compositora, o projeto com o tempo de produção mais longo de sua carreira. O isolamento transformou o pensamento da cantora sobre si mesma e sobre as escolhas que a levaram a errar; não no sentido de cometer erros, mas, na origem latina da palavra, de vaguear literal e metaforicamente.
Adriana Calcanhotto se aventura por suas ancestralidades (Foto: Modern Recordings)
O contexto de celebração do fim da pandemia está muito presente nas faixas Levou para o Samba a Minha Fantasia e Era Isso o Amor?. A primeira tem algo de teatral com a harmonia da percussão somada ao som do violão que realça o frescor do último respiro de carnaval antes da pandemia. Já a segunda descreve um amor ardente que também nos faz entrar em combustão em termos de musicalidade e calor, já que suas pitadas de rock enunciam uma paixão cálida que apenas uma poeta como Calcanhotto poderia descrever antes da pandemia.
Outros focos do álbum são identidade, pertencimento e história própria, pelo qual a artista descreve seu ponto de partida da jornada, valorizando todas as suas ancestralidades, como sua ascendência judaica sefardita, recém-descoberta. O ritmo que desacelera ao “cruzar desertos” e acelera ao nos levar ao “mundo da lua” – onde habita uma mente tão criativa – traz conforto, porém, na insegurança da artista em se ver “impostora” em tudo que faz.
Em um jardim, o clipe de Larga Tudo embala quem ouve em um samba reconfortante, que também remete às raízes da cantora, mas com um eu lírico que agora pede o desapego. Horário de Verão carrega um certo aconchego de uma lareira e um chá quente numa tarde fria, que gera grande contradição ao título. Talvez a ausência do excedente da luz do dia propiciada pela estação seja o que mais se encaixe nas notas delicadas da música, uma das mais sentimentais do disco.
A cantora é influenciada por diversos ritmos e estilos musicais da América Latina (Foto: Modern Recordings)
Continuando no tópico de identidade, poucas vezes Adriana Calcanhotto foi tão pessoal quanto em Quem Te Disse?, na qual novamente ela referencia sua origem sefardita para falar de rejeição e do feminino. Todas as características da canção são artifício para perguntar: “Quem te disse que o amor vêdiferenças?”. Se com mais de 30 anos de carreira o etarismo poderia se tornar um um obstáculo, como cita na composição – “mesmo se eu fosse moça” –, a música ainda flui em melancolia quando nos lembra que a sociedade inferioriza as mulheres e cria exigências artificiais que, mesmo cumpridas, nunca são suficientes.
Lovely é uma viagem ao exterior que a artista bem conhece e já conquistou. Desde 2006, quando ganhou o primeiro de seus cinco Grammys Latinos com o disco infantil Adriana Partimpim, ela vem sendo reconhecida como uma das grandes expoentes da música do Brasil para o mundo. A faixa mergulha em um ritmo de bossa nova sutil e discreto, que suavemente ajuda o ouvinte a viajar também no tempo em sua sonoridade tridimensional.
O estilo de vida nômade está no subtexto de todas as canções (Foto: Modern Recordings)
As melodias melancólicas que se inserem no projeto ecoam um tom triste de despedida e que, junto de Horário de Verão e Quem te Disse?, contrastam do resto do obra, que tem um soar mais alegre e positivo. A presença dessas canções, como Reticências, enriquecem o álbum de forma a nos preparar para o encerramento dessa viagem, assim como instauram seu propósito. A reflexão sobre o caminho percorrido por quem escolhe uma vida sem âncoras, descobre que “deixar a solidão sozinha e caminhar” é um ato de coragem libertador que revela que ser errante não é sinônimo de solidão. No entanto, ficar estacionado num mesmo lugar por muito tempo, sim.
Nômade finaliza sua jornada musical no lugar onde todo o espírito do álbum vive. Seu ritmo constrói a ideia de um balançar de passos, conquistando essa sensação com os mais variados instrumentos, desde o coquinho ao trombone. Como entoado pela sua autora, a “casa é corpo” porque é móvel, sendo a única coisa que todos temos e que todos carregamos. E por versos como esses, a obra de Adriana Calcanhotto fica mais rica a cada sílaba que ela profere, como se fosse algo involuntário, de sua própria natureza – tal como ser uma das maiores cantoras brasileiras vivas.
A capa do disco Ideologia brinca com símbolos antagônicos (Foto: Universal Music)Davi Marcelgo
O primeiro álbum solo de Cazuza, Exagerado, exala a essência ultrarromântica e boêmia, cravando o status de poeta ao cantor. Em Ideologia, o eu-lírico estende a linguagem poética para criticar a sociedade – e a si mesmo. No disco, que completou 35 anos no dia 21 de Abril de 2023, o artista remove sua face e a costura nas linhas territoriais tupiniquins, marcando definitivamente a história da música brasileira.
O carinho do público foi o motivo principal para a gravação do projeto (Foto: Marcos Hermes)
Ana Júlia Trevisan
Agosto de 2012, Citibank Hall, São Paulo. Luzes apagadas, músicos subindo ao palco, plateia extasiada. Em seguida vem ela, Maria Rita, grávida de 7 meses, usando roupa branca e carregando a missão de eternizar a memória de sua mãe. A caminhada da coxia até o palco é silenciosa. Não há holofotes ou um grande tapete vermelho para a cantora. Peça essencial do espetáculo, a artista interage de maneira íntima com o mecanismo da banda, deixando explícito que a verdadeira estrela da noite é a única e onipotente Elis Regina. A chegada ao microfone é marcada por uma respiração funda, um frio na espinha e os acordes de um potente piano. Nesse momento a sensação é uniforme, podemos sentir um caloroso abraço: mãe e filha se reencontram.