Thor: entre tropeços e vitórias

Vitor Evangelista

Ciência e magia derivam do mesmo significado. O mago e o sábio andam lado a lado. Em 2011, a Marvel lançou a trilogia de Thor, o deus do trovão, e se baseou muito nessa dualidade. Com um tom não-linear e má recepção da crítica e da audiência, Thor bambeou e quase caiu, mas agora está pronto para enfrentar Thanos, com ou sem martelo.

O primeiro filme foi lançado em 2011. Autointitulado e sem subtítulos, o longa foi dirigido por Kenneth Branagh, que, além de diretor, também atua: ele viveu o professor Lockhart de Harry Potter e a Câmara Secreta e protagonizou e dirigiu Assassinato no Expresso do Oriente. Branagh é também conhecido por seu trabalho envolvendo as obras de William Shakespeare. Kevin Feige, produtor dessa leva de filmes do UCM (Universo Cinematográfico da Marvel), definiu Thor como sendo uma obra familiar com influências das peças do inglês. Isso chamou atenção de Branagh, que aceitou o cargo de comandar essa releitura do clássico personagem.

Nos primórdios do personagem, o martelo continha a inscrição clássica “apenas poderá ser empunhado por alguém digno” (Foto: Reprodução)

A trama do primeiro longa gira em torno da saída do personagem de seu cotidiano para ser posto a prova e provar ser digno de empunhar o martelo.  Chris Hemsworth é Thor, Tom Hiddleston rouba toda as atenções com seu Loki queer e Anthony Hopkins fecha o trio celestial dando vida a Odin, o Pai de Todos.  Hemsworth é ator de comédia e sempre tentava encaixar improvisações nas filmagens, algo que só alcançou com tranquilidade em Thor: Ragnarok, de 2017.

Tom Hiddleston foi chamado para o longa após ter trabalhado com o diretor na peça Ivanov (Foto: Reprodução)

O filme constrói Asgard com uma pintura mais metalizada e colorida, há um senso de pitoresco, os figurinos são espalhafatosos e elegantes. As composições visuais transmitem a negação do sóbrio, visão turva e luzes incandescentes permeiam as festividades asgardianas. Em contraponto, quando o longa se agarra à Terra, ou Midgard, a cinematografia perde o glamour e filma o bom e velho meio-oeste americano. A palheta empoeirada toma os holofotes e a identidade visual do filme morre.

O diretor utiliza um estilo de filmagem chamado ângulo holandês, onde a câmera se inclina pra direita a fim de causar desconforto. Normalmente é utilizado para despertar o senso de estranheza, simbolizado aqui por Thor morando na Terra. Entretanto, Branagh banaliza a técnica, que vira um simples adereço sem funcionalidade.

A divulgação do longa abusou das cores frias (Foto: Reprodução)

Dois anos depois de uma recepção morna e desinteressada, a Marvel voltou a colocar o herói no cinema. Com o subtitulo de O Mundo Sombrio, a editora exploraria aqui ainda mais a junção do cientifico com o mágico, apresentando uma das Joias do Infinito.

Agora comandado por Alan Taylor, o segundo filme do Thor abusa de tons fúnebres, uma gama de sequências de batalha e uma visão mais sóbria da terra dos deuses.  Alan Taylor que é um diretor de TV, já deu voz de direção para diversos episódios de Game of Thrones, exemplos de como o diretor consegue tratar tanto de questões internas das personagens quanto de explosões e sentimentos a flor da pele.

Portman, além de atriz também é cientista e trouxe voz a sua peronagem no primeiro longa, onde reescreveu diversas falas e cenas de Foster (Foto: Reprodução)

A produção de Mundo Sombrio começou conturbada quando Patty Jenkins (Mulher Maravilha) saiu do projeto após divergências criativas. A diretora focaria mais na relação amorosa de Thor e Jane Foster (Natalie Portman), mas os executivos barraram a ideia. Eles queriam uma trama mística que engrandecesse a mitologia do personagem naquele universo.

Natalie Portman também quis dar voz de criação a si mesma, e reescreveu diversos pontos chaves que envolviam sua personagem. Porém, os executivos não curtiram a ideia e deram a sentença: Portman reduzida a par romântico e adereço de cena. Essa foi a última participação da atriz no UCMA atriz tinha deixado tão de lado a obra que não pode estar presente na gravação da segunda cena pós-crédito. Nela Thor volta à Terra e tasca um superbeijo em Jane Foster. Com a ausência da atriz, a saída foi colocar uma peruca morena em  Elsa Pataky, esposa de Chris Hemsworth, e pedir para que beijasse o próprio marido.

Esse segundo filme foi marcado por diversas más experiências dos atores envolvidos. Além de Portman, o ator Christopher Eccleston interpretou o vilão Malekith, um Elfo Negro. Além de ter suas cenas diminuídas e ofuscadas para dar espaço a outro vilão, Eccleston odiou o processo demorado de maquiagem e figurino.

O visual do vilão Malekith (Christopher Eccleston), embora elogiado, foi esquecido (Foto: Reprodução)

As cenas de Malekith foram encurtadas e engavetadas pela presença de Tom Hiddleston, cada vez mais se divertindo no papel de Loki, o Deus da Trapaça. O roteiro inicial da produção contava com breves aparições do vilão, mas o carisma e o apelo popular trouxeram Loki de volta. Alguns até julgam que O Mundo Sombrio é, na verdade, um filme de Loki, fazendo de Thor apenas um coadjuvante da história do irmão.

Além da trama que encabeçava uma destruição em Greenwich, Londres (fugindo, assim, do clichê de destroçar NY), o filme apresentou outra das Joias do Infinito, a Joia da Realidade. De coloração vermelha e na forma líquida do Éter (Aether, no original), a Joia da Realidade é a mais poderosa de todas, a mais difícil de controlar e pode sobrecarregar seu portador. Jane Foster é possuída pela força da Joia, e Thor luta pra livrar a astrofísica da morte certa. Atualmente, a Joia da Realidade está em posse do Colecionador (Benicio del Toro), o charlatão acumulador de Guardiões da Galáxia, a outra saga cósmica da Marvel.

O Éter é uma das seis Joias do Infinito que perdidas pelo Universo Marvel (Foto: Reprodução)

O Mundo Sombrio é amargo, e finda a era sombria dos filmes do deus do trovão. As decisões tomadas pela Casa de Ideias levaram os personagens a um estado de exaustão, que só seria exaurido no fechamento da trilogia.

Thor ficou de molho. O estúdio, descontente com a recepção do filme de 2013, deixou o personagem fora dos holofotes, apenas o colocando como coadjuvante em Vingadores 2, de 2015. Isso mudou quando, em 2014 e 2017, os Guardiões da Galáxia se tornaram hit, com uma trama cômica cheia de um humor escapista e metalinguagem. Essa nova visão do universo de super-heróis deu um respiro à indústria, cada vez mais desgastada.

A divulgação de Thor: Ragnarok chamou atenção pela mudança drástica de ar do herói; ninguém nunca imaginou o Thor tão colorido! (Foto: Reprodução)

A Marvel procurou um diretor especializado em comédia para dar partida no último filme de Thor. O escolhido foi Taika Waititi, um neozelandês maluco que adora improvisação. Waititi dirigiu uma série de comédias independentes e adorou a ideia do novo projeto: uma visão totalmente inexplorada do deus do trovão, e também de Chris Hemsworth.

O ator auxiliou na criação de boa parte do roteiro e mesmo assim improvisou muito na hora que a câmera começou a gravar. Foi ele também que pediu uma mudança de locação das filmagens. Hemsworth, que é australiano, mudou o set para seu país natal. Além dele, a vilã do filme, Cate Blanchett, também australiana, adorou a ideia. Blanchett vive Hela, a Deusa da Morte, que muda o status quo de toda a realidade asgardiana. Desde a devastação da região até a quebra do Mjolnir, é Hela quem tira Thor da caixinha e dá a ele o gostinho do sofrimento e da perda – algo que será explorado agora por Thanos em Guerra Infinita.

Hela (Cate Blanchett) é uma mistura de si mesma com Gorr, o Carniceiro dos Deuses (Foto: Reprodução)

A primeira vilã da Marvel apareceu aqui na figura de Hela, mas além dela outra mulher poderosa tomou as rédeas. Tessa Thompson é Valkíria, uma guerreira amazona que perdeu as esperanças em seus ideais e agora trabalha como catadora para o Grão-Mestre (Jeff Goldblum). A excentricidade do Grão-Mestre é o que mais chama atenção na interpretação lúdica de Goldblum, um ator ímpar.

Para completar o time Thor, a Marvel traz de volta outro Vingador, o Hulk (Mark Ruffalo). Adaptando a saga Planeta Hulk, o personagem é um gladiador, luta nas Arenas do Grão-Mestre e não retoma a consciência de Bruce Banner há dois anos. 

Outro fator determinante para o sucesso de Thor: Ragnarok é a identidade sensorial do filme. A curadoria sonora da obra e a escolha de cores consegue transmitir com propriedade a contribuição de Jack Kirby, famoso quadrinista, para a saga do personagem. Thor e Hulk ficaram de fora de Capitão América: Guerra Civil, de 2016, e a saída cômica para explicar o ocorrido foi um falso documentário lançado na San Diego Comic Con, antecedendo o lançamento de Ragnarok.

Ao final do terceiro longa, Thor se encontra numa posição vulnerável. A chegada de Thanos desestabilizará ainda mais o personagem. E, ao que tudo indica, Chris Hemsworth fará suas últimas participações na Marvel em Guerra Infinita e em Vingadores 4, que será lançado em abril de 2019.

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