Se despedindo do frio intenso do mês passado, Agosto passou correndo, nos lembrando que faltam somente quatro meses para o fim de um ano que mais pareceu mentira do que verdade. Atingindo o número de 122 milhões de vacinados com a primeira dose, o futuro parece clarear. Mas mesmo sob perspectivas mais otimistas, a realidade é de que a pandemia ainda perdura e devemos (!) nos cuidar. Com a esperança de que tudo passe logo, o Persona continua isolado dentro de casa e traz a oitava edição do Nota Musical.
Abrindo o mês com chave de ouro, Lorde finalmente lança na íntegra o aguardadíssimo Solar Power, após quatro anos de muita espera e cobrança dos fãs. E carregada da difícil tarefa de superar o insuperável Melodrama, a neozelandesa se despe do fardo de salvadora deixando claro que essa nunca foi sua intenção. Assim, entre idas melancólicas à manicure e discussões sobre mudanças climáticas, Ella Yelich-O’Connor – para os mais chegados – celebra as banalidades da vida sob o Sol, convidando, quem quiser, a se derramar junto.
Outro retrato mais pessimista da vida pós-covid-19 é Pressure Machine, dos veteranos The Killers, que conta com a colaboração invejosa de Phoebe Bridgers na faixa Runaways Horses. Com título de um dos melhores discos de 2020, a queridinha do indie rock contemporâneo também revisitou o aclamado Punisher com três remixes inéditos de Kyoto. E semelhante à colega de banda (boygenius), Lucy Dacus entrega ao público uma nova versão de Going Going Gone, que originalmente integra o sensível autorretrato da cantora-compositora em Home Video.
Além das revisitações de registros já conhecidos, Agosto trouxe junto de si estreias empolgantes. O vocalista do sucesso juvenil 5 Seconds of Summer, Luke Hemmings, lança o primeiro trabalho solo da carreira com When Facing the Things We Turn Away From, encarando de frente o passado através de um processo empático de autoconhecimento. Igualmente, Orla Gartland surpreende com Woman on the Internet. Em seu álbum inaugural, a irlandesa refuta todos os estigmas criados em cima do passado como youtuber, abraçando aqui quem ela realmente é.
Já se despedindo, Iggy Azalea dá adeus ao mundo da música com The End of an Era, último ato da carreira, cheio de batidas encorpadas do funk carioca. Infelizmente, contrário à rapper australiana, algumas figuras parecem nunca dizer o tão necessário ciao! Em meio aos singles forçosos do mês, destacam-se o insosso Summer of Love de Shawn Mendes & Tainy e HIT IT do calejado Black Eyed Peas, com feats inusitados de influencers latinos. J. Balvin, por outro lado, continua influente no reggaeton internacional, divulgando Que Locura, prévia do álbum a ser lançado em Setembro.
Outra figura querida pelo público é Tinashe, que presenteou os fãs com o esperadíssimo 333. No seu melhor trabalho até o momento, a artista toma conta da criação narrativa do álbum recheado de sentimentalismo comum do R&B. Enquanto isso, The Weeknd continua bebendo da fonte oitentista da nova era, com direito a muito sintetizador no mais recente Take My Breath. E, o imitador oficial de After Hours, Ed Sheeran dá novamente as caras com Visiting Hours – coincidência? Dessa vez, sem a fantasia arlequina, o britânico aposta no usual violão acústico, assim como FINNEAS em A Concert Six Months From Now.
Na efervescência de exaltações nostálgicas, o trio de synthpop CHVRCHES mergulha de cabeça nas influências que inspiraram o terceiro álbum, criando uma narrativa quase cinematográfica. Trazendo “A” participação de Robert Smith, Screen Violence já nasce digno de um filme de terror slasher dos anos 80, carregado de sangue, sintetizador e uma final girl de respeito. Evocando a mesma década, Angel Olsen exalta o período com covers de hits oitentistas em Aisles, uma prévia vibrante do que vem a seguir. Já para quem busca sonoridades mais experimentais, o imersivo SINNER GET READY de Lingua Ignota e as faixas sombriamente atmosféricas de Cruising da banda black midi são garantias certas de uma experiência original, com um quê de sinistro.
Ainda em Agosto, a hashtag #fleabagiscoming causou comoção nos trendings do Twitter, mas infelizmente não pelos motivos que gostaríamos. Com o mesmo nome da incrível Fleabag – série criada pela gênia Phoebe Waller-Bridge –, YUNGBLUD lançou nesse mês um novo single, ostentando fortes referências grunge. Machine Gun Kelly traz as mesmas veias noventistas em papercuts, produzido em conjunto com Travis Baker e Nick Long. Ao se afastar da sonoridade de seus registros passados, MGK não agradou todos os ouvidos e respondeu às críticas com um “STFU”. Crescentemente aparecendo em produções pop-rock alternativas do ano, o baterista do nostálgico Blink-182, Travis Baker, é incluído mais uma vez no último EP misery lake de Blackbear.
Guns N’ Roses também alvoroçou sua fanbase com ABSUЯD, primeira música da banda após treze anos sem novos materiais. E de fãs sêniores à fãs Gen Z devotos, Red Velvet entrega ao público Queendom, mais um sucesso comercial adicionado à lista do grupo de k-pop. Agora comemorando parcerias de longa data, a amizade fofíssima entre Tony Bennett e Lady Gaga dá as graças com a versão enérgica da dupla de I Get A Kick Out Of You, bem como o retorno de Skrillex com Justin Bieber e Don Toliver em Don’t Go.
Falando em duplas de respeito, Lizzo retorna após dois longos anos em Rumors ao lado da rapper Cardi B como deusas do Olimpo banhadas a ouro. Ambas encaram juntas as críticas ligadas ao corpo, avisando: todos os boatos são verdadeiros! E em meio à voltas triunfantes, Kacey Musgraves ressurge das cinzas com justified, anunciando o próximo álbum intitulado star-crossed, que desde sua revelação, já se tornou um dos mais esperados do ano. A musa country-pop se debruça sobre as dores do fim de um relacionamento, entregando um single perfeito para se chorar sozinhos no carro enquanto sofremos por desilusões amorosas.
Saindo direto de um conto épico medieval, If I Can’t Have Love, I Want Power exibe, logo de cara, Halsey em todo seu poder como matriarca sentada sobre um trono de ferro – ou melhor, o seu trono de ouro. Marcando o pop internacional com muito conceito, o álbum inclui em sua produção a improvável colaboração da cantora com os membros de Nine Inch Nails, Trent Reznor e Atticus Ross, se tornando uma declaração soberba sobre maternidade, auto-sabotagem e emancipação feminina.
Em clima saudosista, o querido Zeca Pagodinho marcou presença com Meu Partido É Alto!, evocando alegrias distantes. Vento nos cabelos, fim de tarde e cerveja gelada são lembranças afloradas pelo pagodeiro ao longo das faixas do álbum, assim como na performance descontraída de Eita Menina em versão pagode por Lagum. No sertanejo, Gabeu ressignifica o gênero tradicional através de uma reinterpretação queer com o bem-humorado AGROPOC.
Seguindo no Brasil, Marina Sena faz jus ao título do álbum de estreia, De Primeira, ultrapassando a marca de 3 milhões de streams no Spotify. Com produção e direção de arte impecáveis, a mineira entrega um pop recheado de brasilidades, seguindo como uma das promessas da música brasileira, ao lado de nomes como Jup do Bairro, um dos mais relevantes da cena musical nacional atual, e Manu Gavassi em seu desabafo internacional – diferente de Vitão e seu TAKAFAYA. Ao mesmo tempo, o cearense Matuê alcança com “Quer Voar” parada global na Billboard, se consolidando como um dos principais nomes do trap nacional.
Dando continuidade, de Madu à Supercombo, se destaca Ney Matogrosso, que como um dos maiores intérpretes da música brasileira, continua fazendo o que bem entender em Nu Com a Minha Música. Na comemoração dos 80 anos de sua deliciosa existência, quem é presenteado são os fãs. E entre reboladas e presentinhos, a funkeira Valesca Popozuda retorna despirocada como sempre.
Assim, somado às fragilidades e ameaças aos direitos das mulheres no Afeganistão e no mundo, o episódio serve como um lembrete urgente de que a luta contra a misoginia deve ser diária e tomada como um compromisso sério. No oitavo mês do Nota Musical, o Persona reúne a Editoria e os Colaboradores em apoio a todas as vítimas de violência contra a mulher, antes de analisar os acertos e deslizes musicais de Agosto.
CDs
Lorde – Solar Power
Escondam os pré-adolescentes diferentões e os jovens de coração partido, porque a nova estação artística de Lorde muito provavelmente vai desagradar qualquer um com expectativas e noções prévias do que a musa kiwi faria após babar por diamantes e desaparecer no Sol depois de um explosivo término. O Sol, de fato, é parte central do terceiro trabalho de estúdio de Lorde. Em Solar Power, a mensagem é menos pontiaguda que no passado, mas o recado está dado: o mundo não é local de certezas e permissões, e Lorde, nessa emboscada de envelhecer e perceber que ocasionalmente se enxerga como “um Jesus mais bonito”, aceita a efemeridade das coisas.
Qualquer texto que se sujeite a definir o disco como uma coisa ou outra já começa jogando em desvantagem visto que, mais do que nunca, Solar Power é mutável com o astro que o nomeia. O mormaço presente em canções como a faixa-título e Oceanic Feeling, encerramento alongado da versão Standard, representam as duas pontas de pensamento da jovem, agora, de vinte e poucos anos. Ela não sabe a quem recorrer, mas adoraria que nos puséssemos em seus sapatos, como moradora de um país quase místico, coordenado e bem gerido. É óbvio que Lorde cantará sobre o que bem entender e, se encontrar felicidade num passeio à praia ou numa sátira à comunidade das joias mágicas, isso será sua verdade e seu mantra. O que Solar Power carece em poder de fogo (como Ribs e The Louvre no passado), compensa em maturidade e autossuficiência.
As composições de Ella, majoritariamente acompanhada pelo produtor de aluguel Jack Antonoff, revitalizam ideais tidos como imutáveis tanto no PH quanto no Melodrama. Ao lado da messiânica participação de Robyn, Secrets é uma viagem à canção das costelas; Big Star se alinha a um rock melódico e mergulha de cabeça na traumática perda do cãozinho Pearl; e Dominoes, embora curta demais, aproveita cada segundo de batuque irônico para grudar na cabeça. Ela guardou as mitológicas Helen of Troy e Hold No Grudge para o vinil, mas independente do fechamento de SP, uma coisa é certa: o Sol brilha, a água refresca e, para além da meia dúzia de números verdes e amarelos, Lorde é eterna. – Vitor Evangelista
Kanye West – Donda
Depois de ser adiado duas vezes, o aguardado disco de Kanye West finalmente chegou, e, segundo o artista, foi lançado sem sua permissão. Levando o nome de sua mãe, falecida em 2007, Donda é um épico cristão de mais de uma hora, e dá continuidade a JESUS IS KING (2019), vencedor do Grammy na categoria de Melhor Álbum de Música Cristã. Embora algumas das 27 faixas do disco tragam a voz de sua mãe, o álbum é composto majoritariamente por obsessões antigas de Kanye West: Kim Kardashian (recente ex-esposa do artista), achar que é perseguido pela indústria e Jesus Cristo. O álbum ainda faz, nas faixas Jesus Lord e Jesus Lord pt 2, um tributo a Larry Hoover — preso desde 1973 —, e as duas músicas juntas somam quase 20 minutos. Nas canções, ouvimos o filho de Hoover, em uma mensagem gravada, questionando as rachaduras do sistema judiciário norte-americano. Para a gravação do álbum, West mudou-se para um quarto no estádio Mercedes-Benz, em Atlanta, e fez uma audição pública do disco, transmitida ao vivo pelo Apple Music.
O álbum conta com diversas participações, que vão de The Weeknd a Ojivolta, e segundo os créditos oficiais do álbum, Brian Warner — conhecido como Marilyn Manson — é compositor e letrista em Jail e Jail pt 2. O músico apareceu em uma das transmissões ao vivo de Donda, após ter o contrato com sua gravadora cancelado devido as reveladoras acusações que recebeu de diversas mulheres, que vão de violência doméstica a agressão sexual.
A visibilidade gerada para o artista, no momento em que diversas mulheres posicionaram-se diante do fato, abre espaço para questionarmos se Kanye West é sem noção, provocador ou ambos. O disco ainda conta com a participação de Chris Brown e do rapper DaBaby, também creditado como compositor e letrista de Jail pt 2. O músico proferiu falas LGBTfóbicas em um show recente, e recebeu críticas de Madonna, Elton John e Dua Lipa. Curiosamente, Donda não possui palavrões — algo que era recorrente até a chegada de JESUS IS KING. No que parece ser uma escolha totalmente pessoal de Kanye West, gravar com assediadores não é tão ruim quanto falar que é a porra de um monstro. – Bruno Andrade
Gabeu – AGROPOC
A música sertaneja e a comunidade LGBTQIA+ tem relações opostas. Com o cenário musical dominado pelos ditos universitários, não há identificação da comunidade com todo o machismo e misoginia mascarada como um louco amor, que é cantado por muitas duplas. Gabeu e sua rádio AGROPOC vêm para renovar as águas do moinho sertanejo, trazendo representatividade para o mundo da viola.
Gabeu é filho de Solimões – sim, o próprio na sola da bota – e inevitavelmente a música é presença diária em sua vida. Várias questões são colocadas em cheque: ser do interior, filho de um grande ícone e gay. Como se reconhecer dentro do atual sertanejo? Ser pop? Mesmo vivenciando o ambiente caipira? É assim que Gabeu une o melhor dos dois mundos, dando vida ao queernejo.
AGROPOC é um álbum destemido, que em 10 músicas trabalha o melhor da sonoridade do sertanejo, dando um grande espaço para os instrumentos de corda. Com canções que referenciam até fim de noite Fio de Cabelo, Gabeu traz faixas inteligentes como o encerramento, Amor Rural que aposta em sacadas e jogos de palavras, Bailão que dá vontade de colocar um chapéu e uma fivela e Boiadeiro e Atacante que nos coloca numa fazenda e mesmo com um gostinho tradicional, sabe inovar na proposta do queernejo. AGROPOC é de longe um dos melhores lançamentos de 2021, e junto com ele o sonho de dançar as músicas na festa junina da escola. – Ana Júlia Trevisan
The Killers – Pressure Machine
Os integrantes do The Killers engrenaram nas gravações de Imploding The Mirage (2020), e como resultado dessa sequência de inspiração e confinamento devido a covid-19 — que adiou a turnê que a banda havia planejado —, surge o conceitual Pressure Machine, versão mais reflexiva e melancólica do antecessor. Quase todas as faixas começam com narrações que parecem ser de pessoas comuns do interior dos Estados Unidos — especificamente a cidade de Nephi, em Utah —, e essas vozes diferentes auxiliam na narrativa que os The Killers tentam construir para contar a história dos desconhecidos.
A faixa Runaways Horses conta com participação de Phoebe Bridgers, e as faixas se mantêm coerentes em todo o álbum. Algumas trazem apenas voz e violão, pequenos sintetizadores e a bateria se mantém leve em quase todo o disco — algo inovador para o The Killers, que tem Ronnie Vannucci na bateria —, com as exceções In The Car Outside e In Another Life, as melhores do trabalho. Essas características marcam o propósito do álbum de criar algo mais intimista.
O álbum é uma bela fotografia da cidade em que Brandon Flowers cresceu, e soa como uma homenagem às vítimas da covid-19. Pressure Machine ainda marca o retorno do guitarrista Dave Keuning, que havia deixado o grupo em 2017. – Bruno Andrade
Zeca Pagodinho – Meu Partido É Alto!
Depois de quase matar o Brasil do coração com uma súbita internação por covid-19, Zeca Pagodinho se recupera tranquilamente em sua casa. Para comemorar a melhora do cantor mais família desse país, a dica é escutar sua nova compilação de sambas estilo partido alto. Em Meu Partido É Alto!, Zeca consegue dar uma sobrevida no ânimo de quem o escuta, sempre garantindo um punhado de alegria e uma cerveja bem gelada na vida tão sofrida do brasileiro.
Com sua capa amarelo-vibrante que exalta o sorriso dessa lenda da Música nacional, é através de músicas como Delegado Chico Palha e Pagode Da Dona Didi que Zeca Pagodinho relembra hits tão marcantes na sua carreira, reverenciando a beleza do partido alto saída diretamente das periferias cariocas. Imperdível, assim como toda a discografia do cantor, Meu Partido É Alto! aperta o coração de saudades de uma roda de samba. Vida longa ao rei! – Caroline Campos
The Weeknd – Thursday
The Weeknd decidiu comemorar o aniversário de uma década das mixtapes que o lançaram no mundo da Música em 2011, e disponibilizá-las em edição original e completa nos serviços de streaming. O álbum da vez é Thursday, que fez 10 anos em 11 de agosto, e também uma drop em parceria com o artista japonês MR. Moletons, tênis e um vinil exclusivo fazem parte da coleção, que foi inspirada em animes.
O relançamento de Thursday trouxe de volta o mais intenso R&B da obra de Abel, característico do seu início. O amor, vida e sexo cantados com melancolia é sua Música em essência, e esse sofrimento só é curado- ou expandido – pelo hype das drogas. As faixas Lonely Star, Thursday e The Zone, música com o Drake, são destaque e contam a história do álbum: a relação amorosa e obscura com uma menina que ele só vê às quintas-feiras. Thursday é, definitivamente, um dos melhores trabalhos de The Weeknd.
House of Balloons e Echoes of Silence completam a trilogia de mixtapes lançadas em 2011 e que foram remasterizadas e compiladas para formar Trilogy, álbum de 2012. Com House of Balloons já nas plataformas digitais, é óbvio que o aniversário de Echoes of Silence seguirá o mesmo caminho para ganhar uma edição original, mas apenas em dezembro. – Nathália Mendes
Bnny – Everything
Logo de cara, Everything é introduzido por uma guitarra estranhamente suave e melancólica. Da mesma maneira, a vocalista, Jess Viscius, quase sussurrando à moda Mazzy Star, soa como um produto vindo diretamente de uma garagem grunge noventista. Gravitando sob uma atmosfera niilista, a banda de Chicago, Bnny, trouxe no álbum de estreia a experiência íntima de Viscius com a morte, tema central do registro.
Ao ter que lidar com o vazio deixado pelo falecimento do companheiro, Viscius, junto do restante de Bnny, concebe quatorze faixas preenchidas por uma carga emocional bastante vulnerável. Os versos breves, os acordes simples, os instrumentais crus e os vocais lânguidos marcam presença constante ao longo dos 37 minutos do álbum, criando uma espécie de loop infinito. Everything é um projeto minimalista, fruto da tristeza encarada pela cantora durante um período extenso de luto, sendo composto em sessões espaçadas desses vários anos passados. As músicas são familiares, assim como o sentimento de perda. E vagueando pelo espaço, sem saber o que sentir, somos observadores distantes da crônica de amor criada pela banda. – Ayra Mori
Marina Sena – De Primeira
A maior revelação do pop nacional de 2021 atende por Marina Sena. Já conhecida por seu timbre adocicado que protagonizava os hits da banda Rosa Neon e A Outra Banda da Lua, a mineira de 24 anos agora assume de vez sua autonomia musical em seu primeiro trabalho solo. Combinando a experiência de estrada com sua identidade única, a artista cria um sabor tropical nos ares mais frescos que a música pop brasileira pode ter. E como a própria avisou no título do disco, caímos nas graças do som De Primeira.
A expectativa em Marina Sena existe desde o charme irresistível de Me Toca, o primeiro single do álbum. Mas quando ela emplacou o refrão chiclete de Voltei Pra Mim, o cenário não teve outra escolha senão aguardar ansiosamente pela sua estreia. E nela, a artista serve tudo e mais um pouco. Como todo bom disco pop, De Primeira não tem medo de se influenciar por outros gêneros, colocando o ouvinte para dançar reggae junto de Sena em Temporal, acompanhar a conversa dela com o pagode em Tamborim, e beirar o R&B no groove de Por Supuesto.
Ao mesmo tempo em que abraça a música do mundo, Marina se encontra em casa no que é essencialmente brasileiro. Os ritmos de percussão, dedilhados de violão e melodias vocais tão familiares da nossa música são perfeitamente valorizados em cada uma das 10 faixas do disco. Seja no coração doído que chora a saudade em Amiúde, na energia digna de um hit de Carnaval que vibra de forma imersiva em Cabelo, ou na pontinha de funk que se mostra em meio ao lirismo de Seu Olhar, ou na reverência à MPB que aparece em Santo, ela tem razão: seu trabalho é De Primeira. – Raquel Dutra
Halsey – If I Can’t Have Love, I Want Power
Irreverente, parte da realeza, dourada e imponente. Halsey senta no trono que uma vez pertenceu ao velho, agora exibindo o futuro no colo, na figura do bebê que carregou no ventre durante toda a concepção do quarto álbum de estúdio. Por mais que a criança da capa não seja, de fato, o bebê da cantora, a representação imagética do poder e do ideal de maternidade não abre espaço para qualquer questionamento quanto à qualidade conceitual de If I Can’t Have Love, I Want Power.
Também, com um título desse, Halsey dá o tom do CD: muito punk rock, melodias pop e raiva engarrafados pela produção cuidadosa e taciturna da dupla que venceu seu segundo Oscar poucos meses atrás. Trent Reznor e Atticus Ross dosam a mão no obscuro em harmonia com o mágico, dando palco para que Halsey seja vulnerável, da mesma maneira que o fez anos atrás, no suprassumo, até então, de sua trajetória musical, com a estreia jovem adulta de BADLANDS. IICHLIWP ainda chegou acompanhado de um filme homônimo e, sem qualquer single promocional, foi escondido do público até o momento do lançamento, na semana que fechou Agosto.
As faixas, concisas, conversam entre si pela aura medieval da cantora, que atende por pronomes femininos ou neutros, e em 2019 revelou ao mundo seu diagnóstico de bipolaridade. No ponto de virada e no melhor momento de sua carreira na Música, Halsey deposita no CD algumas das melhores composições que já cantou: Easier than Lying, Lilith, Girl is a Gun, honey e o encerramento com Ya’aburnee. Não faltam destaques ou inspirações (até Dave Grohl aparece nos créditos), e a bagunça criativa que HFK e Manic carregavam, finalmente, se perde de vista. – Vitor Evangelista
Villagers – Fever Dreams
Em seu quinto álbum, Villagers traz músicas delirantes para escapar da realidade (algo muito procurado em tempos pandêmicos). No que parece ser uma mistura inusitada entre Pavement, Neutral Milk Hotel e Elliott Smith — na qual melancolia e fantasia ganham protagonismo —, o resultado é o surpreendente e profundo Fever Dreams.
O primeiro single do disco, The First Day — espécie de epopeia da condição humana — demonstra a intenção do grupo com o álbum, trazendo à canção diversas camadas que vão da sensibilidade misteriosa à euforia espalhafatosa. Mantendo a aura de ilusão e realidade, So Simpatico é uma mistura luxuosa de elementos, com os backings vocals dividindo protagonismo com o saxofone. Momentarily é uma das mais intimistas do disco, priorizando teclado, sintetizadores e voz, e desconstruindo toda a complexidade do disco; porém, sem soar menos convincente. A desconstrução soa como um relaxamento para os que chegaram à metade do álbum, quase como um prelúdio a sua segunda parte.
Fever Dreams é denso e repleto de ambição. Com solos de saxofone, sintetizadores que acompanham praticamente todas as músicas — construindo um cenário onírico muito bem trabalhado — e um clima de filme do David Lynch, o álbum nos ambienta na fantasia melancólica da banda indie fundada em 2008. O disco parece a trilha sonora de um sonho, mas um sonho lúcido. – Bruno Andrade
Lingua Ignota – SINNER GET READY
Em 2019, o álbum Caligula fazia os pesadelos de Billie Eilish em bury a friend parecerem um passeio até a casa da vovó. A mistura de black metal com música erudita, elaborada por Kristin Hayter sob o nome de Lingua Ignota, era brutal e perturbadora, a ponto de eu nunca ter conseguido passar da segunda faixa. Mesmo duvidando de minhas condições físicas e psicológicas para tal, resolvi encarar os 55 minutos de seu terceiro álbum de estúdio, e para minha surpresa, SINNER GET READY é menos tenebroso, mas não menos impactante, encontrando, ainda, momentos de pura beleza em meio à visceralidade.
Afastando-se da música industrial e do black metal, Kristin Hayter mantém-se voltada para a influência da música sacra, além de acrescentar instrumentos folclóricos apalaches para explorar o passado cultural e religioso da Pensilvânia rural, e encontrar em meio a isso seus próprios demônios. Fruto de um intenso trabalho quase acadêmico de pesquisa histórica, as letras resgatam trechos de antigos escritos cristãos, incorporados pela experiência pessoal da artista, que cresceu em um lar católico, além de ter recebido uma educação musical clássica e passado por uma carreira acadêmica que resultou em seu primeiro disco. Os referenciais tradicionais pouco fazem desta uma obra familiar que, pelo contrário, foge de qualquer tentativa de classificação.
Ao longo de suas nove faixas, o álbum se transfigura da crueza infernal de THE ORDER OF SPIRITUAL VIRGINS, passando por muitos momentos intensos, alguns outros quase delicados em comparação como PENNSYLVANIA FURNACE, até tomar sua forma final após as texturas hipnóticas de MAN IS LIKE A SPRING FLOWER na derradeira redenção solitária de THE SOLITARY BRETHREN OF EPHRATA. Em SINNER GET READY, Lingua Ignota caminha por territórios cinzentos entre o sagrado e o profano, a arte e a religião, o físico e o espiritual. É uma experiência crua, assustadora, poderosa, e que não se parece com nada que seja deste mundo. Talvez de fato, não seja. – João Batista Signorelli
Nas – King’s Disease II
Após finalmente conquistar um Grammy de Melhor Álbum de Rap em 2021, Nas alongou sua obra King’s Disease em uma segunda parte. Lançado em 6 de agosto, King’s Disease II é uma boa continuação, mas que declina. Com menos participações e mantendo Hit-Boy na produção, a rima premiada, e que lembrava seu lendário trabalho dos anos 90 Illmatic, chegou tropeçando em King’s Disease II.
Os backgrounds seguem diversificados, com a maioria das batidas mais leves e animadas. Já as rimas do cantor se voltaram em auto afirmar ser dono de um legado na história do rap, exemplificado nos versos de Rare, e Nas Is Good – uma das melhores músicas do álbum. Com quase 30 anos de carreira, não é estranho que Nas continue o trabalho que lhe garantiu um troféu, e consequentemente rime sobre sua própria vitória. No entanto, se distanciar dos versos pesados e críticos não foi a melhor escolha para King’s Disease II. – Nathália Mendes
Iggy Azalea – The End of an Era
Infelizmente, ficaremos sem Iggy Azalea na Música por alguns anos. Com The End of an Era, a rapper australiana dá uma pausa de tempo indeterminado na carreira musical, passando a focar em outros projetos criativos. Portanto, era de se esperar que algo grandioso fosse lançado com a finalidade de encerrar uma carreira relativamente longa. E foi. Pelo menos na extensão do trabalho, foi. O terceiro álbum de Iggy, na versão disponível nas plataformas digitais, é composto por 14 faixas, e conta com quase 39 longos minutos. Perto de outros lançamentos, isso até seria considerado pouco tempo, mas a dinâmica do disco não ajuda muito nessa questão.
Ao menos nas primeiras impressões, The End of an Era é morno ao entregar pouca variedade sonora e um repertório exagerado – apesar de serem canções curtas, elas são muito parecidas entre si. Na verdade, talvez seja necessário mais tempo para uma melhor compreensão e apreciação do CD. Independentemente de qualquer coisa, algumas pérolas, como Brazil, Iam The Stripclub e Sex on the Beach, se garantem desde já. Sem dúvidas, é uma pena que Iggy não tenha conseguido grandes colaborações para esse álbum – por enquanto, participam apenas BIA, Sophia Scott e Ellise. Mas ainda há certa esperança: The End of an Era ganhará uma versão deluxe, com capa já divulgada pela artista. E resta também uma dúvida: será que Iggy atingiu o objetivo de agradar aos fãs gays com o novo álbum? – Eduardo Rota Hilário
Still Woozy – If This Isn’t Nice, I Don’t Know What Is
If This Isn’t Nice, I Don’t Know What Is soa como um dia quente e ensolarado nas férias. O primeiro álbum de Still Woozy, nome artístico do norte-americano Sven Gamsky, transforma até as inseguranças em descontração, as desilusões em melodia. Composto e produzido por ele mesmo, o bedroom pop saído de seu estúdio de garagem na Califórnia nos transporta para aqueles dias de verão dos filmes.
Still Woozy brinca com os gêneros musicais, experimenta instrumentos, passeia por ritmos e estilos. As 13 canções são aleatórias e divertidas na despreocupação de soarem coesas. Como ele descreveu, “cada música expressa uma parte diferente da minha paleta (…). Isso me deu liberdade e confiança para explorar mais do que nunca”. A descontração de quem explora cria o encanto e a jovialidade que If This Isn’t Nice, I Don’t Know What Is exala, em uma euforia sublime em tons de amarelo. – Vitória Lopes Gomez
Mouse Rat – The Awesome Album
Para relembrar o aniversário de dez anos do falecimento de Lil Sebastian, a fictícia banda Mouse Rat lançou, finalmente, seu disco de estreia. Criação atemporal de Parks and Recreation, o grupo musical é encabeçado por um amável Andy Dwyer (papel do estúpido Chris Pratt que, desde o fim da série, se mostrou uma pessoa com caráter de papelão).
Como quem canta é o personagem da comédia, é mais fácil desligar a imagem do Senhor das Estrelas do paspalhão de voz rouca que ele interpretou com primazia durante toda a rodagem da sitcom. The Awesome Album conta com faixas imortalizadas pela série de Michael Schur, em especial a abertura 5,000 Candles in the Wind (Bye, Bye Lil Sebastian), cantada em homenagem ao cavalinho que partiu.
Compõem a tracklist o sucesso chiclete The Pit e a medonha-mas-adorável Sex Hair. Um cover de I Get A Kick Out Of You ainda está na seleção, que se bandeia para pitadas de jazz quando o lendário Duke Silver dá as caras e mostra os dotes no saxofone. Sem notícias de qualquer revival de Parks and Rec para além do frutífero encontro pandêmico de 2020, o legado da série perdura através do trabalho de uma banda chamada Camundongo Rato. E isso me parece certo. – Vitor Evangelista
Tom Rosenthal – Denis Was a Bird
A perda de um pai com certeza não é um processo fácil, mas todo tipo de dor pode se transformar em Arte. Foi o que fez Tom Rosenthal após ver, em 2019, a figura paterna partir “depois de uma longa batalha contra o Mal de Parkinson e, em seguida, a demência”. Provavelmente, nem seria necessário afirmar que o álbum Denis Was a Bird assume uma atmosfera melancólica em muitos pontos – Denis, por sinal, era o nome do pai de Tom. Logo na primeira faixa, Now You Know, somos informados da despedida e da dor.
A morte, aliás, retorna em faixas como Half An Orphan e Uncontrollably. Por outro lado, Tom também se depara com a vida nesses momentos de tristeza. Então, ele consegue criar verdadeiros refúgios de felicidade, tal como as canções I Went To Bed and I Loved You e Little Joys. De modo geral, o álbum transita a todo momento no contraste entre celebração e ausência, sendo sincero ao revelar as descobertas feitas diante da finitude. Delicado, doloroso e afetuosamente belo, Denis Was a Bird encara a morte sem qualquer tabu. – Eduardo Rota Hilário
Luke Hemmings – When Facing the Things We Turn Away From
Após 10 anos do início da banda de pop rock 5 Seconds of Summer, o vocalista Luke Hemmings lança seu primeiro álbum solo, que transborda em sentimentos. “Quando o mundo desligou no ano passado, eu tive muito tempo para refletir sobre minha juventude e sobre a pessoa que fui, quem me tornei, e quem quero ser. Aconteceu que, a melhor maneira, para mim, de encarar essas coisas e processar meus pensamentos foi escrevendo músicas”, disse Luke, para a Apple Music. Em When Facing the Things We Turn Away From, o artista australiano aborda arrependimentos, medos, angústias e a vontade que sente, por vezes, de escapar da realidade, indo para um Wonderland, ou “país das maravilhas”, como ele descreve em Baby Blue.
O projeto é alternativo e tem fortes influências de rock e indie. Ele se utiliza muito de sintetizadores em praticamente todas as faixas, e a maioria delas também contêm uma forte presença da guitarra que, por vezes, dá lugar a suaves timbres de piano e violão. Starling Line é a primeira das 12 faixas. Nela, o ritmo e a emoção vão crescendo aos poucos e a letra é de fato um ponto de partida para o que será abordado no álbum, falando da passagem inquietante do tempo e de lacunas na memória, geradas pela urgência e velocidade da vida.
Algumas músicas são mais vibrantes e enérgicas, ainda que todas abordem versos pessoais e sentimentais, como Saigon, Motion, Baby Blue e Diamonds. Outras, valorizam o acústico e a voz do artista, de forma tocante, como é o caso de Place In Me, Repeat, Slip Away, A Beautiful Dream, Bloodline e Comedown. Mum é descrita por Luke como uma carta aberta à sua mãe, e evidencia toda a sensibilidade e delicadeza da obra. As faixas conversam muito bem entre si e o projeto apresenta uma unidade. Luke despejou todas suas emoções no papel e no estúdio. Encarando, como diz o título do álbum, as coisas para as quais viramos as costas, e lidando com as questões vividas por ele, nessa última década, através da música. O resultado? Um álbum intimista, marcante, sensível, que reflete sua criatividade e seu talento. – Mariana Nicastro
Jake Bugg – Saturday Night, Sunday Morning
Quando Jake Bugg surgiu no cenário musical, em meados de 2012, não faltaram comparações com Bob Dylan e os irmãos Gallagher, do Oasis. Ele trouxe levadas de guitarras que misturavam o folk com o pop rock, embaladas em letras ácidas e revoltadas. Acontece que, depois do lançamento de seu primeiro álbum, Jake Bugg (2012), e de seu sucessor, Shangri La (2013), Bugg parece ter entrado em conflito com suas influências, misturando nos dois (e agora três) álbuns seguintes várias referências entre gêneros. Em meio a esse cenário, chega o ambicioso Saturday Night, Sunday Morning.
O disco não é totalmente incoerente, mas soa confuso. A faixa que abre o álbum, All I Need, lembra um The Kooks com a presença de um coro gospel, e tem uma levada dance, muito diferente do habitual folk que alçou Bugg às paradas de sucesso. Scene e Hold Tight são as faixas que mais se aproximam do ‘velho Jake Bugg’, trazendo voz e violão às letras sobre despedidas mal resolvidas. As canções são bem trabalhadas, com diversas camadas muito bem elaboradas, mas talvez fosse melhor apostar na típica voz e violão, ou na guitarra/baixo/bateria explorada em Shangri La. Talvez a melhor faixa do disco seja Screaming, que lembra o Kasabian em seus melhores dias.
Mesmo depois de seus comentários contra a música pop, Bugg trouxe muito do gênero em Saturday Night, Sunday Morning, e parece abraçar os holofotes sem querer falar isso abertamente. Como ele anuncia na abertura de All I Need, podemos chamá-lo de cínico, mas também de original. Porém, nesse pop de Jake Bugg, falta um pouco mais de diversão. – Bruno Andrade
Jaden – CTV3: Day Tripper’s Edition
Quando um cantor anuncia a versão Deluxe de seu álbum é sempre bom, mas quando essa vem com mais músicas novas do que antigas é melhor ainda. Das 19 faixas do seu último lançamento, CTV3: Day Tripper’s Edition, apenas seis já eram do Cool Tape Vol, 3. Os fãs de Jaden realmente tem muito o que comemorar.
Diferente das batidas de rock de sua irmã, o cantor explora melodias mais calmas e até mesmo tristes. Na obra, Jaden canta sobre nostalgia, romance e verão. O single BYE anunciou bem a estética sentimentalista que acompanha todas as outras canções, e escutar Summer é como ver o sol se pôr depois de um dia animado com os amigos. É com a leveza de um verão chegando ao fim que o artista conclui mais uma era de sua carreira. – Mariana Chagas
Great Silkie – Dawn Chorus
Algo meio Beatles, mas também muito original. Longe de ser uma cópia de qualquer outro grupo, a banda Great Silkie acumula acertos no álbum de estreia Dawn Chorus. Observação não menos importante, há algo de singular desde a capa desse disco. Afinal, uma atmosfera misteriosa ronda a imagem dos artistas: podem ser os aspectos visuais, a sonoridade, ou simplesmente as dúvidas ao redor de todo início de discografia. Certo é que existe alguma coisa diferente, algo difícil de se expressar em palavras.
Se é possível compará-los com o quarteto de Liverpool, isso está totalmente nítido em I Don’t Know How to Say (These Days). Já a abertura de How Could this Happen carrega, de certo modo, traços de Under Pressure. Forçando um pouco, podemos até observar semelhanças entre Great Blondell e Joanne. Como seria impossível não mencioná-la, é justo afirmar que So Silent finaliza o CD com uma extensão homérica: são mais de 9 minutos de pura reflexão, ou apenas deleite. Seja como for, um texto curto, de primeiras impressões, não é suficiente para retratar uma descoberta musical interessantíssima. – Eduardo Rota Hilário
Jade Bird – Different Kinds of Light
Dois anos após seu álbum de estreia, a cantora britânica country Jade Bird está de volta com um som que remete às suas origens mas que acena languidamente para o futuro, adotando influências de rock alternativo que eleva o disco. Junto com Dave Cobb (produtor que já trabalhou com Brandi Carlile e Chris Stapleton), as 15 faixas de Different Kinds of Light contam sobre o próximo capítulo na jornada de Bird pelos sons do Sul americano.
Apesar de manter as influências que tornaram seu primeiro trabalho tão prestigioso no cenário country, as novas melodias abordam temas e emoções (ironicamente) mais sombrias, certamente trazendo um tipo diferente de luz à discografia da artista. Com mais de uma dúzia de canções, o disco perde um pouco de ritmo nas últimas, mas não compromete a visão da compositora, nem seu talento para nos emocionar enquanto nos faz dançar. – Gabriel Oliveira F. Arruda
Brandee Younger – Somewhere Different
Conforme o título anuncia de antemão, o novo álbum da harpista Brandee Younger junta elementos familiares para nos levar a lugares diferentes. A musicista de 38 anos, que já colaborou com diversos nomes de dentro e de fora do jazz como Pharoah Sanders, Lauryn Hill e John Legend, prova que a harpa não precisa ser vista como instrumento erudito, e pode explorar as fronteiras de outros gêneros musicais.
Reclamation abre o disco carregada de energia, com Younger e sua banda mostrando a o que vieram. Com uma linha de baixo cheia de groove, acompanhando solos espetaculares de harpa, flauta e saxofone, é uma faixa poderosa e memorável. O impacto e a surpresa da peça de abertura talvez não se perpetue com a intensidade nas faixas seguintes, mas Younger continua esbanjando talento junto aos outros músicos até a última faixa, seja acompanhando os vocais de Tarriona ‘Tank’ Ball em Pretend, ou até mesmo com a bossa nova e as batidas eletrônicas da faixa-título. É um disco belo, de fácil escuta e assimilação, que casa perfeitamente a delicadeza da harpa ao calor do jazz. – João Batista Signorelli
Kehlani – Cloud 19
Exatos 7 anos depois do lançamento de Cloud 19, a mixtape de estreia de Kehlani finalmente chegou às plataformas de streaming. Apesar de algumas das sete faixas já terem sido lançadas como singles e terem até videoclipe, o trabalho, o primeiro comercial da cantora, estava disponível na íntegra apenas no SoundCloud e foi liberado como álbum bem no dia do aniversário do projeto.
Nem adianta falar que a estreia é inovadora, tem potencial ou resgata o estilo original da artista, depois de outros trabalhos. A mixtape foi o pontapé inicial na carreira, que já sabemos o quão promissora foi: em um ano Kehlani estava distribuindo os CDs na rua, no outro, concorria ao Grammy com seu primeiro álbum de estúdio. Disponibilizar a estreia que a trouxe até aqui soa como um bom presente de aniversário para Cloud 19. – Vitória Lopes Gomez
Andrew Belle – Nightshade
Que clima gostosinho! Grosso modo, essa é a sensação que conduz Nightshade do início ao fim. Algo próximo de quando, naquela viagem introspectiva, observamos as estradas da vida pela janela de um carro – pode ser de um ônibus, se preferir. Ou ainda quando, naquele banho de sol delicioso, tudo parece se limitar ao aqui e agora. De modo geral, são esses momentos de elevação pessoal que são evocados ao longo de 10 faixas atrativas, belas e até mesmo tranquilizantes.
Disco para desiludidos e apaixonados, o amor, suas variações, desdobramentos e consequências estão presentes em mais de uma canção. Prova disso está logo na primeira, Swimmers, que narra uma possível superação amorosa. Mas há também espaço para composições mais abstratas, como a faixa-título, e até mesmo instrumentais, como em Shorthand. Fato é que, se você ainda não ouviu o 4º álbum de Andrew Belle, deveria dar pelo menos uma chance. Pode ser que anime seu dia. – Eduardo Rota Hilário
Orla Gartland – Woman on the Internet
Boa notícia para os amantes de Normal People: agora, parte importante da essência da série pode ser apreciada numa obra integral. Orla Gartland, uma das vozes que embalou aquela história de amor de pessoas normais, realiza sua estreia maravilhosa na companhia das 11 músicas de Woman on the Internet, fazendo jus à beleza da trama que nos apresentou à ela em 2020.
A temática central também não poderia ser diferente: tudo o que envolve a vida dos vinte e poucos anos é matéria prima para a arte narrativa da irlandesa, que vai do pop-punk (graciosamente explosivo em Over Your Head e Zombie!) ao indie rock (gentilmente hipnotizante em Things That I’ve Learned e Madison). E quando ela canta suas letras afiadas e em pontes crescentes como no refrão de You’re Not Special, Babe, é como se Gartland descobrisse a receita daquele aperto agridoce no coração, conhecido também como o sentimento mais típico da nossa geração.
A sinceridade constrangedora e intimidade dolorosa é o fio por onde Orla segue brincando com seus sons, suas letras, seus ritmos, melodias e harmonias de Woman on the Internet. Com as catárticas More Like You, Do You Mind?, Codependency e Bloodline/Difficult Things, é um crime não parar para ouvir a estreia de Gartland. Na melhor confusão emocional millennial, pedimos à Orla que por favor, não seja tão perfeita. – Raquel Dutra
Ben Platt – Reverie
Ben Platt não é um nome desconhecido. Astro do teatro e da série The Politician, Platt chega em Reverie repleto de emoção, porém sem deixar de lado seu lado dançante. Em seu segundo álbum de inéditas, o artista aposta na mesma nostalgia presente no antecessor, Sing To Me Instead (2019).
Seu lado teatral não foi esquecido em Reverie, e as fases do disco são separadas por 3 atos, king of the world, pt. 1, king of the world, pt. 2 e king of the world, pt. 3 — faixas que abusam do auto-tune —, dividindo as 13 faixas do disco. As canções parecem ter diversas referências a músicas dos anos 80, principalmente childhood bedroom e come back, compondo uma aura de High School Musical só para adultos. Mas, ao chegar no final do álbum, a sensação é que o disco de 40 minutos seria um devaneio melhor distribuído em formato de EP. – Bruno Andrade
Devendra Banhart & Noah Georgeson – Refuge
Devendra Banhart, o cantor-compositor norte-americano criado na Venezuela que já cantou sua música indie em espanhol, inglês e português, resolveu, em seu álbum mais recente, deixar sua voz quieta e deixar o coração falar. Em Refuge, ele se junta ao seu produtor de longa data Noah Georgeson, deixando a guitarra e a bateria de lado para acalmar os ânimos e voltar-se para dentro de si mesmo, em um disco inteiramente dedicado à música ambiente.
O apogeu instrumental de Refuge pode ser encontrado na peça For Em, que marca a metade de seu percurso com um belo diálogo entre um piano e cordas emotivas. Afora isso, o disco se mantém discreto e tranquilizador, tanto que duas de suas faixas encontraram espaço em Calm, o famoso app de meditação. A colaboração de Refuge evoca outra parceria que em 1980 rendeu o álbum Ambient 2: The Plateaux of Mirror, produzido por Brian Eno e Harold Budd. Tanto este clássico quanto aquele lançamento trabalham as atmosferas contemplativas, dando também destaque ocasional para melodias instrumentais simples mas em meio às texturas minimalistas. – João Batista Signorelli
Middle School – Passing Notes
Passing Notes poderia estar em uma live de lofi no YouTube, “Batidas para o seu domingo de manhã”, por exemplo. Entre tantos EPs e singles, o álbum é apenas o segundo do produtor australiano Middle School, nome artístico de Ellis Mars Forman, e as oito canções instrumentais são o pano de fundo ideal para… bem, o que você quiser.
A capa do trabalho já começa bem em passar a nostalgia e o conforto, mas cabe às melodias transmitirem as emoções. As batidas são aproveitáveis a qualquer momento, mas a subjetividade do ouvinte é o grande atrativo do álbum. Enquanto a primeira faixa, When I Get Up In the Morning, evoca aquela animação preguiçosa de uma manhã de domingo, By The Window recorda a saudade e a delicadeza de uma lembrança. Mas é claro, Passing Notes depende de quem escuta. – Vitória Lopes Gomez
Tinashe – 333
O árduo processo de se tornar uma artista independente pode até ter sido fatigante para Tinashe, mas ela conquista o ouvinte ao mostrar os benefícios dessa emancipação em seu quinto álbum de estúdio, 333. Sua segunda obra livre das rédeas limitantes de sua antiga gravadora, o disco é uma imersão adocicada em sua autonomia como cantora e produtora.
A produção espacial do álbum media sons experimentais e a clássica sonoridade de Tinashe, que contém infusões de R&B, pop e até funk. Mesmo as faixas mais comerciais são o reflexo da identidade vibrante da artista: Bouncin é o single mais enérgico de sua carreira, e o synth de Undo (Back To My Heart) nos transporta direto para os anos oitenta. 333 pode até não replicar a excelência fascinante de Songs For You, mas é um bom exemplo de como a liberdade artística conseguiu elevar a qualidade do conteúdo de Tinashe. – Laís David
Big Red Machine – How Long Do You Think It’s Gonna Last?
A gigante dupla Aaron Dessner (fundador do The National) e Justin Vernon (fundador do Bon Iver) não parece confortável em aceitar o status de supergrupo. Recebendo o nome de Big Red Machine, a dupla lança seu segundo álbum de estúdio, How Long Do You Think It’s Gonna Last?, com participações que vão de Taylor Swift e Anaïs Mitchell à Fleet Foxes e Ben Howard — sem dúvida, um super grupo. No ano passado, a dupla também lançou a faixa No Time For Love Like Now, com participação de Michael Stipe, do R.E.M..
O álbum constrói uma experiência levemente melancólica, com elementos que compõem um teor altamente poético, como o suave refrão de Latter Days (feat. Anaïs Mitchell) ou a leve, porém marcada, bateria de Phoenix (feat. Fleet Foxes & Anaïs Mitchell). Em The Ghost of Cincinnati — uma das faixas mais interessantes nesse álbum, e uma das poucas sem participações especiais — existem acenos quase descarados a Elliott Smith, e o violão dá forma a um tipo de balada acústica muito semelhante à Angeles, de Smith.
How Long Do You Think It’s Gonna Last? é composto por canções tranquilas, sem grandes rodeios, mas ainda musicalmente interessantes. Os artistas convidados parecem ter se adaptado à ideia do projeto, com exceção de Taylor Swift em Renegade (feat. Taylor Swift). Nessa colaboração, Swift leva todo o protagonismo, e a canção parece, na realidade, uma participação especial de Big Red Machine. – Bruno Andrade
Angus & Julia Stone – Life Is Strange
O primeiro álbum dos irmãos Stone em quase quatro anos também serve de trilha sonora para o jogo Life is Strange: True Colors, que será lançado dia 10 de setembro. Produzido entre os projetos solos de Angus e Julia, o disco é uma combinação de folk e indie pop que reflete sobre as relações entre família e comunidade, assim como o amor: “Sempre voltamos ao amor e a coisas que partem do coração. Quando tudo o mais falhar, o amor será aquilo que conquista.”
Essa inclinação romântica está em evidência durante todo o disco, e eleva o soundtrack além de sua relação com o jogo, apesar de algumas faixas certamente estarem referenciando acontecimentos de sua narrativa. Embora a história completa de Alex Chen e do resto dos habitantes de Heaven Springs só chegue ao nosso conhecimento em setembro, Angus & Julia Stone contam em Life Is Strange uma narrativa inteiramente deles, e que com certeza ressoa com outras pessoas. – Gabriel Oliveira F. Arruda
Kat Von D – Love Made Me Do It
Falta espaço para Kat Von D expressar suas inspirações artísticas. A tatuadora, atriz, maquiadora, empresária e apresentadora agora estreia no mundo da Música através de Love Made Me Do It. O momento é ensaiado pela artista há muito tempo, que demonstrava seu interesse musical vez ou outra, e agora, ela inaugura seu espaço próprio no que é uma de suas paixões: o rock.
Anunciado por singles enérgicos, o primeiro contato que o disco estabelece com o seu ouvinte pode decepcionar, mas este não deve deixar-se levar pelas impressões da introdução inexpressiva. Depois da primeira faixa, a artista guarda um rock glamouroso para ser explorado. Contando com uma ponta de pop diretamente influenciada pela atitude de Madonna nos anos 80, Kat Von D mergulha em sintetizadores para emergir como uma deusa gótica reflexiva em Vanish, e entre os altos e baixos do disco, esse é o tom que ela mantém em todas as 12 faixas do álbum.
Toda a adoração que ela guarda pelo gênero compõe o sabor agridoce do disco, que é refrescado em faixas como Fear You e Lost At Sea, e quase elevado na falsa balada Easier Sung Than Said. A identidade marcada pode fazer com que Love Made Me Do It seja um pouco enjoativo, mas prova o que Kat Von D realmente quer: fazer rock e criar um novo universo para si mesma. E parece que o amor a fez fazer isso. – Raquel Dutra
Tasha & Tracie – Diretoria
Diretamente da Zona Norte de São Paulo, nasce o disco das gêmeas Tasha & Tracie. As irmãs que começaram sua jornada com o rap nas batalhas paulistas – da onde nomes como Emicida e Projota vieram – estreiam Diretoria, com sete faixas que viajam entre diversos gêneros, experimentando uma mistura harmoniosa e rica de letras inteligentes.
Do funk até o trap, é com a confiança em seu talento que as garotas se arriscam para não estacionar em apenas um estilo musical. “Hoje, a gente não depende tanto que um Fulano X importante naquele meio ouça o seu som e te ajude na sua caminhada”, comentou Tasha sobre não terem medo de experimentar coisas novas. SUV, a penúltima e melhor canção do EP, é um resumo da habilidade das meninas em fundir um pouco de tudo para construir uma verdadeira obra prima. – Mariana Chagas
Indigo De Souza – Any Shape You Take
Darker Than Death, Real Pain e Kill Me poderiam ser títulos bastante esperados para uma banda de grindcore, mas estão todas na tracklist do novo disco da cantora de indie rock Indigo De Souza, acompanhada de sua banda. Nele, a estadunidense filha de brasileiro, expressa sentimentos intensos, mas quase sempre mantendo sua voz delicada.
A capa já denuncia a morbidez colorida de Any Shape You Take, que mesmo nos momentos em que se mantém próxima da fórmula tradicional esperada do gênero, carrega as dores e anseios de sua autora. Em seu segundo álbum, Indigo De Souza já consegue delinear bem sua identidade artística, e não seria surpresa vê-la se destacando cada vez mais na cena indie nos próximos anos. – João Batista Signorelli
CHVRCHES – Screen Violence
Três anos depois que o amor morreu, o trio escocês CHVRCHES está de volta com mais batidas eletrônicas e letras instigantes em seu quarto álbum de estúdio, Screen Violence. Inspirado na estética do Cinema de terror, o novo trabalho da banda é marcado pela ferocidade de sua mensagem e a química entre seus integrantes.
Desde as primeiras e tímidas notas de Asking for a Friend até os vocais exaustos e desesperados de Better If You Don’t, fica claro que o disco foi produzido por artistas em perfeita sincronia uns com os outros. Se a maior força de CHVRCHES sempre foi a junção das letras intimistas de Lauren Mayberry com os instrumentais sintéticos de Iain Cook e Martin Doherty, Screen Violence representa o ápice dessa harmonia.
Apesar de manter uma atmosfera tensa ao longo das dez faixas (o single How Not to Drown conta com os vocais sombrios de Robert Smith, vocalista do The Cure), a violência titular do álbum parece vir de suas canções mais upbeats. Seja na sequência explosiva de Final Girl para Good Girls quanto na qualidade onírica entre Lullabies e Nightmares, a “violência das telas” sobre a qual o trio canta nunca deixa de ser o foco do novo disco. – Gabriel Oliveira F. Arruda
EPs
Ney Matogrosso – Nu Com a Minha Música
Ney Matogrosso pode cantar o que bem quiser, e ele parece ter consciência plena disso. É o que comprova Nu Com a Minha Música, EP lançado em 1º de Agosto, mesmo dia em que o inigualável intérprete completou 80 anos de vida. Comemoração certeira, sem composições inéditas, essa obra bela e breve abre portas com um afago de esperança. Isso porque, na faixa-título, a primeira do EP, Ney canta um sentimento atualíssimo, embora externalizado por Caetano Veloso em 1981: “Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor/Vertigem visionária que não carece de seguidor”.
Nem bem trocamos de faixa, a sonoridade e a língua da segunda canção já são outras. É em Mi Unicornio Azul, composição do cubano Silvio Rodríguez, que Ney transcende em nível absoluto, demonstrando ser um cantor ainda muito habilidoso. E logo em seguida, Se Não For Amor Eu Cegue, de Lenine e Lula Queiroga, substitui o ato sublime por uma alegria apaixonada. Para finalizar, ainda temos a sorte de pedir um “toca Raul!”, pois é a famosa Gita, de Raul Seixas e Paulo Coelho, que finaliza o extended play. Após escutar o EP, resta-nos apenas uma forte curiosidade, já que o álbum homônimo está previsto para sair somente em novembro deste ano. – Eduardo Rota Hilário
Allison Ponthier – Faking My Own Death
Talvez um dos melhores jeitos de se conhecer é mudando da casa dos nossos pais, deixando nossa cidade natal para trás. É no meio dessa jornada que Allison Ponthier inicia seu EP, Faking My Own Death. Trilhando por vários temas, cada uma das 6 músicas conta uma história. O que todas têm em comum é a tentativa da cantora de tentar se entender e explicar através das letras.
Nascida em Texas, assumidamente parte da comunidade LGBTQIA +, Allison escreve sobre todas as ansiedades que moram em sua cabeça. Entre o folk e o country, ela se uniu a Rick Nowels para produzir o disco. O artista que já trabalhou com Adele, Lana Del Rey e outros grandes nomes foi a dupla perfeita para que a cantora conseguisse desenvolver as ideias que, segundo ela, já existiam em sua cabeça a anos. – Mariana Chagas
Supercombo – Supercombo
Depois do álbum Adeus, Aurora de 2019 e da versão deluxe em 2020, o primeiro grande projeto da banda Supercombo em 2021 é o EP homônimo Supercombo. O lançamento chegou no começo do mês e conta com sete faixas, todas regravações de músicas do quinteto que ainda não haviam sido lançadas em plataformas digitais.
O grupo reúne canções antigas como Farol, de 2010, Sorte e Azar e Saudade, que ganhou uma versão produzida pela baixista da banda Carol Navarro, a outras mais recentes, como Cebolas, com a participação do produtor e vocalista da Fresno, Lucas Silveira. O rock nacional e as letras existenciais da Supercombo mudam, mas não perdem a essência ou a validade: Supercombo resgata e renova o antigo, sem precisar reinventar o que não ficou ultrapassado. – Vitória Lopes Gomez
Angel Olsen – Aisles
Depois de trazer algumas das canções mais tristes do passado recente em sua fase monocromática sintetizada na compilação Songs of the Lark and Other Far Memories, os dois singles lançados no último mês, as melhores canções do EP, já apontavam que o que agora Angel Olsen quer mesmo é esquecer dos problemas e se divertir. Ainda que mantendo a forte presença do efeito reverb e dos sintetizadores que caracterizaram algumas das canções de All Mirrors, os covers de clássicos dos anos 80 em Aisles são mais leves, coloridos, e até dançantes.
Livrando-se do peso de realizar um projeto ambicioso, sobra o espaço para brincar, experimentar com os sons e reimaginar as músicas que a acompanharam desde a infância. Mas nem sempre a brincadeira dá certo. O EP tem seus momentos de estranheza, como as mudanças súbitas de tonalidade em If You Leave que simplesmente não se encaixam como na versão original, ou os versos de Forever Young que não fluem bem em um ritmo um tanto desconjuntado. O descompromisso em fazer outra vez um projeto ambicioso ameniza os tropeços de Aisles, pois ao final o importante é saber que Angel Olsen está se sentindo bem fazendo a música que a faz feliz.– João Batista Signorelli
Priscilla Alcantara – Tem Dias (Expansão)
A transição de Priscilla Alcantara do gospel para o pop continua em Tem Dias (Expansão), registro de estúdio lançado em agosto e que abusa de suas base vocal potente para cantar letras de libertação e desassossego. Ao longo de apenas 4 faixas, a ex-apresentadora do Bom Dia e Cia se desvincula ainda mais da imagem de princesa que cultivou por tanto tempo.
Tem Dias (Expansão) conta com a tutela de Lucas Silveira, da banda Fresno, e esse detalhe se reflete com bastante alarde ao longo dos menos de doze minutos do EP. O destaque óbvio é música 3 do trabalho, onde Priscilla divide sua voz com Silveira, em uma canção que cresce exponencialmente até que a explosão seja inevitável. – Vitor Evangelista
Madu – Estudando Tom Zé
Nunca foi segredo que Tom Zé é dono de uma “música sofisticada”, mas isso não forma qualquer tipo de barreira para o cantor Madu. Se pudemos sentir, no álbum Dharma, um pouco da proximidade com esse repertório complexo e arriscado, mais especificamente na gravação de duas composições da lenda tropicalista, Tô e Vai (Menina Amanhã de Manhã), agora uma certa naturalidade em explorar e criar a partir desse universo é, além de muito atrativa, explícita. Estudando Tom Zé, Madu revigora e dá roupagem própria a cinco canções que mereciam esse renascimento digno, apropriado e admiravelmente belo.
Já no título desse EP, a alusão ao álbum Estudando o Samba – clássico de Tom Zé, lançado em 1976, e um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos – prometia alguma grandeza. Mas nem imaginávamos que composições mais simples, como Sandália, alcançariam um nível tão sublime. Sem muitos spoilers, porque é um trabalho que realmente merece ser escutado, o auge do Extended Play está, talvez, na faixa Mãe (Mãe Solteira), gravada com Elisa Gudin: nessa preciosidade, percorremos um caminho repleto de sutilezas humanas, tal como a solidão. No fim das contas, não é exagero afirmar que Estudando Tom Zé é uma das melhores imersões musicais possíveis no mês de Agosto. – Eduardo Rota Hilário
Red Velvet – Queendom
Depois de um ano e meio sem lançamentos desenfreados, a girlband mais carismática (mesmo com um leve toque dark) está de volta com seu sexto mini álbum – ou como costumamos chamar, sexto EP -. Queendom é um mais do mesmo que ainda funciona. Com uma estética semelhante a Era Perfect Velvet e com canções que se assemelham ao The Velvet, o álbum não inova.
Apesar de não trazer nada de especial, Queendom chega quebrando recordes. É graças a ele que Red Velvet se tornou o primeiro girl group a alcançar o topo da lista do iTunes americano por quatro lançamentos consecutivos, quase triplicando o próprio número de vendas. A faixa-título também conta com um clipe que não foge do esperado: magia, cores saturadas, entrega de coreografias e efeitos visuais. – Ana Júlia Trevisan
Blackbear – misery lake
Nas palavras do próprio Blackbear, seu mais recente lançamento, o EP misery lake, “é sobre isolamento, é basicamente sobre a quarentena e como você pode se sentir doido e se sentir feliz e se sentir horrível tudo ao mesmo tempo”. O rapper americano conseguiu canalizar os terríveis sentimentos que marcaram 2020 e condensá-los nas seis faixas que compõem o trabalho, concebido na quarentena.
Ainda que caiam na fórmula pop repetida do artista, as letras melancólicas resumem o estado emocional de Blackbear e transmitem a ansiedade e a solidão do ano atípico. Com seus refrões chiclete, misery lake torna o amargo viciante. Talvez esquecer dos sentimentos conflitantes que compartilhamos e cantá-los ao som de batidas genéricas seja divertido, afinal. – Vitória Lopes Gomez
ADOY – her
Sobre K-pop já estamos cansados, ou até mesmo saturados, de ouvir. Mas, rufem os tambores, pop não é o único gênero da Coreia. E, é fugindo das grandes produções e performances pitorescas, que ADOY se firma como um grupo de indie, já tendo vencido grandes prêmios sul coreanos como o Seoul Music Awards na categoria Prêmio Especial de Juiz.
O retorno do grupo aconteceu com o lançamento do EP her. O trabalho funciona como uma continuação do álbum Vivid, de 2019. As canções seguem a marcante sonoridade do indie que já conhecemos através das bandas ocidentais. Entre as faixas, o single Baby ganha destaque por seu vocal feminino, Saint faz um desabafo sincero ao mesmo tempo que grita de desespero e Up, a instrumental que encerra o trabalho de maneira sombria, diferente de tudo que havia sido feito nas cinco faixas anteriores, virando a chave para abrir um novo caminho para a banda. – Ana Júlia Trevisan
Tiwa Savage – Water & Garri
Sob o título de Rainha do Afrobeat, Tiwa Savage faz mágica. Aclamada pelo trabalho musical que fez em Celia (2020) e R.E.D (2016), a nova obra da artista é Water & Garri, um EP composto por cinco faixas que reforçam a sua preciosidade. Depois de viver o estrelato em escala mundial e se transformar em um dos principais nomes do pop africano, Savage se volta para suas raízes, dando vida a canções íntimas e delicadas enquanto beira um R&B completamente autêntico.
A faixa que melhor traduz essa identidade é Work Fada, que abre o EP na companhia do vencedor do Grammy Nas. Com o espaço preparado, a artista divide seus sentimentos em Somebody’s Son contando com a participação de Brandy, e assim segue nos versos em iorubá de Ade Ori. Depois do pop doce de Special Kinda, o destaque vai para a beleza imersiva de Tales by Moonlight, que nos faz reverenciar Tiwa Savage do jeito que a Rainha do Afrobeat merece. – Raquel Dutra
Músicas
Lucy Dacus – Going Going Gone (Edit)
Sem tempo para saudades, Lucy Dacus revisita Going Going Gone de Home Video, após um mês de lançamento do terceiro álbum solo de sua carreira. Na reedição, nada de novo é posto sobre a mesa. Dacus apenas opta por descartar o final charmoso da versão original, que entre risadas e conversas com amigos, faz com que quase participássemos daquele breve momento de calor genuíno. De resto, ainda testemunhamos as mesmas memórias que compuseram a faixa, num auto-exame empático da artista sobre a juventude traumática. Permanece o coro de fundo invejável formado pelas companheiras de banda boygenius, Julien Baker e Phoebe Bridgers, além de Mitski e Beans, o cachorro de Julien Baker. – Ayra Mori
Valesca Popozuda – Presentinho
Agosto foi motivo de comemoração para os popofãs. Mal começou o mês e os apaixonados pela cantora Valesca Popozuda já receberam um Presentinho da diva do funk. Baseado em um episódio da vida sexual da artista, o novo single de Valesca é divertido e sem pudores, embora não seja totalmente explícito, como algumas das canções mais populares da funkeira carioca. Acompanhada de um videoclipe mais quente que pimenta malagueta, repleto de coreografia e sensualidade, essa nova canção é, a princípio, muito curta. Mas logo percebemos ser o tempo ideal para quem quer – ou sente muita falta de – rebolar a raba. – Eduardo Rota Hilário
Lizzo e Cardi B – Rumors
New era bicth! Foi assim que Lizzo chegou em seu Instagram anunciando o lançamento de seu novo single, Rumors. Com participação especial da futura mamãe, Cardi B, a artista canta sobre todas as fofocas que estão circulando sobre ela pela internet e confirma que sim, tudo o que você ouviu é verdade.
Ser uma mulher preta e gorda de sucesso incomoda. Em live depois da faixa ter sido lançada, a cantora desabafou sobre comentários preconceituosos que vem recebendo. “Estou colocando tanto amor e energia no mundo e às vezes parece que o mundo não me ama de volta”, lamentou. Deve ser uma pena para essas pessoas ignorantes, então, terem de lidar com o sucesso de Rumors, que debutou no top 10 de todas as plataformas.
O clipe dirigido por Tanu Muino coloca as artistas em um ambiente bem Hercules. Ambas vestidas completamente de dourado, Lizzo e Cardi parecem, de fato, semideusas. Ainda sem informações a respeito de um novo disco, a única coisa que sabemos sobre futura era da dona de Truth Hurts é que muito mais hits estão a caminho. – Mariana Chagas
Aly & AJ – Pretty Places (St. Lucia Remix)
Com sua batida pop mais evidente e seus tons de country diminuídos, a nova versão de Pretty Places remixada pela banda St. Lucia continua sendo uma ótima música de road trip para quando você estiver pensando em deixar tudo para trás. O novo remix de uma das melhores faixas do último disco das irmãs Michalka troca os violões pelos sintetizadores, mas nem por isso deixa de incitar o ouvinte a meter o pé na estrada e ligar o rádio, remetendo ao som dos EPs anteriores da dupla sem comprometer sua nova identidade. – Gabriel Oliveira F. Arruda
black midi – Cruising
Depois de entregar nada menos do que um dos melhores discos de 2021, a banda britânica black midi retorna com uma gravação remanescente das sessões de Cavalcade que antes estava presente apenas na edição japonesa do álbum como faixa bônus. Abrindo com uma guitarra e cordas misteriosas, além dos vocais chorosos, a faixa alterna entre momentos de tensão estridente e outros de uma inesperada delicadeza quase romântica.
Com isso, faz sentido a decisão do guitarrista e vocalista Geordie Greep de não manter a faixa na versão final do álbum, uma vez que seu ritmo mais lento não parece harmonizar tão adequadamente com o frenetismo de Cavalcade. De qualquer modo, ainda bem que esse não foi motivo suficiente para que Crusing permanecesse guardada: o single enriquece ainda mais o catálogo da banda, revelando mais uma de suas múltiplas facetas. – João Batista Signorelli
The Weeknd – Take My Breath
A despeito das polêmicas envolvendo o Grammy, ninguém contesta o fato de que After Hours foi um evento para a música pop. Não porque ele instituiu de vez o som dos anos 80 como tendência da indústria – esse retorno ocorre desde o início da década e The Weeknd já o explorava em Starboy, de 2016 –, mas sim por como o cantor enquadra essa estética tanto em sua identidade artística quanto no contexto em que ele se insere. A discrepância entre os sintetizadores futuristas e solares e suas letras melancólicas e soturnas; a oposição entre a opulência e elegância do terno vermelho e da vida em Las Vegas e seu rosto deprimido e todo arrebentado; é por ele costurar tais signos à primeira vista contraditórios, ressignificá-los em um conceito totalmente novo e, desse modo, utilizar da nostalgia para comentar nossa realidade contemporânea, que esse álbum é tão genial.
Visto isso, é uma surpresa que, após um projeto tão aclamado, Abel retorne tão cedo divulgando seu próximo disco, que por enquanto tem sido apelidado de The Dawn. “The After Hours are done and The Dawn is coming”, é o que The Weeknd afirma desde seu discurso no Billboard Music Awards 2021, quando ele também abandonou oficialmente o icônico traje de After Hours. Logo, aparentemente, a premissa é essa: criar uma narrativa complementar entre as duas eras, explorando a dualidade entre uma atmosfera noturna e catastrófica e uma musicalidade diurna e otimista, o que justifica o intervalo curto que separa ambas. E, posto isso, qual foi o single escolhido para abrir esse novo alvorecer? Agora sim, chegamos em Take My Breath.
Como era de se esperar, é exatamente esse o caminho que o artista toma com o novo single. Take My Breath reafirma a estética oitentista de seus trabalhos anteriores, porém, desta vez, a elevando para o âmbito de temática. Com produção de Max Martin, que também tem dedo em Blinding Lights, a faixa é vibrante, dançante, radiante e The Weeknd entrega seus vocais com muita personalidade. Contudo, ao invés de pegar o formato e reinventá-lo de sua maneira, ele parece aliar-se à uma nostalgia formulaica – à essa altura já datada –, o que preocupa sobre qual será o resultado final de The Dawn. Daft Punk, Dua Lipa, Jessie Ware e outros artistas já usaram e abusaram dessa faceta da década de 80 antes, o que faz com que ouvir o novo lançamento de Abel dê uma sensação constante e estranha de déjà vu. Take My Breath é uma boa música, porém uma que já ouvimos inúmeras vezes antes. – Enrico Souto
Kim Petras – Future Starts Now
Em seu primeiro lançamento após assinar com a gravadora Republic Records, a princesa Kim Petras nos dá uma prévia do que está por vir. Nada preocupada em esconder a empolgação da nova fase de sua carreira, Petras canta por quase cinco minutos sobre as perspectivas positivas do amanhã. A parte ruim? O nome de Dr. Luke ainda aparece na ficha técnica da faixa. – Vitor Evangelista
Shawn Mendes & Tainy – Summer of Love
São tempos difíceis para o hitmaker que um dia existiu em Shawn Mendes. Desde seu último álbum, Wonder (2020), o astro pop parece viver um momento de confusão artística, buscando algum tipo de solução numa música mais influenciada por gêneros latinos. E o artista parece empenhado em seguir este caminho, já que depois do desempenho frustrante de sua parceria com Camilo, ele voltou a tentar algo próximo do reggaeton em seu novo single, Summer of Love. Nem mesmo o brilhantismo de Tainy, que assina algumas das produções mais bem-sucedidas no estilo que Shawn persegue, deu conta de trazer personalidade à canção. – Raquel Dutra
Tony Bennett & Lady Gaga – I Get A Kick Out Of You
Dez anos após a primeira colaboração entre os dois, e sete anos após o elegantíssimo álbum Cheek To Cheek, Lady Gaga e Tony Bennett estão juntinhos pela última vez. Diagnosticado com Alzheimer desde 2016, Tony se despede da vida pública por recomendações médicas. Mas antes, ambos lançam, em 1º de outubro, o disco Love For Sale. E o primeiro single do projeto, I Get A Kick Out Of You, apesar de não ter uma arte própria – pois se aproveita da capa do álbum vindouro -, dá pistas de uma obra possivelmente magistral, que tem muitas chances de nascer aclamada.
Composição de Cole Porter, como mandam os planejamentos do próximo CD, a nova versão de um verdadeiro clássico norte-americano talvez esteja à altura de gravações lendárias, a exemplo de Ella Fitzgerald. Se Tony e Gaga têm relevâncias inquestionáveis, é essencial reafirmar que existe uma conexão verdadeira e, de certo modo, fraterna entre os dois. Inegavelmente, isso está nítido no novo single, que narra a infelicidade de um sujeito que só se alegra ao lado de alguém especial. Ao contrário da letra, porém, a admiração e alegria entre Tony e Gaga é totalmente recíproca.
Num clipe intimista e emocionante, as lágrimas da nossa Mother Monster partem o coração de qualquer ser minimamente sensível. Mas ela provavelmente sabe que Tony Bennett cumpriu tudo o que deveria cumprir em vida – e, se duvidar, até mais do que isso. “Tony está sempre pronto”, afirma Gaga, categoricamente. Honrando o legado dessa lenda, ela poderia – paralelamente ao pop, é claro – sempre beber das águas do jazz. Afinal, quem admira o potencial vocal dessa diva estaria nos céus, e ela ganharia ainda mais notoriedade. De qualquer modo, I Get A Kick Out Of You já foi um baita presente de Agosto. – Eduardo Rota Hilário
CHVRCHES – The Killing Moon (Amazon Original)
Na reta final para o lançamento do álbum Screen Violence, a banda de synthpop escocês CHVRCHES nos agraciou com um cover da clássica dos anos 80, The Killing Moon, do grupo Echo & the Bunnymen, exclusiva da playlist DV8 do Amazon Music. Mantendo a melodia enervante enquanto adicionam sua própria personalidade, eles conseguem recriar o sentimento sinistro e misterioso da faixa original, combinando perfeitamente com a nova fase do trio, inspirada em filmes de terror clássicos.
Os vocais de Lauren Mayberry substituem muito bem os de Ian McCulloch, capturando a letra macabra e expandindo-a através dos sintetizadores que formam a marca registrada dos escoceses. Não é surpresa, portanto, que ela seja uma das inspirações por trás do novo disco da banda, que a associa ao filme Donnie Darko. – Gabriel Oliveira F. Arruda
ANAVITÓRIA e Jovem Dionísio – Aguei
Começou com bolo de cenoura no Instagram, terminou com ANAVITÓRIA levando as putarias poéticas a outro nível. Em parceria com a banda Jovem Dionísio, Aguei imagina o pré-flerte em uma letra poeticamente (claro) sensual e provocativa. Com uma sonoridade mais distante daquela que o duo costuma apostar e que se aproxima mais da do quinteto, a canção cai como uma luva às meninas da ANAVITÓRIA e acompanha um clipe igualmente divertido e provocativo… para quem não vê a hora de voltar para os rolês. – Vitória Lopes Gomez
Dead Sara – Heroes
Após a frenética Hands Up no final do ano passado, a banda Dead Sara resolveu dar um tempo enquanto planejavam seu próximo disco e marcavam datas para a próximo tour. Dispensando o ritmo frenético do single anterior, Heroes é uma canção mais compassada e pesada, tanto na letra quanto em seus instrumentos.
Os vocais encantadoramente roucos de Emily Armstrong são complementados belamente pela guitarra de Siouxsie Medley e a bateria de Sean Friday, enquanto sua vocalista pondera que “Todos os meus heróis estão mortos/Vivendo na minha cabeça/Estou desistindo, agora estou desistindo”. Com um clipe na vibe “feito em casa” dirigido por Matthew Odom, Dead Sara oferece mais um gostinho de seu próximo trabalho, o disco Ain’t it Tragic, que sai 17 de setembro. – Gabriel Oliveira F. Arruda
J Balvin – Que Locura
“Qué locura, mami, qué locura”. Melhor ainda: que sofrência, gata, que sofrência. O novo single de J Balvin é puro sofrimento passional. E assim como as obras de inúmeros outros cantores – alô, Cher do final dos anos 1990 -, Que Locura te fará sofrer dançando. Com uma voz quase robótica, que cabe perfeitamente nas gravações do astro do reggaeton, porque soa natural, esse lançamento é mais uma prova de que J Balvin tem bastante fôlego para trabalhar. Se é verdade que não nos deparamos com uma composição muito profunda – e vale ressaltar que esse nem é o propósito dela -, recebemos, por outro lado, um videoclipe completamente conceitual, dirigido por José Emilio Sagaró. Fiquemos agora no aguardo de José, álbum programado para sair já em Setembro. – Eduardo Rota Hilário
Guns N’ Roses – ABSUЯD
Foram 13 absurdos anos de espera desde Chinese Democracy, de 2008, para que os seguidores fiéis de Guns N’ Roses pudessem ouvir novamente uma música gravada em estúdio. ABSUЯD é tudo aquilo que a banda clássica promete: agressiva, gritante e cheia daqueles vocais marcantes de Axl Rose que, apesar de já terem sido melhores, ainda empolgam aos que ouviam November Rain religiosamente.
Ao lado dos integrantes originais Slash e Duff McKagan desde 2016, Axl prova que o tempo pode passar, mas o entrosamento da banda sempre será algo de outro mundo. A faixa, na verdade, é uma regravação de Silkworms, tocada em shows mais recentes, porém nunca lançada pelos músicos. Com uma medusa saída diretamente de um filme de terror, o punk berrado de ABSUЯD é o retorno de Guns N’ Roses que tanto desejamos. – Caroline Campos
Elza Soares – Drão (Remasterizado)
Elza Soares, uma das vozes mais emblemáticas da Música brasileira, dispensa apresentações. Drão, canção original de Gilberto Gil, foi gravada por ela nos anos 90, mas havia permanecido guardada desde então. Foi somente neste mês de Agosto que finalmente a versão, já remasterizada, se tornou disponível para o público. Com uma gravação antiga, Elza chegou surfando numa onda moderna: adentrando o mercado de NFTs junto a outros nomes de sua geração como João Donato e Hermeto Pascoal, uma porcentagem dos direitos sobre a canção está sendo leiloada na plataforma Phonogram.me.
A canção que marcava a separação entre Gil e Sandra Gadelha ganha contornos ainda mais dramáticos e emotivos na voz de Elza Soares, acompanhada por um violão delicado e por texturas sonoras que ampliam o escopo da canção em seus momentos finais. Drão já havia interpretada por Elza nos palcos, e agora com esta versão passa a integrar a ampla coleção de relíquias da mulher do fim do mundo. – João Batista Signorelli
Bastille – Thelma + Louise
O caleidoscópio que é Thelma + Louise eleva a nova canção da Bastille para uma verdadeira e completa experiência imersiva. Se Give Me The Future e Distorted Light Beam, os dois primeiros singles do próximo álbum do grupo, já abriram a nova era da banda misturando o sonoro ao visual, a estética futurista e contagiante continua no terceiro, que agrega ainda mais ao universo escapista em construção com as referências cinematográficas.
Não só pelo nome, as certeiras alusões ao clássico Thelma & Louise tornam impossível não recordar o filme, as imagens ocupam a mente quando Dan, vocalista da Bastille, quer dirigir para o final do mundo em um Thunderbird. A adoração do frontman pela obra pode até servir como desculpa para a inspiração e com certeza é animador pescar as semelhanças entre a letra e o longa, mas a canção vai além da homenagem.
O quarteto faz da referência uma narrativa: eles já haviam clamado pelo futuro e suas possibilidades, depois pedido pela ilusão e pela ficção, agora, em Thelma + Louise, querem escapar do mundo em que se encontram, como as protagonistas do longa. Se vão conseguir… o álbum novo do Bastille já chegará antecipado. – Vitória Lopes Gomez
Black Eyed Peas, Saweetie e Lele Pons – HIT IT
Um ano após o lançamento de TRANSLATION, o trio Black Eyed Peas retorna. Acompanhada da magnética Saweetie e do artista de origem venezuelana Lele Pons, a banda cria em HIT IT uma canção ordinária, extremamente acalorada e um tanto abafada. Sem planos concretos sobre um próximo lançamento de estúdio, eles continuam apostando no mercado latino, provando que, com uma batida “envolvente”, a mediocridade pode ser camuflada com as cores vivas do vídeo. – Vitor Evangelista
Ed Sheeran – Visiting Hours
É difícil colocar em palavras todos os sentimentos que guardamos conosco, ainda mais se tratando de uma perda recente. Feita como homenagem ao amigo Michael Gudinski, falecido em março desde ano, Visiting Hours é emocionante. Ainda que seja uma música sobre luto e, consequentemente, uma conjunção de saudade e melancolia, Ed Sheeran consegue trazer um certo equilíbrio mostrando alguns ensinamentos aprendidos com Michael como se fosse uma prece.
Ao mesmo tempo que é um de seus trabalhos mais íntimos, Ed Sheeran conseguiu escrever Visiting Hours para o público. Infelizmente, muitas pessoas se foram durante essa pandemia e, com certeza, muitas delas conseguem sentir a mesma dor que o britânico proclama: o fato de Michael não ter conhecido sua filha Lyra, de estar com medo de se tornar um fracasso e a falta que os conselhos dele fazem. A música possui uma aura astral, no sentido primitivo da palavra, e é em seu clipe que isso se estabelece com mais facilidade.
Como muitos cantores de sua geração, foi dentro da igreja que ele começou a dar seus primeiros passos na carreira musical. Por motivo de Visiting Hours trazer uma mensagem de fé, explícito em seu primeiro verso “Eu queria que o céu tivesse horário de visitas”, todo o clipe foi gravado dentro de uma capela. De forma simples, Ed Sheeran consegue captar muito mais emoção e muito mais lágrimas do ouvinte. Deixe uma caixa de lenços do lado, ainda mais se você consegue sentir a dor de Ed Sheeran na pele. – Júlia Paes de Arruda
FINNEAS – A Concert Six Months From Now
O talentoso ganhador do Grammy FINNEAS decide voltar a se concentrar em sua própria carreira de cantor. Depois de ajudar sua irmãzinha, Billie Eilish, com Happier Than Ever, o artista se prepara para lançar seu primeiro álbum de estúdio. O intitulado Optimist está marcado para sair no mês de outubro.
Depois de acabar ano passado com What They’ll Say About Us, FINNEAS apresenta, em agosto, seu novo single, designado na tracklist do disco como a primeira faixa. A Concert Six Months From Now se inicia com sons de um show prestes a começar mas, no clipe dirigido por Sam Bennett, a plateia é composta por cadeiras vazias.
A solidão do cantor no anfiteatro é uma representação do como se sente ao pensar em sua ex. Em uma canção que viaja entre sussurros baixos e uma gritaria chorosa acompanhada por guitarra, Finneas começa a letra confessando já ter comprado dois ingressos para assistir a banda favorita de sua ex-e-talvez-futura namorada. Você iria comigo em um concerto daqui a seis meses? é a pergunta que finaliza a música. – Mariana Chagas
Irmãs de Pau e Jup do Bairro – Hermanas
Pode comemorar, que são “las travestis pretas dominando tudo”: após estrearem no cenário musical brasileiro com a faixa Travequeiro, as Irmãs de Pau estão de volta com o single Hermanas. Parceria com a incomparável Jup do Bairro, essa canção mistura portugês e portunhol numa verdadeira celebração das liberdades, principalmente a sexual. Sem dúvidas, é uma ótima escolha para as pistas de dança, que tanta falta fazem em tempos assustadores e incertos.
Investigando essa canção pela primeira vez, identificamos, logo de cara, algumas referências mais óbvias. Seja no “qualquer coisa, me bota no paredão”, de Karol Conká, ou na releitura de Satisfaction, de Benny Benassi, elas são detalhes curiosos – e inesperados – dentro dessa letra. Com produção de BADSISTA e Mu540, Hermanas antecipa o EP Dotadas. E, certamente, a curiosidade ao redor do futuro Extended Play é grande, já que a dupla ainda está nos primeiros passos de uma discografia. – Eduardo Rota Hilário
Phoebe Bridgers – Kyoto Remixes
No mês de aniversário de Phoebe Bridgers, nós ganhamos o presente. Depois do sucesso esmagador do álbum Punisher, levando Bridgers a 4 indicações no Grammy 2021, a faixa Kyoto — responsável por duas delas — ganhou três novos remixes. Kyoto (Glitch Gum Remix) foi composta por Glitch Gum a convite de Bridgers, e traz uma versão hyperpop da música, com elementos que lembram o dubstep e o brostep.
A versão de Bartees Strange, Kyoto (Bartees Strange Remix), está mais próxima de um cover que de um remix, e é possivelmente a que chega mais perto da original. Strange traz também uma versão eletrônica da faixa, porém mantém sons orgânicos na canção, com um baixo cru, sem pedais, e backing vocals com poucos efeitos. Em compensação, a interpretação de The Marías, Kyoto (The Marías Remix), flerta com o psicodélico, mas não chega exatamente ao ápice da psicodelia, proporcionando ao hit uma camada música-de-balada. – Bruno Andrade
Kacey Musgraves – star-crossed e justified
Ao longo da última década, Kacey Musgraves revelou-se como uma inusitada voz progressiva em meio ao gênero da música country. Abraçando temáticas muito mais recorrentes de uma música pop das metrópoles, a cantora-compositora nascida no interior texano que já ganhou 6 Grammys se prepara para o lançamento de seu novo álbum star-crossed, que será acompanhado de um filme de mesmo nome pelo Paramount+.
Enquanto essa dobradinha não vem, ela nos deixa com dois singles: a faixa que dá o título ao disco e justified. Enquanto esta segunda evidencia sua aproximação a um pop semi-acústico um tanto genérico, star-crossed é uma grata surpresa, que em pouco menos de 3 minutos cresce de uma guitarra espanhola intimista para uma potente final ascendente com direito a harpas, um coro, arpeggios sintetizados. – João Batista Signorelli
BTS e Megan Thee Stallion – Butter
Se BTS sozinho já é sucesso, quando unido à lendária Megan Thee Stallion, vencedora do Grammy de Artista Revelação em 2021, não tem como dar errado. Depois de ter Butter no seu último projeto, os meninos do grupo se uniram à cantora para o remix ainda mais animado da faixa.
Mas a música não foi tão simples de ser lançada. Já tendo uma relação complicada com sua gravadora, Megan precisou brigar na justiça para conseguir soltar seu trabalho com os garotos. Ainda bem que no final deu tudo certo, pois a canção divertida e viciante debutou com tudo nos charts. – Mariana Chagas
Big Thief – Little Things e Sparrow
Submersos por uma paisagem bucólica, longe do caos do mundo, Big Thief retorna com duas faixas desde o aclamado U.F.O.F e Two Hands. Gravadas em 2020, Little Things e Sparrow foram registros de sessões isoladas em Topanga e Catskills, respectivamente, produzidos pelo baterista da banda, James Krivchenia. Com as mesmas raízes folk de sempre, o grupo indie rock prova mais uma vez sua maestria em transformar momentos banais em narrativas desvairadas.
Se afastando dos sons cósmicos dos álbuns passados, o quarteto se aproxima de uma crescente instrumentalização enlouquecida, acompanhada dos pensamentos errantes dos (sempre incríveis) versos crus da cantora-compositora Adrianne Lenker. Numa experiência simultaneamente alucinante e melancólica, o novo material prova, novamente, a sorte de poder testemunhar Lenker fazendo música. – Ayra Mori
Martin Garrix, G-Eazy e Sasha Alex Sloan – Love Runs Out
Martin Garrix, que é um sucesso estrondoso desde os 16 anos na música eletrônica, provou que suas parcerias não seguem padrão – e sempre dão certo. Junto com G-Eazy e o vocal de Sasha Alex Sloan, Love Runs Out propõe fechar os olhos e embarcar em uma viagem deliciosa.
Com mais uma letra de amor, o single fala das dúvidas para o futuro e o que fazer quando a paixão acaba. A rima de G-Eazy é essencial para a batida relaxante e combina perfeitamente com a voz de Sasha. Bem distante do Martin que estreou com a electro-house de Animals, Love Runs Out fica no deep-house, mas segue muito bem feita e vicia qualquer pessoa que a ouça. – Nathália Mendes
C. Tangana – Yate
O dono de um dos melhores CDs de 2021 deve ser apreciado com moderação. Sempre à flor da pele quando o assunto é o amor, C. Tangana às vezes perde a noção quando vai expressar seus sentimentos quanto às mulheres. As críticas de El Madrileño parecem ter surtido efeito, já que o novo single do artista tem menos teor sexual e traz um primeiro passo em direção ao seu aprofundamento lírico, agora que ele tem as atenções do mundo todo sob sua música. No entanto, ele segue adepto da ostentação como sempre, cantando em construções sonoras gloriosas sobre suas experiências pessoais direto de seu Yate. – Raquel Dutra
Chloe Moriondo e mazie – not okay
Chloe Moriondo vem ganhando destaque na cena do pop alternativo, a cantora e compositora cria letras e harmonias marcantes e cheias de pessoalidade, em sua nova parceria com a cantora Mazie, a dupla lançou o tão doce quanto deprimente single not okay.
Explorando as dores de ter dias não tão bons, a música é um relato bastante sincero sobre o desalento e exaustão psicológica. Em contraponto, a letra é cantada em uma melodia alegre que deixa no ar uma sensação ambígua que vai do alegre ao melancólico, uma dualidade já apresentada no último álbum da artista, Blood Bunny.
A estética do clipe mantém o conceito bilateral e viaja entre cores vivas e tons noturnos. Do claro ao escuro vale a pena escutar not okay, a autenticidade do projeto gera identificação e deixa a moral de que nem tudo precisa estar bem. – Jamily Rigonatto
Parquet Courts – Walking at a Downtown Pace
Sim, ainda há pós-punk de qualidade no mercado. Em uma aparente fuga dos bloqueios estabelecidos pela covid-19, Walking at a Downtown Pace nos faz lembrar do pouco que tínhamos antes da pandemia se estabelecer, e é um aperitivo do novo projeto servido pelos estadunidenses do Parquet Courts.
Com uma linha de baixo envolvente, refrões compostos por gritos em conjunto — lembrando os momentos de bebedeira entre amigos — e uma bateria com muito groove, mantendo o ritmo entre o prato de condução, tom e caixa, a canção contagia por sua batida dançante. A faixa é a primeira do próximo álbum de Parquet Courts, Sympathy for Life, que tem seu lançamento previsto para Outubro de 2021. – Bruno Andrade
AREA21, Martin Garrix e Maejor – Lovin’ Every Minute
Em Lovin’ Every Minute, música do produtor Maejor e do DJ Martin Garrix, a vibe alienígena tomou conta para falar de amor. AREA21, nome da collab da dupla, conta a história de 2 aliens que topam com a Terra e os desdobramentos dessa aventura musical. A proposta do single é embarcar no amor terráqueo com boas vibrações, sem deixar o drop bem profundo para equilibrar.
No ritmo do deep-house dançante, o background tem algumas combinações com violão e assovio que tornam Lovin’ Every Minute bem fluida. À espera do álbum debut da dupla, desde que assinaram com STMPD RCRDS/Hollywood Records, o single já mostra o que está por vir com as características do projeto AREA21 em viajar e desbravar a galáxia. – Nathália Mendes
Machine Gun Kelly – papercuts
Ainda bem que Machine Gun Kelly encontrou no rock o diário para suas lamúrias sobre a pressão e as consequências da fama. Depois de suceder no gênero, o ex-rapper continuou na parceria com o produtor e baterista Travis Barker, anunciou álbum novo e já lançou o primeiro single do projeto, papercuts. De cabeça raspada, tatuagem nova e guitarra rosa, que virou marca registrada, o pontapé inicial com a canção firma o artista no estilo e prova que MGK não mexe em time que está ganhando. – Vitória Lopes Gomez
James Blake – Life Is Not The Same
Com estreia prevista para o mês de Setembro, Friends That Break Your Heart é o esperado quinto álbum de estúdio de James Blake desde o último registro, Assume Form – que contou com colaborações bem-sucedidas, desde o rapper André 3000 à electro-flamenca ROSALÍA. E embebido de altas expectativas, o cantor, compositor e produtor britânico entregou ao público uma segunda faixa inédita das doze que irão compor o futuro CD, contando com a produção invejável de Take A Daytrip e Joji.
Ao tentar encontrar paz consigo mesmo em Say What You Will, Blake dá sequência à divulgação do trabalho com Life Is Not The Same, uma reflexão sobre o relacionamento à distância do artista com a namorada. “A vida não é a mesma/Se estivermos a milhas de distância”, exclama Blake em tom confessional. Tomado pela atmosfera melancólica, entre versos e lamentos, o single parece ter sido feito oportunamente para tempos de isolamento social, onde incapacidade e amor andam de mãos dadas, à flor da pele. – Ayra Mori
Nick Cave & The Bad Seeds – Vortex
16 anos depois da compilação B-sides and Rarities, que reunia faixas não-lançadas gravadas desde 1984 pela banda, Nick Cave & The Bad Seeds estão prestes a lançar uma nova coletânea com versões alternativas e canções nunca lançadas das gravações de seus trabalhos mais recentes, como os aclamados álbuns Ghosteen e Skeleton Tree. Vortex é a primeira faixa divulgada do futuro lançamento, que nunca havia visto a luz do dia anteriormente pois a banda nunca conseguiu decidir se ela se adequava melhor aos Bad Seeds ou ao seu projeto paralelo, Grinderman. Com os vocais sempre emblemáticos de Nick Cave, mas com violinos para lá de genéricos sustentando a harmonia do refrão, Vortex fica apenas como uma breve amostra do que poderá ser visto dos trabalhos nunca antes vistos da banda a serem lançados. – João Batista Signorelli
Jorja Smith e GuiltyBeatz – All of This
Em maio deste ano, Jorja lançou seu primeiro EP desde seu álbum de estreia. Agora, ela volta com o single All of This, parceria com o DJ GuiltyBeatz. Os sintetizadores trazem um frescor revigorante para a desinibida voz de Jorja Smith. A intensidade da letra se potencializa em todos os âmbitos que possam ser analisados. Divulgada com o link do pré-save na véspera de seu lançamento, a cantora não poderia surpreender de maneira mais positiva. Espero que essa música seja apenas o início de algo novo. – Ana Júlia Trevisan
BANKS – Skinnydipped
Dispensando a energia demoníaca de The Devil, o próximo single da sacerdotisa do pop aposta em um ângulo mais sombrio e intimista, encarnando uma sereia ao invés de um diabo. Em Skinnydipped, BANKS canta sobre a obsessão com o passado e da eventual libertação e reconexão com sua própria divindade.
O tema do divino e do sacrilégio parece formar a base para o novo trabalho da cantora (ainda sem data ou título), se esgueirando de fininho nas suas letras e infundindo suas melodias com o teor fantasmagórico pelo qual ela se tornou tão conhecida. Junto com a música, veio um videoclipe dirigido pela própria, no qual os temas do sagrado feminino são extrapolados, e somos capazes de ver com clareza BANKS mergulhando em seu próprio mundo. – Gabriel Oliveira F. Arruda
Manu Gavassi e Voyou – Eu nunca fui tão sozinha assim
Depois de mudar sua carreira para sempre com a participação no icônico Big Brother Brasil de 2020, Manu Gavassi voltou a ser altamente comentada. Mas entre muitos novos fãs e haters, a cantora vem se sentindo mais sozinha do que nunca. Depois de muita espera, seu single chegou em forma de um desabafo altamente sincero.
Com a produção de Lucas Silveira e participação do francês Voyou, a artista fala sobre um sentimento que todos estamos compartilhando há mais de um ano: a solidão. Entre sorrisos escondidos por máscaras e o medo de sair, a pandemia vem deixando todos à beira de pirar. Mas tudo parece um pouco melhor quando Manu canta com tanta delicadeza sobre o isolamento. – Mariana Chagas
Selena Gomez & Camilo – 999
Em 2021, Selena Gomez parece ter se encontrado de vez em meio às suas raízes latinas. Isso porque a artista é especialmente livre em suas canções em espanhol, agora demonstrando isso através de 999. Ao lado do artista colombiano Camilo, ela dança em paisagens bucólicas coloridas no jeito Selena Gomez de pensar composições visuais no single que é seu primeiro lançamento pós Revelación. O EP foi responsável por apresentar o trabalho da artista em sua língua materna, e o caminho trilhado mostra uma Selena contente e leve como há tempos não víamos. No fim, isso é o que importa. E ela sabe disso – Raquel Dutra
Skrillex, Justin Bieber e Don Toliver – Don’t Go
Cheia de referências a obras-primas, o lançamento Don’t Go de Skrillex com Justin Bieber e Don Toliver é dançante e sensual. A parceria é boa, já que o vocal de Bieber consegue funcionar para quase todas as propostas, e até já ganhou Grammy anteriormente com a batida de Skrillex. O single chegou com clipe e muitas visualizações, mas também polêmicas demais para uma produção de vídeo ruim.
O refrão de Bieber e os versos do rapper Don Toliver adicionam muita sensualidade à Don’t Go, diferentemente da letra que é mais sofrida e romântica. Apesar da combinação destoar um pouco, ela funciona muito bem no house mais progressivo, grande parte graças ao talento de Skrillex em transitar pelos estilos de música eletrônica tranquilamente – e entregar bons trabalhos.
Logo nos primeiros dias de lançamento, o clipe de Don’t Go gerou polêmica com as dreadlocks adotadas por Justin Bieber. Além disso, a performance não conversa com a música em nada, já que mostra mais referências e símbolos dos Estados Unidos do que um conteúdo de fato. Pelo clipe, Don’t Go não passaria de mais uma obra narcisista norte-americana. – Nathália Mendes
Miles Kane – Don’t Let It Get You Down
Depois do modesto Coup De Grace (2018), Miles Kane retorna em Don’t Let It Get You Down, faixa single de seu novo álbum, Change the Show, previsto para Janeiro de 2022. Na canção, encontramos Kane nos seus melhores dias. O parceiro de Alex Turner em The Last Shadow Puppets traz toda sua autenticidade no single, remetendo-se ao rock clássico e a seu começo de carreira, especialmente Come Closer, porém com um acréscimo inusitado de percussão. O clipe da música, com um clima meio James Bond, foi dirigido por James Kelly e traz Jimmi Simpson — que já foi indicado ao Emmy, e estrelou em Westworld, House of Cards e Black Mirror —, para dividir protagonismo com Miles Kane. – Bruno Andrade
MF DOOM – Gazzillion Ear (Thom Yorke Man on Fire Remix)
Um dos artistas mais profícuos da Lex Records, o falecido rapper MF DOOM lançou na carreira algumas dezenas de álbuns como vocalista e beatmaker, marcando a cena do hip-hop para sempre. E em celebração à produção artística do “mestre mascarado”, a gravadora anuncia o projeto LEX.XX, com uma série de remixes comemorando o 20º aniversário do selo de Londres.
Compondo as faixas, está o segundo remix de Thom Yorke de GAZZILLION EAR, que compõe o bárbaro BORN LIKE THIS de DOOM. Na última versão, Yorke remixou a produção original do rapper com J Dilla, deformando totalmente a sonoridade primária pelo uso maciço de padrões sonoros sintéticos. O resultado é um som futurista claustrofóbico à la Gaspar Noé. Porém, o foco aqui é claro e alcançado: os versos de DOOM são o ponto central do remix. – Ayra Mori
Jeremy Zucker – Cry With You
Cada vez mais perto do lançamento do seu próximo álbum, Jeremy Zucker lança mais um single. Diferente da animada 18 e a agressiva Honest, Cry With You é a faixa mais emocional do projeto até agora. Sutilmente abordando pensamentos suicidas e as pressões da fama, a música é uma carta aberta para sua amiga Lauren, também cantora.
Em entrevista, o artista contou que a letra veio de uma conversa com a garota. “Se eu não puder te ajudar, vou apenas chorar com você”, Jeremy soltou em uma de suas ligações. A frase que nomeou a faixa descreve bem o resto da obra, que conta com a produção de Alexander O’Neill, Mikael Temrowski e Thomas Michel. Em noites solitárias, a canção de Jeremy é uma perfeita companhia para deixar as lágrimas caírem no travesseiro. – Mariana Chagas
Lagum – Eita Menina (Versão Pagode)
A Lagum não se contenta com o mais do mesmo e segue experimentando e testando: no último ano, a banda mineira lançou música para tudo quanto é estilo, do pop com a Iza aos anos 2000 à la Charlie Brown Jr.. Duas semanas e pouco depois da chegada do single Eita Menina, com a sambista Mart’nália e o rapper L7nnon, o grupo não para e já liberou uma nova versão da canção, desta vez estreando no pagode.
A versão alternativa chegou somente como videoclipe no YouTube e não tem a participação dos feats da original. Sempre descontraídos e divertidos, com direito a churrasco, rede e cachorro em volta, a banda performa e brinca com a canção em uma roda de samba na sacada de um apartamento. Sem nem esperar, a Lagum melhora o que lançou no Spotify: Eita Menina combina muito mais com o pagode. – Vitória Lopes Gomez
Clipes
Michaela Jaé – Something To Say
Em seu primeiro single na carreira musical, Mj Rodríguez entrega o clipe de Something To Say com uma bela tarde de verão vibrante e animada. Lançado em 13 de agosto, a protagonista de Pose mergulhou de cabeça na música que ela mesma escreveu. Com a letra super empolgante, o clipe veio dotado de uma cenografia impecavelmente colorida, looks brilhantes e muita coreografia.
Dirigido por Dano Cerny, o clipe coloca Mj em uma rua de trânsito perfeita para encontrar e paquerar o homem lindíssimo – e todo tatuado – no carro ao lado. Em meio à aglomeração, e um verão que proporcionou iluminação e fotografia naturais lindíssimas, ela dança com suas 4 amigas. Mj está maravilhosa em câmera e definitivamente consegue passar a mensagem de Something To Say: um convite para aproveitar a vida. – Nathália Mendes
St. Vincent – Daddy’s Home
Em cima de um caminhão itinerante, Papai St. Vincent volta no novo videoclipe – impecável, como de costume –, performando a faixa-título do álbum Daddy’s Home para uma plateia completamente vazia. Dirigido pelo mesmo diretor do último documentário lynchiano da artista, Bill Benz utiliza-se dos mesmos visuais surreais que se fazem presentes ao longo de The Nowhere Inn.
Seja pelo filtro analógico da fotografia, seja pelos próprios figurinos, a percepção do tempo se torna distorcida no videoclipe, assim como em todo o registro sonoro de Daddy’s Home. Dançarinas geriátricas dançam, aparece uma TV de tubo, uma guitarra futurista, uma St. Vincent setentista, e um cara aleatório que, assim como nós, parece não entender nada do que está rolando.
Períodos se colidem. E mais uma vez, Annie Clark brinca deliberadamente com a fantasia mesclada à autobiografia na referência mais clara do álbum sobre a prisão do pai – tema central do último registro. Nesse passeio delicioso sobre a traseira de um caminhão, Papai St. Vincent encerra orgulhosamente o show com um aceno para os seus zero espectadores. Bravo! – Ayra Mori
Marisa Monte – A Língua dos Animais
As Portas de Marisa Monte continuam abertas e apontando para os caminhos mais iluminados. O trabalho, que marca o encerramento do jejum de quase uma década, foi lançado em julho e agora, a cantora investe em clipes para seus singles. A escolha não poderia ser melhor, composição de Arnaldo Antunes e Dadi, A Língua dos Animais, já havia sido pontuada no Nota Musical passado como uma das melhores entre as dezesseis faixas do disco.
O clipe tem uma direção impecável feita por Eduardo Souza e Batman Zavareze. Nele, Marisa aparece transpirando sua leveza por meio de pinturas. A animação feita com os desenhos da artista Marcela Cantuária, se encaixa na estética estabelecida em Portas e na letra da canção. Além da cantora, outros elementos relacionados aparecem em cena, como os ditos – e fofos – animais e o violão, marca registrada e companheiro inseparável da cantora. No vídeo, são usadas cores mais claras que inspiram a liberdade, fugindo da claustrofobia do isolamento. – Ana Júlia Trevisan
Demi Lovato – Melon Cake
O arco-íris neon du Demi Lovato no clipe Melon Cake é uma obra audiovisual libertária e fantástica da nova geração musical du cantore, que tem presença confirmada no Rock in Rio 2022. Extremamente bem combinada com a letra da música, o vídeo é contagiante, divertido e um deleite para os olhos. Demi está completamente à vontade na performance lançada em 23 de agosto e comemora sue aniversário com um figurino glamuroso.
Mandando ver na publicidade logo de cara, Demi Lovato mostra quanto empoderamento há em se libertar das amarras da Indústria da Música e finalmente poder viver quem é de verdade. Para ilustrar isso, há uma criança no começo e fim da obra que escolhe tranquilamente um enorme bolo cheio de glacê e granulados coloridos para o sue aniversário.
Visualmente, Melon Cake é impecável, brilhante e colorido. O cenário também acompanha a pegada, bem iluminado entre um céu azul e um palco com luzes neon fantásticas. Para o figurino, Demi continua com sue estilo mais roqueiro das antigas, junto com sue banda que veste looks brilhantes que se destacam do fundo. Tudo é muito harmônico no vídeo para proporcionar uma experiência vibrante de liberdade. – Nathália Mendes
Morat – En Coma
No seu álbum mais recente, Morat decidiu abordar diversas visões de relacionamentos românticos. Enquanto em Mi Pesadilla a banda colombiana fala sobre estar aflito de que o amor tenha passado sem que o perceba, em En Coma o eu-lírico lamenta uma relação esfriada, a qual ambos os parceiros já não estão mais contentes com suas vidas.
A dramaticidade que a língua espanhola provoca juntamente com um ritmo pop dos anos 2010 acaba sendo viciante, daquelas que até mesmo um coração apaixonado sofre com a separação dos amantes da canção. Os cantores assimilam essa dormência desse sentimento a um estado de coma, em que um sinal de vida não é suficiente para que tudo volte como era antes, sendo a melhor solução optar por um ponto final. Num clipe teatral, o quarteto mistura tragédia com amor, transmitindo o sofrimento exacerbado estilo novelas mexicanas do SBT. Contudo, nem toda essa encenação é suficiente para consertar o que já não funciona. A solução é continuar padecendo em cada replay de En Coma. – Júlia Paes de Arruda
Olivia Rodrigo – brutal
Olivia Rodrigo é a nova sensação do momento e isso não pode ser negado. Ganhando os holofotes com o lançamento da série High School Musical: The Musical: The Series, ela soube aproveitar seu protagonismo para iniciar sua trajetória no universo musical. Envolvida em dramas amorosos e conflitos sentimentais, a cantora retrata através de suas músicas as inseguranças que tem quando o assunto é amor. Alcançando gigantescos números de visualizações, seus maiores sucessos são drivers license e good 4 u. Entretanto, a canção brutal também merece destaque.
Lançado no dia 23 de agosto de 2021, o clipe fugiu totalmente da linha temática abordada em outras produções de Rodrigo. Bailarina, modelo, âncora jornalística, influencer e muito mais. Em uma pegada gamer, Olivia fragmenta seus trechos com várias personagens que conversam entre si durante o desenvolvimento do videoclipe que se assemelha a interface de um videogame na qual o jogador escolhe com qual figura quer jogar. Surpreendendo novamente, a resiliência da artista foi mostrada em uma perspectiva artística diferente de suas outras produções. Com direção de Petra Collins, o clipe indica os desfechos de seu primeiro trabalho como cantora e compositora e deixa os fãs ansiosos para seus próximos passos na carreira musical. – Felipe Nunes
Performances
Billie Eilish – Male Fantasy na Vevo
Billie Eilish, que acaba de lançar seu segundo álbum, continua fazendo história. A garota voltou para o Hot 100 da Billboard junto ao seu irmão e produtor, FINNEAS. E os dois fazem valer todo o sucesso. Cheio de faixas magníficas, Happier Than Ever é uma obra merecedora de cada stream que recebe. Entre as melhores das melhores, Male Fantasy foi a selecionada para uma performance exclusiva da cantora na Vevo.
A música que começa em uma perspectiva masculina tem uma inteligente letra que fecha perfeitamente o disco. Na performance, Billie senta em uma cama de casal vestindo uma saia azul com blusa branca e nada além de um par de meias no pé. Na companhia de seu irmão, a apresentação é tão simples que parece apenas os dois cantando em casa, por diversão. Tal honestidade é exatamente o que a faixa precisava ao ser cantada. – Mariana Chagas
CHVRCHES – Screen Violence (Amazon Music)
Depois de mais de um ano sem tocar juntos, não pareceu nada menos do que apropriado que o primeiro show da banda de synthpop escocês CHVRCHES fosse à noite, em um cemitério. Realizado em comemoração ao lançamento do álbum Screen Violence e transmitido pelo canal da Amazon Music na Twitch, a performance foi marcada pela simplicidade e a cândida química entre seus integrantes. Ver os vocais de Lauren Mayberry darem lugar ao baixo atiçado de Martin Doherty, seguidos pelos gracejos entre os membros nunca foi tão bom.
Foi um pouco decepcionante ver que apenas uma das faixas novas do álbum foi incluída no set, fora os três singles previamente lançados. Foram tocados vários dos maiores sucessos da banda, como Forever, Leave a Trace, Miracle, terminando com a clássica Clearest Blue. O cover que a banda lançou anteriormente de The Killing Moon também foi incluído na apresentação. – Gabriel Oliveira F. Arruda