Atenção: o texto a seguir contém spoilers que nem Senhores do Tempo conseguem evitar!

Iris Italo Marquezini
Doctor Who possui um legado bastante complicado de lidar. A natureza quase ilimitada do storytelling da série permite narrativas situadas tanto no passado quanto no futuro do planeta Terra e de todo o espaço sideral. Essa obra existe desde 1963 e, após o famoso período de hiatus, o seriado voltou em 2005 e conquistou fãs novos e antigos pela nova versão. As aventuras propiciadas pela TARDIS, nave com formato de cabine telefônica inglesa, e pelo alienígena da espécie dos Senhores do Tempo, o Doutor, trouxeram histórias emocionantes e inspiradoras durante décadas. Em 2022, a BBC e o Disney+ anunciaram uma parceria para o que, a princípio, seria um recomeço para atrair novos públicos, estrelando Ncuti Gatwa, conhecido por Sex Education (2019-2023) e Barbie (2023), como o protagonista. Com o orçamento mais alto e a volta do showrunner Russell T. Davies, as novas tramas, iniciadas em 2023, pareciam retornar positivamente para a estrutura episódica de antigamente, diferente da proposta vista anteriormente na temporada-evento Flux, por exemplo. Entretanto, toda a novidade e brilhantismo foram encerradas abruptamente.
O mais recente ano de de Doctor Who começa de forma excelente. Com a coadjuvante Belinda Chandra (Varada Sethu), o público vislumbrou uma personagem mais alinhada aos moldes de Ace (Sophie Aldred), Donna Noble (Catherine Tate) e Bill Potts (Pearl Mackie). Ou seja, a amiga aparece como alguém sem medo de desafiar as ideias do Doutor. Belinda é enfermeira e não está nada feliz com as jornadas muitas vezes inconsequentes do colega. O objetivo dela não é se aventurar mais vezes no espaço, mas voltar para casa, seguindo a narrativa aos moldes de Star Trek Voyager. Essa relação, somada ao mistério sobre a identidade de Mrs. Flood (Anita Dobson), trouxe um ano com o melhor que o show tem a oferecer.

Apostar na estrutura episódica foi o maior acerto desse segundo ano. Doctor Who volta aos moldes da antiga televisão dos anos 1990, como Além da Imaginação e Arquivo X, com a exploração de tramas antológicas parece aproveitar cada segundo da quase uma hora de atenção da audiência. Ainda que as narrativas apresentadas pequem pela falta de sutileza presente também na primeira temporada, tudo se compensa a partir de episódios aventurescos e com as performances enérgicas de Gatwa e Sethu.
Enquanto o 15º Doutor é emocional e explosivo, Belinda complementa essas ações com determinação e esperteza, principalmente pelo fato de ser enfermeira e suas habilidades em medicina serem relevantes para a trama, como em O Poço. Esse detalhe a diferencia da abordagem injusta dada à graciosa Yaz Khan (Mandip Gill) em outras aparições dela, já que se trata de uma policial com poucos roteiros aproveitando as habilidades vindas dessa profissão.
A performance de Ncuti Gatwa já marcou o seriado. O ruandês é o primeiro Doutor abertamente queer e a segunda pessoa negra a ganhar o papel, após Jo Martin como a Doutora Fugitiva. O Senhor do Tempo desta vez é profundamente marcado pela emoção, charme e humor. O ator consegue transitar entre as camadas do personagem muito bem, fazendo com que a audiência nunca se esqueça da profundidade milenar dos conhecimentos do viajante do tempo. Além disso, consegue demonstrar sentimentos de carinho sinceros pela humanidade, ainda mais claro comparado a outros atores da versão moderna.

Essa empolgação toda de Gatwa aparece principalmente em Lux, talvez o melhor episódio da nova era junto com 73 Jardas e Ladino. Neste capítulo mistura-se animação com live action e Doctor Who abraça o próprio legado como uma das séries mais antigas da televisão. Há brincadeiras com os clichês desse meio, tal qual Wandavision em 2021, com quebras da quarta parede, piadas metalinguísticas e misturas de mídias bastante condizentes com o potencial criativo do seriado.
Outros destaques da temporada ficam para O Poço e A História e o Motor. O primeiro reformula um inimigo enfrentado anteriormente pelo Doutor em um capítulo aos moldes do Suspense e do Terror, com a performance fenomenal de Annabel Brook como a desconfiada Hanno Yeft. O segundo apresenta segue a estrutura de Mil e uma Noites combinado a lendas africanas, reviravoltas, mistérios e desafios genuínos para os protagonistas. Ambas as tramas se beneficiam das boas atuações e dos conceitos de Ficção Científica explorados, desafiando toda a inteligência, emoção e inseguranças da dupla principal.

Outro diferencial da temporada foi o retorno de Ruby Sunday (Millie Gibson). Enquanto em outros anos as co-stars voltam para participações especiais, Ruby regressa como personagem casual. Com tramas e arcos próprios, a intérprete mostrou o quanto ainda tinha a oferecer, ganhando inclusive o criativo Dia de Sorte, em que os traumas de viajar com o Doutor florescem e a relação tóxica com um stalker trazem tensão.
Havia esperança de que Rogue (Jonathan Groff), mercenário do episódio paródia de Bridgerton, aparecesse tanto quanto Ruby, aparecendo em missões paralelas ou para ajudar diretamente a dupla principal. O interesse romântico poderia funcionar de forma parecida a melhor personagem do seriado: River Song (Alex Kingston), a esposa – e também viajante do tempo – do protagonista. No entanto, esses retornos casuais do trambiqueiro não ficaram para este universo, que apareceu em uma única cena e sem muitas chances de retorno.
Ainda assim, o brilho se mantém, pois Doctor Who também se beneficiou do alto orçamento. A trilha sonora composta por Murray Gold continua excelente como sempre. Os efeitos especiais, figurinos e cenários extremamente complexos são inéditos para a série antes limitada em todos os seus aspectos. O Festival Interestelar da Canção, por exemplo, ganha cenas épicas beirando o horror cósmico. Todos esses episódios citados possuem referências diretas a acontecimentos de outras temporadas, mas utilizam direções competentes para não apelar demais para os fan services ou confundir fãs novos. A participação especial da Doutora Fugitiva foi um desses momentos bem feitos.

O capítulo de estreia, A Revolução Robô, e os posteriores, são inventivos, experimentais e contidos em si, com apenas alguns acenos para reviravoltas maiores, como se não houvesse tempo a perder. Em alguns momentos, toda a sutileza vai embora e a audiência é diretamente informada sobre as mensagens que a série procura trazer. Até mesmo o arco de Belinda, ao se aproximar da amizade com o Doutor, acontece rápido demais – logo se estabelecendo como grandes amigos poucas aventuras depois de se conhecerem.
Essa clareza é explicada pela curta duração da temporada. Somando ambos os anos do show na Disney+, Gatwa teve somente 19 capítulos para chamar de seus. Mesmo contando a participação pontual no final de Risadinha, com David Tennant, e o fraco especial de Natal, Joy to the World, com Nicola Coughlan (Bridgerton), ainda se tem um número bem abaixo de episódios comparado com as passagens de Matt Smith e Jodie Whittaker no papel, por exemplo. O astro deu a impressão de aproveitar cada segundo dessa oportunidade, a audiência não deixa de notar sua antecipada saída do papel.
A abordagem da série estava boa até então, com tramas endereçando problemas contemporâneos, como a toxicidade do movimento redpill, o combate à homofobia, ao racismo e a busca por ancestralidade. Todavia, tudo começa a desandar quando, de repente, a narrativa mais episódica é deixada de lado para abordar as dezenas de pontas soltas lançadas nos últimos anos, tudo em somente dois únicos capítulos finais.

O finale, dividido em duas partes, é frustrante, embora abranja a estética Kafkiana e distópica interessante, a primeira metade faz muitas perguntas sem dar sinais de respostas. A volta de Rani (Archie Panjabi), da Era Clássica (1963–1989), é completamente desperdiçada ao descaracterizar a cientista e torná-la basicamente uma substituta de outros antagonistas genéricos. Essa decisão gastou de forma anticlimática o potencial enorme dessa vilã. Até mesmo Belinda foi deixada de lado nos últimos capítulos, limitando-se a ficar confusa dentro de uma caixa.
Não só isso, como essa temporada final tentou dar um tom épico para a história anterior, usando a estrutura batida e cheia de fan services utilizada a cada season finale da produção e especiais desde O Poder da Doutora (2022). O Mundo do Desejo e Guerra da Realidade não possuem nem metade da nuance, coesão narrativa ou expansões interessantes para justificar o tom grandioso escolhido. O capítulo de despedida da brilhante Jodie Whittaker como 13ª Doutora, apesar dos problemas que sua personagem teve ao longo de seus anos no programa, ainda foi infinitamente mais satisfatório e emocionante.
É previsível sentir saudade da conclusão do 12º Doutor (Peter Capaldi) também. Twice upon a time (2017) teve o intuito de se afastar do tom épico e focar no embate pequeno de salvar algumas dezenas de refugiados do ataque dos cybermen. Essa decisão ajudou a realçar a personalidade do Doutor de se importar com cada alma viva possível. Comparado aos capítulos finais de Gatwa, é como se a obra estivesse se esquecendo dos passos interessantes que a fizeram evoluir e continuar relevante ao longo do tempo.

Porém, o único momento em o fan service funciona e se justifica, é o icônico encontro entre o 15º Doutor e a 13ª Doutora. A cena possui diálogos realmente criativos e já característico de outros momentos, tanto da série quanto do universo expandido, de duas encarnações do personagem se unir para ajudar uma à outra. Esses instantes são sempre especiais, justamente por essas uniões não serem tão frequentes. O tom divertido e melancólico da conversa consegue trazer profundidade para o bate-papo entre duas versões de uma mesma pessoa já cientes do próprio destino. O protagonista precisava de um ombro amigo e é ótimo ter a Doutora como escolha para desempenhar essa função, já que o universo criativo da obra permite encontros como esse.
Contudo, o crossover não chocou tanto quanto a reviravolta da regeneração inesperada do 15º Doutor, na qual uma nova pessoa entra para o papel de protagonista. A atriz Billie Piper, intérprete da companion Rose Tyler nas primeiras temporadas da era moderna da série, é a nova face do programa. Rostos repetidos já foram escolhidos anteriormente, como foi o caso de Colin Baker e Peter Capaldi, ambos atuando como personagens secundários em Doctor Who antes de aparecerem oficialmente como Doutores. A decisão é bem mais chocante desta vez, já que Rose foi protagonista desde o piloto do reboot de 2005. Essa escolha, justamente por ser feita pelo showrunner Russell T. Davies, traz uma camada de ressalvas enorme.

Davies é conhecido por comandar as primeiras temporadas da série moderna (2005-2023), estreladas por Christopher Eccleston, David Tennant, Billie Piper, Freema Agyeman e Catherine Tate brilharam nos papéis principais. Fãs notaram o detalhe de Billie Piper não ser creditada com o título de 16ª Doutora nos créditos do capítulo – algo que aconteceu em regenerações passadas. Mesmo com o potencial enorme de Piper entregar boas abordagens como Doutora, não está claro qual a identidade dessa nova persona em tela. Nessa lógica, a profissional poderia receber um novo título e seguir um caminho maléfico, por exemplo.
No fim, a impressão é a de uma possível volta do 14º Doutor também, já que devido à bizarra birregeneração, continua em Londres. Assim, novas aventuras utilizando ambos os atores das primeiras temporadas seriam possíveis. Muitos fãs compararam essa decisão com a volta de Robert Downey Jr à Marvel como Doutor Destino (2026) após o papel de Homem de Ferro (2008-2019), uma justificativa forçada e ridícula para indicar o retorno aos “bons tempos” da obra.
Mas a Disney dificilmente abandonaria o universo de super-heróis no momento atual. Doctor Who, por outro lado, não teve essa sorte. A parceria entre a BBC e a plataforma de streaming foi encerrada por falta do retorno esperado e uma suposta vertente progressista demais para ser “Marvelizada”. Um novo especial de natal, porém, foi anunciado para 2026 e a série está com o futuro garantido, mesmo fora da Disney. A próxima era do seriado terá de fechar as pontas soltas com a confirmação ou não da nova atriz como 16ª Doutora. Além disso, a saudade do protagonista pela neta Susan e o romance com Rogue. Colocar Piper como válvula de escape para resolver essas pontas soltas é prejudicar tanto a narrativa anterior quanto a que está por vir.

Ainda assim, todos os furos de roteiro parecem ficar em segundo plano quando, na verdade, a maior dificuldade da obra nos próximos anos será manter a própria essência em meio às ondas conservadoras, contradizendo tantas décadas de história. A única tristeza de Doctor Who possivelmente voltar a ter um orçamento menor futuramente é a diminuição de contratações de profissionais do audiovisual para o show, já que narrativamente os efeitos especiais eram meros detalhes da produção cheia de momentos icônicos e emocionantes. A série derivada, The War Between The Land And The Sea, é o encerramento genuíno da parceria com a Disney+, mas ainda assim, a produção sequer chegou a ser distribuída globalmente como planejado.
Ncuti Gatwa, Varada Sethu e Millie Gibson saíram dos próprios papéis cedo demais. Chega a ser desrespeitoso com a performance do ator entrar e sair do papel de Doutor entre regenerações feitas puramente em apelo à nostalgia. Embora os especiais de Tennant tenham sido justificados pela inusitada surpresa de encerrar toda a história até então, a volta de Piper evidencia o perigo do seriado esquecer seu caráter criativo e retroceder na abordagem do soft reboot. Com o fim do acordo com a Disney, a distribuição do programa também ficará prejudicada, uma péssima notícia para os whovians – nome dado à fanbase da obra – brasileiros, já que a série e conteúdos do universo expandido sequer chegam oficialmente ao país.
Ninguém pediu um remake de Doctor Who. É inevitável notar a ironia da presença do selo da Disney nas telas da série quando esta parece seguir o mesmo caminho que as últimas produções fracas do estúdio. Todas as temporadas passadas tiveram uma dose considerável de problemáticas, entretanto acreditar na repetição de tramas, personagens e atores como se essa fosse a solução para manter uma das produções mais criativas da história da TV relevante, é trocar uma viagem por toda a vastidão do espaço por um passeio simples e seguro no parque de diversões. A obra hoje é divertida, mas operar na linha do aceitável é correr o risco de ser facilmente substituída por qualquer outra mídia sem medo de fazer diferente, como Doctor Who fez tantas vezes no passado.
