Caio Machado
O cinema de Leos Carax sempre teve uma relação íntima com a Música, indo da belíssima caminhada noturna ao som de David Bowie em Boy Meets Girl ao “intervalo” com uma impressionante versão instrumental de Let My Baby Ride em Holy Motors. Nesse sentido, Annette, novo trabalho do cineasta francês exibido na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, extrapola esse laço com a Música de uma forma nada convencional.
Na trama ambientada na Los Angeles contemporânea, acompanhamos um casal formado por Henry (Adam Driver), um comediante de stand-up provocador, e Ann (Marion Cotillard), uma cantora de ópera famosa mundialmente. Porém, o nascimento da filha do casal, a pequena Annette, e o aparecimento dos misteriosos dons da menina irão alterar para sempre a vida dos dois.
Vencedor do prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, Annette brinca com o Cinema logo em sua primeira cena. Por meio da música, a obra pede permissão, perguntando: podemos começar o espetáculo? Então, a barreira que poderia existir entre o filme e o espectador é quebrada e somos sugados para dentro de um conto fantástico, sobre o amor de um homem que odeia a si mesmo.
É um drama? Comédia? Difícil inserir a trajetória turbulenta de seu protagonista em alguma “caixinha”. Assim como nas músicas dos Sparks, responsáveis pelo roteiro e trilha sonora, é algo único. Chama a atenção pela sua liberdade em transitar por diferentes tons, sem se apegar a nenhum. É uma montanha-russa que vai da bobagem absoluta, como nas apresentações de um Adam Driver irreconhecível de tão enorme, a uma sensibilidade profunda, como num momento em que Ann, sozinha em sua pequena mansão, desabafa sobre o passado e sua relação com o marido.
Leos Carax se aproveita desse clima caótico onde o filme se estabelece para fazer algumas experimentações com as imagens, funcionando como uma representação do declínio do protagonista. Conforme Henry desce por uma espiral de autodestruição, as imagens exibidas passam a se sobrepor com mais frequência, lotando a tela com seus pensamentos. Sua ansiedade diante do nascimento da filha é traduzida em um time-lapse febril dele, inquieto na cama, numa cena com iluminação digna de filme de terror.
Na atuação visceral de Adam Driver, seu comportamento se torna impulsivo ao ponto dele mesmo cantar sobre seu descontentamento. Nesse ponto, percebemos que, atrás dos excessos, Annette é um exame peculiar dos sentimentos do homem branco, artista, tão inseguro e cheio de ódio que é incapaz de amar outra pessoa. Através das músicas, Henry é exposto em um julgamento excêntrico, repleto de acusações e olhares raivosos que termina em um dueto doloroso, de cortar o coração. Notamos, pesarosos, que o espetáculo, cheio de “músicas, fúria e nenhum tabu”, é uma grande tragédia sobre como não lidar com nossas próprias inseguranças pode levar a um caminho solitário e desolador.
No final, o personagem principal ordena que paremos de observá-lo e o filme obedece, assim como o fez na primeira cena. O ciclo se fecha e somos obrigados a ver os créditos, atônitos pelo que acabamos de assistir. Só existe uma única certeza: gostando ou não, Annette consegue impactar tanto justamente por fugir do comum no gênero dos musicais. É diferente, empolga, arrepia e emociona. São filmes assim que conseguem resistir à passagem do tempo e se tornam clássicos. Nesse caso, a obra de Leos Carax é forte candidata a se tornar um, no futuro. Tomara. Faria justiça a uma produção tão grandiosa.