30 anos depois, Bad ainda é pesadíssimo

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Leonardo Santana Teixeira

Pioneiro em quase tudo o que diz respeito à música que pop que consumimos hoje, Michael Jackson aparentemente ainda tinha muito o que provar ao mundo em 1987: o sucesso violento que Thriller (até hoje o álbum mais vendido da história da música) havia feito com público e crítica era intimidador, e ninguém acreditava que o ex-Jackson 5 seria capaz de novamente alcançar o altíssimo parâmetro que ele mesmo estabelecera. No entanto, o que ficou óbvio com o lançamento de Bad (1987, Epic Records), sétimo álbum de estúdio do cantor, foi que nem a indústria da música e nem o mundo estavam preparados para o artista que Michael foi.

O lançamento do single homônimo e faixa de abertura do disco são prova disso. Através de um videoclipe/curta-metragem de 18 minutos dirigido por Martin Scorsese, com a participação de um jovem Wesley Snipes, além de enredo e coreografia inspirados no filme clássico musical de 1961 Amor Sublime Amor (referência que já havia sido explorada no vídeo para “Beat It”), Jackson anunciava que estava de volta e que não estava para brincadeira. O vídeo foi exibido em um especial de TV durante o horário nobre americano em março de 1987.

Tanta pompa e circunstância estabeleceu mais um padrão que MJ passaria o resto de sua carreira perseguindo: o padrão de divulgação. No caso de Bad, o esforço rendeu frutos, já que o registro vendeu cerca de 35 milhões de cópias e rendeu incríveis sete hits no topo da parada americana (feito que só seria alcançando em 2013 com Katy Perry e seu grudento Teenage Dream). Parte desse sucesso deve-se à habilidade que o artista tinha de ler seu público e moldar sua genialidade de acordo com o que agradava à massa. Se em Thriller os videoclipes se destacaram no trabalho do artista, em seu sétimo álbum a linguagem imagética pesa mais ainda e se impregna na música, algo que talvez só David Bowie tivesse entendido a fazer antes.

A incorporação de arquétipos prontos e eternizados pela cultura pop é elemento chave dessa sinestesia. O herói noir de terno branco de “Smooth Criminal”, o bailarino à Fred Astaire de “The Way You Make Me Feel” (vídeo que inspirou o clássico moderno “Baby”, de Justin Bieber), o jovem transgressor de “Bad”…

Contrastes: Clássico do cinema noir, "O Terceiro Homem" (dirigido por Carol Reed e com Orson Welles no elenco principal), de 1949, foi a principal inspiração para a fotografia e roteiro do vídeo de "Smooth Criminal" (Foto: Reprodução).
Contrastes: Clássico do cinema noir, “O Terceiro Homem” (dirigido por Carol Reed e com Orson Welles no elenco principal), de 1949, foi a principal inspiração para a fotografia e roteiro do vídeo de “Smooth Criminal” (Foto: Reprodução).

É o curta de Scorsese, porém, que confere profundidade à persona que Michael queria apresentar ao mundo: o personagem que o cantor interpreta, Darryl, é um adolescente negro que saiu do subúrbio nova-iorquino para estudar como bolsista em um colégio interno. Mini Max, vivido por Snipes, questiona o comprometimento do estudante com suas raízes. O espetáculo musical do vídeo consiste em Darryl provando que não se esqueceu de onde vem.

Mais do que uma oposição entre raiz e nutella, o roteiro de Richard Price é uma reafirmação fortíssima da negritude do intérprete de “Rock With You” e um aceno ao hip hop, que já dava as caras como um fenômeno cultural importante. É nociva e conservadora, no entanto, a mimetização do estereótipo do homem negro fisicamente ativo, másculo e ameaçador que Jackson é obrigado a adotar — o único que, ainda hoje, a sociedade parece ser capaz de aceitar.

O entrelaçamento dos contextos pessoais e sociais do cantor em sua música é também essencial na confecção do álbum, já que polêmicas sempre perseguiram MJ desde que ele se tornou o artista mais bem-sucedido de seu tempo —  começando o boato de que teria comprado a ossada de John Merrick, cidadão inglês que ficou famoso no século XIX como “o Homem-Elefante” por possuir uma rara doença congênita, até críticas ferrenhas às suas excentricidades e mudanças físicas (cirurgicamente condicionadas ou não). A boataria gratuita foi respondida em “Leave Me Alone”.

Olha o que você me fez fazer: No clipe de "Leave Me Alone", Michael debocha das insanidades que a imprensa insistia em associar a ele (Foto: Reprodução).
Olha o que você me fez fazer: No clipe de “Leave Me Alone”, Michael debocha das insanidades que a imprensa insistia em associar a ele (Foto: Reprodução).

Marcado por ser a terceira e última parceria entre Michael e o lendário produtor Quincy Jones, o disco não soa tão impecável quanto seus antecessores. Enquanto “Dirty Diana” e sua guitarra efusiva apresentam um dos momentos mais intensos e inventivos da carreira do artista, “Man in the Mirror” (um de seus grandes sucessos) é mais datada. A marcação de época aqui é forte, mas só porque, tomando clássicos contemporâneos como exemplos, cs Faith e True Blue (respectivamente trabalhos de George Michael e Madonna), o tempo fica a cargo de renovar o que realmente importa, por mais apegada à temporalidade que a cultura seja. A consequência é que a influência do conteúdo resiste ao tempo.

Michael Jackson não criou a revolução que liderou. Seu pioneirismo nasceu exatamente da habilidade que tinha de explorar a cultura em suas diversas esferas, tomá-las para si próprio e apresentá-las ao público de forma genial e completamente nova. Seguindo a ideia de que nada se cria e tudo se transforma, MJ era ferramenta transformadora. Michael é cultura pop viva, ainda hoje, e Bad foi a apoteose desse fenômeno. Desde que o mais novo dos Jackson 5 decidiu voar solo, a música nunca mais foi a mesma. Isso porque, depois que aquele jovem cantor decidiu se tornar o maior artista de seu tempo, quase todos os outros buscaram o mesmo. Mas nenhum conseguiu.

 

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