
Bianca Costa
Uma mãe em seu leito de morte faz um último pedido ao filho: que encontre o pai e a avó que nunca conheceu. É a partir desse pedido que se desenrola A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, um romance onde o sagrado e o profano se entrelaçam por suas páginas e pela cidade de Candeia. Essa contemporânea obra brasileira – exemplo de realismo mágico – entrega tudo aquilo que um verdadeiro clássico da literatura tem direito: uma conexão verdadeira com o leitor, capaz de transcender o tempo.
“Foi a morte que me ensinou. O tempo de sonhar é em cima da terra” – A Cabeça do Santo
Com a angústia causada pela dor da perda de sua mãe, Samuel decide cumprir sua promessa. Assim, deixa Juazeiro do Norte para trás e percorre a pé um sofrido trajeto de dezoito quilômetros, acompanhado apenas pela secura impiedosa do sertão cearense. Alcançando, enfim, o destino traçado por sua mãe – o município de Candeia. Era uma cidade comum, até Samuel precisar se abrigar em uma gruta, refúgio que à luz da manhã revela ser, na verdade, uma cabeça imensa de Santo Antônio.
Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são orações de mulheres que pedem amor ao santo. O romance tempera fé, cotidiano e tradição nordestina com uma escrita simples e envolvente, carregada de simbolismos culturais e políticos.

Publicado em 2014 pela Companhia das Letras, A cabeça do Santo conquista críticos e leitores há onze anos por sua originalidade e pela forma como resgata elementos do folclore, montando uma verdadeira dança das cadeiras entre o sagrado e o profano, premissas opostas e mistura ousada que abraça contrastes tão inerentes na cultura popular brasileira.
“[…] porque às vezes nem Deus livra o homem de enlouquecer. O demônio é artista” – A Cabeça do Santo
O toque de realismo mágico que perdura por cada página, clássico de Gabriel García Márquez, não é por acaso. Em 2006, Socorro Acioli foi a única mulher e brasileira selecionada para a oficina de Como contar um conto, que seria mais tarde a última oficina de escrita ministrada por Márquez. A proposta que apresentou foi baseada em um caso real, uma estátua de Santo Antônio inacabada, erguida no município de Caridade, também no interior do Ceará, onde a cabeça permanece abandonada há quase quarenta anos.

Essa curiosa história que deu origem ao livro, começou em 1984, quando o prefeito da cidade contratou um escultor para erguer uma imensa estátua de Santo Antônio. A obra começou como foco de grande expectativa, mas logo foi interrompida, e a cabeça, já pronta, jamais chegou a ser erguida junto ao corpo. Pesada demais e sem recursos para ser transportada, acabou esquecida no chão, entre ruas e casas, virando parte da paisagem local. Logo, tornou-se alvo de lendas e superstições que associavam a ‘degola’ do santo aos problemas da cidade. Essa imagem poderosa – a cabeça abandonada de um santo, separada do corpo – impressionou Acioli e fez os olhos de García Márquez brilharem.
A premiada escrita de Acioli é simples, marcada pelo ritmo envolvente, parecendo uma conversa, do jeitinho brasileiro. Mas esse estilo direto não diminui a densidade da obra, pelo contrário, permite que os símbolos e personagens ganhem força sem excessos. Samuel, o protagonista, encontra dentro da cabeça do santo tanto prisão quanto abrigo, uma metáfora para sua busca de identidade e pertencimento. Já as vozes femininas que ele escuta simbolizam a presença coletiva e invisível dessas mulheres, silenciadas na vida pública, porém, persistentes em suas preces. A cidade, por sua vez, é quase um personagem, marcada pela dependência dos milagres e pelo abandono material.
“A consciência da solidão doía mais que qualquer outra dor.” – A Cabeça do Santo
Os simbolismos são a chave do romance. A cabeça de Santo Antônio inacabada revela como o divino convive com o ordinário. O sertão, sempre presente, é metáfora da falta material, mas também da resistência. O silêncio de Samuel, contraposto às vozes femininas, mostra como a escuta pode ser mais poderosa do que a palavra. É nessa brincadeira entre o místico e o real que a narrativa encontra sua singularidade.

Mesmo com doze anos desde sua publicação, o romance de Socorro Acioli marcou presença na lista dos livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2025, revelando o potencial da literatura nacional, capaz de reinventar tradições, dar voz ao silêncio e transformar uma história local em um ‘suco de brasilidades’, onde até Santo Antônio perde a cabeça.
