Super Mario Galaxy: O Filme não é feito para os fãs, e sim aos apaixonados

Cena animada colorida mostra quatro personagens voando pelo espaço em alta velocidade. Ao centro, um homem de bigode com boné vermelho e macacão azul cavalga um dinossauro verde de olhos grandes, que avança com a boca aberta. À esquerda, outro homem com roupa verde flutua com expressão determinada. À direita, uma princesa de vestido rosa e coroa dourada voa envolta por um brilho mágico. O fundo é um céu cósmico com partículas luminosas e rastros de energia em tons neon.
Além da trama principal, a sequência expande o universo da Nintendo com participações especiais e easter eggs para todos os públicos (Foto: Universal Pictures)

Gabriel Diaz

Antes mesmo do primeiro teaser ser lançado, os fóruns da internet fervilhavam com muitas teorias. Entusiastas de longa data do encanador bigodudo, que cresceram com os diversos jogos da franquia, esperavam com ansiedade o que a Nintendo e a Illumination teriam para oferecer como continuação de Super Mario Bros (2023). E quando as imagens chegaram, a euforia tomou conta. 

A apresentação de Super Mario Galaxy trouxe as galáxias coloridas, o adorável Yoshi e a tão aclamada Princesa Rosalina – elementos clássicos de todo o universo do game. Assim como no primeiro filme, a história aposta na expansão e não se enquadra fielmente ao enredo tradicional dos jogos, especialmente a inspiração que levou o nome do título, lançado em 2007 na plataforma do Nintendo Wii

Se está funcionando, não há razão para arriscar e decepcionar um público fiel, seja de sua maioria infantil ou apenas quem goste dos jogos. Então, a técnica de seguir uma narrativa própria, misturando referências de diferentes títulos da franquia Mario para reinterpretá-las para o Cinema, se mantém. A proposta não é adaptar diretamente o jogo, mas executar uma releitura de uma experiência mais ampla. Além disso, o longa marca os 40 anos de um dos personagens mais icônicos da história dos videogames. A expectativa era de uma celebração à altura. O que poucos perceberam, porém, é que essa celebração tem um destinatário muito específico; e talvez não seja quem você imagina.

Imagem dividida diagonalmente em duas partes. À esquerda, um homem de boné vermelho gira no espaço com o corpo inclinado, cercado por estrelas brilhantes e pequenas criaturas luminosas em formato de estrela. À direita, o mesmo personagem monta um dinossauro verde que estica a língua para pegar uma fruta vermelha enquanto flutua em um céu azul com nuvens. As duas cenas contrastam o espaço profundo e um ambiente mais claro e celeste.
Por trás da inspiração, o jogo original de Wii revolucionou o mundo dos games ao apresentar novas mecânicas que redefiniram o gameplay (Foto: Nintendo)

O longa propõe a missão de continuar o legado da primeira aventura de Mario (Chris Pratt) e Luigi (Charlie Day), porém a trama parte por outra premissa: Bowser Jr. (Ben Safdie), filho do grande vilão Bowser (Jack Black), sequestra Rosalina (Brie Larson) em busca de poder suficiente para impressionar o pai. Além dos irmãos principais, Peach (Anya Taylor-Joy), Toad (Keegan-Michael Key) e o recém-chegado Yoshi (Donald Glover) partem numa missão de resgate que os conduz por planetas aquáticos, desertos estelares e cidades espaciais.

Rosalina, que no game exerce um papel mais independente e enigmático, passa a ocupar a posição de ‘princesa a ser resgatada’, alterando significativamente a condução da história. Em paralelo, Peach assume uma postura mais ativa ao lado de Toad, reforçando uma abordagem mais dinâmica e atualizada dos personagens clássicos. 

Matthew Fogel escreveu o roteiro com a clareza objetiva de quem entende que seu público-alvo tem entre seis e dez anos de idade, pois entrega começo, meio e fim com uma eficiência quase mecânica. Entretanto, entrega alusões de jogos para os mais antigos fãs, como de Super Mario Odyssey (2017), Super Mario Bros. 2 (1988) e até do Super Mario Sunshine (2002), na forma como Bowser Jr. empunha seu icônico pincel mágico. E diferente do primeiro filme, a sequência demonstra contenção narrativa, o que, paradoxalmente, tanto é um avanço quanto a raiz de suas frustrações mais profundas.

Criatura animada semelhante a um filhote de tartaruga com corpo robusto, pele amarelada e focinho arredondado aparece em primeiro plano. Ela usa uma bandana com desenho de dentes afiados e pulseiras escuras nos braços. O personagem está sentado em uma cadeira metálica com cabos ao redor, levantando as mãos com expressão animada. A iluminação mistura tons de vermelho e azul, criando um ambiente tecnológico e levemente ameaçador.
Na versão brasileira, a voz do Bowser Jr recebeu a dublagem de Charles Emmanuel (Foto: Illumination Studios)

A direção de Aaron Horvath e Michael Jelenic, os mesmos responsáveis pelo primeiro longa, encontra neste segundo capítulo uma versão de si mesma amplificada em confiança técnica. As sequências de ação são fluidas e vertiginosas, com uma câmera que mergulha na gravidade invertida dos planetas como se o espectador estivesse ele mesmo com um controle de Wii na mão. 

Talvez seja importante ressaltar que a Illumination sempre opera com orçamentos notavelmente enxutos: cerca de 100 milhões de dólares, metade do que Pixar e Disney costumam investir em suas produções; e entrega resultados que desafiam e superam essa lógica financeira. A direção de arte, que inclui o brasileiro Renan Porto na equipe, é, sem exagero, o ápice cinematográfico do longa: os planetas têm identidades visuais distintas, as paletas de cores mudam de galáxia para galáxia com uma coerência que sugere um trabalho meticuloso de design que vai muito além do decorativo.

É possível ver numa única pincelada do pincel mágico de Bowser Jr. que ali possui uma textura quase tátil, e os fantoches, que emergem em uma das cenas de ação mais inventivas do filme, revelam uma produção disposta a experimentar materiais e estilos sem medo do estranhamento. É um comportamento comum de produções de animação, mas que conseguiu superar a si próprio e atingiu cenários genuinamente impressionantes.

Cena noturna mostra duas figuras de costas, um homem de boné vermelho e uma mulher de vestido longo rosa, observando o céu estrelado de cima de um telhado. O horizonte é preenchido por meteoros luminosos cruzando o céu em várias direções, deixando rastros brilhantes em tons de azul, rosa e amarelo. A atmosfera é calma e contemplativa, com iluminação suave refletindo nas silhuetas dos personagens.
O filme registrou a maior estreia de 2026 ao arrecadar US$ 34 milhões em seu primeiro dia em cartaz, superando recorde anterior da franquia (Foto: Illumination Studios)

Brian Tyler, o mesmo do primeiro longa, é o nome da trilha sonora e ela foi reaproveitada em arranjos que transitam entre o sinfônico e o eletrônico, sempre encaixada com precisão cirúrgica nos momentos de ação. Se há uma crítica a fazer ao uso, é essa conexão entre música e emoção narrativa. Se no primeiro era tão marcante, com seus momentos de clímax sonoro que arrepiavam, aqui parece ligeiramente enfraquecida, como se a trilha estivesse a serviço da experiência sensorial mais do que da jornada emocional dos personagens. 

O que a obra faz de melhor, e de forma absolutamente consciente, é funcionar como uma espécie de Super Mario Maker (2015) cinematográfico. Para quem não conhece, este jogo era a materialização de um sonho coletivo: dar ao jogador as ferramentas de criação do próprio Shigeru Miyamoto e deixá-lo construir seus mundos livremente. No cinema, opera-se numa lógica semelhante: pega o arsenal de 40 anos de franquia e o distribui generosamente pela tela, convidando o espectador apaixonado a caçar referências como se cada quadro fosse um nível a ser explorado.

Dentre as menções, Pikmins aparecem em cantos discretos, Fox McCloud (Glen Powell) chega com sua Arwing numa entrada épica, Birdo e Wart ressurgem como antagonistas clássicos e o guarda-chuva de Peach remete diretamente a Super Princess Peach (2005). Nenhum desses elementos pertencia originalmente ao universo Galaxy, e por isso a decisão divide opiniões.

Personagem semelhante a uma raposa está em pose heroica no topo de uma estrutura futurista. Ele usa um traje tecnológico com colete azul, luvas e um dispositivo verde brilhante sobre um dos olhos. Ao fundo, o céu tem tons vibrantes de pôr do sol misturados com roxo e laranja, enquanto pequenas naves voadoras se aproximam. A iluminação destaca o personagem como protagonista em um cenário de ação e ficção científica.
O anúncio prévio de Fox McCloud, da série de jogos Star Fox, sustentou perfeitamente o personagem dentro da narrativa espacial (Foto: Illumination Studios)

Para quem vê o filme como extensão da franquia, acaba soando generoso. Para quem esperava uma transposição mais fiel ao jogo de 2007, é uma diluição. Felizmente, parece que a Nintendo entendeu isso e realizou um projeto de longo prazo que consegue funcionar de maneira orgânica na maior parte do tempo, sem um caos indigesto de citações sem contexto.

A verdade é que quem não construiu memórias afetivas com esses personagens ao longo de décadas encontrará uma narrativa apressada, personagens subdesenvolvidos e uma quantidade de informações visuais que atordoa sem necessariamente emocionar. Pode-se usar a Rosalina, ausente no filme até o clímax, como um símbolo de desperdício desconcertante de uma personagem cuja história de origem é uma das mais tocantes de toda a franquia. A relação entre ela e Peach, reveladas como irmãs numa das maiores surpresas narrativas do longa, é esboçada com um flashback e depois praticamente abandonada.

Personagem feminina com traços de princesa está sentada em uma cadeira de madeira clássica dentro de uma biblioteca repleta de livros. Ela usa um vestido azul turquesa com detalhes prateados e uma pequena coroa, mantendo uma expressão serena enquanto segura um livro aberto. Três pequenas criaturas estelares e brilhantes flutuam ao seu redor nas cores amarelo, verde e branco, iluminando suavemente a cena. A composição utiliza tons quentes e luzes pontuais para criar uma atmosfera mágica, acolhedora e de fantasia.
A ausência de destaque da Rosalina foi citada como um dos problemas que contribuíram para a recepção mais fraca no Rotten Tomatoes (Foto: Nintendo)

Os cortes abruptos entre registros emocionais muito distintos também comprometem a imersão, pois, em um arco mais melancólico e potencialmente rico do roteiro como o de Bowser e seu filho Bowser Jr., não há espaço para respirar entre um power-up e outro, mesmo que a cena em que Bowser conta ao filho uma lição de moral paterna. Apesar disso tudo, a dinâmica entre Yoshi e Luigi é comédia e afeto puro, funcionando no nível humano mais simples. Que bom que existe, porém que pena que o filme passa rápido demais por ela.

No fim, Super Mario Galaxy se define justamente por esse equilíbrio instável entre nostalgia e inovação, nada diferente do que se esperava. Ao escolher expandir em vez de adaptar fielmente, cria-se uma identidade própria que encanta parte do público e desafia outra. Ele não é feito para quem vai ao cinema buscando a densidade de um Studio Ghibli; é feito para quem, ao ouvir o tema principal da série, sente imediatamente o peso afetivo de uma infância inteira guardada naquelas notas e para as crianças que ainda estão construindo as suas

A obra conclui mais uma etapa dentro do universo, que aparentemente está nem perto de ser finalizado. A Nintendo conseguiu se fantasiar de Marvel e criou extensões do universo, dando a entender que outros jogos poderiam estar presentes numa versão cinematográfica. Será que um possível filme da série de Super Smash Bros estará nas telonas nos próximos anos? Se faz sentido? Talvez não, porém o que predomina é o sentimento de fã, então seria sensacional.

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