LEMONADE: Amor, confiança e empoderamento

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Leonardo Santana Teixeira

Beyoncé tem se tornado uma artista que dispensa apresentações. Desde sua juventude à frente do R&B empoderado do Destiny’s Child, passando por seus incontáveis hits cuidadosamente moldados pelos produtores mais competentes que sua gravadora pôde conseguir, a cantora tem se esforçado para ganhar lugar de respeito em uma indústria que, no fim das contas, ela domina. Lançando em meio a polêmicas, o aguardado Lemonade é uma narrativa sobre solidão, confiança (ou a falta dela) e contestação social.

O disco não é um produto do acaso. É possível que suas origens datem do final da última década: após levar para casa cinco prêmios Grammy pelo grudento I Am… Sasha Fierce (2008) e receber aclamação absoluta do público, Beyoncé finalmente sentia-se estabelecida no mercado o bastante para voar com as próprias asas. Demitiu seu pai, que administrara sua carreira desde os primórdios e entrou em estúdio para gravar 4 (2011), álbum nostálgico que flerta com setentismos e oitentismos da música negra. Sem grandes hits dessa vez, o registro deixou claro que a cantora pretendia jogar sob as próprias regras, porém sua emancipação só chegaria com o lançamento autointitulado de 2013, um trabalho audiovisual disponibilizado sem grande divulgação, mostrando que o jogo da cantora seria agora o jogo de toda uma indústria.

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Recordista: Beyoncé e uma de suas vinte estatuetas do Grammy (Foto: Just Jared)

O novo trabalho chega com a escabrosa missão de superar seu tão aclamado antecessor. O buzz single Formation, lançado em fevereiro de 2016, conseguiu colocar os holofotes novamente sobre a cantora. A produção assinada por Mike Will Made-It, acompanhada do videoclipe impecavelmente dirigido por Melina Matsoukas (dona de pérolas da música pop como Sensual Seduction do rapper Snoop Dogg e Just Dance, single de estreia de Lady Gaga), é um grito de exaltação da mulher negra e suas origens, além de deixar em carne viva as feridas da segregação racial americana: com referências à violência policial e ao passado escravocrata do país, a canção explica o que a cantora pretende fazer de sua autonomia: um relato honesto de sua existência enquanto mulher, mulher negra. Sua performance durante o intervalo da quinquagésima edição do Superbowl, referenciando Malcom X para uma audiência de mais de 100 milhões de pessoas, causou o montante de polêmica necessário para deixar o público voraz por novidades.

Em tempos de uma música pop prolífica demais e inventiva de menos, Bey impressiona por sua coesão. A disposição de Lemonade para contar uma história, retratando sua profundidade emocional e social através de um conflito conjugal já é suficiente para eleger o lançamento com um dos melhores do ano. Sim, o álbum retrata as consequências de um adultério, como divulgado abundantemente pela mídia. Mas este está longe, no entanto, de ser o tema da obra. Aqui a traição não passa de uma ferramenta para que reflexões sobre confiança e autoestima, em suas diversas instâncias, sejam diluídas em música. E, ao lançar uma versão em filme documentário do trabalho, a cantora estabelece um espaço ainda maior para essa reflexão.

A abertura do álbum é bem clara: colocada no centro de um palco, Beyoncé se mostra narradora de suas próprias confissões. O prólogo da narrativa, a balada Pray You Catch Me, faz o trabalho de captar a atenção do espectador. A letra é daquelas de fazer o crítico mais ferrenho chorar, já que lida com uma problemática quase universal, a do amor sem confiança. Com Intuition, o primeiro dos dez capítulos de transição entre as faixas do longa, as relações de poder e subordinação de homens sobre mulheres, apoiadas nos dogmas religiosos (situações aqui suprimidas no termo “maldição”) fazem estender a mensagem da música. Versos da poeta britânica de descendência somali Warsan Shire ajudam a dar o recado e aparecem em outros momentos da obra.

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A poetisa Warsan Shire, colaboradora de LEMONADE (Foto: Amaal Said)

Musicalmente, o disco transita entre experimentos de gênero e revisitas ao pop que fez Beyoncé ser quem é. Hold Up é um lamento menos melancólico e mais realista do amor frustrado. Passada a dor da descoberta, inicia-se a busca pela recuperação da autoestima. Embalada pelo dancehall lucrativo do produtor Diplo, a voz da artista aqui passeia pelos versos de forma descontraída, ao passo que a progressão musical nunca pisa muito no acelerador. Visualmente, a canção faz referência à artista suíça Pipilotti Rist ao mostrar uma forma eficiente e pouco eufemística de se lidar com a frustração. Mais agressiva, Don’t Hurt Yourself usa das guitarras de Jack White e de um sample da versão do Led Zeppelin para When the Levee Breaks como combustível à letra que é imperativa e emancipatória até o último segundo.

A tristeza aqui é propulsora da raiva, que por sua vez leva a um estado de apatia, indiferença. Mas é sabido que indiferença é bem diferente de ódio, então, no fim das contas, persiste o amor e entende-se que essa indiferença é falsa e temporária. Sorry e 6 Inch são registros certeiros desta transição. Na primeira, um electropop com um pé no hip hop de empoderamento feminino, que se acomoda perfeitamente nas rádios e nas pistas de dança sem soar apelativa, Beyoncé declara sua independência emocional. O vídeo correspondente se destaca pelo uso das pinturas corporais do nigeriano Laolu Senbanjo, inspiradas na tradição iorubá. A canção seguinte narra as vivências de uma mulher na plenitude de sua autoestima e estabilidade financeira. A participação de The Weeknd nesta faixa é certeira, porém breve, mostrando que o ser masculino é coadjuvante e mera plateia neste momento.

No filme, a sequência é um dos momentos mais conceituais da obra, em que o abuso do filtro vermelho alude a um aspecto importante da natureza biológica da mulher cisgênera: o ciclo menstrual. Os capítulos que se intercalam entre as faixas (Apathy e Empitiness) verbalizam reflexões de um relacionamento destroçado, sexo sem amor e servidão emocional.

A maldição citada no início do documentário é colocada novamente em análise no capítulo Accountability. Chega-se à conclusão de que relações abusivas são consequência cíclica da teia do machismo, mas a consideração é sutil: na família, a mãe é exemplo de maior afetuosidade, mas de também subordinação. O pai, como homem, oprime e machuca. A faixa seguinte é Daddy Lessons, o experimento de country e blues do álbum e complemento da reflexão. Um dos momentos de maior qualidade do disco, discorre sobre a figura paterna e a sua função na formação do caráter da filha. O trabalho deu tão certo que até entrou para a setlist da icônica banda country Dixie Chicks.

A narrativa vai se aproximando de uma conclusão pacífica em Love Drought, em que Beyoncé classifica o relacionamento passado como unilateral, mas ainda acredita no sucesso do mesmo. Musicalmente, é o único momento que se encaixaria no antecessor de 2013. Sandcastles, a faixa seguinte, é o suspiro de alívio da obra. A artista admite que o amor nunca acabara, só estava estragado. E concede o perdão, porém tendo em mente que a confiança é reconstruída aos poucos. Lembra o clássico álbum Tapestry (1971), da Carole King, pela simplicidade lírica e pelo uso cru da voz. Ponto pra Bey!

O patamar em que Beyoncé chegou é meramente almejado pela maioria dos artistas de sua geração. Uma imagem impecável, talento e técnica combinados e perfeccionismo fizeram dela um ícone do século XXI. Esse fenômeno é perceptível pelo número de convidados ilustres que compõem seu lançamento: nomes como Ezra Koeing, vocalista da banda Vampire Weekend, e Serena Williams, passando pelos já citados Jack White e The Weeknd. Todos querem trabalhar com ela; James Blake, o mais novo queridinho do soul e do indie em terras britânicas, também figura entre as participações do álbum. Antecedida pelo capítulo Ressurrection — o renascimento da artista em suas origens, uma vez que ela restabelece contato com sua terra natal e as noções de religiosidade condicionadas à comunidade negra local, cujo futuro é tido como “lindo e assustador” —, a triste e idealista Forward chora pelas vítimas da opressão do passado e clama por um futuro melhor. A fusão das vozes de Blake e Beyoncé criam uma atmosfera tão emocionalmente pesada que o curto minuto de duração da faixa é mais do que suficiente para passar a mensagem desejada.

Um dos objetivos do disco é, claramente, um resgate das origens negras da artista. Essa busca chega em seu clímax na efervescente Freedom, parceria com o rapper americano Kendrick Lamar. Precedida pelo capítulo conceitual Hope, que metaforiza esperança e comunhão ao retratar uma mulher vestida como uma índia Mardi Gras, tradição da comunidade afro em New Orleans, Beyoncé entoa os versos iniciais da faixa para uma comunidade de mulheres negras independentes (o grupo surge em diversos outros momentos do documentário, sempre para simbolizar o futuro de liberdade que se deseja). O R&B clássico do órgão e a letra que clama por uma revolução são o ponto alto do álbum. É de arrepiar.

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Ladies in Formation: cena de comunhão feminina em Lemonade, um dos temas principais do álbum. (Foto: Reprodução)

A presença de Kendrick Lamar aqui é sintoma de uma ótima safra de lançamentos socialmente conscientes da black music nos últimos anos. O seu To Pimp A Butterfly (2015) e o impecável Black Messiah (2014), do lendário D’Angelo, entre outros lançamentos, se juntam a Lemonade como as obras primas da música negra contemporânea e são similares entre si por discutirem relações de opressão e poder guiadas pelo fator racial. Em uma das transições do longa, mães de vítimas de violência policial mostram retratos de seus filhos. No último domingo (28), estas mesmas mulheres chegaram com Beyoncé ao MTV Video Music Awards, um dos eventos mais importantes da indústria fonográfica americana. Grande destaque do evento, a cantora levou oito prêmios para casa (seis apenas pelo videoclipe para Formation) e realizou a apresentação mais ovacionada da noite.

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A cantora acompanhada de parte do elenco de seu álbum visual, incluindo as mães de Eric Garner, Trayvon Martin, Mike Brown e Oscar Brant, vítimas de violência policial e rostos do movimento Black Lives Matter (Foto:Dimitrios Kambouris/Wireimage)

Lemonade é um daqueles momentos raros da música pop que ocorrem poucas vezes a cada década. Assim como Madonna, com o seu Ray of Light (1998) e Janet Jackson em The Velvet Rope (1997), Bey consegue exceder seu próprio gênero musical e receber aceitação universal do público. Isso porque o álbum não é só um alinhado de música pop de qualidade – trata-se de música de qualidade e pronto. É uma experiência completa, finalizada pela esperançosa All Night. Com uma sutil tendência ao reggae, apresenta o final feliz, porém realista, que o ouvinte esperava. As feridas vão se curando, aprende-se com os erros, porque todo aprendizado é enriquecedor. Tudo em paz no reino de Beyoncé.

Pela variedade musical e pelo peso emocional e social, é bem fácil dizer que o disco é uma experiência completa. Impressiona, no entanto, acompanhar a versão visual do álbum e perceber que ele tem muito mais a oferecer. Álbuns visuais não são novidade no mercado, vide Totally Diva (1992) da Annie Lennox e Runaway (2010) do Kanye West. Contudo foi com Beyoncé que esta forma de arte tomou forma completa. Aqui a artista explora ao máximo o material que lhe é oferecido e o resultado é extraordinário.

Sempre com coesão, a cantora vai se desafiando mais a cada trabalho. Ao explorar ritmos inéditos em sua carreira, ela mostra querer crescer como artista. Em Lemonade, Beyoncé entrega seu trabalho mais ambicioso, sem medo de se arriscar. Difícil saber qual será a próxima jogada. O que está bem claro agora é que, na rodada atual, já temos uma vencedora.

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