A Incrível Eleanor: envelhecer também é viver; uma reflexão sobre amor e luto

Cena do filme A Incrível Eleanor.Na imagem, aparece Eleanor, uma mulher branca, idosa, de cabelos brancos, ​​que está sentada em uma lanchonete, usando um casaco rosa e uma blusa verde-azulada. Ela está com as mãos apoiadas sobre a mesa e olha para o lado parecendo pensativa. À sua frente há dois copos grandes de refrigerante. Ao fundo, há mesas e cadeiras vermelhas e pretas.
Após mais de uma década morando com sua amiga na Flórida, Eleanor volta para Nova Iorque e questiona sua relação com esse antigo, mas, também, novo lar (Fonte: Sony Pictures)

Mariana Bezerra 

A Incrível Eleanor, estreia de Scarlett Johansson na direção, foi lançado no início de 2025 no Festival de Cannes. Ainda sem data de lançamento nos cinemas nacionais, a primeira sessão do longa, no Brasil, aconteceu na 49ª Mostra de Cinema de São Paulo, como parte da seção Apresentação Especial. Como já ocorreu com outras atrizes que conquistaram renome na frente das câmeras, Johansson se posicionou, pela primeira vez, por trás delas. Aqui, a estrela de Hollywood concede um respiro às próprias personagens e se aventura em uma função responsável por orquestrar um resultado belíssimo, que surpreende pela delicadeza e pela simplicidade. 

A protagonista que dá nome ao filme é uma senhora de 94 anos interpretada pela talentosíssima June Squibb (Thelma 2024). Ao lado de Bessy (Rita Zohar) – uma mulher judia e polonesa, sobrevivente do Holocausto – melhor amiga e colega de apartamento de Eleanor, elas formam uma dupla carismática e sem papas na língua. As duas provocam uma onda de gargalhadas contagiante logo nos primeiros cinco minutos de filme. Para além da comicidade, as grandes amigas carregam a beleza de uma relação entre mulheres que já atravessaram muitas fases da vida. Elas perderam seus maridos, estão lidando com a distância dos filhos e com o processo de envelhecimento, mas fazem tudo isso juntas, como se fossem duas adolescentes, até o momento em que Eleanor precisa lidar com a morte de Bessy. O ponto de partida da história, por si só, já aponta para algo que precisa de uma sensibilidade no roteiro, uma direção atenta, além de um elenco extraordinário para funcionar e, Eleanor the Great, no original, definitivamente cumpre todos os requisitos.

Sozinha no apartamento que antes era um lar compartilhado com a sua ‘família escolhida’, a protagonista se vê forçada a sair da Flórida e voltar a Nova Iorque para morar com a sua filha. A grande questão é que o texto, de Tory Kamen, é cirúrgico ao expressar o retrato extremamente comum de uma mãe que se distancia da filha durante a velhice, e de familiares que escolhem delegar a sua relação aos laços sanguíneos. E, quando isso acontece, é a estranheza que se manifesta. Nesse sentido, o ambiente também é um elemento que envolve conexão. Assim, os poucos cenários do longa oscilam entre os íntimos a Eleanor e os estranhos: aqueles que ela não conhecia e com os quais precisa se acostumar de uma hora para outra, uma dinâmica interessante que não passa despercebida.

Cena do filme A Incrível Eleanor.À esquerda está Bessy, uma mulher judia, que tem os cabelos esbranquiçados e usa um óculos pequeno e veste um roupão rosa claro. Ao seu lado está Eleanor, uma senhora branca de cabelos brancos, que estão enrolados e presos com bobs. Ela veste uma roupa de pijama azul claro. Elas estão de frente uma para outra e rindo juntas. Ambas estão sentadas em uma mesa redonda na cozinha, que contém armários de madeira e utensílio na bancada ao fundo.
A narrativa concede a devida atenção e trata com sensibilidade o luto da protagonista (Fonte: Sony Pictures)

Enquanto tenta processar o luto, a protagonista, acidentalmente, acaba em um grupo de apoio a sobreviventes do Holocausto. Nesse momento, sem entender o que estava acontecendo, ela se depara com pessoas que querem ouvi-la e isso era tudo o que ela gostaria de saber. Assim, brilhantemente, June Squibb, no auge dos seus 95 anos, põe na tela uma personagem complexa, que carrega a irreverência trazida pela longevidade sem que isso a torne caricata. A atriz, inclusive, comenta, em uma entrevista da NBC News, que um dos aspectos que mais a interessou no roteiro foi a forma como ele “não ri da idade”. 

Diante dessa possibilidade que parece tão tentadora de receber acolhimento, ao ser questionada sobre a sua experiência como sobrevivente, a personagem de Squibb começa a contar sobre a vida de Bessy como se fosse a sua. A protagonista parece, inconscientemente, tentar resgatar a presença da amiga ao materializar as suas lembranças para os colegas do grupo. Antes de migrar para os Estados Unidos, onde conheceu Eleanor, a polonesa foi escravizada, junto com o irmão, em um campo de concentração. Eles conseguiram fugir, mas o menino foi morto a tiros – 14, mais precisamente. As feridas abertas de um dos eventos mais cruéis da história da humanidade são retratadas de forma intensa sem que seja necessário mostrar soldados nazistas, armas e câmaras de gás. A narrativa e a memória são potências suficientes aqui. Esse é um tema que alude à herança familiar de Johansson e com o qual ela já trabalhou anteriormente como atriz, como é o caso do filme Jojo Rabbit (2019), de Taika Waititi.

A vida de Bessy, contada por Eleanor, chama a atenção de Nina (Erin Kellyman) uma jovem escritora, também de ascendência judia, que está cursando uma disciplina de jornalismo e decide usar o grupo de apoio como tema de um artigo. Muito rapidamente, ela se aproxima da protagonista, que, no início, precisa fingir ser tímida para recusar as tentativas de contato da estudante. Até porque, de tímida, Eleanor não tem nada. E como disse seu neto, Max (Will Price), ela viverá por volta de 100 anos. A impressão que fica é que ela fará isso de forma leve, justamente porque não carrega palavras não ditas dentro de si. No que diz respeito à morte, se ela é inevitável, falar a respeito é crucial para os que ficam.

Cena do Filme A Incrível Eleanor.Eleanor, uma mulher idosa de pele e cabelos brancos e expressão alegre, vestindo um casaco rosa e uma máscara de dormir na testa. Ela está de frente a Nina, uma mulher mais jovem de cabelos cacheados ruivos e jaqueta marrom claro. Ambas estão ao lado de um carro, em um movimento de desembarque
Em uma das poucas cenas externas, Nina surpreende Eleanor com uma visita à Coney Island, um lugar afetivo para a mais velha ( Fonte: Sony Pictures)

Enquanto a jovem tateava no escuro tentando encontrar a melhor maneira de lidar com o luto, seu pai escolheu nem sequer admitir a existência dele. Roger (Chiwetel Ejiofor) é um jornalista famoso e renomado, que se afogou na vida profissional após a perda da esposa, o que tornou a sua filha ainda mais solitária e perdida diante da dor. Portanto, o laço de amizade com a personagem principal é algo ainda mais valioso e revolucionário para o processo de adaptação a uma realidade tão difícil de encarar. 

Quando a verdade sobre a vida dupla de Eleanor vem à tona, a narrativa se volta completamente para o sofrimento das envolvidas e quase nada para as consequências da mentira da protagonista. Esse aspecto pode ter sido sim uma drástica conveniência de roteiro, que, diferente da maioria delas, funciona, pelo menos em partes. Em alguns momentos, o texto peca por não aprofundar os conflitos éticos envolvidos, especialmente em se tratando da sensibilidade de uma das vítimas. Por outro lado, a solidão e sofrimento de Nina, a outra vítima dessa situação, são muito bem explorados e esclarecem o porquê a perda da amizade de Eleanor foi muito mais intensa do que a perda da fonte jornalística

A narrativa usa o luto como um terreno fértil para explorar sentimentos múltiplos e confusos. Apesar de ela ter se permitido abrandar um pouco demais determinadas situações, isso é justificado com conceitos subjetivos, assim a história consegue emocionar e retratar a beleza que deseja. A direção e o roteiro usam a universalidade para refletir sobre como enxergamos as pessoas e, principalmente, as mulheres idosas ao nosso redor. 

Há uma belíssima relação presente no fato de a própria June estar desafiando padrões e construindo um novo capítulo profissional na casa dos 90 anos. Nesse sentido, o longa ocupa o grande espaço que é a tela do cinema com a mensagem de que seres humanos estão produzindo suas histórias a todo momento, independentemente da idade. Ainda que trate da finitude, A Incrível Eleanor vai além: a vida não acaba quando termina, mas apenas quando a nossa história deixa de ser contada. 

 

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