20 anos de Butterfly: a primeira emancipação de Mariah Carey

Leandro Gonçalves

A voz única e expressiva que embalou os americanos ao cantar sobre a sua visão do amor, compartilhando suas emoções, experimentou o até então auge de seu sucesso ao declarar estar sonhando acordada. Em 1995, com pouco mais de cinco anos de carreira, Mariah Carey desfrutava do próspero caminho que trilhara desde seu álbum de estreia autointitulado. Daydream (1995), seu quinto disco de estúdio, sustentava o sucesso conquistado pelo seu popular antecessor e estabelecia números expressivos, tanto para Carey quanto para a indústria fonográfica.

Os singles do álbum renderam a cantora pouco mais de seis meses na posição mais alta da Billboard HOT 100, principal chart musical americana, com destaque para a faixa “One Sweet Day”. Feita em parceria com o grupo Boyz II Men, permaneceu na primeira colocação por dezesseis semanas consecutivas e foi peça central para as 6 indicações ao Grammy recebidas pela cantora naquele ano.

Porém, a 38ª edição do Grammy não deu continuidade à fantasia de Mariah. Tida como favorita a conquistar os gramofones, a intérprete que dominou o cenário musical nos anos anteriores à 1996 perdeu em todas as categorias em que concorria. Ao ter seus feitos ignorados pela academia do maior prêmio da música, Carey testemunhou que a indústria não se curva a qualquer artista, sejam quais forem suas conquistas.

Internalizando a decepção, Mimi deu continuidade a seus trabalhos e lançou, em setembro de 1997, Butterfly, seu intimista sexto álbum de estúdio. O disco completa duas décadas de lançamento e é reconhecido como um importante divisor de águas para Carey, redirecionando a musicalidade e marcando a discografia da artista.

Composto por doze faixas, a obra mantém impresso em si o habitual R&B de Mariah, mas rompe com a pegada pop iniciada no Music Box (1993). O álbum explora a sonoridade mais sóbria do hip-hop, abordagem timidamente proposta em Daydream e que se mantém característica da artista, tendo como ápice o aclamado The Emancipation Of Mimi (2005). Creditada como produtora ao lado de nomes como Stevie J (“Mo Money Mo Problems”) e Walter Afanasieff (“My Heart Will Go On”), Mariah compôs quase todas as letras do disco, com exceção de “The Beautiful Ones (feat Dru Hill)”, assinada pelo saudoso Prince.

O envolvimento de Carey na concepção do trabalho vai além de seu nome grafado nos créditos. Butterfly traz consigo uma emotividade ímpar através de relatos líricos de Mariah envolvendo seus sentimentos, os quais podem ser facilmente associados ao casamento conturbado com o executivo musical Tommy Mottola.

Mariah e Tommy viveram um relacionamento problemático. Responsável pelo lançamento da artista na indústria musical no início da década de noventa, Mottola foi acusado por Carey de abuso mental e emocional. Eles se casaram em 1993 e a união durou aproximadamente quatro anos (Foto: Marion Curti)

Em “Honey” e “Butterfly”, faixas que iniciam o álbum, Mariah relata um relacionamento desgastado e emocionalmente abusivo. Na primeira, canta sobre a dependência que sente em relação ao amante e como isso a afeta. Enquanto a letra soa despretensiosa e não necessariamente referente ao seu casamento – a composição lírica da música não reflete o relacionamento conflituoso que vivia –, o recado parece claro no clipe. Ela está presa em uma mansão, mantida em cativeiro por um homem esteticamente semelhante ao ex-marido. Guiada pela sonoridade envolvente da faixa, a cantora inicia uma fuga como alegoria de um desprendimento amoroso.

Já na faixa título, Mariah fala sobre a necessidade de deixar o companheiro partir, após uma transformação. Mesmo o amando intensamente, reconhece que é fácil se render à medos opressivos e que o aprisionamento de um em relação ao outro não é a melhor opção. No entanto, se em “Butterfly” canta sobre deixar o amante voar, em faixas seguintes declara estar junto a ele sempre que este chamar.

Como um todo, o disco não segue a proposta agitada do pontapé inicial, não abusando da potente voz de Carey como em seus trabalhos anteriores. A sonoridade é mais pesada, tranquila, e Mariah canta em um tom mais baixo que o habitual quase o tempo todo. As dramáticas e declarativas “My All” e “Whenever You Call” e a releitura da faixa título, “Fly Away (Butterfly Reprise)”, são exceções junto a “Honey”. Nelas, Mariah explora a sua voz da típica forma que a tornou famosa pela potência vocal – seu famoso whistle é ouvido ao fundo durante quase toda a reprodução de “Fly Away”, por exemplo. Por outro lado, vocais masculinos de apoio dão profundidade à algumas outras músicas. No geral, as faixas que compõem o trabalho possuem a característica progressão musical de Carey: com um início calmo, elas explodem em vocais poderosos do meio para o fim.

Outros destaques são o embalo rítmico da romântica “Babydoll”, onde a insônia de Carey aparece como plano de fundo de seus anseios amorosos cantados em uma narrativa uniforme, e a reiteração feita por “Fly Away”, repetindo para que seu companheiro não tenha medo de voar. O entrosamento instrumental na transição de algumas músicas traz uma ótima fluidez ao álbum.

A intérprete entoa, também, composições de superação, abordando assuntos como o amadurecimento no que pode ser entendido como a maneira com que lidou com derrotas pessoais e em sua carreira, como na derradeira noite do Grammy de 1996. A parceria com Dru Hill e a faixa “Outside” encerram o disco trazendo em sua letra inseguranças e incertezas de Mariah, além da afirmação de que “pessoas bonitas machucam”, talvez uma alusão a decepção sentida em seu relacionamento com Mottola.

Símbolo de transformação: com Butterfly, além de redirecionar seu estilo, Mariah também encarnou uma mulher poderosa e aliou sua sensualidade, contida até então, ao seu indiscutível talento (Foto: Reprodução)

Definido pela revista Rolling Stone como um álbum de transição, Butterfly foi essencial na demarcação da musicalidade de Carey. Responsável por aliar o r&b próprio de Mariah ao hip hop, enriquecendo as poderosas baladas da cantora com uma sonoridade mais urbana e contemporânea, o disco redirecionou o trajeto musical da artista influenciando diretamente na consolidação de sua identidade artística. Filho pródigo do Daydream, antecessor visionário de The Emancipation, Butterfly é um disco coeso, uma aposta arriscada de uma artista que mesmo no seu auge buscou por renovação. É uma declaração de independência de uma mulher antes presa a um relacionamento corrosivo.

A artista canalizou suas inspirações emocionais, transformando a própria vivência em um de seus trabalhos mais notáveis. Mariah tornou o próprio enredo em entretenimento. Ao capitalizar sua narrativa particular, Carey atraiu burburinhos para si e seu trabalho em uma manobra característica da cultura pop: lucrar com questões ou momentos que parecem desfavoráveis.

Além disso, apesar de não ser pioneira na mesclagem de estilos proposta em Butterfly, o sucesso de Mariah e seu disco em questão influenciou diretamente no surgimento de artistas na segmentação r&b/hip hop. Nomes como Aaliyah, Beyoncé – principalmente em seus primeiros trabalhos – e Ciara, dentre outros, são reflexos do impacto da artista e da abordagem de seu trabalho na indústria fonográfica.

Mesmo que carregado de pessoalidade, o trabalho ainda soa como um claro recado comercial a aqueles que se negaram a reconhecer a qualidade de uma artista que em pouco tempo tomou para si inúmeras conquistas. Até então presa a um casulo estruturado por expectativas alheias e emoções erosivas, libertou-se através de seu talento e idealismo, tendo seus sentimentos emancipados e suas perspectivas artísticas expandidas. Ainda que tenha despertado de sua fantasia, deixando de sonhar acordada, aquela menina-mulher desmoronando por dentro e que esteve prestes a cair acordou a tempo, como enunciado por Mariah Carey nos versos que dão fim ao início de seu público amadurecimento pessoal e profissional.

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