O tempo e espaço de David Bowie

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Bonitinho, mas ordinário: capa da estreia pouco chamativa de Bowie (Foto: Eve-Fraser Corp)

Nilo Vieira

Quem ouviu a estreia homônima de David Bowie em 1967 jamais poderia imaginar que o músico iria longe. As canções não eram ruins, mas absolutamente nada no disco – incluindo até elementos menores, como o penteado de Bowie e a fonte utilizada para escrever seu nome na capa – ia além dos padrões do rock sessentista inglês: levemente psicodélico, flertes com a música folk, bom mocismo serelepe. Tudo aquilo que vinha sendo feito na terra da rainha há anos, e de maneira mais refinada por grupos como Love e Beatles.

No entanto, logo na primeira faixa de seu segundo álbum (também homônimo) o jovem britânico já mostrava onde almejava chegar. Os cinco minutos da canção “Space Oddity” não apenas consolidariam a evolução gritante de Bowie, como também apontavam aonde seus característicos olhos miravam: além do espaço. Com essa ambição, deu vida à história de um rockstar alienígena no clássico glam “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” (1972) e não apenas ganhou aclamação de público e crítica, como garantiu seu lugar na história da música.

Insatisfeito, Bowie não só mataria o personagem prematuramente como faria questão de provar que seu olhar não se limitaria a imaginar fábulas em galáxias distantes. O espaço poético poderia ser a obra literária de um autor (“Diamond Dogs”), o suíngue norte-americano (“Young Americans”) ou uma Berlim dividida pela guerra fria – onde, em parceria com Brian Eno, gravou a excepcional tríade “Low”, “Heroes” e “Lodger”. Por essa capacidade de assimilar o seu redor e conseguir imprimir as suas visões dele para a arte, Bowie adquire o justo título de “camaleão do rock”. No entanto, limitar sua carreira ao rock é errôneo, e até mesmo omite outra grande habilidade de David: saber lidar com o tempo.

De nada adianta ter um olhar panorâmico para qualquer horizonte e ficar inerte aos acontecimentos dele. Ao longo de sua carreira, o camaleão não apenas conseguiu captar as tendências recentes de artistas contemporâneos, tais como o glam rock surrealista do T. Rex e os ritmos vanguardistas de bandas alemãs como Kraftwerk e NEU!, como soube reconhecer as qualidades de seus aplicados aprendizes. O álbum “Earthling” (1997), por exemplo, não existiria sem as produções pesadas do Nine Inch Nails – que, por sua vez, não teria surgido sem o clássico “Low”.

Bowie elogiou a dinâmica sonora criada pelos Pixies no fim dos anos oitenta, fez turnês acompanhado por diversas bandas grandes do rock alternativo noventista, apostou forte nos canadenses do Arcade Fire na década passada e se interessou pela cantora Lorde em 2013. Acompanhou a mudança de épocas como poucos artistas se propuseram a fazer, e abraçou o novo em quase todas as oportunidades.

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Mestre e alunos: o camelão rodeado pela nata do rock alternativo dos anos 90 em show comemorando seus 50 anos (Foto: Reprodução)

Curiosamente, sua relação com o tempo também foi crucial na confecção de seus piores discos: boa parte de seu catálogo lançado nas décadas de 80 e 90 são tão impregnados com os clichês dessas eras – produção pomposa, refrães grudentos e genéricos, bateria eletrônica repetitiva, gravação muito limpa e por aí vai – que simplesmente não soam como produtos bowieanos genuínos. Álbuns como “Black Tie White Noise” (1993) e “Tonight” (1984) não chegam a ser atrocidades, mas são muito pouco inspirados para uma carreira tão inventiva.

Embora a passagem para o novo milênio não tenha trazido uma sonoridade tão diferenciada para a discografia de Bowie, o tempo lhe assegurou boas reflexões líricas (“Heathen” foi, em partes, inspirado pelo atentado do 11 de setembro, enquanto “Reality” e “The Next Day” mostram divagações filosóficas de David sobre seu presente e futuro) e rendeu álbuns coesos, apesar de passarem longe do status de obra-prima.

Com tamanha capacidade de reinvenção e longevidade invejável, o anúncio de sua morte no último dia 10 de janeiro foi um choque para o planeta inteiro. Sua partida aconteceu apenas dois dias depois de seu 69° aniversário e do lançamento do seu último disco, “Blackstar”. A escolha da data revela uma dualidade temporal: enquanto o primeiro evento atesta a humanidade comum e frágil de Bowie, o segundo comprova, mais uma vez, a sua imponência como artista.

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O adeus codificado: a capa de Blackstar, a canção do cisne de Bowie (Foto: Reprodução)

Musicalmente, “Blackstar” pode ser definido como o disco que David tentava fazer há duas décadas. Estão presentes ali as batidas eletrônicas, os teclados climáticos e os andamentos quebrados familiares ao camaleão dos tempos recentes – a diferença para com seus antecessores é que, aqui, tudo soa devidamente orgânico. Mesmo com um leque amplo de escolhas do próprio passado para se apoiar ou mesmo revisitar, Bowie persistiu e manteve seus olhos além. Como resultado, a inspiração para o disco veio de uma safra recente: em entrevista para a revista Rolling Stone, o produtor Tony Visconti mencionou “To Pimp a Butterfly”, aclamado disco do rapper Kendrick Lamar, e o trio de hip hop Death Grips, polêmico fenômeno na internet.

“Blackstar” não é um disco de rap, mas as referências são compreensíveis. A guitarra, instrumento de escolha de Bowie em praticamente toda sua carreira, fica em segundo plano – com exceção de “I Can’t Give Everything Away”, que conta com um solo emocionante  – e dá espaço para saxofone e baixo ditarem os rumos das 7 canções. O resultado é uma sonoridade experimental, futurista e melancólica que não cai em cacoetes desnecessários (caso do supracitado Death Grips) ou clichês açucarados, mesmo em seus momentos mais acessíveis.

No âmbito narrativo, as típicas referências ao espaço se fazem presentes. E Bowie não se limita a cantarolar sobre uma estrela negra (vale ressaltar que blackstar também é o nome dado nos EUA para um tipo de câncer, e David Bowie lutava escondido contra um desses desde 2014). O ambiente para onde seus fatigados olhos forçam a vista é a própria morte do artista, bem como sua pós-vida. “Blackstar” e “Lazarus”, os dois singles do trabalho, ganharam clipes surrealistas, repletos de imagética sombria. Era como se, na melhor maneira Bowie, o camaleão estivesse se despedindo sem entregar os detalhes de mão beijada, mesmo no último momento. “Olhe aqui em cima, estou no paraíso / Tenho cicatrizes que não podem ser vistas”, entoa tristemente em “Lazarus”. Depois, completa de maneira gloriosa e trágica ao mesmo tempo: “Olhe aqui em cima, cara, estou em perigo / E não tenho mais nada a perder”.

E realmente não tinha. Como possuía ciência de que não venceria as mazelas da carne humana, optou por se eternizar de uma maneira quase espiritual. Milhares de homenagens tomariam o mundo – incluindo um asterismo (parte de uma constelação) ter recebido seu nome -, o que comprovaria a eficácia de sua última empreitada, bem como a abrangência e atualidade de todo seu legado musical. Ao morrer compondo o próprio réquiem, David Bowie provou que, embora o corpo não perdure, sua arte sempre será permanecerá pulsando, em qualquer tempo e espaço.

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