Quando a vulnerabilidade se torna ruptura: Novo Testamento de AJULIACOSTA

“Todas nós mulheres dentro dessa indústria somos participantes com vontade de mudar algo, ter a nossa voz e falando que a gente precisa ser escutada” (Foto: Mateus Aguiar)

Sofia Ferreira Santos

Talvez você tenha ouvido o nome da rapper AJULIACOSTA inicialmente em 2022, com o hit Não Foi do Nada. Ou até mesmo em participações da artista em faixas de grande relevância nacional no hip-hop e no rap, como Piranha (2024) de MC Luanna, Poetas no Topo 4 (2024) – projeto da Pineapple Storm – ou ainda em você vai gostar (2024) com DUDA BEAT. Seja como for ou onde você a conheceu pela primeira vez, foi em 2025, com seu segundo álbum, que a cantora não apenas lançou seu Novo Testamento, mas também apresentou as diretrizes desse novo período de sua carreira.

Mesmo com uma jornada relativamente nova de lançamentos, foi com apenas 12 anos de idade que a AJU (apelido utilizado pela rapper) começou seu caminho, escrevendo rimas e participando de batalhas de rap em Mogi das Cruzes (SP). Aos 14, a artista integrou o grupo de rap Mistura de Fatos, porém saiu para focar em sua carreira empresarial no ramo da moda, antes de seu retorno ao universo musical com o lançamento não apenas de sua fase solo, assim como de seu primeiro EP nomeado AJU (2022).

Aos 25 anos, AJULIACOSTA lançou o Novo Testamento, álbum composto por 11 faixas e 25 minutos de rimas sinceras e afiadas. O título do projeto já anuncia sua proposta simbólica: na tradição cristã, o Novo Testamento se trata da parte da Bíblia escrita após o nascimento de Jesus, dedicada à exposição de sua trajetória, pensamentos e ideais. Ao se apropriar dessa referência, a rapper sugere um gesto de afirmação e protagonismo, como se apresentasse ao público uma nova fase marcada pela autenticidade e pela multiplicidade de suas facetas – uma construção em que vulnerabilidade e honestidade se tornam pilares de força.

“‘Novo Testamento’ traz um impacto e representa esse movimento que eu quero fazer na cena de trazer alguma coisa diferente” (Foto: Mateus Aguiar)

Logo na faixa Intro, prelúdio do álbum, o ouvinte já é inserido nesse universo musical inédito de AJULIACOSTA por meio de áudios de vozes próximas à artista – como a cantora Ebony e até a própria mãe de Julia – questionando o que seria esse novo testamento. A resposta vem logo em seguida: mais do que um conjunto de músicas, o projeto se apresenta como um movimento, um gesto de ruptura com a mesmice da indústria, de recusa ao medo do desconhecido e de afirmação de que aqueles que seguem esses ‘novos mandamentos’ não sucumbirão. Assim, AJU não apenas introduz a sonoridade que atravessará o disco, mas também estabelece, desde o início, sua dimensão conceitual e ideológica.

Essa escolha de abrir o disco com áudios falados que dialogam diretamente com a temática central não é isolada; trata-se de um recurso que tem se consolidado no cenário do hip-hop nacional como forma de contextualização e construção de narrativa. Em KM2 (2025), por exemplo, Ebony utiliza vozes e recortes que ajudam a situar o ouvinte no universo emocional e simbólico. Semelhante lógica também é utilizada em Dois (2023), de Luccas Carlos, em que a introdução falada funciona como chave de leitura para quem seria essa persona criada pelo cantor em sua carreira, que contribui para o diálogo das faixas seguintes.

No caso de Novo Testamento, esse recurso cumpre uma função dupla: além de dialogar com uma estética já reconhecível dentro do rap nacional contemporâneo, ele reforça a noção de comunidade e testemunho – como se diferentes vozes validassem, questionassem e participassem da construção desse manifesto. A introdução, portanto, não é apenas uma abertura sonora, e sim um dispositivo narrativo que insere o álbum em uma vertente contemporânea  da cena e, ao mesmo tempo, legitima seu caráter de movimento coletivo e transformação individual.

As duas faixas seguintes têm o intuito de, não somente continuar respondendo sobre o que será defendido no LP, como também já mostrar suas diversas opiniões sobre assuntos delicados dentro da indústria musical e fora dela. Em Toc Toc Toc, AJULIACOSTA rememora seu posicionamento sobre a cena do hip-hop já apresentado em outras músicas, como em sua participação na canção Poetas no Topo 4. Na colaboração, a rapper mostra como vê o contexto contemporâneo do movimento musical em um looping de mesmice, e por causa disso, acredita ser necessário “acordar o mundo”, não apenas com palavras, como também realmente vivendo aquilo que canta e gerando debates, o que para ela seria a real função do rap

Já em Quero saber, adiciona-se um lado mais sentimental de seu ponto de vista sobre a indústria com um questionamento muito relevante para a cena feminina do rap e hip-hop brasileiro: Como seria se a cantora perdesse tudo? O outro que ela ama ainda a apoiaria? Para aprofundar ainda mais a produção e as referências do álbum, AJC sampleia os primeiros versos da canção CAJU de Liniker: “Quero saber se você vai correr atrás de mim”, enquanto isso, a letrista reposiciona e altera o rumo da pergunta com “Quero saber se você vai correr ou não de mim”, dando então, um olhar diferente sobre a vulnerabilidade da dúvida da primeira canção, pois o medo não é do outro buscar ou não por ela, mas sim, deixá-la de lado caso perca seus méritos já conquistados. Agora, o ouvinte se vê sem respostas, e com um gosto amargo de compartilhar em muitos momentos esse mesmo questionamento, afinal, quem somos para além das nossas conquistas? 

Com as inconfundíveis rabiscadas do DJ KL Jay e mais uma produção de Maffalda, AJU rima em Dharma sobre a segurança que tem em si mesma e em seus princípios, e que ninguém nem nada a fará mudar seu ponto de vista sobre isso. Ao som dos versos virais da canção “Isso pra mim não é vida / Vida pra mim é viver sossegada / Então eu durmo nos braços do Dharma” o público abriu um diálogo sobre o que seria o termo titular da canção, que se faz presente em diversas religiões e filosofias indianas, tendo como significado o que seria ‘o caminho certo’. Dessa forma, além de debater sobre a indústria cultural e musical, a letrista coloca aqui suas referências para além da música, conforme abordado por ela em entrevistas para a Revista Capricho e a plataforma de mídia e cultura brasileira Notthesamo.

Esse diálogo entre filosofia e espiritualidade, para a cantora seria uma forma de responder à pergunta central do álbum, de que, se ela com tanta confiança em si mesma, está inaugurando uma nova fase de sua vida e de sua carreira, então “O que a Julia vai ser?”, o que se pode esperar dela agora? E a resposta, mesmo que simples e inovadora, ainda reflete muito do que seus fãs e ouvintes já esperavam: ela mesma, inovadora e impactante. Com um clipe dirigido por Fernanda Correrua e roteirizado pela própria artista, aprofunda-se ainda mais a letra apresentada originalmente, pois em um trecho da canção, coloca-se em pauta o questionamento de como a mediocridade da mídia aceita e ‘dá palco’ para mulheres brancas (ou qualquer um) que produzam músicas consideradas ‘meia-boca’ e divulguem casas de apostas – popularizadas com o apelido de ‘tigrinho’. 

No momento citado, é possível ver AJC horrorizada com a imagem de si que vê no espelho: ela está branca, com uma peruca loira, uma pessoa fantasiada de tigre aparece atrás dela jogando dinheiro ao ar e ela foge do local segurando um copo da cor rosa produzido pela marca Stanley, fazendo uma referência satírica ao depoimento da influenciadora Virginia Fonseca na CPI das BETS. Porém, conforme foi abordado por ela em entrevista ao Portal G1, a escolha foi feita com o intuito de trazer uma discussão contemporânea que dialogasse com o tema abordado, além disso, que não houve desrespeito na crítica feita, pois para ela “a arte precisa gerar debate”, e mesmo com a repercussão desse momento do vídeo, em algum momento a rapper teve medo da repressão ou das conversas que surgiriam com isso.

Após tantas dúvidas, ecoa Acorde, canção em que Julia Costa retoma e tensiona os conceitos apresentados ao longo do álbum. Nessa faixa, o ouvinte compreende que fazer parte desse ‘novo testamento’ exige mais do que adesão estética: requer a disposição de encarar reflexões profundas sobre a humanidade, conectar ideias, ir além das palavras, despertar para a vida e, sobretudo, pensar por si mesma – e não apenas reproduzir o que é validado pelo algoritmo. Aqui a cantora reafirma pontos já apresentados anteriormente, mas os ressignifica, desse modo, os questionamentos que atravessam o disco deixam de ser apenas dúvidas e passam a constituir um espaço de debate e enriquecimento crítico, com isso, questionar deixa de ser apenas um ato de rebeldia, e se torna também um ato de construção.

A faixa também dialoga diretamente com Liberdade, na qual AJC explicita sua defesa da própria autonomia, não apenas artística, como também enquanto mulher negra. Trata-se de uma liberdade que exige reconhecimento e reposicionamento do outro: para que ela exista plenamente, não pode haver temor, amparada inclusive pelo ‘corre’ sustentador de sua trajetória, a artista reivindica sua intocabilidade e afirma que não precisa se curvar a críticas rasas, nem às dinâmicas de mídias como o TikTok quando estas esvaziam a reflexão em favor de danças e tendências que não dialogam com seu pensamento. Assim, as duas músicas funcionam como reafirmação e aprofundamento do que já vinha sendo anunciado, e demonstram como as dúvidas colocadas anteriormente não são irrespondíveis, e consolidam o movimento desse projeto inquieto e reflexivo diante da mediocridade. 

Dentre as duas faixas, Sob a luz do seu olhar se destaca como a lovesong central do projeto, pois, nessa letra, evidencia-se, de forma mais íntima, a força da vulnerabilidade da cantora. Se, ao longo do disco, a compositora critica a indústria musical e as dificuldades de romper padrões, aqui ela transfere o foco dessa dinâmica para relações amorosas, revelando maturidade emocional e consciência de si e de suas necessidades: “Se você quiser uma mina real, vou ‘tar aqui / Eu sei falar de amor, é tão confuso / Mas não me confunda com as suas experiências / Eu sou uma mulher madura que também tem exigências […] / Não tem fé nas maluca’ eu quero as coisas bem mais simples”. A canção reforça, assim, a fortaleza que nasce da vulnerabilidade assumida, o que consolida a coerência entre conceito e vivência ao longo do álbum. Além disso, quando comparada a outra canção que trata da temática amorosa Quero saber, percebe-se uma mudança de diálogo, pois aqui não se duvida se o outro vai deixá-la, e sim, se ele vai ser o suficiente para suas necessidades.

Nas três faixas finais – Interlúdio [MINI SAIA], Pense como uma diva e Fiel a mim – AJU transporta a revolução do campo coletivo para o território da subjetividade. Se em Dharma a artista enfatiza a força da união e a partilha de ideais com suas amigas, aqui ela parece afirmar que nenhum movimento se sustenta sem um alicerce interno sólido, logo, a transformação proposta pelo Novo Testamento não é apenas um gesto público ou performático; ela começa no silêncio da própria consciência. Em Interlúdio [MINI SAIA], a escolha estética do título já sugere tensão entre imagem e profundidade, tendo em vista como a ‘mini saia’ frequentemente é lida socialmente como signo de exposição ou julgamento, esta torna-se então ponto de partida para um mergulho introspectivo. AJC desvia a perspectiva do outro – que historicamente regula o corpo da mulher – para o olhar sobre si, a revolução, nesse sentido, passa pela retomada da narrativa do próprio corpo e da própria imagem.

Pense como uma diva amplia essa reflexão ao propor uma ética da autoconfiança. A diva, longe de ser apenas um arquétipo glamouroso, aparece como figura de autonomia intelectual e emocional, ou seja, pensar como uma diva é assumir centralidade na própria história, investir em conhecimento – seja ele acadêmico, estético ou cultural – e compreender que a construção da identidade também passa pelo estudo, pela referência e pela elaboração crítica de si. Há, portanto, uma dimensão pedagógica no discurso: a autoconfiança não nasce do vazio, e sim de um processo consciente de formação.

Fechando o álbum com chave de ouro, Fiel a mim, produzida pelo DJ MU540 – conhecido por seus beats e produções no âmbito do rap e do hip-hop –, consolida essa trilha musical introspectiva ao reafirmar a lealdade a si mesma como princípio ético. Em um cenário marcado por algoritmos, expectativas externas e pressões de mercado, manter-se fiel torna-se um ato de resistência, AJU mostra como confiar no próprio potencial e no próprio trabalho se trata de uma condição de sobrevivência simbólica do eu, em seus princípios, ideais e ideias. Desse modo, as três faixas de encerramento tensionam a ideia de revolução apresentada ao longo do álbum. Se antes ela aparecia como movimento coletivo, com união de vozes, partilha de ideais, construção conjunta, aqui, coloca-se em foco o exercício individual da introspecção. 

“Eu sempre confiei muito no processo. Então foi uma coisa que veio de dentro de mim, eu não caí de paraquedas. É um sonho da minha alma mesmo, eu fui só ouvindo ela e seguindo passo a passo” (Foto: Mateus Aguiar)

O Novo Testamento, portanto, não se limita a uma comunidade que pensa coletivamente; ele exige sujeitos capazes de pensar por si, questionar estruturas e assumir as consequências desse posicionamento. Desde a recusa da mesmice da indústria musical, denunciada em faixas como Toc Toc Toc, até o enfrentamento simbólico à lógica midiática e às falsas promessas de sucesso fácil evidenciadas em O que a Julia vai ser?, o projeto musical constrói uma crítica consistente à superficialidade cultural e à validação pautada por algoritmos, tendências e privilégios raciais. Ao mesmo tempo, ao incorporar referências filosóficas como o conceito de dharma – o ‘caminho certo’ – e ao tensionar vulnerabilidade e maturidade emocional em canções como Quero saber e Sob a luz do seu olhar, AJULIACOSTA amplia essa revolução para além do embate externo: ela a transforma em processo ético e existencial.

A revolução começa no grupo, na união de ideais e na construção coletiva de força, mas só se sustenta quando cada indivíduo reconhece sua potência singular, elabora suas dúvidas e permanece fiel a si mesmo. Dessa forma, ao pensar por si mesma, assumir a própria narrativa enquanto mulher negra na indústria, e se recusar a performar o que não condiz com seus valores e transformar vulnerabilidade em consciência crítica, a rapper mogiana consolida seu Novo Testamento não apenas como uma nova fase artística, e sim como um manifesto de autonomia intelectual, estética e política, capaz de articular debate, espiritualidade, amor, mercado e identidade em uma mesma proposta de transformação.

A pedido da autora, esta crítica é dedicada à memória de Gabrielly da Silva Rodrigues, uma mulher parda, pesquisadora, e acima de todos os méritos, um sol na vida daqueles a seu redor.

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