
Gabriel Diaz
Antes mesmo do primeiro teaser ser lançado, os fóruns da internet fervilhavam com muitas teorias. Entusiastas de longa data do encanador bigodudo, que cresceram com os diversos jogos da franquia, esperavam com ansiedade o que a Nintendo e a Illumination teriam para oferecer como continuação de Super Mario Bros (2023). E quando as imagens chegaram, a euforia tomou conta.
A apresentação de Super Mario Galaxy trouxe as galáxias coloridas, o adorável Yoshi e a tão aclamada Princesa Rosalina – elementos clássicos de todo o universo do game. Assim como no primeiro filme, a história aposta na expansão e não se enquadra fielmente ao enredo tradicional dos jogos, especialmente a inspiração que levou o nome do título, lançado em 2007 na plataforma do Nintendo Wii.
Se está funcionando, não há razão para arriscar e decepcionar um público fiel, seja de sua maioria infantil ou apenas quem goste dos jogos. Então, a técnica de seguir uma narrativa própria, misturando referências de diferentes títulos da franquia Mario para reinterpretá-las para o Cinema, se mantém. A proposta não é adaptar diretamente o jogo, mas executar uma releitura de uma experiência mais ampla. Além disso, o longa marca os 40 anos de um dos personagens mais icônicos da história dos videogames. A expectativa era de uma celebração à altura. O que poucos perceberam, porém, é que essa celebração tem um destinatário muito específico; e talvez não seja quem você imagina.

O longa propõe a missão de continuar o legado da primeira aventura de Mario (Chris Pratt) e Luigi (Charlie Day), porém a trama parte por outra premissa: Bowser Jr. (Ben Safdie), filho do grande vilão Bowser (Jack Black), sequestra Rosalina (Brie Larson) em busca de poder suficiente para impressionar o pai. Além dos irmãos principais, Peach (Anya Taylor-Joy), Toad (Keegan-Michael Key) e o recém-chegado Yoshi (Donald Glover) partem numa missão de resgate que os conduz por planetas aquáticos, desertos estelares e cidades espaciais.
Rosalina, que no game exerce um papel mais independente e enigmático, passa a ocupar a posição de ‘princesa a ser resgatada’, alterando significativamente a condução da história. Em paralelo, Peach assume uma postura mais ativa ao lado de Toad, reforçando uma abordagem mais dinâmica e atualizada dos personagens clássicos.
Matthew Fogel escreveu o roteiro com a clareza objetiva de quem entende que seu público-alvo tem entre seis e dez anos de idade, pois entrega começo, meio e fim com uma eficiência quase mecânica. Entretanto, entrega alusões de jogos para os mais antigos fãs, como de Super Mario Odyssey (2017), Super Mario Bros. 2 (1988) e até do Super Mario Sunshine (2002), na forma como Bowser Jr. empunha seu icônico pincel mágico. E diferente do primeiro filme, a sequência demonstra contenção narrativa, o que, paradoxalmente, tanto é um avanço quanto a raiz de suas frustrações mais profundas.

A direção de Aaron Horvath e Michael Jelenic, os mesmos responsáveis pelo primeiro longa, encontra neste segundo capítulo uma versão de si mesma amplificada em confiança técnica. As sequências de ação são fluidas e vertiginosas, com uma câmera que mergulha na gravidade invertida dos planetas como se o espectador estivesse ele mesmo com um controle de Wii na mão.
Talvez seja importante ressaltar que a Illumination sempre opera com orçamentos notavelmente enxutos: cerca de 100 milhões de dólares, metade do que Pixar e Disney costumam investir em suas produções; e entrega resultados que desafiam e superam essa lógica financeira. A direção de arte, que inclui o brasileiro Renan Porto na equipe, é, sem exagero, o ápice cinematográfico do longa: os planetas têm identidades visuais distintas, as paletas de cores mudam de galáxia para galáxia com uma coerência que sugere um trabalho meticuloso de design que vai muito além do decorativo.
É possível ver numa única pincelada do pincel mágico de Bowser Jr. que ali possui uma textura quase tátil, e os fantoches, que emergem em uma das cenas de ação mais inventivas do filme, revelam uma produção disposta a experimentar materiais e estilos sem medo do estranhamento. É um comportamento comum de produções de animação, mas que conseguiu superar a si próprio e atingiu cenários genuinamente impressionantes.

Brian Tyler, o mesmo do primeiro longa, é o nome da trilha sonora e ela foi reaproveitada em arranjos que transitam entre o sinfônico e o eletrônico, sempre encaixada com precisão cirúrgica nos momentos de ação. Se há uma crítica a fazer ao uso, é essa conexão entre música e emoção narrativa. Se no primeiro era tão marcante, com seus momentos de clímax sonoro que arrepiavam, aqui parece ligeiramente enfraquecida, como se a trilha estivesse a serviço da experiência sensorial mais do que da jornada emocional dos personagens.
O que a obra faz de melhor, e de forma absolutamente consciente, é funcionar como uma espécie de Super Mario Maker (2015) cinematográfico. Para quem não conhece, este jogo era a materialização de um sonho coletivo: dar ao jogador as ferramentas de criação do próprio Shigeru Miyamoto e deixá-lo construir seus mundos livremente. No cinema, opera-se numa lógica semelhante: pega o arsenal de 40 anos de franquia e o distribui generosamente pela tela, convidando o espectador apaixonado a caçar referências como se cada quadro fosse um nível a ser explorado.
Dentre as menções, Pikmins aparecem em cantos discretos, Fox McCloud (Glen Powell) chega com sua Arwing numa entrada épica, Birdo e Wart ressurgem como antagonistas clássicos e o guarda-chuva de Peach remete diretamente a Super Princess Peach (2005). Nenhum desses elementos pertencia originalmente ao universo Galaxy, e por isso a decisão divide opiniões.

Para quem vê o filme como extensão da franquia, acaba soando generoso. Para quem esperava uma transposição mais fiel ao jogo de 2007, é uma diluição. Felizmente, parece que a Nintendo entendeu isso e realizou um projeto de longo prazo que consegue funcionar de maneira orgânica na maior parte do tempo, sem um caos indigesto de citações sem contexto.
A verdade é que quem não construiu memórias afetivas com esses personagens ao longo de décadas encontrará uma narrativa apressada, personagens subdesenvolvidos e uma quantidade de informações visuais que atordoa sem necessariamente emocionar. Pode-se usar a Rosalina, ausente no filme até o clímax, como um símbolo de desperdício desconcertante de uma personagem cuja história de origem é uma das mais tocantes de toda a franquia. A relação entre ela e Peach, reveladas como irmãs numa das maiores surpresas narrativas do longa, é esboçada com um flashback e depois praticamente abandonada.

Os cortes abruptos entre registros emocionais muito distintos também comprometem a imersão, pois, em um arco mais melancólico e potencialmente rico do roteiro como o de Bowser e seu filho Bowser Jr., não há espaço para respirar entre um power-up e outro, mesmo que a cena em que Bowser conta ao filho uma lição de moral paterna. Apesar disso tudo, a dinâmica entre Yoshi e Luigi é comédia e afeto puro, funcionando no nível humano mais simples. Que bom que existe, porém que pena que o filme passa rápido demais por ela.
No fim, Super Mario Galaxy se define justamente por esse equilíbrio instável entre nostalgia e inovação, nada diferente do que se esperava. Ao escolher expandir em vez de adaptar fielmente, cria-se uma identidade própria que encanta parte do público e desafia outra. Ele não é feito para quem vai ao cinema buscando a densidade de um Studio Ghibli; é feito para quem, ao ouvir o tema principal da série, sente imediatamente o peso afetivo de uma infância inteira guardada naquelas notas e para as crianças que ainda estão construindo as suas
A obra conclui mais uma etapa dentro do universo, que aparentemente está nem perto de ser finalizado. A Nintendo conseguiu se fantasiar de Marvel e criou extensões do universo, dando a entender que outros jogos poderiam estar presentes numa versão cinematográfica. Será que um possível filme da série de Super Smash Bros estará nas telonas nos próximos anos? Se faz sentido? Talvez não, porém o que predomina é o sentimento de fã, então seria sensacional.
