O Ornitólogo e a naturalização do desejo

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Adriano Arrigo

Pouquíssimos compreenderam a performance da atriz transexual Viviany Beleboni na Parada Gay de São Paulo, em 2015. Naquele ano, ela se vestiu de Jesus Cristo para denunciar a morte e o martírio de transexuais no Brasil, o país mais letal para essas pessoas no mundo. Após sua encenação, Viviany viria a colocar sua vida em jogo, quando fora esfaqueada por dois homens ao sair sozinha de casa para ir ao supermercado. “Falavam em Romanos (o livro da Bíblia) e coisas como ‘não te deitarás com um homem, como se fosse mulher’, muitas palavras que não entendia, como se fosse em outro idioma”, contou em uma entrevista.

A atriz sabia muito bem que a discussão sobre o tema teria muito mais impacto caso fosse levado para o nível simbólico. Independente da sua religião (ou, talvez, a falta dela), ela se apropriou do martírio de Jesus Cristo para tornar pública sua dor. Na Roma antiga, a morte na cruz era símbolo de expor à vergonha àqueles que cometiam crimes. Há ainda um meta simbolismo para os cristãos: a cruz é símbolo dos que seguem a fé cristã, mas possuem vergonha de proferi-la publicamente.

Tal como Viviany, o diretor português João Pedro Rodrigues traz em seu quinto longa, O Ornitólogo, sua reapropriação dos mitos religiosos. Nas figuras usadas em sua parábola emerge, principalmente, a entidade de Santo Antônio de Pádua (o nosso Santo Antônio), que é maltratado quando as coisas somem, amigo dos animais ou, ainda, aquele que afogamos quando não temos uma vida amorosa promissora.

Porém, Rodrigues transita sob a religião e outros temas espinhosos de maneira sútil e silenciosa. Na abertura de O Ornitólogo, o que há são somente aves sendo observadas – comem, nadam, voam, procriam e cuidam dos seus ovos. Tudo na visão de Fernando (Paul Hamy), o ornitólogo que leva o nome do filme. Aqui, o cinema naturalista do também polêmico filme de Alain Guiraudie, Um Estranho no Lago (2013), fala alto, ainda mais quando o tema da sexualidade se convergirá com a natureza.

Mas, diferente da limitação dentro da esfera do desejo sexual – tema muito bem trabalhado em seu primeiro filme, O Fantasma (2000) –, Rodrigues incorpora, no corpo de seu protagonista e de seu ambiente, todos os temas que lhe concernem. Para mostrar esse mundo, o diretor abusa de fotografia que enquadra planos mostrando a solidão e a pequeneza de seu protagonista diante da natureza. O lago, os grandes paredões rochosos e as florestas verdes e úmidas são alguns dos elementos que funcionam esteticamente, mas, para além disso, constroem um intrínseco jogos de símbolos dos quais Fernando terá que desvendar.

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A iniciar pelo rio bravo, que parte seu caiaque ao meio e deixa-o inconsciente na margem, até que duas asiáticas perdidas na floresta em busca do caminho de Santiago da Compostela o encontram. A partir dali, inicia-se a fuga da realidade, aproximando o filme a uma bela epopeia surrealista que desemboca na desconstrução de Fernando. E é difícil carimbar o que a desconstrução do personagem objetiva, mas o longa é incisivo em mostrar símbolos que dão as pistas de alguns caminhos. As que talvez fiquem mais evidentes são talvez as penitências que Fernando terá que passar nesse lugar inóspito que, de acordo com as asiáticas, é habitado por demônios. Então, cabe a ele encontrar na natureza a redenção de seus pecados ou – ao menos aquilo que ele acha ser pecado.

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E os pecados de Fernando podem ser muitos. Como a via crucis de Cristo, o próprio público pode lhe julgar pelos seus atos aparentemente pervertidos. Bondage e pissing são alguns desejos que ele trouxe consigo do mundo, mas que perante a natureza são normalizados. Sua aceitação é a sua jornada, e é nisso que O Ornitólogo se diferencia das outras obras de João Pedro Rodrigues, que lida com personagens condenados a solidão devido a sua eroticidade mal compreendida.

Sozinho, Fernando terá que encontrar seu caminho. E nesse caminho, muitos entes aparecerão, mas poucos se comunicarão plenamente com ele; entre as exceções, está um pastor surdo-mudo. Este é naturalizado no meio em que vive, assim como os pássaros que o protagonista observava anteriormente. Isso abre espaço para que Fernando e o pastor construam um breve elo afetivo e, com isso, legitime suas palavras anteriores sobre como os animais lhe querem bem. Porém, ao naturalizarmos a relação de Fernando com esse homem, estamos subvertendo a palavra “natural”, que justamente os religiosos mais ortodoxos insistem em usar para deslegitimar as relações homoafetivas.

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Sob a perseguição daqueles que provavelmente o sacrificariam em nome da diversão ou mesmo da justiça divina, Fernando terá que assumir publicamente sua fé. Mas sua fé não é a religiosa: trata-se da sua fé em seu desejo. O corpo de Fernando não negará muitas vezes o que ele deseja, e esse mesmo local sagrado também será desejado. Como resultado, a figura de São Sebastião será invocada mais uma vez – assim como tem sido nos últimos séculos, como ícone gay.

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Santo ou não, a volta de Fernando para o mundo real só será permitida quando ele for purificado. Após questionar os peixes em um lago negro, operar milagres e se transfigurar totalmente, o ornitólogo poderá voltar para casa no melhor estilo lynchiano. E aqui está o mérito de João Pedro Rodrigues: a busca e a transfiguração de seu personagem é uma poderosa fábula de um ser transviado que, a partir de seu delírio, promove a deslocação e subversão de mitos religiosos que, para muitos, são passiveis de uma única interpretação.

Além do mais, a forma com que estão hoje disseminados pelas raivosas bocas dos ortodoxos, essas crenças mais parecem animais sem vida e empalhados – tais quais o protagonista encontra espalhados pela floresta. Assim como ele, esses símbolos precisam ser queimados, jogados a correntezas para que, enfim, também transmutem-se e abriguem novas interpretações para os necessitados que a eles recorrerem.

 

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