David Foster Wallace e um desejo infinito por empatia

David Foster Wallace em 1996 (Foto: Reprodução)

Bruno Andrade

Em algum momento da vida nos deparamos com a sensação de que ela não nos deve nada. Que, talvez, não exista algo além ou anterior a nós que seja crucial a nossa existência. Ou ainda, que nossa existência é irrelevante para o decorrer do universo. Os existencialistas, como Albert Camus, apegaram-se e destrincharam essas ideias mas talvez, só em 1996, um autor conseguiu explicar, com a angústia de quem não sabia para onde ir, como era viver nesse mundo frenético e cada vez mais tecnológico. A sensação de ler David Foster Wallace é ter seus olhos abertos e perceber pela primeira vez como é viver nesse mundo. Em 1 de fevereiro de 1996 chegava às livrarias a primeira edição de Graça Infinita, o livro que daria fama ao autor, o alçando como a “voz de uma geração”.

A história de Graça Infinita, ou Infinite Jest, se passa em um futuro não muito distante, onde Estados Unidos, México e Canadá são a poderosa ONAN. Os EUA depositam todo seu lixo no território canadense, o que cria uma sociedade secreta de cadeirantes separatistas de Quebéc que procuram vingar-se dos norte-americanos. Eles buscam por um filme chamado “O Entretenimento”, ou, “Graça Infinita”, que produz um teor tão alto de entretenimento capaz de matar os telespectadores. O diretor do filme é James Incandeza, pai de Hal, Orin e Mario e marido de Avril ou “Mães”, como Hal a chama.

Wallace odiou a capa da primeira edição, pois segundo ele parecia a propaganda de uma companhia aérea (Foto: Reprodução)

Os anos já não são mais números, agora foram subsidiados para grandes marcas e o grande desenrolar da história ocorre entre o Ano da Fralda Geriátrica Depend e o Ano do Whopper (aquele mesmo do Burger King). Repleta de vícios, tristeza e solidão, essa trama aparentemente insana torna-se ainda pior quando descobrimos que não se trata de um livro linear e que na realidade foi composto no formato de um Triângulo de Sierpinski. Há também o diálogo com Hamlet, de Shakespeare, que existe não somente no título do livro como também ao decorrer da história.

A maioria dos personagens, ou talvez todos, têm algum tipo de vício. São tão presos e cheios de si que se esquecem dos demais. Somente dois podem ser considerados genuinamente empáticos: Mario Incandenza, filho do meio de James, e Don Gately, funcionário da Casa Ennet de Recuperação e um dos protagonistas do livro, ao lado de Hal Incandenza. Ainda sim, é difícil dizer se existe de fato um protagonista mas suas histórias parecem ser as mais reveladoras sobre o enredo. Mario Incandenza tem graves deficiências físicas e mentais, enquanto Don Gately é grande fisicamente, proporcionalmente à sensibilidade, quando jovem bebia as bebidas alcoólicas da mãe para impedir que ela ficasse bêbada.

Capa da edição brasileira lançada em 2014 com a imagem da caveira que poderia ser a de Hamlet (Foto: Reprodução)

Existe um dado curioso com livros grandes: eles são, inevitavelmente, mais comentados do que de fato lidos. Isso ocorre com Ulysses, de Joyce, com Proust, Thomas Mann e outros grandes autores. Em Graça Infinita, ocorre geralmente a devoção. Os fãs da obra de DFW tornam-se devotos e muitos o chamam inclusive de “St. Dave”. Essa devoção é prejudicial não somente aos leitores como também aos autores. Com o suicídio de Wallace em 2008, a internet até hoje é palco de diversas homenagens ao autor. Alguns de seus amigos escritores, como Jonathan Franzen, fazem questão de ressaltar que Wallace era, como todos os outros, um humano e, portanto, cheio de defeitos.

A devoção na área artística já foi muito debatida por Walter Benjamin, especialmente em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1955), onde o autor fala sobre o conceito de “aura”. Tratando-se de um livro que busca uma empatia completa entre autor e leitor, é natural que a aura de compaixão e identificação transcorra. O fato é que se David Foster Wallace estivesse vivo, não estaria nem um pouco satisfeito com essa relação. Em diversas entrevistas, em seus ensaios e até em alguns contos, Wallace questiona a noção que muitos têm hoje de que as coisas são feitas exclusivamente para si mesmo. 

Em E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction (1990), um ensaio argumentativo, Wallace questiona a noção de exclusividade criada especialmente pela propaganda e por uma lógica irreal de consumo. Segundo o autor, através da ironia, aquilo que deveria ser combatido agora é parte da estratégia. As propagandas utilizam ironia para vender algo, criando uma noção fantasiosa de exclusividade e ainda nos tornando consumidores em massa. A grande questão, ainda segundo ele, é que a televisão e a ficção acabam seguindo os passos da publicidade e criando demandas. Para DFW, essa devoção e santificação muitas vezes encontrada em seus fãs é mais um reflexo de que a cultura do consumo prosperou. Ao mesmo tempo, é também um reflexo da sociedade parcialmente quebrada que vive sob condições angustiantes de tristeza e por isso identificam-se com um livro essencialmente triste. Como Wallace disse em uma entrevista, é esperado que você tenha algum tipo de problema com a solidão para encarar um calhamaço de mais de 1100 páginas.

David Foster Wallace em lançamento de seu livro de ensaios Consider the Lobster em 2005 (Foto: Reprodução)

Graça Infinita contém dezenas de personagens, uma porção de desdobramentos e pequenas tramas, além das infindáveis notas de fim (mais de 300). O que se pode dizer, sem medo algum, é que DFW escreveu um livro de fato monumental, que buscou ser realmente profundo e intimamente verdadeiro. Em entrevista a Charles Rose em 1997, o autor comenta sua busca pela sinceridade e o perigo da ironia na cultura moderna, além de sua infelicidade sobre a relação da crítica com seu livro, já que muitos acharam-no satírico e engraçado enquanto sua tentativa foi a de escrever algo verdadeiramente triste. As notas de fim, já mencionadas, são uma marca do autor e como o próprio diz na mesma entrevista com Rose, são resultado de sua visão fragmentada da realidade. “Para mim a realidade está fragmentada atualmente, ao menos na que vivo. A dificuldade de escrever nessa realidade é que o texto é muito linear”

O triunfalismo de DFW está em conduzir o leitor para o mais íntimo da mente de seus personagens. A sensação que se tem é estar lendo a voz de sua própria consciência. Ao passo que isso é único e uma experiência grandiosa de literatura, é também cruel já que o livro aborda diversos personagens viciados. Estar na pele de pessoas viciadas, dependentes e suicidas, sentindo o que sentiram, não é das experiências mais revitalizadoras. Em algumas partes, temos descrições detalhadas sobre o que leva um suicida a querer tirar a própria vida ou um viciado a querer consumir algum tipo de substância.

Jesse Eisenberg como David Lipsky e Jason Segel como David Foster Wallace no filme O fim da turnê (Foto: Reprodução)

O livro não tenta facilitar para o leitor. David Foster Wallace tem como característica os longos períodos sem pausas, diversos detalhes que a princípio aparentam ser inúteis (e nunca são) e, o mais assustador aos leitores de primeira viagem, suas centenas de páginas. A edição brasileira do livro, lançada em 2014 pela editora Companhia das Letras, tem 1142 páginas sob tradução de Caetano Galindo. A capa da edição brasileira faz alusão ao cartucho da fita de Graça Infinita, que movimenta a história. O livro é o terceiro do autor lançado no país, ao lado de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos (2005) e o livro de ensaios Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (2012). 

Em 2015, foi lançado o filme O Fim da Turnê, que aborda a entrevista nunca publicada do repórter da revista Rolling Stone, David Lipsky, durante a última viagem de lançamento de Graça Infinita. Com Jason Segel no papel de David Foster Wallace e Jesse Eisenberg no papel de David Lipsky, a história tenta captar a difícil relação de Wallace com a fama. Tanto o filme como o livro nos servem como guias para tentar entender a mente de um autor que buscava, invariavelmente, a empatia genuína e sem interesse. Ao longo das mais de 1000 páginas de sua obra máxima, David Foster Wallace demonstra o caminho que a sociedade interconectada precisa enfrentar para lembrar-se que está viva em um mundo real, todos os dias. 

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