Com looks mais contidos, porém cheios de significado, a passarela revela a memória do cinema e destrincha sobre identidade

Livia Queiroz
Ao tratar de uma cerimônia como o Oscar, é impossível não dissertar sobre o mundo fashion que à envolve. Sem figurino, o cenário não se concretiza. Sem glamour, o tapete vermelho desbota. Este é o lema que encaixa perfeitamente ao momento vivido, com pouco political fashion e maior referência a suas obras indicadas. A cerimônia apresentou emoção e manifestação, mas será que podemos afirmar o mesmo sobre o red carpet? A resposta é sim, porque até onde não há intenção há expressão, formando personalidade, identidade e, consequentemente, a moda.
Em conjunto, parte do casting de Sinners (2025), vencedor de quatro prêmios, chegou para o evento com trajes diversos da Louis Vuitton, coordenada pelo diretor criativo Pharrell Williams. Jack O’ Connell, para destacar seu papel dentro da obra, aparece na passarela com próteses de presas cobertas de sangue, semelhantes aos vampiros do filme. Indo além da roupa que se veste, o diretor do filme, Ryan Coogler, se manifesta por meio de suas tranças, feitas por Tyzanna B., formando duas guitarras, mais especificamente, do gênero musical blues. O elenco, sem dúvidas, soube ousar na quietude e prestou seu carinho e gratidão pela cultura e arte negra durante a temporada.
A moda brasileira também se fez presente e brilhou. Alice Carvalho, atriz de O Agente Secreto (2025), surge na passarela em um vestido bege – infelizmente um pouco fora do caimento ideal –, da Normando, uma marca amazônica desenhada por Marco Normando e Emídio Contente. Para acrescentar ainda mais a composição, usa uma bolsa com estatueta dourada, do designer catarinense Jay Boggo e um broche representando a América na língua do povo Kuna, originários do Panamá.
“O tecido escolhido foi uma mistura de duas fibras cultivadas na Amazônia, a juta e a malva amazônica. Fibras cultivadas por diversas famílias nos estados do Amazonas e do Pará, sem uso de agrotóxicos e pesticidas e com irrigação natural dos rios e igarapés da região, e tecidas pela @somoscastanhal no estado do Pará, na cidade de Castanhal, o processo é sustentável e 100% orgânico e da Amazônia brasileira” – Normando

O vintage sempre volta
As tradicionais nunca saem de moda. Chanel, Louis Vuitton, Dior, Armani e Valentino; essas são as marcas não só mais vistas este ano como desde que Hollywood é o palco do luxo e da alta costura. Porém, o que mais encanta são as homenagens ao vintage e looks de seus arquivos sendo usados novamente em diferentes modos, silhuetas e ocasiões. Desta vez, as referências foram usadas pelas atrizes e por personalidades fora da passarela cinematográfica, como Amelia Dimoldenberg, que teve uma escolha sólida e minimalista, mas elegante, com um Ralph Lauren fall 2007. A figurinista Miyako Bellizzi, representante de sua categoria por Marty Supreme (2025), ousou com o vermelho vibrante e assimétrico de John Galliano para a Dior em 1999.
A vencedora do prêmio de Melhor Atriz, Jessie Buckley optou por um vestido Chanel que glorificava e rememorava o mesmo utilizado por Grace Kelly em 1956, vencedora do Oscar de sua mesma categoria, naquele ano. A atriz homenageia o amor, visto que esse vestido marca o encerramento da carreira de Grace que viria a casar-se com o príncipe de Mônaco, Rainier III. Na festa da Vanity Fair, mais tarde, Anna Taylor-Joy aparece em um macacão curto preto que, novamente, é assinado por John Galliano para a Dior em 1994. O movimento vintage aplaude, então, homenagens ao passado que ressignificam o presente.

Quem veste a política?
É inegável que, na ignorância, se encontra a paz. Nesse sentido, apesar da maior parte dos trajes da noite seguir um padrão de referência às obras indicadas e retratar o mundo fantasioso do audiovisual, é prazeroso analisar esta moda que ousa para dentro daquilo que o evento homenageia: o cinema. Porém, visto o cenário global, em especial envolvendo os Estados Unidos, deveria ser esperado que os figurinos apresentassem e falassem – nem que fosse de forma velada – mais sobre as opiniões que acercam pessoas influentes como são os presentes, afinal, a moda sempre foi um espaço de impacto para manifestações políticas sem a necessidade de fala.
Este, com certeza, não é o caso de Javier Bardem, que, desde o início de sua carreira, se mostra disposto a verbalizar e estilizar-se conforme o que pensa. Em situações semelhantes, o ator espanhol revive seu look do Oscar 2003, usando o mesmo broche para pedir o fim da guerra com o Oriente Médio e um novo para a liberdade da Palestina. Além dele, Saja Kilani, atriz palestina de The Voice of Hind Rajab (2025), veste Ziyad Buainain, designer saudito que revigora a moda feminina com um luxo consciente, além de destacar cor em seu único broche, pedindo o cessar-fogo em Gaza. Rei Ami, cantora vencedora em Melhor Canção Original, assim como nos Grammys 2026, reforça a cultura asiática com um conjunto de vestido e boleira longa com pavões bordados em dourado de Rahul Mishra, designer indiano que busca a sustentabilidade étnica.
“Não à guerra e Palestina livre” – Javier Bardem

O Oscar 2026 fica marcado por um red carpet diverso porém pouco colorido, ressaltando a ideia de cores como movimento, solidez artística e adequação social. No fim, o evento prova que a moda nunca é silenciosa, é um espaço que carrega a intensidade estética e narrativa juntos. Não se trata apenas de vestir-se, mas também a posição que revela. Mesmo faltando ousadia, segue impressionando com looks glamourosos, vintages ou minimalistas, porque, afinal, a versatilidade e atemporalidade de como se veste e porquê se veste permanece.
