Chegou Quem Faltava veio para mostrar que Um Dia a Gente Se Encontra

Capa do álbum Chegou Quem Faltava da banda Charlie Brown Jr. Desenho de uma lula vermelha, em um fundo com tom de vermelho mais escuro. A lula segura três skates e um microfone, cada qual envolvido em um de seus tentáculos. No canto superior direito está escrito em letras maiúsculas “Chegou Quem Faltava”, em amarelo. No canto inferior direito pode-se ler “Charlie Brown Jr.” na cor branca.
Chegou Quem Faltava, show ao vivo gravado em 2011 chega às plataformas em 2021 em comemoração ao dia mundial do rock (Foto: Sony Music Entertainment Brasil)

Raquel Sampaio

“Charlie Brown não é meu emprego, Charlie Brown é minha vida”. São com palavras diretas como essas, nos intervalos entre as músicas do Chegou Quem Faltava, show gravado em 2011 e publicado em dois volumes em 2021, que Chorão coloca para fora toda a paixão e intensidade dedicadas ao maior projeto de sua história, a banda Charlie Brown Jr.. Carregado de muita nostalgia e um astral contagiante, o disco de 29 faixas chega para celebrar um legado e matar as saudades.

Desengavetar algo produzido há 10 anos pode contar com alguns percalços, principalmente relacionados à qualidade de imagens e captação de som, tendo em vista o avanço das tecnologias do audiovisual ao longo dos anos. Mas isso não acontece com Chegou Quem Faltava. O lançamento conta com uma qualidade de áudio e vídeo consideravelmente boa, capaz de transmitir sensações que passam toda a abundância enérgica do ao vivo, atualmente encoberta pelos tempos de isolamento.

Na formação da época estavam Chorão, Thiago Castanho (guitarra), Heitor Gomes (baixo) e Bruno Graveto (bateria). Com o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock Brasileiro fresco nas mãos, graças ao Camisa 10 Joga Bola até na Chuva, o quarteto protagonizou uma fase mais madura da banda. Sintonizada em estilos mais reflexivos de composição e roupagens mais melódicas, sem deixar de lado a potência expressiva presente desde o começo, seja no ao vivo ou em estúdio.

Fotografia do show Chegou Quem Faltava. Chorão, vocalista da banda, homem branco, usa um boné preto e camiseta branca. Ele se encontra no centro da imagem, com o braço direito levantado. No canto esquerdo da foto está o baterista Bruno Graveto, homem branco, de cabelo preto, e veste camiseta preta. O ambiente conta com alguns amplificadores e a projeção de trechos das canções no telão atrás dos músicos. Na parte inferior, um pouco mais desfocada, observa-se as mãos e cabeças da plateia.
A formação reunida, após a saída de Champignon, Marcão Britto e Renato Pelado continuou se baseando na cidade de Santos e teve o álbum Imunidade Musical como primeiro trabalho (Foto: MRossi)

O show se inicia entregando a intensidade rotineira do Charlie Brown Jr., delimitando com clareza a sensação de “estou em um show de rock”, já que toda a influência hardcore, que usa e abusa de um som veloz e um instrumental pesado, se faz presente. Essa energia é vista com facilidade nas músicas dos álbuns Transpiração Contínua Prolongada e Preço Curto, Prazo Longo, escolhidas a dedo para integrarem o setlist da apresentação. O Côro Vai Comê é a faixa que, mesmo depois de tanto tempo, continua a levar o público ao delírio, como prova de que clássicos não envelhecem

O expoente que fez a banda decolar em 1997 nas mãos de Rick Bonadio vem com o sentimento extrovertido de quem estava chegando para invadir a cidade e fazer história. Outro sucesso do grupo, Proibida para Mim explora o astral irreverente de uma história de amor. Chorão dedicou a faixa à esposa Graziela Gonçalves no começo de seu namoro. Dotada de um frescor de juventude, a canção conquistou o mainstream e chegou a se tornar um dos temas da Malhação (1998), caminho que posteriormente a estourada Te Levar Daqui iria seguir.

Zóio de Lula não escapou da seleção que compõe o repertório do Chegou Quem Faltava. Com a sonoridade calcada nas raízes do reggae e do surf music, a faixa narra o típico dia de praia, relaxante e contemplativo. As misturas que flertam com reggae e hip hop, mostram que o espírito livre não estava apenas no estilo de vida do Charlie Brown Jr., mas também na musicalidade, ilustrado com frequência através da conexão praia-asfalto explorada nas composições da banda santista.

Fotografia da capa do álbum Preço Curto… Prazo Longo. Da esquerda para a direita observa-se Champignon (baixo), Thiago Castanho (guitarra), Chorão (vocal), Renato Pelado (bateria) e Marcão Britto (guitarra). Todos estão de pé em cima de uma pedra e o mar ao fundo. A imagem é tratada em tons de sépia.
Fotografia da capa do álbum Preço Curto… Prazo Longo; a preferência pelas músicas dos dois primeiros discos demonstram a influência atemporal dessa fase (Foto: Shin Shikuma)

Não só de clássicos da juventude se faz um compilado de melhores hits e o restante do repertório conta com tons mais reflexivos, provenientes do amadurecimento da banda e consequentemente das letras de Chorão. A partir de 2005, com o lançamento do Imunidade Musical, o vocalista inaugurou uma espécie de marca registrada em sua linha de composição. Com uma visão de mundo mais ponderada, Chorão trouxe à tona um eu lírico mais sensível, e com maneiras mais metafóricas de expressão, se debruçou em letras no melhor estilo “sobre a vida”.

Adotando com mais naturalidade a substituição dos riffs de guitarra elétrica pelas linhas mais focadas no violão em algumas músicas, essa estética introspectiva caiu nas graças do público e consolidou a banda de vez, como fonte de mensagens inspiradoras. Senhor do Tempo traz uma ótica observadora que, alinhada ao baixo caprichado de Heitor Gomes, entrega um tom sereno à complexidade dos caminhos da vida explorados na poesia de Chorão. Outro clássico dessa toada é Dias de Luta, Dias de Glória, que através de arranjos mais tranquilos e de certa forma um pouco mais melancólicos, se mostra como mais uma faixa carregada de reflexão. 

Delineado pelas dualidades do cotidiano, o compositor dá vida a uma persona mais poética, que aposta em versos rimados e uma melodia sossegada. Só os Loucos Sabem é o tipo da música que Chorão não precisou se preocupar em cantar com todas as palavras no ao vivo – o coro uníssono do público emociona e enche o ambiente, demonstrando o sentimento sincero de quem “estava lá também”. Vinda do consolidado Camisa 10, a faixa ganha uma densidade maior com a adição de baixo e bateria no Chegou Quem Faltava.

Seja na fase “eu odeio gente chique, e eu não uso sapato ou na pegada “um homem quando está em paz não quer guerra com ninguém”, uma coisa é inegável: Chorão é uma das figuras mais cativantes do rock nacional na posição de frontman. Essa essência fica clara em um dos depoimentos do documentário Chorão: Marginal Alado, dado por Marcelo Nova. O músico e amigo próximo narra um episódio em que foi fazer um show com o vocalista e, ao se deparar com a casa cheia e uma plateia majoritariamente jovem, enlouquecida com a presença de Chorão, declarou:  “Você é a Xuxa do rock”

Mesclando o poder incendiário das músicas agitadas à la Rage Against the Machine, com as melodias mais pacíficas vindas do amadurecimento poético da banda, Chorão se alicerçou como o porta-voz da juventude, sendo capaz de atravessar gerações. Sua figura performa aquele velho amigo, que ora está lá para narrar as aventuras mais intensas, ora para dar os conselhos mais sinceros.

Chegou Quem Faltava cumpre seu papel: matar as saudades e refrescar a memória sobre uma das bandas símbolo do rock nacional, que soube se reinventar e manter sua conexão com o público mesmo depois de quase 20 anos. O nome escolhido para o disco foi cirúrgico – era como algo que todos sabiam que estava guardado em algum lugar, só faltava chegar na hora certa. Reavivar o som potente dos eternos meninos de Santos, alinhado ao sorriso espontâneo de Chorão durante todo o show, não foi apenas uma celebração, foi um presente aos fãs, como prova de que independente de qualquer coisa, Um Dia A Gente Se Encontra.

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