Em sua segunda temporada, Percy Jackson e Os Olimpianos encontra seu equilíbrio no temido Mar de Monstros

Cena da série Percy Jackson e os Olimpianos. Na imagem, um jovem branco com cabelos loiros cacheados, com uma mochila preta e vermelha, está ao lado de uma jovem negra com cabelos longos em tranças. Ambos seguram espadas e estão em uma área de floresta durante o dia
Percy Jackson prova mais uma vez que a escolha de Leah Jeffries e Walker Scobell para os papéis de Annabeth Chase e Percy foram mais que acertadas (Foto: Disney+)

Stephanie Cardoso

Uma das maiores preocupações sempre que uma adaptação literária é divulgada é sobre o quão fiel será ao material original. Anunciada em 2020, a série Percy Jackson e os Olimpianos veio como uma chama de esperança para os fãs após os criticados filmes feitos pela Fox na década passada. Entretanto, às vezes, o desejo é como uma faca de dois gumes. Durante sua primeira temporada, o que era pra se tornar o seu maior triunfo veio como o seu maior defeito: fidelidade ao extremo. Apesar de finalmente honrar o legado da saga, a produção acabou pagando o preço ao não conseguir traduzir a obra para uma linguagem de streaming – o que ocasionou em cenas avulsas que não faziam tanto sentido para o audiovisual. 

Agora, com o seu segundo ano vindo ao ar, a saga sobre o filho de Poseidon conseguiu alcançar o que faltou antes: equilíbrio. Desta vez, acompanhamos Percy Jackson (Walker Scobell) um ano depois dos eventos de Ladrão de Raios e da revelação da traição de Luke Castellan (Charlie Bushnell). De volta ao Acampamento Meio Sangue junto de Annabeth Chase (Leah Jeffries) e seu meio-irmão Tyson (Daniel Diemer), ele terá a missão de resgatar o seu amigo Grover Underwood (Aryan Simhadri), e de quebra, salvar o acampamento. Sua nova jornada tem um cenário bastante conhecido – e temido – pelos heróis gregos e lar do famoso Velocino de Ouro: o Mar de Monstros.

Ciente de seu compromisso de superar sua temporada anterior, a nova leva de episódios não mediu esforços para se livrar de todas as desconfianças de sua antecessora. Com episódios focados e enredos mais interessantes, a série se destaca pela dupla Percy e Annabeth. A química entre eles parece saltar da tela, marcada por olhares e palavras ditas – afinal, comunicação não é um problema entre eles por agora. Capítulos como Damos entrada no Spa e Resort C.C. mostram ainda mais a parceria e cumplicidade entre o par, onde o bem estar um do outro é sempre o mais importante. Dá para sentir o cuidado que a produção tem com esses personagens tão amados pelo público. Leah e Walker são um fenômeno à parte, com performances que nos fazem perceber o carinho e entendimento que têm por seus papéis. 

Apresentar novos membros ao show nem sempre é uma tarefa fácil, mas Percy Jackson e os Olimpianos conseguiu fazer isso com maestria. Tyson, um dos novos integrantes da trama, nos consegue fazer sentir uma enorme afeição por ele desde os primeiros momentos. Apesar de ser um ‘monstro’ na percepção dos semideuses, seu jeito inocente rouba a cena, mesmo perto de personagens já consolidados na história. Sua primeira aparição também é um ponto alto, já que nos deixa em expectativa para saber quem é que acompanhou o protagonista em seu ano escolar. Mesmo não tendo recebido o melhor dos tratamentos por parte de seu irmão – o que nos faz querer entrar na tela e dar um chacoalhão em Perseus – ainda é leal e faz de tudo para o ajudar e ser útil.

Outra nova adição que merece destaque é Thalia Grace (Tamara Smart). Ainda que seja mencionada no ciclo anterior, sua aparição nos fez realmente perceber a sua importância. Entre flashbacks e menções, a sua presença nos fez se sentir mais ansiosos a cada minuto para entender o quão grandiosa será a sua influência nos eventos tantos passados, quanto futuros. Como filha do principal Deus Olimpiano, Grace é uma possível outra ‘criança da profecia’, e com isso, responsável pelo futuro do Olimpo. E apesar de não estar presente fisicamente nos últimos anos, é motor para as maiores decisões da trama – como a traição de Luke, por exemplo. 

Sua relevância já era demonstrada por meio de diálogos, mas entender o porquê é algo que faz a série chegar ao seu ápice. É interessante ver como a produção não deixou tão claro a função dela na narrativa: não se sabe se vai ser uma provável vilã ou heroína – nem os próprios protagonistas conseguem ter essa certeza. A dualidade dessa escolha é o que nos deixa mais curiosos sobre o seu futuro, sobretudo após a sua cena final.

Não dá pra falar da filha de Zeus sem falar sobre as mudanças ao adaptar o segundo livro da saga. Seu arco foi quase totalmente mudado durante a temporada, em comparação com a obra original. Entretanto, isso não fez qualquer diferença, pelo contrário, deixou a história ainda mais interessante. Às vezes, os roteiristas de uma adaptação precisam entender que não é fidelidade de página a página que faz algo ser fiel e sim sobre manter a essência – afinal, não é tudo que faz sentido no livro que vai funcionar nas telas. Pelo menos, parece que Rick Riordan e Jon Steinberg finalmente entenderam o recado.

Cena da série Percy Jackson e os Olimpianos. Na imagem, vemos uma jovem negra com cabelos cacheados pretos, usando jaqueta de couro preta e camiseta escura. Ela segura um escudo metálico e está em uma floresta com clima noturno
Mesmo com o pouco tempo de tela, Tamara Smart rouba a cena quando aparece na segunda temporada (Foto: Disney+)

A traição de Luke Castellan, já impactante no primeiro ano, ganha ainda mais força nos novos episódios. Ao lado de Cronos, o temido titã, o filho de Hermes parte em busca do Velocino de Ouro. Castellan se torna um dos personagens mais bem aproveitados do enredo, com atos que mostram que ele já está no caminho para ser um bom antagonista. Suas cenas mais marcantes são com Annabeth, onde há todo um drama emocional envolto. Se em algum momentos houve alguma esperança para algum arco de redenção, o final nos mostra que não há nenhuma chance. Luke – com toda a sua ambição fria – assume, sem medo, o papel de vilão por acreditar em sua causa.

A descoberta de novos traidores no Acampamento foi algo importante para a narrativa, em especial para Clarisse La Rue (Dior Goodjohn). Com ainda mais importância nessa temporada – se tornando praticamente uma das protagonistas – a filha de Áries conseguiu se provar para o pai e também para o público. Com atitudes mais do que questionáveis durante o ano anterior – entre elas tentar afogar a cabeça de Percy na privada, por exemplo –, a campista teve um arco próprio e entendemos melhor o porquê dela agir de maneira mais fechada. Com cenas variando entre engraçadas e dramáticas, La Rue foi um pilar dessa fase, participando de momentos pertinentes como a leva do Velocino de Ouro para o acampamento. Sua evolução é destaque, com jeitos que demonstram quem é a verdadeira Clarisse – mesmo que nem ela saiba direito.

Apesar de a maior parte dos protagonistas terem sido bem aproveitados durante a temporada, não se pode dizer o mesmo sobre Grover Underwood. Com o seu arco resumido a cenas cômicas, não houve uma tentativa de aprofundamento em seu enredo. Acabou se tornando alguém esquecível para a trama, mesmo que fosse uma das maiores motivações para a principal missão dessa temporada. Ainda que tenha sido essencial para o ano anterior, desta vez foi resumido a um mero vestido de noiva – o que não é justo para um personagem tão interessante.

Foto da premiere brasileira da série Percy Jackson e os Olimpianos. Na imagem, quatro jovens atores posam sorridentes em frente a um painel com o logo da série. Dois rapazes com cabelos escuros e curtos vestem uniformes amarelos da seleção brasileira de futebol. Entre eles, uma jovem negra com cabelos longos e ondulados usa uma jaqueta cropped branca e calça branca. Ao lado deles, um rapaz branco de cabelos loiros e encaracolados sorri para a câmera. Todos os rapazes estão com a camisa da seleção brasileira
Os atores Aryan Simhadri, Leah Jeffries, Walker Scobell e Charlie Bushnell estiveram no Brasil em dezembro para a CCXP (Foto: Andy Santana/Brasil News)

Além da evolução dos integrantes da trama, não tem como deixar de mencionar a do próprio roteiro. Com um melhor entendimento e mais seguro de si, o enredo consegue andar com mais naturalidade sem precisar se apoiar totalmente no livro ou no conhecimento dos fãs. Sem cenas paralelas ou que não agregassem na história, a série parece finalmente ter entendido qual sentido quer ter. A direção de James Bobin acompanha esse crescimento com uma estética mais segura e consistente. A produção parece mais confortável no próprio universo visual. Há bons enquadramentos, ritmo bem controlado e uma identidade que começa a se encontrar. Momentos grandiosos, como a corrida de bigas ou a Ilha de Circe, são conduzidos com energia e clareza. 

Percy Jackson e os Olimpianos retorna com uma temporada que sem sombra de dúvidas, consegue superar em tudo a sua primeira. Dá para notar que a produção fez a sua lição de casa e ouviu os fãs. Com um final de expectativas, os espectadores já podem contar nos dedos para a estreia de seu terceiro ano, que já foi confirmado e tem previsão de estreia para o final do ano. Se ousar um pouco mais, a série não só cumprirá sua promessa de fazer jus a obra original, como tem tudo para se tornar memorável.

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