Entre passagens de tirar o fôlego e clássicos da literatura de Terror, o Estante de outubro garante aos leitores um Halloween inesquecível (Arte: Maria Fernanda Beneton/Texto de abertura: Bianca Costa)
O que é o terror? É apenas o susto que faz o coração acelerar, ou algo mais profundo, que nos obriga a encarar aquilo que escondemos de nós mesmos? O horror literário fascina porque nos faz perguntar: até onde iríamos para sentir medo? Que monstros moram no mundo e quais habitam dentro de nós? É possível que a história de uma página seja mais assustadora que a realidade que nos cerca?
No Estante do Persona de Outubro o horror está nas páginas (Arte: Aryadne Xavier/Texto de abertura: Jamily Rigonatto)
Muitos têm medo de filmes de terror. Produções gráficas de violência, sangue, sustos em formato jumpscare, gore e outras possibilidades da linguagem audiovisual acumulam fãs e haters por todo o mundo, mas, e na Literatura? O que o horror é capaz de fazer? O Estante do Persona de Outubro vem te responder essa pergunta e, como de costume, fazer indicações, dessa vez, horripilantes.
O relato escrito de horror existe há muito tempo, com os primeiros registros sendo as gravuras nas paredes de cavernas e espaços afins, que já faziam uma espécie de documentação dos mitos e folclores que assustavam os homens muito antes dessa espécie de narrativa ser categorizada. O fluxo seguiu com menção a monstros, acontecimentos fantásticos, eventos sanguinários e muito mais ocupando diários, crônicas e, inclusive, textos religiosos.
Durante o século XVIII, a materialização de textos voltados para o terror começa a aumentar. A incidência da teoria do pensamento lógico impulsiona a popularização de histórias que exploram o sobrenatural com menos enfoque na vontade divina. Nesse período, ocorre o lançamento de O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, considerado o primeiro romance gótico.
No século seguinte, clássicos do gênero caem no gosto da população e se tornam lendas imortais. Entre os mais famosos estão Frankenstein (1818), de Mary Shelley, Drácula (1897), de Bram Stoker, e a coletânea de livros de Edgar Allan Poe. Estes, já sendo considerados inspirações inesgotáveis para diversas estórias de monstros, além de base para suas versões cinematográficas, lançadas com mais de 50 anos de diferença.
Desse momento para frente, a ruptura promove uma revolução, com autores do mundo todo explorando os mais diversos aspectos do terror e horror. Nomes como H.P. Lovecraft, Stephen King, Shirley Jackson, Charles Beaumont, Neil Gaiman e incontáveis outros se tornaram referências para produções macabras com subcategorias e muita profundidade – algumas até questionáveis. De caça às bruxas a pequenas meninas que entram em portais macabros, a Horror Literature cria mundos ou narra o real com garras afiadas, suspense e imprevisibilidade.
Esse texto não contempla nem metade das possibilidades que o gênero criou no universo literário e deixa, inclusive, de passear pelos frutos suculentos do cenário nacional. Por isso, a palavra fica agora com nossos redatores e suas indicações para lá de frescas, com veias fartas e cheias de sangue novinho… Quer dizer, criatividade, isso mesmo, criatividade e só! Agora, é sua vez de aproveitar e tirar um tempinho para adentrar esse imaginário, mas, por favor, deixe de fora o alho, as tochas e a caça aos monstros.
Longe do ninho é um livro triste, mas necessário (Foto: Intrínseca)
Marcela Lavorato
Lançado cinco anos depois do incêndio no CT do Flamengo, que matou dez jogadores da base em Fevereiro de 2019, Longe do ninho: Uma investigação do incêndio que deu fim ao sonho de dez jovens promessas do Flamengo de se tornarem ídolos no país do futebol é um livro que honra as memórias daqueles se foram e dos dezesseis jovens que sobreviveram. Daniela Arbex, jornalista investigativa, não falha em trazer – assim como em Holocausto Brasileiro (2013), Cova 312 (2015) e Todo dia a mesma noite (2018) – o desrespeito dos responsáveis pelo incêndio que vitimou Arthur Vinícius, Athila Paixão, Gedson Santos, Pablo Henrique de Souza, Vitor Isaías, Bernardo Pisetta, Christian Esmério, Jorge Eduardo dos Santos, Samuel Rosa, Rykelmo de Souza e seus sonhos.
Com uma escrita impactante, a autora se debruça em dez mil folhas de arquivos sobre o caso para trazer à tona a imprudência da instituição do Flamengo e seus dirigentes. Durante as 266 paginas, acompanhamos a reconstituição do caso e nos é revelado que o local de ‘moradia’ – contêineres totalmente inadequados nunca deveriam ser chamados pelo termo –, localizado no centro de treinamento do Flamengo, Ninho do Urubu, não tinha alvará como alojamento. Determinado como estacionamento em um dos documentos, as famílias confiaram seus filhos à instituição, pensando que a mesma iria tratá-los com respeito e decência, mas o que é mostrado indica o contrário.
Seja entre Mel e Girassóis ou espécies de Jabuti, o Estante do Persona de Agosto brada a natureza encantadora da Literatura (Arte: Aryadne Xavier/ Texto de Abertura: Jamily Rigonatto)
Conhecido como o mês infinito, Agosto não está entre os favoritos da população geral. Entretanto, quando se trata do meio literário, o período entrega boas pérolas brilhantes que se escondem nas conchas da confusa maré que domina os extremos da estação. No meio dessas, o Estantedo Persona de Agosto de 2024 vai atrás do tesouro e o traz aos holofotes na edição de hoje. No dia 06, uma novidade chegou ao universo de uma das premiações literárias mais famosas e respeitadas do Brasil: o Prêmio Jabuti. De forma inédita, aconteceu a primeira edição Prêmio Jabuti Acadêmico, voltada a contemplar obras científicas, técnicas e profissionais. A noite do evento foi sediada no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, e trouxe diversos pesquisadores de múltiplas áreas do conhecimento para fazer parte. Como destaque, foi escolhido pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) o nome de Silvia Pimentel, professora e especialista em direito das mulheres, como Personalidade Acadêmica. No total, foram contemplados vencedores em 29 categorias, incluindo o eixo Ciência e Cultura e os Prêmios Especiais. Além disso, 24 editoras tiveram seus títulos reconhecidos – com a Cia das Letras recebendo quatro estatuetas. Entre a lista de vencedores nomes conhecidos como o de Marilena Chauí marcaram presença. Foi uma estreia para lá de especial e o futuro do Jabuti Acadêmico parece tão promissor quanto à caminhada que o prêmio tradicional percorre ao longo dos últimos 66 anos. Para embalar essa novidade ao bom e velho hábito da leitura, fique agora com a tradicional lista de indicações da editoria. Continue lendo “Estante do Persona – Agosto de 2024”
Pedro Pacífico é influencer literário e soma mais de 500 mil seguidores somente no Instagram (Foto: Intrínseca)
Felipe Nunes
Como expor um dos períodos mais difíceis e lindos de sua vida? Esta é a antítese maniqueísta de Pedro Pacífico, o bookster, pseudônimo pelo qual é conhecido nas redes sociais. Advogado e produtor de conteúdo literário nas horas vagas, como o próprio se define, o escritor de 30 anos se lançou na Literatura com um livro de não ficção. A história passeia pelo próprio processo de aceitação dele como um homem gay, que ocorreu em 2020, no auge do contexto pandêmico, quando ele tinha 27 anos.
Lançado em 2018, Um milhão de finais felizes nos mostra que tudo passa (Editora Alt)
Jamily Rigonatto
Existir enquanto uma pessoa LGBTQIA+ é estar cercado de incertezas. Não se sabe em quem confiar, se seus comportamentos estão minimamente condizentes com o que a sociedade espera ou sequer se sua vida, antes de se descobrir, continua fazendo parte de quem você é. Apesar de acontecer de forma distinta para cada pessoa, esse processo sempre vem acompanhado de inseguranças. Retratando esses elementos pela visão do protagonista Jonas, Um milhão de finais felizes explora isso enquanto valoriza o resultado das etapas conturbadas: a cura.
Longe de se tratar de uma espécie de ‘cura gay’, essa descoberta está ligada ao próprio ser, a restauração que acontece em nós quando percebemos que não há nada de errado em ser como somos – seja na esfera da sexualidade, na forma como reagimos à vida ou até sobre a aparência física. Por meio dos receios do personagem, o autor Vitor Martins renova o fôlego de uma juventude que só quer amar e ser amada, sem sentir que o peso do mundo está prestes a desmoronar sobre os seus ombros.
De cantores a autores sob codinomes, os Melhores Livros de 2023 se encontram nas possibilidades (Arte: Aryadne Xavier/ Texto de Abertura: Jamily Rigonatto)
O último ano foi para a Literatura rico em experimentações. Com obras de gêneros distintos e um movimento de mais espaço para possibilidades, os resultados foram páginas cobertas por amor, descobertas, dores e muito mais do que o sentir pode proporcionar. Assim, chegamos a lista selecionada pela Editoria do Persona, que compõem as escolhas para representar Os Melhores Livros de 2023.
É importante que lembremos que além de propícia para novas ideias, a temporada marcou eventos importantes para a representatividade no meio literário. Em Outubro, tivemos o primeiro indígena eleito como imortal pela Academia Brasileira de Letras (ABL), o autor Ailton Krenak, que assina sucessos como Ideias para Adiar o Fim do Mundo e Futuro Ancestral.
Outro marco foi a presença de autores negros em espaços de reconhecimento. Na Festa Literária de Paraty (Flip) do último ano, o principal nome da programação era o de uma das autoras negras mais faladas do Brasil na atualidade, Conceição Evaristo. Além de discursos essenciais e uma contribuição literária notável, a presença da escritora no evento literário inspira e carrega muito significado.
Muitos centenários também foram comemorados no período, como o de nascimento da autora Wislawa Szymborska, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996. Além dela, Eugénio de Andrade (As Mãos e os Frutos), o poeta surrealista Mário Henrique Leiria, o ensaísta Eduardo Lourenço e Mário Cesariny fizeram parte da lista de centenários e foram celebrados.
Entre tantos marcos, fica a esperança de um momento ainda mais doce para o mundo dos livros está por vir. Enquanto isso, você confere a lista dos textos que se destacaram para o Persona no ano de 2023 e aproveita dicas de leitura variadas. Para todas as preferências, fica o gosto de obras plurais e extremamente ricas em cultura, liberdade e a vontade de transformar cada capítulo. Boa leitura!
A adaptação literária A Sibila integrou a 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na seção Novos Diretores (Foto: Alfama Films)
Vitória Gomez
O Cinema, enquanto Arte, amplia horizontes. Seja ao apresentar pontos de vistas únicos que fazem o espectador pensar duas vezes ou retratar uma cultura diferente, entrar em contato com o desconhecido pode também ser desafiador. Na 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, A Sibila é um desses desafios para um público desavisado: o longa, presente na seção Novos Diretores do festival, adapta o romance homônimo de uma importante escritora portuguesa, Agustina Bessa-Luís.
No entanto, diferente de outros escritores portugueses, Bessa-Luís não virou leitura obrigatória no Ensino Médio ou nos vestibulares, e a adaptação de sua obra, tida por muitos como impossível de ser realizada pelo tom de monólogo, instiga o público a pensar em como a Literatura e o Cinema se constroem, se conectam e se sobrepõem (se é que o fazem). Em pouco mais de uma hora, Eduardo Brito, diretor estreante em longas-metragens, assume o desafio e questiona esses limites.
Alerta de gatilho: violência explícita, morte e luto
O Cemitério é a personificação da morte em todos os sentidos (Foto: Companhia das Letras)
Marcela Lavorato
O Cemitério plantado por Stephen King colhe frutos há 40 anos. O motivo é simples: o livro é uma descrição minuciosa dos sentimentos humanos em torno de um fato que não nos é explicado, mas que esperamos vir inevitavelmente ao longo da vida – a morte. Na verdade, a morte não é algo simples, mas percorre a base do natural e do orgânico, algo que já nascemos com ela, pois sabemos que um dia irá acontecer, mas nunca esperamos ser tão cedo. A narrativa de Pet Sematary – título original -, portanto, abre portas para tramas brutas e reais que fazem o leitor experimentar todos os sentidos ao ler essa obra-prima do terror.
Em clima de mês do horror, o Estante do Persona de Outubro brinca de assombração (Arte: Raíra Tiengo/ Texto de abertura: Enzo Caramori e Marcela Lavorato)
“(…) Às vezes, me assusta pensar que os problemas cotidianos podem ser para mim um pouco mais terríveis do que para o resto das pessoas.”
— Samanta Schweblin
O que mais assombra é o desconhecido. A aproximação do indivíduo a algo nebuloso, que remete ao comum, mas, de certa forma, possui uma aura em desalinho. Algo no fundo do horizonte, coberto de escuridão e fumaça se faz presente, mesmo que não se possa ver com olhos ainda humanos. O terror e o horror, que nasce não somente de grandes escritores e realizadores do gênero, mas do desenterrar das sensibilidades do inconsciente, e da explicitação do desconhecido não somente enquanto o outro, mas o que não sabemos de nós mesmos. No mês de Outubro de 2023, o Estante do Persona permite se adentrar ao colapso do corpo e do cotidiano pelo grotesco e pela violência, explicitada nas discussões do Mês do Horror, que tomou a Literatura da autora Mariana Enriquez como ponto central de reflexão.