A depressão na arte, parte 2: a morte é real

Phil Elverum
Phil Elverum

(a parte 1 é esta.)

Nilo Vieira

A música foi marcada pela morte em 2016. Além de perdas notáveis (David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Phife Dawg e incontáveis outros), alguns dos álbuns mais elogiados do ano tiveram relação direta ou indireta com a mortalidade humana: o camaleão entregou sua última transformação em uma mensagem cifrada, Nick Cave lamentou a perda precoce do filho através de drones e metáforas, Cohen simplesmente aceitou que estava pronto para partir e o A Tribe Called Quest se viu na tarefa de carregar a tocha do membro falecido (bem como do hip hop em geral) adiante.

Longe dos holofotes dos supracitados, estava o casal Phil e Geneviève Elverum, que seguia tocando sua vida pacata na pequena cidade de Anacortes, EUA. Até que, no dia 8 de julho, um câncer pancreático causou o falecimento de Geneviève – com apenas 35 anos. Essa perda e seus impactos são a base do mais novo disco de Phil sob a alcunha de Mount Eerie, A Crow Looked At Me, lançado oficialmente no último dia 24.

Antes de tratar da mais nova empreitada de Elverum, é interessante retomarmos dois outros petardos recentes do folk desta década, também resultados de experiências dos compositores com a morte e sustentados por instrumentações cruas. O primeiro deles é Benji (2014), do grupo Sun Kil Moon, capitaneado por Mark Kozelek.

benji

O lançamento no mesmo ano do filme Boyhood, de Richard Linklater, vai além de mera coincidência de datas. Assim como o longa (filmado durante doze anos), a impressão que o disco passa também é a de um projeto que demorou décadas para ser concluído. No entanto, ao passo em que o primeiro contempla a juventude, o segundo olha diretamente para a velhice – Kozelek invoca passagens de seu passado o tempo todo, mas todas funcionam para contextualizar o presente. Na magistral “I Watched the Film The Song Remains the Same”, ele dá o tom:

But I discovered I cannot shake melancholy

For 46 years now I cannot break the spell

I’ll carry it through my life and probably carry it down

I’ll go to my grave with my melancholy

And my ghost will echo my sentiments for all eternity

Neste processo, a morte é acontecimento corriqueiro. Em quase todas as 11 faixas, Mark conta sobre a morte de alguém: uma prima distante, sua avó, amigos de infância, serial killers, atores de seriados e até vítimas de atentados. Citações pontuais, relatos detalhados, causas naturais ou acidentes bizarros – toda e cada uma dessas possibilidades é explorada com uma abordagem vocal situada quase que na linha divisória entre o canto e o spoken word dramático, o que puxa a atenção do ouvinte e não o permite ficar ileso as narrativas cruas (o maior talento do músico desde a colossal estreia do Red House Painters em 1992, Down Colorful Hill).

O instrumental também reforça esta proposta, com os dedilhados tensos no violão apresentando variações sutis e demoradas. Quando outras gamas musicais dão a cara (como o country de “I Love My Dad”, a batida dançante de “Ben’s My Friend” e as teclas de “Jim Wise”), a impressão é semelhante a de encontrar dias alegres em um diário melancólico. Não estão ali apenas para tornar o álbum mais diversificado: elas nos lembram que, mesmo quem aceita a tristeza do cotidiano, não o abraça como única opção para a vida e ainda retém o potencial de enxergar a luz (como Leonard Cohen bem cantou, é através de rachaduras que ela adentra os espaços). Kozelek demonstra por a + b que falecimentos o afetam, mas que são parte de um ciclo natural e que a rotina prossegue; não vê necessidade de metáforas para romantizar a realidade dolorosa, pois até os mais embaraçosos detalhes parecem ajudar na compreensão (e eventual superação) da mesma.

O tom de leve esperança é acentuado de maneira indireta pelo título, também nome de um filme de 1974 sobre um cachorro heroi que marcou a infância de Mark, e a capa que, por mais que se trate de uma paisagem solitária e levemente embaçada, nos lembra a sensação tranquilizante de observar a natureza pelo caminho. Novamente, as reflexões são acerca do passado, mas o foco aqui é como esses incidentes moldaram o hoje, o modo como as referências de outrora evocam sensações mistas agora. O filme que antes representava algo próximo ao divino agora empalidece ao lembrarmos que alguns dos protagonistas morreram, e aquela briga infantil vez ou outra volta para assombrar.

Este aspecto de lembranças e espirituosidade nos leva a Carrie & Lowell (2015), mais recente álbum do multi-instrumentista Sufjan Stevens. O casal retratado na fotografia que estampa o registro é composto pelo padrasto do artista (que hoje o auxilia com sua gravadora, a Ashmatic Kitty Records) e sua mãe.

Alcoólatra e esquizofrênica, Carrie se julgava inapta para cuidar dos filhos e deixou a família quando o artista tinha apenas um ano. Se casaria com Lowell quatro anos mais tarde, e o divórcio veio de novo; desde então, teve pouco contato com Sufjan, e sua morte em 2012 consolidou de vez a lacuna entre ambos. A partir desse triste evento, Stevens se deu a missão de resgatar esses vínculos familiares mergulhando em reflexões acerca desse vácuo causado por relações instáveis.

sufjan

Distante dos experimentos eletrônicos de Age of Adz (2010), seu sucessor é um retorno às raízes folk do compositor. Os eventuais arranjos de corda e teclados fornecem ambientações etéreas às canções, e funcionam tanto como uma expansão fantasmagórica das letras como fundo para meditações silenciosas após a entrega delas. O final estendido de “Death with Dignity”, por exemplo, soa como um reencontro breve com uma aparição iluminada de sua mãe, ao passo em que o outro de “Blue Bucket of Gold” é tão incomodamente sereno como observar a ressaca do mar após depositar as cinzas de alguém nele. Os vocais só soam contidos por aparentarem vir de alguém que passou um bom tempo processando a realidade.

Para a reconstrução desses laços, Sufjan novamente se vale de alegorias mitológicas, religiosas e referências ao estado de Oregon, onde passou os maiores períodos ao lado de Carrie. Ainda que tente disfarçar (“o passado ainda é o passado/ a ponte para lugar nenhum”, canta na poderosa “Should Have Known Better”), esta abordagem mais espirituosa em relação à morte não é exatamente uma negação completa dela como conclusão natural da existência: o que é estranho ao cantor são as consequências que ela traz, mesmo que partam de uma divindade superior.

Desse modo, sua visão centrada no passado busca respostas para preencher o vazio que contamina seu presente. É como se estivesse completando um livro que conhece apenas o início e o fim, com uma sensibilidade quase infantil – repare o modo como ele entoa “i just wanted to be near you” em “Eugene”, para depois finalizar “what’s the point of singing songs, if they’ll never even hear you?”. A modéstia só se revela legítima em almas frágeis, afinal.

mount

Com a deixa da palavra fragilidade, enfim retornamos ao ponto inicial. A Crow Looked At Me, oitavo disco do Mount Eerie, funciona como o último integrante desta trilogia informal. A morte não é novidade na carreira de Phil Elverum: na obra-prima The Glow, Pt. 2 (2001, sob o nome The Microphones), o enfrentamento com a ideia do fim nos é exposto repleto de buracos pelo caminho. O vazio que permeia o trabalho – reforçado pelas faixas sem nome, pelo constante drone que dá liga à narrativa e pela grandiosidade dos arranjos da tríade inicial não continuar no resto das canções – é dos mais poéticos na música folk (e a concorrência é alta), mas se trata de algo majoritariamente conceitual.

O que não é o caso da nova empreitada de Phil, que já inicia sem piedade anunciando “a morte é real”. A frase é repetida em outras canções, e poderia muito bem ser o título do disco (vide o release disponibilizado no Bandcamp). A opção em não colocá-lo como tal já denuncia que aqui, as ideias dos dois discos supracitados convergem: a morte é real, mas o peso que traz consigo é tão insuportável que apelamos até para as metáforas menos sutis para tentar apaziguar um pouco.

Mas, com exceção da alegoria com corvos (algo como uma versão pagã de Carrie & Lowell: se mesmo a natureza do acontecimento traz alguma espiritualidade, ela não necessariamente é majestosa) e a pintura Soria Moria, o que prevalece nas letras aqui é o realismo cáustico  de Benji (citado como influência). O esquema de álbum diário é elevado a um novo patamar de força, com Elverum entregando os detalhes mais cortantes e sempre pontuando datas – há canções feitas onze dias após a morte, uma semana ou um mês depois, além de partes sobre o período de Geneviève lutando contra o câncer. Segue um trecho de “Seaweed” para ilustrar:

I brought a chair from home.

I’m leaving it on the hill

facing west and north

and I poured out your ashes on it.

I guess so you can watch the sunset

but the truth is I don’t think of that dust as you.

You are the sunset.

Como o próprio Phil definiu, A Crow Looked At Me não é sobre música – ironia do destino: Sufjan Stevens também se referiu ao minimalismo musical de Carrie & Lowell como “artless” (no bom sentido da coisa, dado que tal opção deu o teor humano à obra). Os arranjos se baseiam quase sempre em um violão e voz quase sussurrada, no melhor estilo Nick Drake. Outros instrumentos só vão aparecer no fim do álbum, agora seguindo um caminho oposto ao de The Glow, Pt. 2 – não por menos, “Soria Moria” faz referência direta a “The Moon”. Longe de ser problema: os acordes certeiros e a interpretação sentimental dos vocais, sem preocupação com rimas e muitas vezes prestes a desabar em lágrimas, são muito consistentes e em nada devem a qualquer medalhão do gênero.

Soria Moria, do pintor norueguês Theodor Kittelsen
Soria Moria, do pintor norueguês Theodor Kittelsen

Mas é nas letras onde reside a força do álbum. A única força que o autor encontra para suportar a perda repentina é contando a história de Geneviève em alto tom, quebrando a bolha familiar onde habitavam para exaltar o quão incrível ela era como pessoa. Logo na faixa de abertura, ficamos sabendo que, após sua morte, uma entrega dos correios chegou: é uma mochila,  para quando a filha pequena do casal (o único detalhe que Phil resguardou) entrar na escola. “Você estava pensando no futuro, mesmo sabendo lá no fundo que ele não incluiria você”, canta.No caso, impressiona o quão aberto Elverum é não apenas sobre sua condição de pai e esposo viúvo, mas também sobre sua condição de artista. Na mesma “Real Death” renega qualquer aspecto romântico ou fantasioso:

Someone’s there and then they’re not

and it’s not for singing about.

It’s not for making into art.

When real death enters the house

all poetry is dumb.

(..)

It’s dumb

and I don’t want to learn anything from this.

I love you.

Assim, Mount Eerie encerra a trilogia com um disco sobre o futuro. Não há uma ideia de construir explicações, divagar para preencher o vazio ou voltar ao passado para abrandar o presente. O objetivo de A Crow Looked at Me é repassar a história de sua esposa adiante, e assim permitir que Phil recupere as forças para prosseguir caminhando, junto de sua filha. Geneviève não está mais aqui, mas não é como se sua existência tivesse sido apagada: afinal, foi em vida que ela construiu seu legado, e não morta. E o álbum nos lembra disso não com um carpe diem forçado, mas sim com relatos que reforçam que a influência de alguém em nossas vidas não para nos limites da carne. A perspectiva é singular, a mensagem é universal.

Infelizmente, mais um falecimento de uma pessoa envolvida no álbum aconteceu mês passado. Joanne Kyger, cuja poesia estampa a capa, também foi vítima de um câncer. Novamente, a relação de via dupla: a artista é mortal, mas sua arte não. Dessa maneira, a ausência de inovações do novo LP do Mount Eerie pouco importa perante o poder que a crueza da mensagem é entregue. Phil Elverum não mudou a música contemporânea, mas acaba de lançar o melhor disco envolvendo a morte desta década, o que não é pouca coisa. A Crow Looked at Me é uma experiência difícil de ser encarada, mas que ensina muita coisa – poucas vezes algo tão amargo foi traduzido de maneira tão sublime.

 

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