Melhores discos de Agosto/2017

"emoji pensando", uma pintura de Matheus "Copa" e retrato da incredulidade na Internet em 2017.
“emoji pensando”, uma pintura de Matheus “Copa” e retrato da incredulidade na Internet em 2017.

Leonardo Santana, Matheus Fernandes e Nilo Vieira

Em 1987, a saudosa Kátia bradava não está sendo fácil. Trinta anos depois, é triste ver o quanto a canção ainda permanece atual: entre passeatas nazistas, políticos recebidos com ovada e problemas pessoais em pleno recesso, o mundo continua marcado pelo caos generalizado em 2017.

Mas como os trabalhos não podem parar, cá vão nossas escolhas para trilha sonora em meio à toda essa discórdia:

brand new science fiction best new music jesse laceyBrand New – Science Fiction

indie / emo

O fim de um ciclo. Depois de oito anos de espera e atrasos, o último disco (ou não) do Brand New chegou de surpresa no correio dos fãs, o método de marketing favorito da banda. Mais de uma década depois do transformador Devil and God are Raging Inside Me, o disco é recebido como trabalho da maior banda emo da história™ (chegando ao nº 1 nas insignificantes charts de venda), status conquistado nesse período de ausência, apesar de aparentemente indesejado pelos músicos.

Se para a banda o legado é questionável (As we glide over whatever/ We know to be over forever), para os fãs o encerramento não podia ser melhor, em um disco mais maduro (o vocalista já tem quase 40 anos) e complexo, sem perder a conexão emocional que continua atraindo novos seguidores. Mesmo com o fim da banda, a próxima década já tem sua versão de Devil and God para se guiar. (MF)


brockhampton saturation 2 hip hop the needle drop

BROCKHAMPTON – Saturation II

hip hop

Em segunda mixtape no ano (há ainda uma terceira por vir), o jovem coletivo/boy band americano continua entregando seu rap de inspiração soul e r&b, repleto de rimas rápidas e abordando temas praticamente intocados no hip-hop, como a homofobia. Inspirados em outro fenômeno da década, o OFWGKTA, o futuro do grupo é promissor.

No momento em que o declínio do trap começa a ser apontado, o som do BROCKHAMPTON indica possíveis caminhos futuros para o hip-hop. Prepare-se para ouvir mais de Kevin Abstract, Matt Champion, JOBA e Bearface. (MF)


kesha rainbow

Kesha – Rainbow

pop rock

Artista assídua no topo das paradas no início da década, Kesha trocou a dance music genérica que embalara seus primeiros três álbuns por um repertório mais eclético e confessional. Apesar da batalha judicial contra seu produtor, Dr. Luke — acusado pela cantora de abusos físicos, emocionais e sexuais —, ter sido o pano de fundo da produção do registro, Rainbow é um grito de liberdade criativa que vai além do escândalo nos tribunais. Destaque para “Old Flames (Can’t Hold A Candle to You), cover do clássico country de Dolly Parton com participação da mesma.

Outros elementos setentistas, como T. Rex e a estética psicodélica, também servem de inspiração para o álbum, que apresenta a intérprete de “Tik Tok” em sua melhor forma artística. Versos sobre empoderamento feminino, preconceito e auto estima são levados por uma produção que se divide entre a introspecção e a euforia dançante. O trabalho dificilmente perde o fôlego e, ainda que sem grandes hits, coloca a cantora no cruzamento ideal entre a artista emancipada que ela quer ser e a Kesha que aprendemos a curtir. (LS)


liars theme from crying mountain

Liars – TFCF

experimental

Nenhum disco do Liars parece o anterior. Do dance-punk ao pós-punk ao noise ao eletrônico ao industrial, a única constante nos quase 20 anos da subapreciada banda é o aspecto experimental da obra.  No momento em que o Liars se torna um projeto solo de Angus Andrew (o Angus, de Maps), o som sofre outra alteração drástica, se tornando mais introspectivo e solitário (o processo do álbum foi descrito como o fim de um casamento). Sob a influência contínua dos sintetizadores de WIXIW e Mess, e revisitando o resto da discografia, TFCF é um dos discos mais únicos do ano, como o resto dos trabalhos da banda. (MF)


LIL_B_Black_Ken lil uzi vert vma BASED curse

Lil B – Black Ken

hip hop

Muito antes dos rappers da internet dominarem o gênero, Lil B já estava lá, com seus memes, videoclipes caseiros e filosofia new age. De A$AP Rocky a Chance a Lil Uzi Vert, ninguém escapa de sua influência. Em Black Ken, sua primeira mixtape em um tempo considerável, o Based God homenageia a costa oeste em sua própria versão do G-Funk local. Os melhores momentos porém estão em sua abordagem heterodoxa, como no banger outsider Global, parceria com iLoveMakonnen.(MF)


milo who told you to think?!?!?!?

Milo – Who Told You to Think??!!?!?!?! 

hip hop

Em seu terceiro full lenght sob o pseudônimo Milo, o prolífico nerd Rory Ferreira comprova porque é um dos rappers mais interessantes surgidos na era do streaming. Suas rimas alternam entre paisagens oníricas e comentários sociais, em narrativas sempre fluídas em seu flow preciso.

A produção é a mais lapidada de sua carreira, com as já tradicionais ambientações etéreas do cloud rap sendo amarradas por batidas mais consistentes e detalhadas. Direto ao ponto (apenas quatro das quinze faixas ultrapassam a marca dos três minutos), inteligente mas sem ser pedante e com capa assinada pela artista brasileira Paula Puiupo, é destaque certo no hip hop em 2017. (NV)


pyrrhon what passes for survival decibel magazine

Pyrrhon – What Passes for Survival

death metal torto

Em seu terceiro álbum de estúdio, a banda do Brooklyn condensa seu arsenal de dissonâncias à la mathcore em estruturas mais delimitadas, mas não menos intensas. Mas o destaque real são as letras, dotadas de um senso de humor raro em um gênero onde cara fechada é regra. (NV)


samantha urbani

Samantha Urbani – Policies of Power

pop, r&b

Os anos dando voz ao indie pop nostálgico do grupo Friends e as colaborações com Devonté Hynes (a.k.a. Blood Orange) parecem ter influenciado a nova iorquina, que estreia seu primeiro trabalho solo chegando com os dois pés na porta. A voz e a produção imersiva sugerem uma fusão entre Sade e Janet Jackson, mas as influências cavam ainda mais fundo no pop dos anos 80, explorando a estética sonora e visual que Samantha tem amadurecido durante toda sua carreira (como fica claro em “Go Deeper”, single lançado mês passado, cujo clipe foi dirigido pela própria).

O acerto aqui é que o oitentismo não fica preso aos sintetizadores ou às melodias grudentas, mas explora diversos elementos do imaginário musical da década perdida. O EP não se contenta, no entanto, em ser apenas nostálgico, pois vem carimbado com Urbani e sua personalidade, deixando claro que podemos esperar bons frutos dela. Ficamos no aguardo. (LS)

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