Jogar a obra prima de Brontë na fogueira foi só o início, a ‘não adaptação’ de Emerald Fennell entrega quase nada além da estética

Aviso: O texto contém spoilers

Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes” Heathcliff, um homem branco de roupa preta de época, encosta-se à parede segurando uma bengala e olha para o lado. Ao seu lado, Catherine, uma mulher branca e loira, atravessa a porta usando um vestido volumoso vermelho brilhante com mangas brancas bufantes. O ambiente é o interior de uma casa com portas brancas e paredes brancas.
Em “O Morro dos Ventos Uivantes”, Emerald Fennell se aproveita de parcerias anteriores, tanto em cena, como nos bastidores (Foto: Warner Bros)

Mariana Bezerra

O novo filme de Emerald Fennell, diretora de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), provocou agitação nas redes sociais desde o primeiro anúncio. Inspirado no homônimo clássico da literatura inglesa de Emily Brontë, publicado em 1847, o nome na direção gerou estranheza, afinal, a diretora é conhecida pela estética e erotismo extravagantes, que pouco conversam – ao menos à primeira vista – com o estilo gótico do livro. No entanto, foi o anúncio do elenco que aqueceu o debate: Jacob Elordi foi escalado para interpretar Heathcliff, um personagem descrito como não branco – cuja etnia é incerta – e a sua cor e origem são motivos de uma série de abusos, que o tornaram um homem cruel e violento.

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Frankenstein, de Guillermo del Toro, é uma invenção eclesiástica demais para ser eternizada

Cena do filme Frankenstein Na imagem, o personagem Frankenstein está no canto direito, olhando para a mesma direção, com o rosto virado. Ele veste um casaco de pele escura e capuz. No rosto, ele usa uma faixa que cobre boca e nariz. Pequenos flocos de neve caem. Sua pele tem tom esverdeado e possui costuras. Na esquerda, uma luz laranja ilumina o personagem, que está em um cenário noturno.
O filme foi exibido no Festival de Veneza e recebeu 14 minutos de aplausos (Foto: Netflix)

Davi Marcelgo

O diretor mexicano tem afinidade com temas e estilos: a criatura que não é aceita pela humanidade, o trabalho artesanal (do stop motion à criação de equipamentos) e a influência de movimentos artísticos, como o gótico, o ultraromântico e o neoclássico. Frankenstein, que faz parte da seção Apresentação Especial na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, prossegue a parceria de Guillermo del Toro com a Netflix em mais um filme que adapta um clássico da literatura sobre um ser trazido à vida com todos os símbolos que remetem ao Cinema do artista.  Continue lendo “Frankenstein, de Guillermo del Toro, é uma invenção eclesiástica demais para ser eternizada”

Nada de Graceland: Priscilla mora nos detalhes

Cena do filme Priscilla. A cena mostra os dois atrás de uma mesa com um bolo de casamento. Priscilla, à esquerda, veste um vestido de casamento branco. Elvis, à direita, vestre um terno preto e fuma um cigarro. Os dois olham para a câmera.
Priscilla chegou ao Brasil pelo Festival do Rio 2023 e foi um dos filmes exibidos na Gala de Encerramento (Foto: MUBI)

Vitória Gomez 

Sofia Coppola é mestre em retratar mulheres jovens adultas enclausuradas em residências enormes sob o controle de terceiros. No entanto, se Maria Antonieta terminou com a cabeça na guilhotina, Priscilla Presley quebrou o ciclo de solidão e escapou de sua prisão em Graceland, a segunda casa mais famosa dos Estados Unidos. Em Priscilla, uma adaptação do livro de memórias Elvis and Me, a diretora e roteirista deixa o nome do Rei do Rock de lado para direcionar o olhar à personagem-título.

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Na Parte 2 do Especial, Euphoria transforma a culpa de Jules em combustível fóssil

Cena do episódio Part 2: Jules de Euphoria. Jules está sentada na cama com as pernas em posição de índio. Jules é uma adolescente de pele clara e cabelos loiros quase brancos. Ela os tem preso num coque, e usa uma camiseta verde com detalhes azuis que formam uma rua na estampa. Ela veste shorts curtos e claros, e tem as mãos em cima dos pés. Ao fundo, vemos um abajur branco, um travesseiro branco e a janela do quarto, está de noite.
O episódio especial de Euphoria, Part 2: Jules, recebeu o título oficial de Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob, nome inspirado num poema escrito por Hunter Schafer (Foto: Reprodução)

Vitor Evangelista

Jules é a personagem mais interessante de Euphoria. São muitos os fatores que confirmam essa máxima, e o principal deles recai no carisma de Hunter Schafer, a jovem modelo que debutou atuando na série da HBO. Podendo ser facilmente ofuscada pelo estrelato e pelo nome de Zendaya, ela construiu sua adolescente fragilizada pelas beiradas, sempre mostrada pelos olhos de Rue. Tanto é que, quando Euphoria transmitiu seu final de temporada, Jules saiu como a vilã da coisa toda.

Num mundo ideal sem a pandemia e os atrasos de gravação, o ano dois da narrativa lidaria com o pepino de prosseguir sua estreia fenomenal. Para isso, além da escrita e direção precisas de Sam Levinson, a série precisaria sair do comum e cortar sua trama na carne. Para sentirmos a ausência de Jules como Rue a sente, a produção deveria tirar Hunter de vista. O que não aconteceu, é claro que estamos longe de viver num mundo ideal. 

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