30 anos sem Raul Seixas: o legado do maluco beleza

Raul Seixas e sua barba costumeira, que virou um dos símbolos do cantor  (Foto: Reprodução)

Caroline Campos

No dia 21 de agosto de 1989, sozinho em seu apartamento na cidade de São Paulo, Raul Seixas – para muitos, o pai do rock nacional – encontrou a morte, surda, que caminhava ao seu lado. Após 44 anos de uma vida de excessos, loucuras, esoterismo e rebeldia, o rockeiro baiano foi vítima de uma pancreatite aguda fulminante resultada do alcoolismo, que era agravado pelo fato de Raul ser diabético e não ter tomado sua insulina na noite anterior. Passados 30 anos deste baque na música brasileira, o “raulseixismo” ainda é uma filosofia de vida para sua legião de fãs, e os gritos de “Toca Raul!”, uma pedida clássica em bares e shows. 

Nascido em Salvador, capital da Bahia, no ano de 1945, ou, muito provavelmente, trazido por um disco voador há 10 mil anos atrás, Raul Santos Seixas foi apresentado ao rock desde pequeno, morando perto do consulado norte-americano. Influenciado diretamente por Elvis Presley, Chuck Berry e Beatles, Raul bateu de frente com a onda da bossa nova em plenos anos 60, mesclando seu rock marginalizado de “Raulzito e os Panteras” com ritmos tradicionais nordestinos, como o baião e o xaxado.

Raulzito sempre foi tudo, menos típico. Suas músicas são marcadas por uma forte presença mística – em “Tente Outra Vez”, incentiva a fé em Deus; em “Sociedade Alternativa”, homenageia o líder ocultista Aleister Crowley; em “Gita”, remete a uma passagem de um livro sagrado do hinduísmo. Além do seu tempo, o cantor não se prendia a convenções tradicionais e rótulos, sejam eles de religião ou do próprio convívio social. “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”.

Os anos 70 foram decisivos em sua trajetória. Em 1972, Raul conhece o seu mais importante parceiro musical: Paulo Coelho. Na versão fictícia, concedida em entrevista ao jornal O Pasquim em 1973, o baiano diz que ambos “viram um disco voador” enquanto meditavam, na Barra da Tijuca. A versão real, no entanto, também envolve discos voadores – Paulo publicou um artigo sobre as naves na revista A Pomba, e Raul se interessou em conhecê-lo. Independentemente da história, nasceu aí uma das parcerias mais valiosas da música brasileira, tão icônica quanto Lennon e McCartney para o contexto nacional. 

Suas primeiras músicas em conjunto foram registradas em “Krig-Ha, Bandolo!”, álbum de 1973 que é tido como o melhor trabalho do cantor. Com tiradas a classe média brasileira e ao “Milagre Econômico” da ditadura militar, a música mais genial do disco é uma composição solo de Raul – “Ouro de Tolo” cutuca diretamente uma sociedade consumista e inebriada por uma falsa sensação de felicidade, em um Brasil tomado por militares que tentavam enfiar goela a baixo um “american dream” tupiniquim. “Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa”.

“Inimigos íntimos” e “casamento sem sexo” foram formas de como Paulo Coelho caracterizava sua relação conturbada com Raul (Foto: Reprodução)

Com uma postura multifacetada e um porte quase esquelético, Raul conquistou o país e incomodou seus comandantes. Por causa da ideia e da divulgação da Sociedade Alternativa, baseada nos princípios de Crowley e desenvolvida com Paulo Coelho, o cantor e o escritor desagradaram ao DOPS e foram obrigados a deixar ao país e se exilarem nos E.U.A. Lá, reza a lenda, Raul conheceu John Lennon e os dois discutiram as ideias de uma sociedade esotérica e dos “malucos belezas” que balançaram a história. 

Apesar de uma série de sucessos, Raul teve uma carreira conturbada e instável. Discos como “Há Dez Mil Anos Atrás”, “Novo Aeon” e “O Dia Em Que A Terra Parou” ora eram fracassos de público, ora eram fracassos de crítica. Transitando entre muitas gravadoras, Raul vai chegando ao fim de sua carreira cada vez mais deprimido e afundado no alcoolismo. Seu último disco lançado foi “A Panela do Diabo”, dois dias antes de sua morte, em parceria com o vocalista da banda Camisa de Vênus, Marcelo Nova. “É uma pessoa que tem a mesma metafísica que eu”, afirmou Raulzito sobre Nova em entrevista ao Jô Soares. De fato, os dois se entendiam – o álbum tem tons melancólicos em relação a morte e críticas ao cenário pop brasileiro.

Marcelo Nova foi o responsável pela volta de Raul aos palcos, em uma turnê de 50 shows pelo Brasil (Foto: Reprodução)

Se estivesse vivo, no auge de seus 74 anos, Raul provavelmente estaria aposentado das músicas, porém não de sua rebeldia. Em meio ao caos político vigente, o maluco beleza continuaria sendo uma mosca na sopa, criticando descaradamente os rumos do país e seus condutores, como um bom e velho rockeiro que viveu os anos de chumbo.

Sempre um ferrenho crítico à caretice e às amarras da vida social, Raul preferia ser a própria metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Sua obra hoje tem um valor imenso para a música popular e passou a ter o devido reconhecimento que merece. Suas músicas continuam sendo atemporais, dialogando com as massas e com os acadêmicos, com seus fãs fiéis e com os da nova geração, associando a verdade do universo e a prestação que vai vencer. Um legado imensurável de um artista tão rico e complexo que já flutuou pelo início, fim e meio dessa louca aventura que é a vida.

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