Vislumbrando um futuro além das águas claras de Aquarius

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Adriano Arrigo, estudante de jornalismo da Unesp Bauru

Há de se frutarem as pessoas que forem ao cinema assistir Aquarius e não verem o nascer da nova Esquerda Brasileira a partir do cruzamento entre Lula e Sônia Braga. Ora, o borbulho foi tanto em torno do filme (“o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”, disse o amargurado jornalista Reinaldo Azevedo) que se criou expectativas que ultrapassam o senso lógico de interpretação de um filme.

Isso mostra duas coisas: uma é que aqueles que se aventuram a falar do filme limitaram-se a enquadrá-lo em seu discurso politico; outra é o despreparo em analisá-lo fora do esquema em que seu diretor lhe concebe.

Kleber Mendonça Filho não começou a fazer filmes como Aquarius depois de um dia de Impeachment qualquer. O diretor vem desde 1997 dando indícios do sistema nervoso central de suas obras. É claro que, de uma certa forma, Aquarius as vezes exagera em se mostrar contra aquilo em que acredita destruir o Brasil (e sua crença é obviamente contundente), mas se nos apegarmos a isso, deixaremos para trás todas as suas pequenas e belas contradições a serem vislumbradas.

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Equipe do filme protestando em Cannes (Foto: EL PAIS)

Em Stalker, de 1979, Andrei Tarkovski adaptou para o cinema uma literatura de ficção científica em que um homem e responsável por levar pessoas até a Zona, uma área enigmática e surreal em que seus desejos pudessem ser realizados.

Em seu contexto histórico, o filme foi interpretado como alegorias a imigração dos europeus entre as Alemanhas, Chernobyl e até os gulags, campos de trabalhos forçados na União Soviética. Bravo, Tarkovski explicou a questão da Zona em seu livro de memórias:

Frequentemente as pessoas têm me perguntado o que é a Zona, e o que ela simboliza (). Me resumo a um estado de fúria e desespero com essa pergunta. A zona não significa nada, nada mais do que qualquer coisa em meus filmes ().

Por essa ótica, Aquarius parece ter se resumido em uma goma ideológica rasa para responder a polaridade brasileira, mais antiquada do que os próprios vinis da protagonista do filme, enquanto Kleber está tentando falar de outros vários assuntos.

Em sua camada mais superior e que protege assuntos mais estruturais, há a história de Clara, uma jornalista aposentada que vive com suas memórias em um pequeno prédio que intitula o filme. Lá, suas histórias estão vivas, mesmo que o prédio já esteja morto, como diz um dos donos da empreiteira que planeja fazer dali um condomínio de luxo.

Essa camada do filme (meio novelesca) é extremamente útil, eficiente e necessária para o público em geral. O filme leva e agrada todos que estão ali, e se sustenta sem se alimentar de rancores ideológicos ou no choque de gerações. Através de pequenas piadas, músicas de muito bom gosto e, é claro, a excepcional interpretação de Sônia Braga (interpretando talvez, não Clara, mas sim, Sônia Braga) e outras estrelas de brilho não menor, Aquarius vai levando o espectador aconchegantemente por não menos que duas horas e vinte.

Não há como não se identificar e torcer pela luta de clara com a imobiliária. Uma mulher tão bonita, viva e apaixonada pela vida e, de quebra, é também a representação de vários desejos dos espectadores. Ela é o desvio do padrão do que se prega no cinema nacional convencional, não há como negar. Assim, falar de Clara é molhar uma planta em dia de chuva. É necessário olhar por baixo.

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Kleber, que já havia filmado a monumental cena da cachoeira de sangue em O Som ao Redor (2012), aqui joga símbolos e aferições através no foco em objetos, ações e planos em que detalham a expressão dos personagens diante de um mundo que não consegue dissociar política da esfera da vida privada. A pergunta que faz, a todo momento, é: o que vocês estão sentindo, personagens? Diante dessa situação, você, personagem, o que faria, mediante toda a construção social que você teve chegar nesse momento? E aí, a realidade é política, muito política.

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Mendonça pega aqui e ali todas políticas pela qual o Brasil se construiu. Se por um lado há uma caracterização muito forte entre as políticas de Clara e seu antagonista, Diego (Humberto Carrão) – representante clichê do neoliberalismo, com direito a forçar a barra na vanglória de se formar em business no exterior – as construções mais sutis e belas são baseadas em conceitos fundamentais de aulas de História do Brasil.

Esses conceitos são semeados por todos os lados; nem a própria Clara escapa desse emaranhado de conceitos que se chocam com a realidade. A própria, por exemplo, se não fosse o que era, influente pela sua profissão, não poderia se defender da construtora que lhe aflige. Aliás, a maior cena do filme reside em um beco que Diego lhe coloca. “Realmente, a senhora deve ter trabalhado muito para ter conseguido o que tem” – olhando para a empregada de Clara que, sem essa, não conseguiria nem pegar água da geladeira.

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Mais uma vez, Kleber parece mostrar que o cerne de sua obra é justamente isso, a construção e contradições sistemáticas no Brasil. Nesse caso específico (entre muitos outros filmes), é muito claro a discussão do legado do sistema escravista no Brasil que, infelizmente, foi amortecido e assimilado pela sociedade.

Em uma conversa em família, Clara e sua cunhada tentam lembrar de outra empregada que trabalhava para sua mãe quando ambas eram crianças. Ninguém lembra o nome dela – mas o filme mostra colocando-a como um vulto em uma foto, esquecida e borrada, e hoje, mesmo que desaparecida, ainda assombra suas memórias físicas e oníricas.

Já Clara possui suas memórias muito bem construídas; não são borrões, não foram apagadas. Devido aos seus privilégios sociais, ela e os representantes de sua classe podem, por exemplo, guardar muito bem suas histórias em álbuns de família, enquanto podem revê-las em um dia à toa, regado a champanhe servido pelas serviçais.

Obviamente, não se trata de  um julgamento de Clara; inclusive, isso é espetacular na forma como Kleber constrói seus personagens. E em Aquarius, parece que o espectador também é personagem, já que as contradições não são esmeros de um mundo fictício. A todo tempo, há pequenas iscas que são jogadas para nos colocar em becos iguais a que Diego coloca Clara. O que pensamos quando vemos quatro negros chegando malandramente com seus cabelos quadriculados e suas calças largas em uma aula aberta na praia? Ou quando dois caras mal encarados perseguem Clara pela rua? As respostas são hilárias, mas primeiramente trágicas. Suas reais intenções fazem os espectadores refletirem sobre seus próprios pré-conceitos.

Então, o que há de se extrair do longa-metragem? Que somos isso mesmo, um pouco vendidos, ou que olhamos torto para uma suruba que queríamos estar, ou que por mais estudados que somos, ainda usamos palavras como ‘bandido’ para nos referir aos protagonistas de pequenos furtos?

Pelo contrário. Aquarius é um exercício que mostra que a complexa esfera humana não é disputa por dois polos opostos muito bem definidos, seja ela na esfera política, seja ela na esfera privada dos desejos e memórias. Importante é sair da sessão e entender como chegamos aqui e como estamos aqui, além de saber que quem ouve vinil também pode ouvir mp3.

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