
Mariana Gomes e Arthur Caires
O cinema latino-americano possui uma longa tradição em buscar o fantástico nas frestas do cotidiano. Obras como Suçuarana (2024), de Clarissa Campolina e Sérgio Borges, exemplificam como o insólito – ali manifestado pela relação de comunidade que ronda o pragmatismo da paisagem industrial – pode aprofundar o peso da realidade. Em A Mensageira (2025), o diretor argentino Iván Fund tenta capturar essa mesma força ao nos apresentar Anika (Anika Bootz), uma jovem do interior com o dom de traduzir os pensamentos da fauna local, do luto de um ouriço à jornada solitária de uma capivara.
Vencedor do Urso de Prata do Júri no Festival de Berlim, o diretor usou o espaço para celebrar o cinema argentino e expressar a sua opinião quanto ao atual contexto de seu país, especialmente no que diz respeito à produção cultural. Nada incomum para o festival, que é reconhecido como um dos eventos do meio mais sócio e politicamente engajados – pelo menos até as polêmicas envolvendo a edição de 2026.

O longa se estrutura como um road movie de amadurecimento que abraça o naturalismo com toques de fantasia. Em A Mensageira, acompanhamos a garota e seus tutores, interpretados por Mara Bestelli e Marcelo Subiotto, cruzando a zona rural da Argentina, fazendo paradas estratégicas em locais como cemitérios de animais para vender os serviços da jovem.
O casal, cuja natureza da relação com Anika é incerta no início, traz à memória os pais da muito amada Matilda (1996), uma comparação que não vai muito além da aparência física e das capacidades sobrenaturais de ambas as protagonistas. Isso porque, constrói-se uma narrativa centrada no cotidiano, com um estilo documentarista, cuja proposta não envolve se aprofundar nas possíveis tramas que poderiam surgir dessa relação peculiar.
No papel, essa investigação sobre a exploração soa como uma tese do diretor. Fund, com um currículo que já carrega o peso da mostra Un Certain Regard em Cannes, propõe uma reflexão dura sob uma embalagem meramente poética. A fotografia de Gustavo Schiaffino, capturada em um preto e branco contemplativo, cria uma atmosfera propositalmente lenta e meditativa, buscando extrair beleza da aridez da estrada e dos rostos exaustos de seus protagonistas.

Os diálogos são escassos e o silêncio é construído pelos elementos citados, mas também pela trilha sonora (Mauro Morelos) perfeitamente elaborada para o enredo. Em um determinado momento, a personagem de Bastelli fala para um dos clientes que é preciso genuinamente escutar o que Anika – e os animais – têm a dizer. Assim, o debate sobrenatural está para os tutores de pets, assim como a música está para o espectador.
A escolha do diretor quanto ao desenrolar do roteiro pode causar estranheza, uma vez que ao escutar sobre o filme, o público possa se preparar para uma história sobre abuso e maus tratos, ou mesmo sobre charlatanismo. Apesar do fato de adultos se aproveitarem financeiramente de uma pessoa vulnerável e dependente, afastada da escola e da sociedade, ainda que para falar animais, seja um tipo de abuso por si só.
No meio da trama, o reduzido grupo de personagens faz uma visita a um hospital psiquiátrico, onde a filha de Myriam está internada – o que dá a entender que Anika seria sua neta. Nesse momento, a mais velha deixa que a criança se encontre com a mãe, mas se recusa a fazê-lo, como se aquilo fosse doloroso demais, enquanto Roger (Marcelo Subiotto) apresenta um olhar compreensivo, no entanto, distante. Momentos como esse revelam a potência das atuações do trio como um todo, para além da jovem Anika, que é destaque do início ao fim.

Entre a intenção e a execução, A Mensageira esbarra nas próprias ambições estéticas. O filme parece refém de fórmulas de prestígio, priorizando a contemplação vazia em detrimento da narrativa. Após estabelecer seu intrigante ponto de partida, a obra sofre de uma inércia paralisante. Não há um fio condutor que costure as cenas ou ofereça um senso de progressão dramática; o que temos na tela assemelha-se a um ‘não-filme’, uma sucessão de belas imagens desprovidas de movimento, urgência ou conflito real.
A redundância logo se torna o maior inimigo da produção. O roteiro, assinado por Fund e Martín Felipe Castagnet, entrega a sua mensagem sobre a corrupção da inocência logo nos primeiros atos, porém insiste em mastigá-la repetidas vezes ao longo da projeção, subestimando o espectador. A sutileza que o tema exigia é frequentemente atropelada por escolhas bruscas e silêncios vazios, uma pretensão poética que soa forçada.
A Mensageira aborda diversas temáticas delicadas, das quais é de se esperar algum posicionamento. Assim, é provável que a opção pelo carpe diem acima de tudo, possa não agradar a todos os públicos. A sutileza da obra não deixa de ter qualidades, no entanto, as discussões mereciam mais densidade ou até menos ambiguidade. Assim como os tutores da protagonista, Iván Fund tenta extrair lucro – aqui, de ordem intelectual e emocional – de um milagre inicial, entregando ao público uma obra que é belíssima de se observar, mas impossível de se sentir.
