Decadente, alarmante e polarizada: a Democracia em Vertigem de Petra Costa

O longa foi apontado pelo The New York Times como um dos melhores filmes do ano, e é o queridinho latino-americano para o Oscar 2020 (Foto: Reprodução)

Raquel Dutra 

Lançado no dia 24 de janeiro no Festival de Cinema Sundance de 2019, “Democracia em Vertigem” chegou à sua terra natal distribuído pela Netflix no dia 19 de junho (dia do cinema brasileiro) deste ano. Mergulhado nas memórias pessoais e no passado político de sua diretora e roteirista, o filme relembra os contextos sociais e políticos em que a figura de Luís Inácio Lula da Silva emergiu, passando pelas eleições ganhas por sua sucessora, Dilma Rousseff, e seu controverso processo de impeachment. O documentário também trata da presidência de Michel Temer, construindo um fio narrativo que busca entender a crise política do país, agravada pelos movimentos de 2013.

Antes mesmo do filme ser lançado e das críticas surgirem, Petra Costa, a diretora e roteirista do filme, já reconhecia o caráter personalista de sua produção. Inclusive, identifica isso como uma de suas características, ao falar sobre o lançamento do documentário no seu perfil do Instagram: “de algum modo, todos os meus filmes falam sobre traumas. (…) Em Democracia em Vertigem, [o trauma é] o futuro que imaginei pro meu país. A cura começa contando o que aconteceu.” Os registros íntimos de Costa e de sua família funcionam bem na maior parte do filme, como quando ela trata da ditadura militar do Brasil. Apesar das controvérsias, as imagens são chocantes e Petra não hesita em dissecar toda a história por trás dos registros. 

Com o auxílio de uma belíssima trilha sonora que vai de músicas clássicas à samba, muitas emoções nos acompanham ao decorrer do filme, especialmente no trecho que retoma o dia da votação final do impeachment de Dilma no senado e seu discurso. Com uma edição inteligentíssima e vazamentos muito bem relembrados e inseridos na narrativa, Petra destrincha declarações de Lula nas eleições, cenas e falas de figuras como Aécio Neves, Temer e aliados. É interessante também quando surge a discussão sobre arbitrariedade de Moro e Dallagnol e as ações da Lava-Jato. Hoje, essa questão se encontra em seu pico de efervescência, mas a produção do filme já a identificava anos atrás. 

Costa também fala um pouco sobre a ascensão da (extrema-) direita que se faz muito mais presente no nosso cenário político atual; o filme traz uma breve entrevista com Jair Bolsonaro, deputado federal pelo RJ na época (Foto: Reprodução)

Além de pessoal, a lente que busca interpretar a história tão recente do país é de um lugar muito privilegiado dentro da sociedade brasiliense. E assim como a diretora não esconde o lado militante esquerdista de sua família, ela também não esconde o conflitante lado empresário/executivo que carrega em sua árvore genealógica. Em um dado momento, ela abre para o espectador ainda mais a história dos seus antepassados e chega em um avô, que foi um dos fundadores da Construtora Andrade-Gutierrez, empresa envolvida em corrupção em obras públicas deflagradas pela Lava-Jato. De início, essa informação pode parecer irrelevante e exageradamente pessoal, e é aí que a pessoalidade fortalecida pela narração de Costa pode incomodar ou não funcionar para alguns. Mas ela é importante para que entendamos o olhar pelo qual estamos assistindo toda essa história, bem como os motivos pelos quais a diretora faz o que faz no filme.

Que fique claro que isso não interfere em nenhum momento as posições que assumidas no documentário, muito pelo contrário. Petra Costa é realmente fiel até mesmo às suas decepções, seja com o Partido dos Trabalhadores, seja com as corrupções da sua família. Nesse momento, a criticada característica personalista de Democracia em Vertigem faz sentido como um todo. A vida da narradora do filme está totalmente imersa na política brasileira, tanto para o ‘bem’ quanto para o ‘mal’. E como nada nunca tem um lado apenas, essa abertura quase escancarada da sua vida particular – que nós não sabemos, mas pode ter lhe custado caro – comprova a sinceridade da diretora e justifica suas escolhas arriscadas de roteiro.

Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no dia da prisão do ex-presidente Lula. Tanto para Petra quanto para a classe trabalhadora, o líder metalúrgico é uma das principais decepções retratadas no filme (Foto: Reprodução)

Outra questão também é o que Petra Costa faz com seus privilégios sociais, e nisso ela acerta mais uma vez. A cineasta se empenha em acessar registros privilegiadíssimos, desses que ninguém imaginava que alguém pudesse ter guardado ou que alguém um dia fosse conseguir acessar. Para quem gosta de história, política e arte, o documentário é um presente. Um presente que envolve todo o background de Petra, sua coragem de dar a cara à tapa e todo seu esforço para construir seu fio narrativo da forma mais fiel aos seus sentimentos (traumas, como ela mesma diz) e mais rica para o espectador. 

Entretanto, o documentário decepcionará quem for ao seu encontro esperando uma autocrítica aprofundada da esquerda brasileira (eu, por exemplo), muito representada pelo Partido dos Trabalhadores nos últimos anos. Haja visto toda nossa situação atual, olhar para trás com criticidade sempre que possível é extremamente necessário. Isso é muito bem introduzido, mas não atende às expectativas provocadas ao deixar de construir uma análise mais trabalhada sobre os erros do PT e do ex-presidente Lula.

Lula em seu último dia no palácio da alvorada; o registro é de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial do ex-presidente, que colaborou com Petra em muitos dos registros inéditos presentes no filme (Foto: Reprodução)

Também vai se decepcionar quem estiver esperando um fio narrativo imparcial, e diante dessa expectativa realmente não há o que ser feito. A imparcialidade (apesar de vendida como real) não existe nem no meio jornalístico, quem dirá na arte ou história. Costa (e qualquer outra pessoa que produza qualquer produto artístico) não tem obrigação alguma de se despir de suas opiniões, experiências e sentimentos para construir suas narrativas. A única responsabilidade do artista/comunicador é ser sincero em suas colocações e intenções, e isto a diretora de Democracia em Vertigem cumpre bem.

Sutilmente e para os minimamente desatentos, o filme pode passar a ideia que a democracia brasileira era exemplar, estável e bem estabelecida até a crise que começa no último mandato de Lula. Bom seria se nossa situação política fosse assim em algum momento, mas nunca foi. Como é trazido no próprio documentário (e aí surge um ponto de contradição), temos um país mal resolvido com seu passado, especialmente com a ditadura. Antes e depois dela nossa democracia nunca foi plenamente funcional e nosso jogo político nunca foi totalmente pensado no povo como uma democracia exemplar deve ser. Talvez, essa democracia irreal seja exatamente o ‘sonho efêmero’ sobre o qual tanto é falado no filme.

Através da fotografia, entrevistas e registros íntimos, o filme constrói uma proximidade com as figuras públicas surpreendente, especialmente com Dilma Rousseff (Foto: Reprodução)

Às vezes, a vida imita a arte, e essa ideia fica subentendida com uma analogia genial à Shakespeare no final do documentário, raciocínio este que apenas um olhar muito sensível à nossa realidade poderia elaborar. Como consequência da articulação muito bem pensada de fatos e registros históricos e a narração próxima, é criado no espectador um sentimento que converge ao da diretora na conclusão do longa. Isto é, a sensação desesperadora da necessidade de encontrarmos soluções diante do momento que estamos vivendo no nosso país.

Para encerrar citando Petra Costa mais uma vez, essa sensação pode ser resumida com uma das frases finais do documentário: “Como lidar com a vertigem de ser lançado a um futuro que parece tão sombrio quanto seu passado mais obscuro?” Seguiremos tentando descobrir, e Democracia em Vertigem nos ajudará nisso.

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