A Árvore do Conhecimento tenta ser crítico, mas acaba sendo apenas debochado e raso

Cena de A Árvore do Conhecimento. Em um quarto de aparência clássica, um jovem de cabelos escuros cacheados senta-se abruptamente na cama com uma expressão de surpresa, vestindo uma camisa de dormir branca. A cena é inusitada, pois ele está ladeado por dois animais: à sua esquerda, um burro cinza está em pé ao lado da cama olhando para ele, e à sua direita, um cachorro da raça golden retriever descansa tranquilamente sobre o edredom marrom.
Eugène Green já participou da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo anteriormente (Foto: O Som e a Fúria)

Guilherme Moraes

Assim como na edição anterior, o que não falta na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo são filmes escondidos que podem surpreender positivamente. Este não é o caso de A Árvore do Conhecimento, dirigido por Eugène Green e que fez parte da seção Perspectiva Internacional. A obra portuguesa se apega à fantasia e à comédia escrachada para fazer críticas à extrema direita mundial – especialmente a norte-americana –, porém as piadas não conseguem ir além do deboche.

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Em Delírios, aprendemos que o passado é a casa que nunca nos deixa partir

Cena do filme Delírios (2024). Uma menina de cabelos curtos e expressão assustada espreita pela fresta de uma porta verde com uma cruz de ferro pregada no alto. O ambiente é escuro e frio, com um banco de madeira e vasos de plantas secas ao lado. A iluminação destaca a textura da madeira, criando um clima de suspense e isolamento.
Em Delírios, o medo se esconde nas frestas. Masha observa o mundo do lado de dentro, onde o silêncio pesa mais que qualquer ameaça (Foto: Cyan Prods)

Arthur Caires

Há casas que respiram, e em Delírios, cada parede guarda o som abafado de um segredo. Alexandra Latishev Salazar transforma o lar – esse espaço de suposta segurança – em um organismo adoecido, feito de memórias que se recusam a morrer. Masha, uma menina de onze anos, muda-se com a mãe para cuidar da avó doente, e o que deveria ser um gesto de afeto se converte em um ritual de exorcismo. A cada instante, o passado parece infiltrar-se pelos cantos, até que a casa se torna uma extensão da mente: um labirinto onde o medo e a lembrança convivem.

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Babystar convida a rir do absurdo e implora para que ele não seja o novo normal

Cena do filme Babystar: À esquerda, um homem de cabelo longo preso em um coque olha para uma tela. No centro, Luca, uma mulher branca e loira, de vestido vermelho amarrado ao pescoço, tira uma selfie com o celular, enquanto sua mãe, à direita, também branca e loira em um conjunto rosa, fotografa a cena com o celular. Todos estão sentados em uma mesa de jantar elegante, iluminada por luz amarela suave, com taças, guardanapos dobrados e cortinas de tons claros.
”Eu penso que o problema [nas redes sociais] é que todos pensam ser a pessoa mais importante do mundo”- Joscha Bongard para o Persona (Foto: Lise Lotte Films)
Mariana Bezerra 

Babystar é um filme alemão independente, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 2025. No Brasil, ele foi exibido, pela primeira vez, na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo como integrante competitiva na categoria Novos Diretores. O longa de Joscha Bongard mergulha no universo das redes sociais e dos influencers para construir a narrativa sobre uma família cuja vida íntima é completamente exposta, sem qualquer indício de privacidade. Com um orçamento extremamente limitado, Bongard mantém a câmera centralizada na casa desse núcleo familiar, que parece mais um estúdio do que um lar. Nela, os laços genuínos estão em guerra constante com o desejo e a necessidade de performar.

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Em Bugonia, Yorgos Lanthimos explora o limite entre a morte e a criação

Imagem de Bugonia, filme de Yorgos Lanthimos. Na foto vemos a personagem Michelle, uma mulher branca com a cabeça raspada, olhando para cima. Na região de cima da imagem escorrem dois líquidos sobrepostos, um na cor vermelha e outro na cor amarela.
Bugonia pode figurar entre os indicados no Oscar de Melhor Filme (Foto: Universal Pictures)

Vitória Borges

Exibida no Festival de Veneza de 2025, Bugonia, nova produção de Yorgos Lanthimos, faz parte da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O longa, que acompanha a história de dois jovens primos obcecados por teorias da conspiração, busca trazer uma sátira um pouco grotesca sobre os pensamentos políticos da esquerda e da direita.

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O Mundo do Amor nos ensina a não sermos definidos pela nossa dor

Cena do filme O Mundo do Amor. Uma estudante de uniforme escolar está sentada sozinha em uma sala de aula vazia, lendo uma carta com expressão preocupada. Ela veste uma camisa branca, colete bege e gravata azul escura. Ao redor, há mesas desorganizadas com livros e mochilas.
Os bilhetes recebidos durante o filme sempre a questionam ‘você realmente seguiu em frente?’ (Foto:Barunson E&A)

Stephanie Cardoso

Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Perspectiva Internacional, O Mundo do Amor confirma Yoon Ga-eun como uma das vozes mais sensíveis e afiadas do cinema sul-coreano. Depois de encantar com O Nosso Mundo (2016) e The House of Us (2019), a diretora volta ao universo adolescente com um olhar maduro, quase dolorosamente humano. Aqui, cada silêncio diz mais que qualquer diálogo, e a câmera parece sussurrar o que os personagens não conseguem falar.

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Nas Terras Selvagens, sobrevive o Predador que melhor se adapta

Aviso: esse texto contém spoilers

Cena de Predador: Terras Selvagens. Um close-up frontal e intenso do Predador. Ele ruge, mostrando suas mandíbulas abertas e presas afiadas. Seus olhos amarelados estão focados à frente, e ao fundo, uma cena de batalha com fogo e fumaça aparece desfocada.
Dan Trachtenberg também dirigiu O Predador: A Caçada (2022) que saiu diretamente no Disney+ (Foto: Disney)

Guilherme Moraes

Um dos grandes desafios para as franquias decenais não é de se reinventar, mas de inserir uma ideia original dentro da mesma fórmula. A necessidade do estúdio de lucrar sempre irá se sobrepor ao do artista na indústria americana, dessa forma, a reinvenção vira apenas um discurso, pois apostar no conhecido se paga e ainda faz dinheiro – aliás, é exatamente por esses motivos que esses filmes são refilmados ou recebem uma continuação. O que resta para alguns cineastas é fazer um trabalho de artesanato e criar algo singular dentro desse sistema. Longe de dizer que Dan Trachtenberg é um artesão da Sétima Arte, porém, pelo menos em Predador: Terras Selvagens, o diretor consegue instaurar uma relação entre os personagens e o ambiente de maneira criativa.

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Depois, a Névoa revela o que resta quando o tempo se dissolve

Um plano médio de César (Pablo Limarzi) no filme 'Depois, a Névoa'. Ele é um homem de meia-idade com barba e cabelo grisalhos, vestindo um casaco de couro escuro e um cachecol marrom grosso. Ele olha diretamente para a câmera com uma expressão séria, em um ambiente externo à noite, com luzes de rua ou carros desfocadas ao fundo.
A travessia de César é também a travessia do olhar (Foto: Punto de Fuga Cine)

Arthur Caires

Há algo de ritualístico em Depois, a Névoa, segundo longa-metragem de Martín Sappia, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores. O filme se inscreve na tradição do cinema cordobês – vertente argentina que há anos busca capturar a serenidade e o isolamento de personagens mergulhados em paisagens interiores tanto quanto geográficas. No entanto, Sappia não apenas revisita esse território: ele o observa como se fosse a primeira vez, como se cada névoa, cada pedra e cada sopro de vento ainda tivessem algo a revelar sobre o que significa existir no mundo.

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Napoli–New York tenta ser uma homenagem italiana ao pós-guerra, mas é vista pelo olhar de um cartão-postal americano

Uma cena dramática em um corredor com piso de madeira e janelas altas. Em primeiro plano, o menino (Carmine), com uma jaqueta cinza-amarronzada, abraça a menina (Celestina), que está com um vestido. Os dois estão abraçados com expressões de afeto e talvez angústia, cercados por diversos fotógrafos que seguram câmeras de época grandes com flash, tirando fotos do momento. Dois homens mais velhos, um com óculos e outro espiando por um canto, observam a cena ao fundo. O ambiente sugere um evento de grande cobertura jornalística ou uma situação pública intensa.
O brilho americano visto pelos olhos de quem nunca saiu da guerra (Foto: Rai Cinema)

Arthur Caires

Sob o velho outdoor do “There’s no way like the American way”, Napoli–New York, escolhido para abertura da 20ª edição do Festival De Cinema Italiano, encontra o seu ponto de partida: entre a promessa estampada e a fome que a moldura insiste em esconder. Inspirado em uma história original dos cineastas italianos Federico Fellini e Tullio Pinelli, e dirigido por Gabriele Salvatores, o longa revisita o pós-guerra com um olhar colorido e melancólico, de quem acredita que a esperança ainda pode nascer entre escombros.

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Ruas da Glória é uma travessia pela intensidade exaustiva até a possibilidade de recomeço

Um close-up noturno do personagem Gabriel, interpretado por Caio Macedo, no filme Ruas da Glória. Ele é um jovem de pele clara e cabelos castanhos ondulados, vestindo uma camisa de botão com estampa de leopardo. Gabriel olha para baixo e para o lado com uma expressão séria e introspectiva. O fundo está desfocado, preenchido por luzes brilhantes da cidade, sugerindo um ambiente externo à noite.
Gabriel passa por um batismo de amor regado em sal, cinzas e carne (Foto: Retrato Filmes)

Arthur Caires

Há algo de purificador no sal. Ele arde, corrói, mas também cicatriza. Ruas da Glória, de Felipe Sholl, começa e termina nesse movimento de luto – um mergulho que é tanto literal quanto emocional. O filme acompanha Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor que, após perder a avó e romper com o pai, parte do Recife em busca de uma vida nova no Rio de Janeiro. O que encontra, porém, é o caos de um desejo que o consome por dentro. Entre becos iluminados por neon e corpos suados na penumbra, Sholl filma o amor como uma vertigem: belo, porém irremediavelmente doloroso.

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O Agente Secreto: pensado para que o Brasil visse a si mesmo, abriu portas no mundo todo

Tapete vermelho do filme Agente Secreto. Várias pessoas estão juntas enquanto olham para a câmera, para tirarem uma foto. Ao fundo está o painel da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Elenco e equipe de O Agente Secreto durante o tapete vermelho em São Paulo (Foto: Mariana Bezerra)

Mariana Bezerra e Stephanie Cardoso

Na noite de 28 de outubro, o Cultura Artística, em São Paulo, foi tomado por flashes, tapete vermelho e uma plateia ansiosa para a exibição de O Agente Secreto durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A sessão contou com a presença do elenco e uma recepção calorosa – um marco simbólico para um filme que já nasceu com vocação internacional. Depois de brilhar no Festival de Cannes e ser escolhido para representar o Brasil no Oscar, o novo longa de Kleber Mendonça Filho vem consolidando o diretor como uma das vozes mais originais e respeitadas do cinema contemporâneo.

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