Cheiro de Diesel demonstra que a ordem também produz violênci

Fotografia noturna de uma rua estreita em uma favela, decorada com bandeirolas que cruzam o alto da via. No centro, um jipe militar escuro com soldados armados avança em direção à câmera. À esquerda, moradores, incluindo crianças e adultos, estão sentados em mesas de plástico ou em pé na calçada, observando a passagem do veículo sob uma iluminação amarelada e densa.
O contraste entre o cotidiano da favela e a maquinaria de guerra (Descoloniza Filmes)

Arthur Caires

Cheiro de Diesel parte de um modelo que, à primeira vista, poderia se limitar ao registro: organizar depoimentos, contextualizar a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e reconstituir um período recente da história do Rio de Janeiro. No entanto, o filme rapidamente desloca esse eixo. As operações funcionam como plano de fundo para um objetivo maior: tensionar a própria ideia de ‘ordem’ que as sustenta. Ao devolver a palavra aos moradores, o documentário desmonta a narrativa oficial que legitima a presença militar como solução, revelando-a como parte de uma violência já estrutural.

Em diferentes momentos, o filme enquadra a presença das Forças Armadas em contraste direto com a rotina das comunidades: tanques ocupando ruas estreitas, soldados armados circulando entre casas, enquanto, ao fundo, crianças seguem brincando e moradores atravessam esses mesmos espaços. Não há construção de clímax nessas cenas – elas se apresentam quase como parte do cotidiano. É nesse convívio forçado que se explicita a extensão de uma lógica que transforma territórios em zonas de controle. O que poderia ser lido como estratégia de segurança se revela, nos relatos, como um estado de vigilância constante. O filme encontra força nesse atrito, sem precisar sublinhá-lo.

Mesmo diante de relatos mais duros – como o da chamada ‘sala vermelha’ – não há uma tentativa de intensificar o choque por meio da forma. O que se impõe é o oposto: uma condução que segura o excesso e deixa que as falas se sustentem por si. Isso desloca o impacto para outro lugar mais incômodo, porque não oferece ao espectador o alívio de um tratamento dramático evidente. É aí que o filme mais desestabiliza: ao não transformar esses episódios em clímax, ele sugere que o problema não está apenas nos casos extremos, mas na lógica que os torna possíveis – e, sobretudo, repetíveis.

Uma mulher de cabelos cacheados e óculos segura um grande cartaz amarelo em primeiro plano. No cartaz, está escrito em letras garrafais: "GLO GARANTIA DA LEI E DA ORDEM PRA QUEM?". Ao fundo, em uma área urbana aberta durante a noite, soldados fardados portando fuzis e um veículo blindado (tanque) compõem o cenário de vigilância.
O documentário tensiona a narrativa oficial ao dar voz àqueles que são o alvo direto da ocupação (Descoloniza Filmes)

Na direção, o encontro entre Gizele Martins e Natasha Neri estrutura o filme de forma decisiva. Gizele, nascida e criada na Maré, jornalista comunitária e pesquisadora da militarização das favelas, acompanha esse processo como alguém diretamente atravessada por ele – condição que aparece na forma como conduz os depoimentos e na escolha do que permanece em cena. Já Natasha Neri traz um percurso consolidado no documentário de denúncia, especialmente em Auto de Resistência, e uma formação ligada aos direitos humanos e à justiça criminal, o que se reflete na organização do material e na construção do discurso.

Cheiro de Diesel não se apresenta como um registro de algo encerrado no tempo das ocupações. Há um deslocamento constante entre o que foi vivido e o que ainda permanece, como se os relatos recusassem a ideia de passado. Em vez de um recorte fechado, o que se delineia é uma continuidade – práticas que mudam de forma, mas não de lógica. As imagens e as falas são indícios de algo que segue operando, ainda que sob outros nomes. 

Ao final, não há tentativa de organizar esse material em uma conclusão estável. O filme evita amarrar sentidos ou oferecer algum tipo de resolução, sustentando uma sensação de impasse que atravessa tudo o que foi exposto. Fica menos a ideia de resposta e mais a permanência de um conflito: entre o que se diz institucionalmente e o que é vivido no cotidiano, entre a promessa de proteção e a experiência concreta de violência. É nesse descompasso que o documentário se mantém, sem resolver a tensão, mas também sem permitir que ela seja ignorada.

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