A volta de Twenty One Pilots e o misterioso mundo de Trench

 

Josh Dun e Tyler Joseph em photoshoot para divulgação do Trench. (Foto/Reprodução)

Rafaela Martuscelli

Em 6 de julho de 2017, a banda Twenty One Pilots se calou. Como tudo o que envolve a banda, a despedida não seria simples e direta. Algumas imagens em preto, branco e vermelho – que faziam referência direta ao álbum Blurryface – com partes de músicas que falavam sobre escuridão, noite e solidão, foram postadas.

O vermelho da imagem, que começou em formato de um grande círculo, foi se fechando como se fosse um exausto olho após um dia agitado, até o total silêncio e a escuridão ganhasse forma na figura que se formava. Até que a multidão tivesse sumido. E esse foi o último sinal do duo por um ano.

Depois desse período sem novidades e de grandes expectativas, o grande olho se abriu e a banda ressurgiu com o novo álbum Trench e suas novas cores, o sucessor de seu último grande trabalho, o Blurryface. Os garotos de Ohio, Tyler Joseph e Josh Dun, estão juntos pela gravadora Fueled By Ramen desde 2012 e desde então não decepcionam quando o assunto é música.

Blurryface foi e continua sendo um álbum muito importante para a banda, já que foi o responsável pela conquista do mundo da indústria pop com o sucesso “Stressed Out”. Um álbum cheio de significados e mistérios, que deu margem a diversas interpretações. Afinal, o que seria Blurryface? O que é? Quem é Blurryface?

Como forma de exteriorizar seus sentimentos, Tyler cria o conceito do Blurryface como uma pessoa – mas não uma pessoa qualquer. É a representação daquilo que ele vê quando se olha no espelho: todos os seus medos e inseguranças aparecem em sua frente, como forma de uma outra pessoa que era inexistente até então, ao mesmo tempo que é uma parte dele.

Trench veio como uma continuação do antecessor. Como uma forma de concluir os pensamentos que foram deixados em aberto, o recém-lançado álbum do duo ainda trabalha com algumas questões abordadas anteriormente. Dessa maneira, trabalham de maneira interligada. Para interpretar um, você precisa entender o outro.

O simbolismo e as cores

O símbolo da banda nos álbuns Vessel, Blurryface e Trench, respectivamente. (Foto/Rafaela Martuscellil)

Levando isso em consideração, podemos começar pela parte simbólica de cada projeto. Um dos fatores de importância no Blurry foi a parte visual. O símbolo da banda, (|-/) é trabalhado desde o álbum Vessel. Nesse em questão, tal símbolo é formado por barras de cores azul, preto e vermelho.

Há quem interprete o azul como o lado bom, o vermelho como o lado ruim, e o preto como uma ponte que leva uma parte a outra. Segundo algumas teorias, Josh seria a parte boa que o Tyler precisa. Em alguns photoshoots, isso fica evidente pela cor da camiseta que cada um deles está usando e a posição em que eles se encontram.

Josh, de azul, e Tyler, de vermelho em photoshoot para o Vessel. (Foto/Reprodução)

Quando o Blurryface foi lançado, o símbolo também foi alterado. Como o álbum remete a pensamentos mais sombrios, a parte azul foi retirada de forma que o símbolo ficasse só com a parte em vermelho, e as barras se tornaram mais distantes, como se quisesse evidenciar um afastamento.

Já em Trench, a era vermelha teve seu fim. Desde o começo das divulgações, a cor amarela foi evidente. Sabendo que a cor amarela traz a sensação de alegria por ser uma cor clara e forte, e analisarmos o conteúdo das letras do novo álbum, temos a sensação de que Tyler segue na busca incessante por um esclarecimento em seu interior.

Os vídeos que saíram – que, em ordem de lançamento, são “Jumpsuit”, “Nico And The Niners”, “Levitate” e “My Blood” – demonstram isso em diversos momentos em que Tyler aparece “se livrando” de algumas referências do álbum anterior.

Dema

Um fato que intrigou a maioria dos fãs alguns meses antes dos primeiros singles serem lançados foi o surgimento de um site misterioso chamado demaorg.info, que continha uma mensagem:

“you are in violation. thEy mustn’t know you were here. no one should ever find out About this. you can never tell anyone about thiS — for The sake of the others’ survIval, you muSt keep this silent. we mUst keeP silent. no one can know. no one can know. no o ne c an kn ow_

(Violation Code. 15398642_14)

Além da mensagem que o texto está transmitindo, algumas letras em maiúsculo aparecem entre as frases. Juntando elas, conseguimos formar a frase “East Is Up”, que aparece logo no primeiro single “Jumpsuit” e indica que o leste da cidade está aberto.

Usando o código de violação, você chega em uma parte do site que fica escondida. Nela, encontramos uma espécie de diário desse personagem chamado Clancy. Clancy é um garoto que depois de muito tempo nessa cidade chamada “Dema”, que sempre foi considerada o seu lar, na verdade é o lugar que o sufoca. E ele precisa sair dali.

Então Clancy conta sobre como ele deseja escapar, porém essa escolha não existe. Ele será perseguido e punido por tentar fugir da cidade em que passou a vida inteira lá. É assim que os Bishops (Bispos) aparecem na história, como aqueles que estão atrás de Clancy, assim como os Banditos aparecem para ajudá-lo.

O site está cheio de referências, tanto aos álbuns anteriores quanto às próprias músicas do Trench. Relembrando que o site foi ao ar meses antes de qualquer coisa relacionada ao álbum, quem o visitou e viu as imagens que estavam lá nem imaginavam que eram cenas de futuros clipes.

 

Entre as imagens, um mapa – que provavelmente é da cidade de Dema. A cidade é em formato circular, e em seu centro há o nome dos nove Bishops: Andre, Lisben, Keons, Nico, Reisdro, Sacarver, Nills, Livetom e Listo. O que torna interessante é o fato de que os círculos no centro representam os mesmos que aparecem na capa do Blurryface.

À esquerda, o mapa da cidade de Dema. Ao centro, os bishops, que são representados pelos círculos da capa do Blurryface, à esquerda. (Foto/Reprodução)

No entanto, devemos retomar ao Blurryface para interpretar o nome dos bishops. Os círculos representam determinada música do álbum. A relação entre os bishops e as músicas em específico estão no meio das letras:

As músicas correspondentes a cada círculo do Blurryface e suas referências aos nomes dos bishops. (Reddit/Reprodução)

O Nico, que foi citado diversas vezes em músicas como “Nico And The Niners” e “Morph”, é o nome de um dos bishops que estão atrás de Clancy, o autor do site que foi divulgado antes dos primeiros singles do Trench serem divulgados. É o único nome que não houve conexão com a música que estava designada para seu círculo.

Outras postagens desse “Diário de Clancy” também fizeram referências ao que estava por vir em Trench: alguns textos terminam com a expressão “Cover me”, que também é parte de “Jumpsuit”.

Dema é uma abreviação da palavra “demons”. A questão aqui é o fato de Clancy (que representa Tyler) querer escapar de seus demônios – representados pelos bishops. Os bishops são cavaleiros brancos em uma capa vermelha, que tem suas mãos cobertas de preto, as mesmas cores em Blurryface.

Uma vez que Blurryface é considerada uma versão de Tyler, estaria ele fugindo dele mesmo, já que seus pensamentos e ele seriam os seus próprios demônios? Pois como ele mesmo diz em “Nico And The Niners”: dema don’t control us.

A subjetividade nas letras

A subjetividade nas letras de Tyler também é um diferencial em seu trabalho. Quando você as interpreta, você entende a mensagem que ele quer passar, apesar dela sempre estar implícitas em expressões ou situações.

Tyler sempre coloca muito sentimento naquilo que escreve. Na maioria das vezes, os temas que ele aborda variam: melodias animadas com temas pesados. Melodias pesadas com temas leves.

Seguindo a linha de relação entre Trench e os outros álbuns – com ênfase em sua ligação com o Blurryface – é marcante como uma letra remete a outras de outros álbuns, muitas vezes dando continuidade ao pensamento ou acontecimento. Isso acontece, por exemplo, em “Levitate”, que lembra do rádio roubado em “Car Radio” (Vessel):

Em “Car Radio”, Tyler canta:

I have these thoughts, so often I ought
To replace that slot with what I once bought

Dois álbuns mais tarde, ele retoma em “Levitate”:

I got back what I once bought back
In that slot I won’t need to replace

Além disso, outro detalhe importante a ser notado é que a última música dos três principais álbuns parece se conectar. Em “Truce” (Vessel), ele insiste na frase “Stay alive” e na questão do anoitecer e no escuro da noite. Em “Hometown” (Blurryface), ele diz que nosso lar é na escuridão e que não deixará os espíritos da noite o alcançarem. Finalmente, em “Leave The City” (Trench), ele diz que uma hora sairá de sua cidade, mas por hora se manterá vivo – retomando novamente a questão do “stay alive”.

Um outro assunto que Tyler sempre retoma é metalinguístico: ele fala sobre o próprio processo de criação de suas canções. Em “Banditos”, ele repete várias vezes a expressão “Sahlo Folina” que significa “habilitar suas expressões criativas”. O que faz completo sentido, já que os versos seguintes falam sobre como ele conseguiu criar o mundo de Trench.

Na maioria das vezes as letras falam sobre a exposição dos efeitos que as pressões que sofremos diariamente nos causam. No caso de Tyler, além da pressão externa de corresponder ao que a indústria musical pede e produzir somente o que faz sucesso, ele ainda lida com suas pressões internas.

Nesse álbum, Tyler bate sempre na tecla do “keep moving” apesar do quanto ele esteja machucado – nos seus diversos sentidos da palavra. É impossível não se identificar com alguma música, pois cada uma delas remete a uma problemática recente quanto a questão da saúde mental.

Seguindo o padrão dos demais álbuns, as músicas mudam de ritmos bruscamente em uma só música. As vezes conseguimos ter a impressão de que estamos em uma faixa diferente, quando na verdade apenas chegou ao refrão. Como a própria banda comentou em seu Twitter, algumas músicas irão te fazer sorrir, e outras vão te fazer chorar. Há muito sentimento envolvido em Trench.

 

 

2 comentários em “A volta de Twenty One Pilots e o misterioso mundo de Trench”

  1. estou apaixonada por esse documentário! E e me deparo que quanto mais conheço a história dessa banda eu me sinto mais próxima e forte! É sensacional, estão de parabéns vocês!

Deixe uma resposta