Amy Berg tenta castrar um Deus em It’s Never Over, Jeff Buckley

Cena do filme It’s Never Over, Jeff BuckleyNa imagem, em preto e branco, está o cantor Jeff Buckley com sua mãe Mary Guibert. Ele, no canto esquerdo, está com o rosto próximo de sua mãe, braços abaixados e sorriso forçado, posando para a foto. Seus cabelos lisos estão penteados para cima e parecem molhados. Ele está sem camisa. O cantor possui pele clara e barba por fazer. Já Mary está com uma das mãos apoiada no ombro do filho e repousa a cabeça em cima. Ela está com um sorriso largo e usa uma flor presa no cabelo, acima da orelha esquerda. Nos dedos, usa um anel. Ela veste uma roupa estampada, possui pele clara e cabelos na altura do pescoço.
O documentário foi exibido no Festival de Sundance (Foto: Universal Pictures)

Davi Marcelgo

Como alguém pode ser capaz de decidir os rumos de um projeto mesmo após morrer? It’s Never Over, Jeff Buckley, documentário que deixou o público com os olhos marejados ao final de sua primeira sessão na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é uma produção que se curva ao olhar que o compositor possuía em relação à Arte. Buckley foi uma das vozes mais exponenciais da década de 1990 nos Estados Unidos, além de compositor e guitarrista, portanto, se a direção de Amy Berg utlizasse apenas as imagens hinóticas do cantor performando, seria compreensível e não menos interessante. Porém, ela se concentra nas influências pessoais que migraram para o único disco do americano, sobretudo as mulheres que conviveram com ele.  Continue lendo “Amy Berg tenta castrar um Deus em It’s Never Over, Jeff Buckley”

A estreia de Harris Dickinson em Urchin é traiçoeira

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme UrchinNa imagem, o personagem Mike está sentado em uma cadeira, com as costas apoiadas na parede e pernas em uma mesa. Ele está à direita da fotografia, vestindo camisa de botões verde clara, óculos escuros, shorts com estampas de cruz na tom verde e mocassim de pele de cobra. Ele está com as costas apoiadas no canto da sala, em uma parede, enquanto as costas da cadeira estão na parede da frente. Na mesa de madeira, há um ventilador branco de hélices azuis, um rádio grande, um abajur aceso e uma folha. No canto inferior esquerdo há um aquecedor. As paredes são amarelas. Mike é um rapaz branco, na faixa dos 30 anos, de cabelos castanhos claros e barba por fazer.
O longa marca a estreia do britânico na direção (Foto: BBC Film)

Davi Marcelgo

Urchin é um daqueles filmes que você já sabe o que vai acontecer, pois não trabalha com o segredo ou indicações de reviravolta, apenas com a confirmação da expectativa que o público possui. Nesse sentido, se assemelha a Anora (2024), que dilui um sonho à la Cinderela na primeira parte do enredo para depois desmanchá-lo, puxando o tapete do espectador. Com esse senso de ameaça, o roteirista e diretor estreante, Harris Dickinson, consegue tornar o peito de quem vê, um lar de angústias. A ficção faz parte de duas seções na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Foco Reino Unido e Competição Novos Diretores. Continue lendo “A estreia de Harris Dickinson em Urchin é traiçoeira”

Novembro tenta honrar as memórias do passado, mas sucumbe na superficialidade

Em um close-up do filme Novembro, uma mulher loira com expressão angustiada e olhos arregalados cobre a boca e o nariz com um pano azul escuro. Ela veste uma jaqueta escura, e o fundo está desfocado com um tom esverdeado.
Entre o real e o encenado, Novembro busca dar forma ao trauma coletivo colombiano (Foto: Vulcana Cinema)

Arthur Caires

O cerco ao Palácio da Justiça da Colômbia, ocorrido em 6 de novembro de 1985, foi um dos episódios mais violentos e traumáticos da história do país. Integrantes do grupo guerrilheiro M-19 invadiram o edifício, em Bogotá, tomando magistrados, funcionários e civis como reféns em um ato que pretendia denunciar o governo e forçar um julgamento simbólico do presidente colombiano. A resposta militar foi imediata e devastadora: o exército cercou o prédio e iniciou uma ofensiva que durou cerca de dois dias, resultando em um incêndio que deixou mais de cem mortos, incluindo juízes da Suprema Corte. 

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Em Dolores, a ambição é um princípio que ultrapassa gerações

Na imagem, há três mulheres de frente a uma janela. A primeira mulher possui pele negra e cabelos cacheados presos. A segunda mulher possui pele branca e cabelos grisalhos. A terceira mulher possui pele negra e cabelos cacheados longos. Todas estão contemplando o horizonte.
Dolores é um manifesto cultural da potência do cinema brasileiro. (Foto: Dezenove Som e Imagens)

Victor Hugo Aguila

Desejar mudar sua realidade é a aposta mais arriscada e vantajosa que alguém pode ter. Na seleção da Mostra Brasil da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Dolores apresenta a história de três mulheres da mesma família, em diferentes gerações. Ao abordar o sentimento de ambição compartilhado entre neta, mãe e avó, o longa mostra uma nova maneira de enxergar a relação entre mulheres. 

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Se Não Fosse Você dá esperança ao fã de comédias românticas, mas falha quando tenta ser dramático

Aviso: Este texto contém alguns spoilers

Mason Thames e Mckenna Grace estão em um momento íntimo e terno ao ar livre, diante de um veículo azul desfocado ao fundo. O rapaz, de cabelos castanhos encaracolados, veste uma jaqueta escura com detalhes claros e segura delicadamente o queixo da moça com a mão. Ele olha para ela com expressão suave e carinhosa, inclinado para a frente. A moça, loira e de cabelos longos e ondulados, encara o rapaz com olhar igualmente afetuoso, enquanto a luz dourada do entardecer ilumina seus rostos, criando uma atmosfera romântica e serena.
Adaptação do livro “Se Não Fosse Você”, de Colleen Hoover, mata a saudade de clichês românticos (Foto: Paramount Pictures)

Ana Beatriz Zamai 

Inspirado na obra de mesmo nome, Se Não Fosse Você (2019) é mais uma adaptação literária da controversa Colleen Hoover, autora de best-sellers como É Assim que Acaba (2016) e Verity (2018), que também saíram do papel para as telonas, em 2024 e, futuramente, 2026, respectivamente. Porém, para quem não leu o livro, provavelmente não irá associar o filme à escritora, visto que essa não é uma de suas obras mais famosas – e os fatores negativos da adaptação não são somente associados ao desenvolvimento da trama, como no longa estrelado por Blake Lively

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À Paisana, você pode encontrar o sentido da vida

Cena do filme À Paisana. Na imagem, há dois homens brancos se encarando através do espelho de um banheiro. O rapaz da esquerda possui cabelos castanhos escuros e utiliza um boné e moletom azuis, enquanto o homem da direita usa uma blusa vermelha com um casaco azul por cima, além de ter cabelos grisalhos, utilizar óculos e ter um bigode.
A tensão sexual entre Tom Blyth e Russell Tovey nos minutos iniciais da obra traz um misto de sensações, que serão abordadas ao longo da narrativa (Foto: Magnolia Pictures)

Guilherme Machado Leal 

A sensação de descobrir que é alguém no mundo é uma em um milhão. Antes de tudo acontecer, o indivíduo não entende muito bem qual é o seu lugar e objetivo de vida. É como se precisasse de um ponto de partida para dizer firmemente que é um ser humano. Esse momento acontece com Lucas (Tom Blyth) no dia em que conhece, no banheiro de um shopping de Nova York, o homem que o mudará. Centralizado na década de 1990, À Paisana acompanha uma tarefa policial em prol do combate ao cruising, prática também conhecida como ‘banheirão’ dependendo do local onde ocorre e que é realizada por homens queers em lugares públicos. 

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E Mais Alguém nos mostra que o silêncio pode ser a ponte entre o confronto e o amor

Na imagem, há uma mulher branca de cabelos castanhos presos usando um suéter rosa. Ela está segurando um livro. Ao seu lado, um homem branco calvo, de barba grisalha e ele está vestindo um suéter azul listrado. À sua frente, há um notebook aberto. No lado direito da imagem, há um menino branco com cabelos castanhos utilizando uma camiseta azul. Todos estão sentados à mesa.
A fotografia do filme é um dos destaques mais marcantes do longa-metragem (Foto: Room for Film)

Victor Hugo Aguila

Escolher o silêncio como forma ideal de diálogo é, acima de tudo, disruptivo. Integrando a seção de Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, E Mais Alguém, de Vincent Tilanus, apresenta um olhar intimista – e quase psicanalítico – à respeito de dinâmicas familiares. No longa holandês, Tommy (Pier Bonnema), um adolescente queer de 17 anos, ao encontrar mensagens sexuais entre seu pai e outro homem, mergulha em uma espiral de tensão, fomentada pelo desejo de ser honesto, sem perder a lealdade que tanto valoriza. 

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O Telefone Preto 2 é uma alucinação sobrenatural que entende o trauma, mas se perde em suas sombras

Aviso: este texto contém alguns spoilers

Um adolescente de cabelo castanho e jaqueta verde está dentro de uma cabine telefônica, segurando o telefone próximo ao ouvido e olhando atentamente para um homem do lado de fora. O homem usa uma máscara pálida e rachada com chifres, cabelos longos e roupas escuras, observando o garoto sob uma luz fria e tensa.
Dentre os rostos marcados pela neve e pela culpa, o horror de O Telefone Preto 2 é mais psicológico do que físico (Foto: Universal Pictures)

Gabriel Diaz

Após quatro anos do primeiro longa, o horror já não está apenas à espreita no porão claustrofóbico, mas se instala na mente, no sonho, no limiar entre o que se vê e o que se teme. Scott Derrickson retorna ao universo da obra original de Joe Hill, tentando expandir uma história que, no primeiro filme, parecia já ter alcançado seu fim natural. Conhecido por unir fé e medo em clássicos como O Exorcismo de Emily Rose (2005) e A Entidade (2012),o diretor retoma aqui temas que o fascinam: o trauma, o sagrado e o invisível. O Telefone Preto 2 é, ao mesmo tempo, uma continuação e uma reflexão sobre o que resta do terror quando o monstro morre, porém o medo permanece. O resultado é uma produção ambiciosa e visualmente intrigante, embora irregular no equilíbrio entre simbologia e narrativa.

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Mr. Scorsese e a arte de amar os pecadores

Retrato em preto e branco de Martin Scorsese, visto de perfil, já mais velho, usando chapéu e sobretudo escuro. Ao fundo, uma rua iluminada com paredes texturizadas, sugerindo um ambiente urbano.
Aplaudida de pé no Festival de Cinema de Nova York, série revisita o lendário trabalho de um dos diretores mais aclamados da história. (Foto: AppleTV)

Gabriel Quesada  

Na seção Apresentação Especial da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a série documental de cinco episódios da Apple TV+, com direção de Rebecca Miller, abre com uma colagem de cenas dirigidas por Martin Scorsese ao som de Sympathy For The Devil (ou “empatia pelo diabo”) dos Rolling Stones, afinal, estamos falando de um diretor com fascínio pela violência (tema que, por vezes, lhe rendeu algumas polêmicas na carreira). Além disso, a obra viaja para a infância do cineasta para entender de onde aquele rapazinho asmático de apenas um metro e sessenta tirava tanta braveza. 

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Os caminhos do Cinema em Nouvelle Vague

Cena do filme Nouvelle VagueNa imagem, que é em preto e branco, a personagem Jean Seberg está dentro de um carro, ajoelhada nos bancos de trás, olhando para a janela traseira, de costas para o painel do veículo. Ela está com as mãos apoiadas no rosto e olha com admiração à sua frente. Ela é uma mulher branca, na faixa dos 30 anos, de cabelos loiros e curtos, penteados para o lado.
O filme foi exibido no Festival de Cannes (Foto: ARP Sélection)

Davi Marcelgo

Antes da sessão de Nouvelle Vague na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começar, um medo pairava no ar: Richard Linklater conseguiria respeitar ou se equivaler ao Acossado (1960) de Jean-Luc Godard? A resposta para essa pergunta tampouco importou durante os 105 minutos que rolaram no projetor, porque muito foi sentido na exibição. O diretor americano demonstra saudosismo pelo movimento francês, mas sem se ‘masturbar’ perante a genialidade de Godard, Truffaut ou Varda

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