Os melhores filmes de 2017

Não é exagero dizer que o cinema teve um ano de renovação em 2017. Velhas franquias tiveram coragem de ignorar os fãs mais chatos e propor ideias novas. Os cinemas comerciais receberam com amor e ódio diretores antes relegados a nichos. Até o tão estagnado cinema de terror recebeu um polêmico prefixo “pós”, tamanha a diferença das temáticas abordadas nos filmes.

As escolhas pessoais dos participantes do Persona refletem esse ânimo por discutir cinema nas mais distintas áreas.


Bingo – O Rei das Manhãs

Uma das coisas que mais atrai o ser humano é a sátira, gênero que, em definição simples, ironiza costumes de uma determinada época. Basicamente, o trunfo de Bingo – O Rei das Manhãs é mostrar a anarquia que era a TV brasileira dos anos 80. Inspirado na história de Arlindo Barreto, intérprete do famoso palhaço Bozo, o filme retrata a luta de Augusto Mendes (Vladimir Brichta, ótimo) para alcançar o estrelato e as consequências da fama em sua vida profissional e, principalmente, pessoal.

Bingo une de forma eficiente um bom roteiro e qualidade técnica. Em uma fotografia e trilha sonora que nada devem à estética da década de 1980, o longa mostra de forma crua como Augusto mergulha em sexo e drogas conforme faz mais sucesso como palhaço. Já é possível dizer que Bingo é um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos e merece representar o Brasil no próximo Oscar. Um verdadeiro must.  – Guilherme Hansen


Blade Runner 2049

O ano é 2049, Califórnia. Uma nova espécie de robôs foi desenvolvida e dessa vez eles estão muito mais obedientes do que seus antepassados, que apareceram no Blade Runner de 1982, o Nexus 8. A história se baseia em um perigo que está ameaçando fortemente a humanidade. O novato oficial K (Ryan Gosling) desenterrou um segredo terrível, o que o leva às buscas freneticamente antes que seja tarde demais e o mundo vire um caos.

Fora das telas, os robôs, também conhecidos como ‘replicantes’, são muito mais reais do que se imagina. A obra ficcional tem fortes semelhanças com os ciborgues virtuais que estão influenciando a opinião política do mundo através das redes sociais. Fake news, eleições americanas, entre outros acontecimentos que marcaram 2017. E agora?! Será que o teste Voight Kampff utilizado no primeiro longa para diferenciar humanos de replicantes pode salvar o mundo real e ficcional? – Heloísa Manduca


Corra!

Na esfera política, o movimento Black Live Matters tem ganhado presença e se destacado como uma voz das minorias no debate público sobre a questão racial nos EUA – isso desde que surgiu em 2013 em decorrência da violência policial contra a população negra. No mercado cinematográfico, o espaço tem sido disputado (vide #oscarsowhite), mas também tem rendido frutos, como os recentes e aclamados Moonlight e Selma. É seguro afirmar que essa lista tem tudo pra ganhar mais um figurante de peso com Get Out.

Sob o comando do diretor Jordan Peele, a obra adota um tom incessante e satírico para apresentar a história de um negro em solo norte-americano e para tratar das temáticas que essa premissa provoca. Uma das cenas mais marcantes do filme causa sentimento de desespero no espectador, e é utilizado pelo idealizador como um recurso para retratar o silenciamento forçado das minorias, um dos assuntos centrais da obra. O filme é eficaz em construir uma atmosfera claustrofóbica de terror e em apresentar uma breve interpretação das problemáticas raciais enfrentadas pela população negra nos EUA. Essa interpretação gera uma inquietude que só para ao rolar dos créditos. – Matheus Rodrigo


Creep 2

Creep 2 é assinado pela dupla Patrick Brice e Mark Duplass. O primeiro dirige, o segundo protagoniza e ambos roteirizam. A outra protagonista é Amy (Desiree Akhavan), uma jovem que anda decepcionada pelos poucos acessos do seu canal de YouTube, que mostra os seus encontros entre anunciantes estranhos do Craigslist. Ao ser contatada por Aaron (Duplass), a trama inicia sua montanha russa de aflição, vergonha alheia e risadas de nervoso. Desse modo, o longa reafirma que o terror psicológico não precisa originar de sentimentos negativos.

As revelações que ocorrem no filme anterior, de 2014, sobre Aaron criam, inicialmente, uma distância entre o que Amy e o público conhecem. Isso poderia causar frustração no espectador, porém Amy toma atitudes não pertencentes àquelas costumeiras a personagem padrão do gênero terror. Não só isso, mas o roteiro da sequência sabe usar plot twists como ferramentas de renovação, tirando as personagens e o público de suas respectivas zonas de conforto, repetidamente.

O resultado é um filme contido e com personalidade, que fala mais do ser humano do que os filmes do suposto “pós-terror” prometem. E, ao acabar, te deixa feliz por ter saído daquela situação, ao mesmo tempo em que te deixa igualmente feliz por a ter experienciado. – Gabriel Rodrigues de Mello


Em Ritmo de Fuga

Pode até soar simplória a premissa do jovem superdotado que foi obrigado a entrar no crime e vê seu esforço para sair dessa vida alavancado por um interesse amoroso. Mas o que torna Em Ritmo de Fuga um ponto fora da curva é como o diretor e roteirista Edgar Wright une ação e trilha sonora em um balé visual eletrizante. O filme é praticamente um musical, no sentido em que a música guia tudo, dos movimentos de câmera aos carros em cenas de perseguição.

Wright transforma o simples em exagero e o exagero em absurdo. A ação catártica, sem cortes exagerados e muito bem montada, se junta com a imprevisibilidade da narrativa e mostra que existe originalidade no gênero de ação. O filme realmente é uma experiência muito diferente do que se vê todo dia no cinema e vale cada segundo.- Gabriel Soldeira Regis


mãe!

Ocupando espaço tanto nas listas de melhores quanto de piores filmes, mãe! é a obra mais divisiva lançada nos cinemas em 2017. Os críticos (em sua maior parte) elogiaram a ambição, já a audiência americana colocou mãe! no mesmo patamar de atentados cinematográficos como Alone in the Dark e Super Heróis: Liga da Injustiça.

Realizado depois do fracasso de proporções bíblicas Noé, em o diretor Darren Aronofsky aposta novamente nos temas religiosos para o thriller, dessa vez de forma mais alegórica, em meio a outras referências ao meio ambiente e ao processo artístico.

Incômodo e claustrofóbico, o filme desperta reações intensas a cada nova personagem que chega à casa de Jennifer Lawrence e Javier Bardem, culminando em um terceiro ato completamente insano e catártico. É difícil saber se as alegorias são uma escolha válida ou pura preguiça narrativa disfarçada de pretensiosidade, mais difícil ainda determinar em que ponto o tratamento recebido pela personagem título ultrapassa os limites e passa a se tornar puro sadismo. O que é inegável é que há muito tempo um filme tão arriscado e autoral não escapava para o mainstream, financiado por um dos grandes estúdios, e por isso (mais as intermináveis discussões provocadas), mãe! já merece um lugar entre os destaques do ano.  – Matheus Fernandes


Moonlight – Sob a Luz do Luar

2017 foi repleto de cenas tão inacreditáveis que só a vida real poderia nos proporcionar. E embora o caos e a injustiça dominem a maioria delas, pelo menos temos pequenos e significativos momentos de consolo. A entrega do Oscar para Moonlight, após o prêmio ser erroneamente concedido a La La Land, é um desses instantes que nos fazem, apesar de tudo, ter esperança até mesmo quando tudo parecia acabado. Um bonito golpe do destino para marcar de vez na história um dos filmes mais bonitos do cinema.

Moonlight apresenta a vida do afro-americano homossexual Chiron em três fases: infância, adolescência e início da vida adulta. A direção extremamente sensível de Barry Jenkins nos permite, antes de compreender, sentir a subjetividade das personagens. Culminando em um tocante último ato, o filme revela apenas com olhares e pequenos gestos o que há anos estava guardado, o peso do tempo mesmo não presenciado. – Lucas Marques dos Santos


O Ornitólogo

Baseado na história de Santo Antônio, O Ornitólogo foi um chute nas estruturas religiosas que tão bem conhecemos. O popular santo casamenteiro que, incontáveis vezes, já fora afogado por fiéis desesperados por um casamento, aqui são subvertidas pelo diretor português João Pedro Rodrigues para dissecar os desejos mais profundos de um jovem observador de pássaros.

Para isso, o diretor português cria uma via-crúcis numa selva demoníaca que leva ao caminho para São Thiago da Compostela e quase derrete de tanto surrealismo. Não obstante, os fortes elementos cristãs que permeiam a obra são cúmplice de uma explícita homoeroticidade, tema típico dos filmes de Rodrigues.

Com tanto elementos contrastantes, O Ornitólogo poderia ser facilmente uma crítica ao cristianismo, mas é somente a resinificação dela através da Mãe Natureza. Em tempos de sabotagem de direitos e visibilidade GLBTQ, o diretor cria uma parábola lírica para a comunidade, sem soar pretensioso ou panfletário. – Adriano Arrigo


Star Wars – Os Últimos Jedi

Desde que a Disney comprou a Lucasfilm em 2012 e anunciou as novas sequências, todo ano temos uma aposta garantida, seja nas bilheterias ou na crítica. No episódio VIII, o enredo é dividido nos diversos conflitos entre a Resistência e a Primeira Ordem, liderada pelo General Hux e Kylo Ren, e o esperado encontro entre Rey e Luke Skywalker.

Mesmo com esses três caminhos, o filme não se perde e cada personagem tem sua narrativa e objetivo -inclusive, surpreende o público com uma melhor construção de personagens já apresentados, principalmente o enigmático Kylo Ren, e de conceitos já estabelecidos, como a “Força”. Ainda assim, temos a clássica prestação de homenagens à franquia, seja com o fan service ou a trilha sonora, mas sem deixar de focar na história principal.

A imprevisibilidade causada pela mudança de tom padrão da saga sem medo do desagrado, a ausência de som (finalmente deixando a comunidade cientista feliz) em momentos especiais e o 3D muito bem utilizado fizeram desse episódio de Star Wars uma das experiências mais incríveis de assistir nas telonas neste fim de ano. – Egberto Santana Nunes


Toni Erdmann

Apesar da aclamação crítica, o último filme da diretora alemã Maren Ade não venceu o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Não pareceu importar para Hollywood, que já anunciou um remake no desespero de reanimar a carreira do outrora grande Jack Nicholson. Pudera: a combinação de humor e drama aqui é das mais únicas do cinema contemporâneo, e mesmo com quase três horas de duração é difícil permanecer indiferente a Toni Erdmann.

As discussões familiares retratadas por Yasujiro Ozu (Tokyo Story, de 1953) são repaginadas para o século XXI, com fortes doses do humor ácido típico do cinema francês. Em meio a história do pai tentando fazer a filha adulta rir, questões como os limites do humor, relações corporativas, o conflito entre sucesso profissional e família são pincelados de forma incisiva. Ade encontra as soluções mais absurdas para quebrar a tensão do roteiro e surpreende o espectador em uma trama que, por mais peculiar que seja, nos lembra de nossa própria (falta de?) humanidade. Resta torcer para que isso atinja os executivos de Hollywood e este singular filme não seja pasteurizado em tão pouco tempo… – Nilo Vieira

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