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	<title>Arquivos Maternidade &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Aug 2023 21:14:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Freire de Moraes “Estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. O que é o mesmo que dizer: estou escrevendo como um filho.” Nas primeiras páginas de Sobre a terra somos belos por um instante, o autor Ocean Vuong constrói sua posição durante toda a narrativa na tentativa de se &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31358" aria-describedby="caption-attachment-31358" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-31358" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press.png 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31358" class="wp-caption-text">A estreia de Ocean Vuong na prosa, após a aclamada reunião de poemas Céu noturno crivado de balas, é um complexo testemunho autobiográfico escolhido pelo Clube do Livro do Persona (Foto: Rocco/Arte: Francisco Tigre)</figcaption></figure>
<p><strong>Mariana Freire de Moraes</strong></p>
<blockquote><p>“<i>Estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. O que é o mesmo que dizer: estou escrevendo como um filho.</i>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas primeiras páginas de </span><a href="https://www.rocco.com.br/livro/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/"><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a terra somos belos por um instante</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o autor Ocean Vuong constrói sua posição durante toda a narrativa na tentativa de se refazer, se ver e perdoar por meio da alteridade de uma comunicação ao mesmo tempo concreta e hipotética. Através do resgate analítico da memória e da apresentação do ambiente, Vuong, chamado de Cachorrinho pela avó, escreve cartas para sua mãe, analfabeta funcional, revisitando episódios da infância no Vietnã e de sua adolescência nos Estados Unidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colonialismo, maternidade, identidade, sexualidade, violência e luto são os pilares do livro, cujos episódios de trauma rememorados traçam um caminho linear para o entendimento da história de três gerações da </span><a href="https://amp.theguardian.com/books/2017/oct/03/ocean-vuong-forward-prize-vietnam-war-saigon-night-sky-with-exit-wounds"><span style="font-weight: 400;">família do escritor</span></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">e as complexidades recalcadas de pessoas estruturadas em meio à guerra, ao preconceito, ao refúgio e à vulnerabilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começando pelas memórias quando criança em um Vietnã desestabilizado pela guerra, Cachorrinho – a maneira que Vuong também se retrata em sua escrita – inicia o romance relembrando das primeiras vezes em que sua </span><a href="https://www.anothermag.com/fashion-beauty/14347/bjork-ocean-vuong-in-conversation-another-magazine-aw22"><span style="font-weight: 400;">mãe</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi violenta com ele. No acesso à infância, o escritor lembra alguns momentos em que ensina a matriarca a escrever, reproduzindo o que aprendeu naquele dia no jardim de infância. Esse é o momento em que a vulnerabilidade de quem o cria é escancarada para ele e que percebe que possui o que ela precisa para resolver esse problema. De uma forma sutil e perturbadora, esse episódio demonstra a maneira que o autor consegue colocar os dois se olhando do mesmo lugar. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Você é uma mãe, Mãe. Você também é um monstro. Mas eu também sou – e é por isso que eu não posso me afastar de você. E é por isso que eu peguei a mais solitária criação de deus e te coloquei dentro dela.</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_31354" aria-describedby="caption-attachment-31354" style="width: 401px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class=" wp-image-31354" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp" alt="Na foto, duas mulheres e uma criança estão sentadas em um banco de madeira. As mulheres ficam nos cantos, enquanto o bebê no meio. Estão dentro de uma casa, ao fundo, aparece o vulto de outra mulher, do lado de fora do cômodo. Atrás, percebe-se uma janela, uma porta e roupas penduradas. No primeiro plano, uma mulher, ao canto esquerdo, está sentada ao lado de uma criança pequena. Sua pele é amarela, seus cabelos pretos estão presos. Ela veste um macacão branco, com estampa de flores azuis. Está descalça e sorri fixadamente à câmera. Assim como a criança ao seu lado, que também tem cabelos e olhos pretos. Veste uma camiseta branca com uma gola laranja e estampada com desenhos, que está enfiada dentro de um shorts roxo claro. Ao lado da criança, à direita, uma outra mulher, de cabelo curto e preto, na altura do pescoço e com uma franja cortada, também sorri à foto. Ela usa uma blusa rosa clara e uma calça branca. Está de pernas cruzadas." width="401" height="574" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp 559w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602.webp 600w" sizes="(max-width: 401px) 85vw, 401px" /><figcaption id="caption-attachment-31354" class="wp-caption-text">A foto que ilustra a edição estadunidense de Céu noturno crivado de balas retrata o autor com dois anos, ao lado de sua mãe e sua tia no campo de refugiados nas Filipinas (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Passando pela situação de </span><a href="https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/refugiados/"><span style="font-weight: 400;">refugiado</span></a><span style="font-weight: 400;"> quando criança, em um paralelo sensível com o nascimento e morte de sua avó – entre o Vietnã e Estado Unidos –, a narrativa se torna mais política e identitária. A partir do momento que Cachorrinho conta a história das mulheres que o criaram, frutos de um estupro de guerra, nada segue sem que pautas sociais sejam colocadas de forma explícita, no entanto, nunca deixando com que a </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura/como-alguem-pode-ser-uma-sensacao"><span style="font-weight: 400;">poética</span></a><span style="font-weight: 400;"> fique em segundo plano. Assim, Vuong cria uma atmosfera sólida de questionamento, ao mesmo tempo que deixa claro as complexidades subjetivas geradas a partir desses contextos, e quão decisivas são essas condições para que ele seja ele mesmo, a mãe seja a mãe e o país seja o país. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegando aos Estados Unidos, na casa de seu pai com quem nunca conviveu, o escritor tem um espaço para descobrir e explorar sua sexualidade (atualmente se identifica como uma pessoa </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/pop-arte/diversidade/noticia/2022/06/29/o-que-e-ser-queer.ghtml"><span style="font-weight: 400;">queer</span></a><span style="font-weight: 400;">). No livro, Vuong relata suas primeiras experiências com um homem pobre como ele, porém branco: Trevor, a única pessoa com quem ele realmente desenvolve uma relação além de sua mãe e avó. De uma forma totalmente analítica, o escritor apresenta todas as fases dessa relação, passando pelo estranhamento, o escatológico, as drogas, o entendimento, a identidade, o amor e a morte. Cachorrinho pôde conhecer a vulnerabilidade e a violência do amor e de uma relação que requer um entendimento político, social, subjetivo e identitário que não foi apresentado a nenhum dos dois, tornando tudo mais difícil e mais intenso na mesma medida.</span></p>
<figure id="attachment_31355" aria-describedby="caption-attachment-31355" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31355" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp" alt=" Sob o fundo de um arbusto flores vermelhas, o autor, criança, é segurado no colo por sua mãe, que tem seu cabelo cacheado cortado curto e usa uma camisa manga longa vermelha, com uma estampa preta na frente. A criança usa uma camiseta polo branca com listras azuis claras e escuras, e uma parte de baixo azulada. Segura um coelho de pelúcia branco, com detalhes lilases." width="800" height="583" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1024x746.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-768x560.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1536x1119.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-2048x1492.webp 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1200x875.webp 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31355" class="wp-caption-text">Quando sua mãe faleceu de complicações de um câncer de mama, Vuong demonstrou seu luto nas redes sociais: ‘‘(&#8230;) você me ensinou que nossa dor não é nosso destino – mas nossa razão.’’ (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O resgate da memória nas passagens da infância no meio da narrativa linear da história do Cachorrinho é o traço mais analítico de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a Terra Somos Belos por um Instante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ocean Vuong usa a </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2023/jun/03/ocean-vuong-i-dont-believe-writer-should-just-keep-writing-as-long-as-theyre-alive-time-is-a-mother-paperback"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> como ferramenta de articulação e busca, narrando sempre em primeira pessoa e, diretamente com a sua mãe, faz com que o objetivo de suas cartas nunca seja esquecido: dizer que se é. As coisas mais duras são lembradas de um jeito poético e grotesco, e quase sempre seguidas de uma imagem que bate de frente com a beleza apresentada de forma visual pela escrita. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Uma vez você me perguntou o que é ser um escritor. Então vamos lá. Sete dos meus amigos estão mortos. Quatro de overdose.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Cachorrinho tem acesso ao </span><a href="https://talkeasypod.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significado social</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua existência a partir do momento em que começa a reunir os episódios traumáticos de sua vida e colocá-los em uma posição de questionamento: ser um homem vietnamita refugiado, queer, adicto e pobre nos Estados Unidos </span><a href="https://gayletter.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significa algo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Além disso,as pessoas em volta dele fazem parte desse significado e a escrita tem o papel de síntese de sua própria vida. É como se, caso não fosse um escritor, Vuong jamais poderia contar quem é a ninguém, nem mesmo a sua mãe.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ocean Vuong Shares His Advice for Aspiring Writers | Louisiana Channel" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/mG7JpAg1mrw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca pela </span><a href="https://www.gq.com/story/ocean-vuong-interview"><span style="font-weight: 400;">identidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> nunca acaba, mas toma um outro caráter. Depois que Cachorrinho entende sua existência, quem sua mãe e sua avó foram, e quem seu novo país abriga, o fluxo se torna outro e assume uma calma assustada de quem sabe que seu lugar está predefinido. Então, a subjetividade assume, mais que nunca, o papel de resgate do que nunca foi dado e uma possibilidade de se reconhecer no mundo. A escrita é o que salva: é o que salvou Cachorrinho de sua relação com sua mãe, que termina o livro rindo enquanto se lembra. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Porque o pôr do sol, assim como a sobrevivência, existe apenas à beira de seu desaparecimento. Para ser belo, você primeiro precisa ser visto, mas ser visto sempre permite que você seja caçado.”</span></i></p></blockquote>
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		<title>Em Aos prantos no mercado, Michelle Zauner chora entre temperos e memórias</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Mar 2023 21:08:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Parecia que o mundo tinha se dividido em dois tipos diferentes de pessoas, as que haviam sentido dor e as que ainda iriam sentir” (pág. 192) Bruno Andrade Com a morte da mãe, Michelle Zauner passou a enfrentar uma terrível nostalgia ao entrar no H Mart, supermercado especializado em comida asiática. Embora seja amargo lembrar &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/em-aos-prantos-no-mercado-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Aos prantos no mercado, Michelle Zauner chora entre temperos e memórias"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30601" aria-describedby="caption-attachment-30601" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30601" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS.jpg" alt="Imagem retangular de fundo branco. No canto superior, está centralizado a logo do Persona, um olho com íris na cor amarela e pupila em preto no formato triangular de play. No lado direito dessa logo, está escrito &quot;Clube do Livro do Persona&quot; preenchido por um fundo preto e com letras transparentes que correspondem à cor do fundo branco. Abaixo está escrito “Em Aos prantos no mercado, Michelle Zauner chora entre temperos e memórias” em letras pretas, sendo &quot;Aos prantos do mercado&quot; em letras amarelas. Mais abaixo, no canto esquerdo, há uma imagem retangular da capa do livro de fundo vermelho. No topo da capa, de forma centralizada, está escrito o nome da autora &quot;Michelle Zauner&quot; na cor branca e, logo abaixo, uma ilustração de uma sequência de quadrinhos. O primeiro quadrinho mostra uma cesta cheia de mercado, o segundo mostra um vaso de flor, o terceiro mostra uma laranja sendo descascada e o último mostra a preparação de uma refeição com muitos ingredientes postos sobre uma mesa. Na parte inferior da capa, de forma centralizada, está escrito o título do livro &quot;Aos prantos no mercado&quot; em letras amarelas. Ao lado direito da imagem, está escrito &quot;À medida que Zauner se aliena ao preparar as refeições para a mãe, com a garantia de que Chongmi recebe as calorias suficientes para sobreviver, o seu próprio apetite diminui, consequência da 'esperança desesperada de que a escuridão não fosse invadir'.&quot; em letras pretas. Abaixo do texto está escrito “Por&quot; em letras pretas, seguido de &quot;Bruno Andrade&quot; em letras amarelas. No canto inferior há um sombreado amarelo que está iluminando o escrito &quot;Crítica&quot;, também em amarelo." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30601" class="wp-caption-text">Lançado no Brasil em 2022, com tradução de Ana Ban, Aos prantos no mercado foi a obra debatida no Clube do Livro do Persona em Janeiro de 2023 (Foto: Fósforo/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Parecia que o mundo tinha se dividido em dois tipos diferentes de pessoas, as que haviam sentido dor e as que ainda iriam sentir”</span><em><span style="font-weight: 400;"> (pág. 192)</span></em></p></blockquote>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a morte da mãe, </span><a href="https://personaunesp.com.br/japanese-breakfast-jubilee-critica/"><span style="font-weight: 400;">Michelle Zauner</span></a><span style="font-weight: 400;"> passou a enfrentar uma terrível nostalgia ao entrar no </span><i><span style="font-weight: 400;">H Mart</span></i><span style="font-weight: 400;">, supermercado especializado em comida asiática. Embora seja amargo lembrar de quando sua matriarca, Chongmi, morreu vitimada por um câncer em 2014, ela pode se lembrar com tranquilidade do gosto que sua mãe tinha para comida: entre o salgado e o “</span><i><span style="font-weight: 400;">fumegando de quente</span></i><span style="font-weight: 400;">”, que, por algumas razões, definiam sua forma de exercer a maternidade. &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Por mais crítica ou cruel que ela pudesse parecer – sempre me forçando a atender a suas expectativas obstinadas –, eu sempre sentia o afeto dela irradiando das merendas que ela preparava para eu levar à escola e das refeições que ela cozinhava para mim bem do jeito que eu gostava&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">. As peregrinações repletas de tristeza sustentam o primeiro capítulo de</span> <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-janeiro-de-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Aos prantos no mercado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, livro lançado em 2022 no Brasil pela editora <em>Fósforo</em>, cujo primeiro capítulo é o ensaio homônimo publicado na </span><i><span style="font-weight: 400;">The New Yorker</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-30597"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente do que se pode imaginar, Zauner decidiu escrever o livro somente depois de ter </span><a href="https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/crying-in-h-mart"><span style="font-weight: 400;">publicado o ensaio</span></a><span style="font-weight: 400;">. A repercussão avassaladora do texto na revista foi reproduzida na obra literária, que ficou 14 semanas seguidas nas listas de mais vendidos do </span><i><span style="font-weight: 400;">The New York Times</span></i><span style="font-weight: 400;">. Para a escritora coreana-americana, artista musical e fundadora da banda Japanese Breakfast, a comida é um portal. Na praça de alimentação do </span><i><span style="font-weight: 400;">H Mart</span></i><span style="font-weight: 400;">, Zauner chora ao consumir seu almoço, enquanto percebe que todos estão sentados, comendo em silêncio, porque estão “</span><i><span style="font-weight: 400;">em busca de um pedacinho do nosso lar, de um pedacinho de nós mesmos. Procuramos um gostinho disso nos pedidos de comida que fazemos e nos ingredientes que compramos. Então nos separamos. Levamos as compras para o alojamento da faculdade ou para uma cozinha suburbana e recriamos o prato que não poderia ser preparado sem essa viagem&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_30598" aria-describedby="caption-attachment-30598" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30598" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5.jpg" alt="" width="2048" height="1472" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-800x575.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-1024x736.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-768x552.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-1536x1104.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-1200x863.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30598" class="wp-caption-text">“O amor dela era mais do que inflexível. Era brutal, com força industrial” (Foto: Michelle Zauner/The New York Times)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Michelle Zauner se mudou com a família para Eugene, nos Estados Unidos, quando tinha nove meses de idade. Aos 15 anos, após ver uma apresentação de Karen O – a vocalista do Yeah Yeah Yeahs –, ganhou a primeira guitarra da mãe que, pouco depois, se arrependeu do presente. Mas, mesmo que a Música tenha sido um refúgio para a adolescente deprimida, Zauner foi influenciada textualmente por Joan Didion, Philip Roth, Vladimir Nabokov e pela HQ </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Fun Home</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2006), de Alison Bechdel, decidindo, então estudar Escrita Criativa na Bryn Mawr College. Na faculdade, escreveu majoritariamente textos de ficção – foi lá, inclusive, que iniciou os primeiros projetos musicais, consolidados em Japanese Breakfast. Aos 25 anos, após concluir a graduação, Zauner viveu ostensivamente sem roteiro, se “</span><i><span style="font-weight: 400;">debatendo com a realidade, vivendo a vida de uma artista sem sucesso</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Nesse período, Chongmi ficou doente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua primeira publicação musical foi <em>June </em></span><span style="font-weight: 400;">(2013), um disco amador resultado da parceria com Rachel Gagliardi, criado a partir das canções disponibilizadas diariamente no mês de Junho de 2013 em uma página do </span><a href="http://rachelandmichelledojune.tumblr.com"><i><span style="font-weight: 400;">Tumblr</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Mas é em </span><a href="https://pitchfork.com/reviews/albums/21629-psychopomp/"><i><span style="font-weight: 400;">Psychopomp</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2016), o primeiro disco de estúdio de Japanese Breakfast e a primeira publicação após a morte de Chongmi, que Zauner enfrenta abertamente a perda da mãe, cujo título tem origem na história mitológica dos psicopompos, que tem a missão de guiar as almas dos mortos para o pós-vida.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Japanese Breakfast - Everybody Wants To Love You (Official Video)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/KNT7wuqaykc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim da vida da mãe, os papéis parecem se inverter. À medida que Zauner se aliena ao preparar as refeições para a mãe, com a garantia de que Chongmi receberá as calorias suficientes para sobreviver, o seu próprio apetite diminui, consequência da “</span><i><span style="font-weight: 400;">esperança desesperada de que a escuridão não fosse invadir</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Talvez, se ela pudesse carregar a </span><a href="https://www.nytimes.com/interactive/2022/06/06/magazine/michelle-zauner-interview.html"><span style="font-weight: 400;">dor da mãe</span></a><span style="font-weight: 400;"> e realizar o “</span><i><span style="font-weight: 400;">ritual da filha única</span></i><span style="font-weight: 400;">”, haveria a possibilidade de intermediar uma cura, na expectativa de fazer as pazes com a rebeldia adolescente de uma jovem com anseios desvinculados dos interesses maternos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A bem da verdade, o que </span><a href="https://www.npr.org/2021/04/20/988665726/a-daughter-grieves-her-mom-and-finds-herself-in-crying-in-h-mart"><i><span style="font-weight: 400;">Crying in H Mart</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(no original)</span> <span style="font-weight: 400;">esclarece é que os principais momentos de conexão legítima entre Zauner e Chongmi se davam através da comida; principalmente por isso, a tristeza ressurge ao entrar no mercado. A prosa íntima do livro é, ao mesmo tempo, autodepreciativa e atenta, com descrições texturizadas das qualidades estéticas e sentidas dos momentos vividos pela artista. Trata-se de um livro de memórias muito ancorado no ensaio, cujas ligações entre experiências pessoais de luto e identidade ganham corpo em todo o texto. </span></p>
<figure id="attachment_30599" aria-describedby="caption-attachment-30599" style="width: 980px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30599" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1.jpg" alt="" width="980" height="653" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1.jpg 980w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30599" class="wp-caption-text">“Falei sobre como o amor era uma ação, um instinto, uma reação suscitada por momentos não planejados e pequenos gestos, uma inconveniência a favor de outra pessoa” (Foto: Rebecca Sapp)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A morte e a melancolia perpassam toda a obra de Michelle Zauner, talvez resultado da vida fragmentada da artista, dividida entre a ancestralidade sul-coreana e a vivência contemporânea nos Estados Unidos. O sentimento de ausência parece presente em toda a obra – seja pela morte da mãe, propriamente, ou seja na morte simbólica de um tipo de cultura. Não por acaso, suas melhores canções representam estados avançados de autoconsciência, mesmo em faixas que compõem </span><a href="https://personaunesp.com.br/japanese-breakfast-jubilee-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Jubilee</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2021), álbum descrito por Zauner como seu projeto “</span><i><span style="font-weight: 400;">mais alegre</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em adaptação para o Cinema por </span><a href="https://www.papelpop.com/2023/03/will-sharpe-de-the-white-lotus-vai-dirigir-adaptacao-do-livro-aos-prantos-no-mercado/"><span style="font-weight: 400;">Will Sharpe</span></a><span style="font-weight: 400;">, ator de </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-white-lotus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">The White Lotus</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com roteiro assinado pela própria Michelle Zauner, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aos prantos no mercado </span></i><span style="font-weight: 400;">não é necessariamente um livro difícil de ler, mas uma obra melancólica. No final do livro, Zauner nos conta que decidiu fazer um casamento de última hora em seu próprio quintal, sabendo que sua mãe poderia não viver muito tempo. Parece que, ao compartilhar suas experiências, Michelle Zauner constrói uma ode à memória de Chongmi – e nos permite enxergar sob seus olhos e consciência por algumas páginas.</span></p>
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		<title>O visual deslumbrante e vazio não salva Blonde do sadismo de Andrew Dominik</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Mar 2023 18:33:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Alerta de gatilho: abuso, violência doméstica, estupro, aborto, suicídio.  Giovanna Freisinger Blonde, produção que reimagina a história de Marilyn Monroe, proporcionou a Ana de Armas sua primeira indicação ao Oscar. Concorrendo pelo título de Melhor Atriz por sua interpretação da personagem, ela desponta como forte candidata ao prêmio. Apesar da citação não vir como uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/blonde-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O visual deslumbrante e vazio não salva Blonde do sadismo de Andrew Dominik"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">Alerta de gatilho: abuso, violência doméstica, estupro, aborto, suicídio. </span></em></p>
<figure id="attachment_30096" aria-describedby="caption-attachment-30096" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30096" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1.jpg" alt="Cena do filme Blonde. A imagem mostra as costas da personagem Marilyn Monroe com a parte de baixo de seu vestido levantada, em uma interpretação de sua icônica cena no filme O Pecado Mora ao Lado. Imagem em preto e branco. " width="967" height="544" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30096" class="wp-caption-text">Em Blonde, a primeira cena sugere qual será a abordagem de Marilyn Monroe, que o levou ao Oscar (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Giovanna Freisinger</b></p>
<p><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/blonde-ana-de-armas-trailer-netflix-marilyn"><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, produção que reimagina a história de Marilyn Monroe, proporcionou a Ana de Armas sua primeira indicação ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Concorrendo pelo título de Melhor Atriz por sua interpretação da personagem, ela desponta como forte candidata ao prêmio. Apesar da citação não vir como uma surpresa, após indicações em outras premiações importantes, como o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/globo-de-ouro/"><span style="font-weight: 400;">Globo de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/indicados-sag-awards-2023-lista-completa"><i><span style="font-weight: 400;">SAG Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/bafta-2023-indicados"><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, as respostas do público à essa nomeação foram divididas. Isso não em relação ao merecimento da atriz por sua performance, mas à inclusão do filme na premiação em primeiro lugar, cedendo visibilidade e prestígio à obra, que, para muitos, faria melhor ao mundo sendo esquecida.</span></p>
<p><span id="more-30092"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">60 anos após sua morte, o nome e a imagem de Marilyn Monroe ainda são distorcidos a fim de se encaixarem na fantasia de terceiros. Há uma noção sobre a qual essas pessoas se apoiam, de que elas têm esse direito, como se, por ter sido uma figura muito pública, a identidade de Marilyn estivesse disponível para quem quiser projetar seus desejos e crenças sobre ela. </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/andrew-dominik"><span style="font-weight: 400;">Andrew Dominik</span></a><span style="font-weight: 400;">, diretor e roteirista de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">, se provou uma dessas pessoas, demonstrando que, mesmo após pesquisar extensivamente sobre a vida da atriz, não nutre respeito algum pela sua história e identidade, ao fazer um filme de péssimo gosto, emprestando sua relevância cultural.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Blonde </span></i><span style="font-weight: 400;">não é mais um filme biográfico. É uma história de ficção, baseada no </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/sem-categoria/blonde-conheca-os-livros-que-inspiraram-o-filme-sobre-marilyn-monroe.phtml"><span style="font-weight: 400;">livro de mesmo nome</span></a><span style="font-weight: 400;">, escrito por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/05/joyce-carol-oates-triunfa-ao-narrar-destruicao-de-lacos-familiares.shtml"><span style="font-weight: 400;">Joyce Carol Oates</span></a><span style="font-weight: 400;"> e publicado em 2000. A história aproveita aspectos da vida real de Monroe e a visão do público sobre ela para discutir questões psicológicas e sociais mais abrangentes. Sob esse pretexto, Dominik direciona a narrativa para servir suas intenções questionáveis. A familiarização prévia da audiência com a personagem o permite explorar apenas os aspectos mais sombrios da biografia (como uma compilação de seus piores momentos), sem oferecer contexto ou contraste com as demais partes da vida dela. O livro original tem 738 páginas, das quais muitos aspectos, reais e fictícios, foram descartados na seleção do autor do que achava relevante contar em sua obra.</span></p>
<figure id="attachment_30097" aria-describedby="caption-attachment-30097" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30097" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2.jpg" alt="Cena do filme Blonde. Marilyn de costas, do tronco para cima, olhando para trás por cima do ombro e sorrindo. Em seu vestido branco para O Pecado Mora ao Lado. Foto em preto e branco" width="967" height="725" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30097" class="wp-caption-text">Ana de Armas entrega a performance de sua carreira a uma personagem dramática, mas sem dimensões (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O problema de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;"> não está na ficção, mas em nenhum dos trechos inventados servir para elevar a personagem ou a narrativa além de uma representação extremamente redutora de uma mulher icônica. As cenas são resumidas à sexualização e à </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cwaCDRwHp8k"><span style="font-weight: 400;">tortura</span></a><span style="font-weight: 400;"> da protagonista, muitas vezes com essas se sobrepondo, deixando a audiência desconfortável durante toda a duração do filme, sem entregar compensação nenhuma alheia ao valor de choque. Durante todo o longa, o esforço aplicado transparece para que o espectador sinta algo. Esforço esse que não encontra resultados satisfatórios perante à abordagem rasa tomada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com menos de 20 minutos, temos a primeira cena de abuso sexual. Ao realizar um teste de elenco, Monroe é estuprada por Sr. Z (</span><span style="font-weight: 400;">David Warshofsky)</span><span style="font-weight: 400;">,</span><span style="font-weight: 400;"> personagem que faz referência implícita a </span><a href="https://deadline.com/2017/10/will-academy-weinstein-meeting-be-haunted-by-zanuck-ghost-1202188246/"><span style="font-weight: 400;">Darryl F. Zanuck</span></a><span style="font-weight: 400;">, então chefe da </span><i><span style="font-weight: 400;">Fox</span></i><span style="font-weight: 400;">, emissora em que conseguiu seu primeiro emprego. </span><span style="font-weight: 400;">Zanuck é, hoje, conhecidamente um agressor sexual, que violou muitas atrizes que trabalhavam para sua companhia. No entanto, não há qualquer registro de que esse tenha sido o caso de Marilyn &#8211; nem com ele, nem com qualquer outro produtor. O que há, na verdade, são diversos registros da atriz prestando um papel essencial na luta contra o </span><a href="https://observatoriodocinema.uol.com.br/famosos/2018/08/marilyn-monroe-lutou-contra-o-teste-do-sofa-em-hollywood"><span style="font-weight: 400;">teste do sofá</span></a><span style="font-weight: 400;">, prática, infelizmente, típica para a década de 50.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir daí, a narrativa se modela com base nos relacionamentos da protagonista. O </span><a href="https://epipoca.com.br/blonde-chaplin-jr-e-eddy-tiveram-mesmo-um-caso-com-marilyn-monroe/"><span style="font-weight: 400;">trisal</span></a><span style="font-weight: 400;"> formado com Charlie Chaplin Jr. (Xavier Samuel) e Edward G. Robinson Jr. (Evan Williams), apesar de completamente fictício, parece apresentar um escape para a personagem, como uma forma de atribuir mais controle a ela sobre o que quer. A relação é apresentada a partir da ideia de que eles são os únicos que a veem por quem ela é, a Norma Jeane por trás do mito da Marilyn Monroe e, em retorno, ela os vê apesar do estigma de seus pais famosos. Essa talvez seja a concepção mais interessante do roteiro, mas promete algo que não entrega. O breve tempo do relacionamento na tela não é expandido para muito além das </span><a href="https://www.metroworldnews.com.br/entretenimento/2022/09/15/cenas-de-sexo-explicito-em-blonde-deixam-ate-a-critica-em-choque/"><span style="font-weight: 400;">cenas de sexo</span></a><span style="font-weight: 400;">, privando a audiência dessas facetas além da fama.</span></p>
<figure id="attachment_30098" aria-describedby="caption-attachment-30098" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30098" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.jpg" alt="Cena do filme Blonde. Da esquerda para a direita: Edward G. Robinson Jr, Marilyn Monroe e Charlie Chaplin Jr. Edward segura o rosto de Marilyn a sua frente enquanto eles se olham e Charlie está por trás dela seu rosto encostado no cabelo dela" width="967" height="725" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30098" class="wp-caption-text">Dominik mostra, de maneira vergonhosa, o quão preso está ao corpo de Marilyn, capaz de ignorar por completo sua mente, mesmo declarando ser esse o foco de sua produção (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A violência doméstica mostrada em seu casamento com o jogador de beisebol </span><a href="https://www.mercurynews.com/2022/09/30/joe-dimaggio-is-lovestruck-controlling-and-abusive-in-new-marilyn-monroe-biopic/"><span style="font-weight: 400;">Joe DiMaggio</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Bobby Cannavale) realmente corresponde aos acontecimentos da vida real, mas, ainda assim, é impossível ignorar a fetichização da mulher fragilizada nessas cenas, o que torna essa abordagem do tema difícil de engolir. Mais adiante, sua famosa relação com o então presidente John F. Kennedy (Caspar Phillipson) é abordada brevemente, representada de forma fria e violenta, enquanto, fora da ficção, não há qualquer relato de o </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/o-que-e-verdade-sobre-o-relacionamento-entre-marilyn-monroe-e-john-f-kennedy.phtml"><span style="font-weight: 400;">contato</span></a><span style="font-weight: 400;"> tenha sido abusivo ou não consensual, e esse nem é um rumor comum, o que faz a interpretação parecer, mais uma vez, as mãos de Dominik sobre ela. Ver o filme culpá-la por seu destino e retirar suas escolhas, ao mesmo tempo, é no mínimo estranho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da violência de seus relacionamentos e os contrapontos da fama, uma das principais questões que permeiam </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a maternidade e, como se pode imaginar, a abordagem soa terrível vindo do roteiro de um homem. A personagem passa por três abortos, todos acompanhados de sequências aterrorizantes. Os dois não espontâneos foram forçados a ela por terceiros, a colocando perante a violação das suas vontades e do seu corpo. O espontâneo é antecipado por uma simulação do feto em CGI, com um diálogo telepático bizarro que a coloca em uma espiral de culpa, diante de uma propaganda, não tão bem velada, </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2022/10/blonde-contributes-to-anti-abortion-propaganda-says-planned-parenthood"><span style="font-weight: 400;">anti-aborto</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_30095" aria-describedby="caption-attachment-30095" style="width: 1438px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30095" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10.jpg" alt="Cena do filme Blonde. Representação virtual de um feto dentro da barriga. Tronco, mãos e rosto do feto no plano." width="1438" height="1079" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10.jpg 1438w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-1200x900.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30095" class="wp-caption-text">Durante sua vida, Marilyn sofreu pelo menos dois abortos espontaneos e uma gravidez ectópica, possivelmente por conta de sua batalha contra a endometriose; não há qualquer registro de aborto voluntário (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A frequência e a intensidade das cenas com o teor apelativo e violento tornam o filme, supostamente sobre os danos experienciados por um </span><a href="https://firstcuriosity.com/news/how-did-marilyn-monroe-become-the-ultimate-sex-symbol-did-she-like-the-title/#:~:text=She%20was%20an%20American%20actress,of%20the%20era's%20sexual%20revolution."><i><span style="font-weight: 400;">sex symbol</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em Hollywood e a psique humana, no condescendente rebaixamento de uma mulher notória, sob uma visão moralista de que sua queda é decorrência de sua promiscuidade, que arruina sua vida e seus relacionamentos. Somos, enquanto audiência, convidados a assisti-la sofrer e a alimentar essa fantasia de punição. Para um projeto que conversa com o modo como a indústria tratou a protagonista, falta autoconsciência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante dessas circunstâncias, perdemos qualquer aspecto de quem foi Marilyn Monroe além de seu rosto, seu corpo e seus traumas. Ela foi a mulher mais importante de Hollywood da sua época, </span><a href="https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/09/24/entenda-como-marilyn-monroe-se-tornou-um-icone-da-cultura.html"><span style="font-weight: 400;">senão de todos os tempos</span></a><span style="font-weight: 400;">, e não graças a seu rosto bonito (como sempre existiram milhares), mas ao seu talento transcendente, que captava o público.</span> <span style="font-weight: 400;">Marilyn sempre soube o que estava fazendo diante das câmeras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, é tão </span><span style="font-weight: 400;">desconcertante acompanhar</span><span style="font-weight: 400;"> um filme que empresta sua imagem, se baseia em sua história e despreza o que a levou ao sucesso. Talvez, </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">, como um todo, fique menos confuso diante do que o autor tem a dizer. </span><a href="https://www.estadao.com.br/emais/tv/diretor-de-blonde-e-criticado-por-fala-machista-sobre-classico-estrelado-por-marilyn-monroe/"><span style="font-weight: 400;">Em entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> à jornalista Christina Newland, para a revista do Instituto de Cinema Britânico, Dominik afirma que Monroe se tornou um ícone cultural estrelando em vários filmes que “</span><i><span style="font-weight: 400;">ninguém realmente assiste</span></i><span style="font-weight: 400;">” e se referiu a </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Homens Preferem as Loiras</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; obra estimada quase que de forma unânime entre críticos de Cinema, como uma das melhores comédias já feitas &#8211; como um filme sobre “</span><i><span style="font-weight: 400;">vadias bem vestidas</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<figure id="attachment_30094" aria-describedby="caption-attachment-30094" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30094" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4.jpg" alt="Cena do filme Blonde. A imagem mostra uma sala de cinema, escura, com a tela em posição central e para frente e a plateia de costas. A plateia está lotada. Na tela, Marilyn a frente de um fundo vermelho, com um vestido rosa, luvas rosas, uma pulseira, um colar e um brinco de diamantes e batom vermelho" width="967" height="725" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30094" class="wp-caption-text">Lançado em 1953, Os Homens Preferem as Loiras foi bem-recebido pela crítica e pelo público, se tornando um dos filmes com maior bilheteria do ano (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Grande parte do apelo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">, junto à atuação incontestável da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LPp-Oo2t_Wo"><span style="font-weight: 400;">Ana de Armas</span></a><span style="font-weight: 400;"> na pele da protagonista, é seu visual, com imagens lindas e escolhas estilísticas ousadas de direção de câmera, responsabilidade do diretor de fotografia Chayse Irvin, e arte, graças ao diretor de arte Peter Andrus, junto a toda a equipe de efeitos visuais. Porém, não há nada para sustentá-las. Além dos jogos de câmera, luz e efeitos especiais, pode-se reparar que a proporção de tela não é estável e as cenas alternam entre coloridas e preto e branco. Quando questionado por Newland sobre o propósito dessas escolhas, o diretor explicou que não há razão para a narrativa, o que ele queria era apenas reproduzir fotografias famosas. Assim, seguiu seus formatos, como uma forma de conhecer a vida da personagem, visualmente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, houve um empenho para adequar Ana de Armas ao papel, desde as </span><a href="https://twitter.com/netflix/status/1575878135064641541?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1575878135064641541%7Ctwgr%5E71a8f7f47f8046db67b076918358ff66c813e805%7Ctwcon%5Es1_&amp;ref_url=https%3A%2F%2Fportalpopline.com.br%2Fblonde-video-transformacao-ana-de-armas-marilyn-monroe%2F"><span style="font-weight: 400;">mudanças físicas</span></a><span style="font-weight: 400;">, com o cabelo e a maquiagem, nos departamento comandados por </span><span style="font-weight: 400;">Jaime Leigh McIntosh</span><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;">Tina Roesler Kerwin,</span><span style="font-weight: 400;"> até o treinamento de sua </span><a href="https://www.metropoles.com/colunas/claudia-meireles/veja-os-segredos-para-transformar-ana-de-armas-em-marilyn-monroe"><span style="font-weight: 400;">voz, sotaque e maneirismos</span></a><span style="font-weight: 400;">. O esforço de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde </span></i><span style="font-weight: 400;">para se assemelhar à realidade não é incomum em histórias biográficas &#8211; mas, novamente, não se trata de uma história biográfica. </span><span style="font-weight: 400;">Se dedicar a alcançar a memória coletiva, para então alterá-la, pintando sobre ela tragédias e misturando os </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/e-tudo-historia/blonde-o-que-e-fato-e-o-que-e-ficcao-no-filme-sobre-marilyn-monroe/"><span style="font-weight: 400;">limites entre verdade e ficção</span></a><span style="font-weight: 400;">, não parece a forma mais ética de abordar uma história baseada em uma vida real, mesmo que dentro de sua liberdade criativa.</span></p>
<figure id="attachment_30099" aria-describedby="caption-attachment-30099" style="width: 728px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30099" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-5.webp" alt="À direita: cena do filme Blonde. À esquerda: fotografia real da Marilyn Monroe. Comparação lado a lado entre a releitura e a foto. Em ambas, uma mulher de cabelo curto, óculos e blusa listrada, por trás de Marilyn, ajusta a roupa da atriz. Um macacão branco curto, sem mangas e colado ao corpo. Marilyn se inclina para frente, com as mãos na cintura e olhando para o lado. Foto em preto e branco" width="728" height="500" /><figcaption id="caption-attachment-30099" class="wp-caption-text">Dominik explica que a ideia visual do filme é referenciar a memória coletiva, como um “déjà vu estranho”, mas com outro sentido às imagens (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>O descaso com a representação de problemas psicológicos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Andrew Dominik, </span><a href="https://www.bfi.org.uk/sight-and-sound/interviews/im-not-interested-reality-im-interested-images-andrew-dominik-blonde"><span style="font-weight: 400;">em sua entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Newland, contou que, inicialmente, queria contar uma história sobre como os dramas da infância moldam a percepção de um adulto sobre o mundo e que viu em </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde </span></i><span style="font-weight: 400;">essa história. Porém, ele peca no desempenho dessa ideia ao centralizar toda a narrativa nos traumas vividos pela personagem. Isso resulta em um roteiro ineficiente, já que, sem a contemplação dos contrastes e nuances, o trauma e os conflitos apresentados ficam, além de rasos, irrealistas, como uma experiência que só poderia ter sido fabricada para propósitos dramáticos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir dessa representação, o diretor cria também uma relação desonesta de dicotomia, sob a qual uma pessoa levada ao </span><a href="https://igormiranda.com.br/2022/08/marilyn-monroe-morte-ultimos-dias/"><span style="font-weight: 400;">suícidio</span></a><span style="font-weight: 400;"> não poderia ser nada além de trágica. Com isso, ele reduz a humanidade da personagem a seus problemas e a mantém refém do papel de vítima em seu roteiro, tomando dela o controle sobre sua vida. </span></p>
<figure id="attachment_30093" aria-describedby="caption-attachment-30093" style="width: 1436px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30093" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.png" alt="Cena do filme Blonde. Marilyn, já sem vida, deitada em sua cama, sem roupa, enrolada no lençol branco e com um travesseiro sobre seu braço direito. De seu lado esquerdo, um telefone desconectado, debaixo da sua mão" width="1436" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.png 1436w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-800x602.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-1024x770.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-768x578.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-1200x903.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30093" class="wp-caption-text">O pai é a última visão de Marilyn antes de morrer, atribuindo sua morte ao que a obra atribuiu à sua vida: um homem, ou a falta de um (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na conversa com Newland, ele também defende sua abordagem redutora com afirmações como “</span><i><span style="font-weight: 400;">qualquer pessoa que se mata não é uma figura de empoderamento feminino</span></i><span style="font-weight: 400;">”, demonstrando as limitações de seu ponto de vista. Marilyn foi uma </span><a href="https://www.smh.com.au/entertainment/movies/marilyn-monroe-the-unlikely-feminist-20180628-p4zo89.html"><span style="font-weight: 400;">figura de empoderamento feminino</span></a><span style="font-weight: 400;">, ao mesmo tempo que foi uma história de alerta às mulheres sobre os efeitos de uma sociedade patriarcal. Ela foi e ainda é ambos, justamente porque não era um arquétipo de personagem, mas uma pessoa real.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para um artista que se propõe desde o princípio a produzir uma obra sobre questões psicológicas, suas origens e seus efeitos na vida adulta, a representação de Dominik é fraca e caricata, ao reduzir pessoas deprimidas a indivíduos unidimensionais. A menção do longa entre os reconhecidos pelo </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2023</span></a><span style="font-weight: 400;"> é, realmente, impressionante quando além de ser insincero, é extremamente entediante assistir uma personagem rasa como Marilyn é em </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Nov 2022 20:29:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29333" aria-describedby="caption-attachment-29333" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29333 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29333" class="wp-caption-text">A pediatra foi um dos finalistas da categoria de Romance Literário do Eixo de Literatura do Prêmio Jabuti 2022 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse ser resumida a uma palavra, “antônimo” seria um termo interessante. Ela não é doce e não pretende ser, afinal açúcar é combustível diabético, afeta o funcionamento pancreático e escraviza. Seu papel em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WO0tzxpYjiQ"><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – livro publicado pela Companhia das Letras em 2021 – é performar o descontrole da autoridade dentro de si. </span></p>
<p><span id="more-29310"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A autora do título, </span><a href="https://livreopiniao.com/2014/09/11/livre-opiniao-entrevista-andrea-del-fuego-a-palavra-e-uma-ponte-entre-voce-e-o-mundo/"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;">, espelha na construção da personagem alguém que enxerga a vida em linhas retas. Cecília é médica pediatra como o pai, mas ao contrário dele, não tem paixão pela profissão e muito menos pelas crianças. Talvez esse seja o cerne de sua narrativa: a ausência da paixão. Sua persona é motivada pela técnica: as coisas existem para suprir as necessidades do corpo e nada mais. Enquanto nos misturamos aos seus comportamentos milimetricamente moldados, viver parece tomar um tom tão prático que beira a arrogância.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O texto trabalha muito bem com a objetividade da personagem e compõe isso com uma narrativa direta &#8211; as atitudes de Cecília se alternam com seus pensamentos a todo momento. Com o passar das páginas, somos íntimos e superficiais, elementos da história com área exclusiva para o funcionamento cerebral e, ao mesmo tempo, telespectadores de uma novela do horário nobre. Assim, não há como fazer juízo de valor. </span><a href="https://personaunesp.com.br/lucifer-5a-temp-parte-2-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bondade e maldade</span></a><span style="font-weight: 400;"> são veredictos permanentes demais para serem aplicados em</span><i><span style="font-weight: 400;"> A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_29313" aria-describedby="caption-attachment-29313" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29313" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Andrea.jpg" alt="Foto em preto e branco da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos curtos, pretos e cacheados. Ela usa uma blusa de mangas longas e gola rolê e um óculos de grau. Ao fundo há o tronco de uma árvore." width="434" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-29313" class="wp-caption-text">O primeiro romance publicado por Andréa del Fuego, intitulado Os Malaquias, foi premiado com a sétima edição do Prêmio Literário José Saramago (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Independência e liberdade são pontos muito importantes para Cecília, por isso, o casamento que ela mantinha não passa das primeiras páginas. O marido tinha </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-critica/"><span style="font-weight: 400;">depressão</span></a><span style="font-weight: 400;">, a necessidade de cuidado a condicionavam ao aprisionamento e limitação, e isso não era admissível. A personagem automaticamente compara relações desse tipo as que as mães com filhos diabéticos têm. Vínculos cheios de </span><a href="https://saude.ig.com.br/2019-10-08/mae-de-crianca-com-diabetes-fala-sobre-impacto-da-hipoglicemia-veja-dados.html"><span style="font-weight: 400;">preocupação</span></a><span style="font-weight: 400;">, capazes de escravizar e fazer as vidas girarem apenas sobre o controle da insulina e o medo das convulsões nas madrugadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A protagonista mantinha um </span><a href="https://personaunesp.com.br/conversas-entre-amigos-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">relacionamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> extraconjugal com Celso, um homem também casado que conheceu por pura casualidade. Com seu divórcio, os amantes deixam de estar no mesmo patamar e os abalos surgem trazendo impactos. Enquanto ele tinha uma esposa grávida e uma família para manter, ela era uma profissional bem sucedida cuja maior prioridade era a própria qualidade de vida. Para ele, o caso significava insegurança; já ela, não tinha nada a perder. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas das atitudes da médica são motivadas por desejo e ego. Celso nunca significou amor ou romance, mas conseguir controlá-lo e ter suas vontades atendidas geravam um tipo de satisfação inconsciente. Ela sabe se mostrar indispensável e é assim que acaba na sala de parto de Camila – a esposa traída – como </span><a href="https://posfg.com.br/afinal-o-que-faz-o-neonatologista/#:~:text=O%20neonatologista%20%C3%A9%20o%20m%C3%A9dico,n%C3%A3o%20receber%20os%20cuidados%20necess%C3%A1rios."><span style="font-weight: 400;">neonatologista</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Bruninho. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Inaceitável que uma legião não estivesse espetando minha densidade de sobremesa, seio que criança nenhuma pisoteou até murchar, vagina nulípara, nunca posta à prova, músculo rosa, mucosa vítrea como a maçã de quermesse, eu permanecia inédita.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos poucos a firmeza de Cecília se mostra cada vez mais bamba. Entre os conflitos que a rodeiam, a chegada de um novo médico especialista em recém nascidos na Zona Sul de São Paulo cria um ambiente competitivo. Buscando entender o sucesso do novo profissional, a protagonista se insere em seu espaço de trabalho de maneira absurda e questionável – apesar de narrada com uma objetividade ímpar. As técnicas </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1007200519.htm"><span style="font-weight: 400;">humanizadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as doulas de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46643198"><span style="font-weight: 400;">parto</span></a><span style="font-weight: 400;"> do lugar são lidas com cinismo. Para a pediatra, dramatizar a simplicidade é assumir a ineficácia como aliada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interação com sua empregada, Deyse, também acaba revelando rachaduras nos muros da médica. A jovem funcionária engravida do marido da própria irmã, constrói uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50459101"><span style="font-weight: 400;">dependência alcoólica</span></a><span style="font-weight: 400;"> e tem perspectivas baixas. Quanto mais Cecília a conhece, mais julgamentos desenha. A aproximação também denuncia o medo de criar vínculos, mostrar fragilidade ou ser imperfeita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma visita de Bruninho é a arma que quebra o escudo de estabilidade mantido pela personagem. A mulher, incapaz de gostar de crianças, vê naqueles dedinhos pequenos algo especial: um sentimento cheio de vulnerabilidade e falta de controle. Em pouco tempo tudo se torna uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60525984"><span style="font-weight: 400;">obsessão</span></a><span style="font-weight: 400;"> repleta de atitudes impulsivas e hiperbólicas. A adulta racional se deixa levar por algo sem explicação ou sentido, apenas atravessando qualquer limite por mais uns minutos perto do cheiro de bebê daquela criança que ela mesma ajudou a colocar no mundo. </span></p>
<figure id="attachment_29314" aria-describedby="caption-attachment-29314" style="width: 450px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29314" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/a-escritora-andrea-del-fuego-1648223678210_v2_450x600.jpg" alt="Foto colorida da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos cacheados castanho escuro. Ela está em frente a uma parede branca. A autora veste uma camiseta preta com bolinhas coloridas. Há também um colar na cor bronze e um óculos de grau preto." width="450" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-29314" class="wp-caption-text">A pediatra disputou o prêmio de Melhor Romance do ano de 2021 no Prêmio São Paulo de Literatura deste ano (Foto: Celso Koyama)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> toma uma nova face sem perder o </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/19/estilo/1560957652_470106.html"><span style="font-weight: 400;">sarcasmo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Cecília continua sendo para o mundo o que sempre foi, mas Bruninho ganha uma passagem para os bastidores atrás da sua mente objetiva. Ela manipula as pessoas, o espaço e as coincidências em busca do desejo de estar perto do bebê. Agora somos nós que assistimos aos passos de fora e tentamos entender os motivos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que era pura certeza passa a ter um universo próprio de contradições em um contexto explicitado pela </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=03439"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> com uma destreza impressionante. A leitura é rápida e hipnotizante, afinal, fica no ar a curiosidade e vontade de saber o que acontece nas próximas cenas. Mais que isso, os pensamentos soltos de Cecília são alvo de identificação: todo mundo guarda coisas incongruentes no burburinho da mente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a protagonista representa a assertividade, Bruninho significa fragilidade. O tipo de coisa adiada que em algum momento deixa de caber na caixa de contenção. O enredo quase novelístico do romance deixa claro que, por mais firmes que estejam os trilhos, quem decide o caminho é o condutor e não o passageiro. A vida não é lógica, prática e muito menos </span><a href="https://personaunesp.com.br/roda-do-destino-critica/"><span style="font-weight: 400;">manobrável</span></a><span style="font-weight: 400;">, as vezes, estar vivo é puramente ficcional.  </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme. Não é diferente de quem cuida de vacas porque de sua janela era o que havia, festejando o fato de que não era mais preciso caçar, apenas manter o gado.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra não precisa se pautar em um drama sintomático para nos deixar sem palavras. Entre a lógica exacerbada e a perda do equilíbrio, existe uma sinceridade fascinante. </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> introduz com sutileza reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/marte-um-critica/"><span style="font-weight: 400;">desigualdade social</span></a><span style="font-weight: 400;">, a normalização do machismo e o ideal de maternidade. Cecília e a forma como se relaciona com o mundo é um reflexo de múltiplas partes da sociedade, um quebra cabeça composto de várias vozes unificadas em uma só. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 160 páginas, Andréa compacta a complexidade de ser. Cecília foge dos padrões esperados para uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/gaslit-critica/"><span style="font-weight: 400;">mulher</span></a><span style="font-weight: 400;"> e isso pode fazer com que alguns a considerem uma antagonista. Não é como se as atitudes da personagem fossem mediadas pela vontade de fazer mal aos outros, terceiros são apenas figurantes de uma história individual.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais absurdos que sejam certos comportamentos da médica, suas motivações são guiadas pela fragilidade e egoísmo. E é por isso que essa leitura não permite julgamentos, só quem nunca agiu motivado por interesses próprios pode atirar a primeira pedra. Ao fim, para alguém que detesta humanização, </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> é tão </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><span style="font-weight: 400;">humana</span></a><span style="font-weight: 400;"> quanto qualquer um. </span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/">Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>As Mães do Oscar 2022</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Mar 2022 20:00:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Entre cinebiografias e ficções, a categoria de Melhor Atriz é formada apenas por figuras que esbarram na maternidade  Todo ano a categoria de Melhor Atriz gera um dos maiores burburinhos do Oscar, e em 2022 não tem como ser diferente. Além do repeteco do cenário passado, quando nenhuma concorrente fez a rapa nos precursores, a &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/melhor-atriz-maes-oscar-2022/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "As Mães do Oscar 2022"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Entre cinebiografias e ficções, a categoria de Melhor Atriz é formada apenas por figuras que esbarram na maternidade </span></i></p>
<figure id="attachment_27015" aria-describedby="caption-attachment-27015" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27015" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/wordpressatrizes.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/wordpressatrizes.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/wordpressatrizes-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/wordpressatrizes-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27015" class="wp-caption-text">Kristen, Olivia, Jessica, Penélope e Nicole: qual delas vencerá o Oscar 2022? (Arte: Ana Júlia Trevisan)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Todo ano a categoria de Melhor Atriz gera um dos </span><a href="https://mulhernocinema.com/noticias/frances-mcdormand-ganha-3o-oscar-de-melhor-atriz-e-so-fica-atras-de-katharine-hepburn/"><span style="font-weight: 400;">maiores burburinhos</span></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, e em 2022 não tem como ser diferente. Além do repeteco do cenário passado, quando nenhuma concorrente fez a rapa nos precursores, a disputa de agora vê 5 mulheres consagradas na indústria, em papéis fortes, encorpados e marcantes. E, como coincidência do destino, </span><a href="https://www.goldderby.com/article/2022/oscars-history-mothers/"><span style="font-weight: 400;">todas interpretam mães</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, como a ausência de correlações entre as suas obras e a categoria principal denota um ponto negativo da Academia: ela parece não se importar o suficiente com </span><a href="https://www.instagram.com/p/Cbdmt_FrNBo/"><span style="font-weight: 400;">histórias sobre a figura da mulher</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-27014"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente da disputa masculina, onde 2 dos 5 indicados tem os filmes na briga pelo prêmio máximo, Melhor Atriz vê um descaso com suas produções. Se somadas todas as indicações angariadas por </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Olhos de Tammy Faye</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Apresentando os Ricardos</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Spencer</span></i><span style="font-weight: 400;">, chegamos ao número 11. </span><a href="https://personaunesp.com.br/ataque-dos-caes-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Ataque dos Cães</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme mais reconhecido da noite, soma 12. </span><a href="https://personaunesp.com.br/duna-2021-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Duna</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o segundo colocado, tem 10. Qual o problema do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">com os filmes sobre mulheres? E não é como se não houvessem mulheres protagonistas nos indicados a Melhor Filme. Rachel Zegler (</span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-sublime-amor-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Amor, Sublime Amor</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), Emilia Jones (</span><a href="https://personaunesp.com.br/no-ritmo-do-coracao-coda-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">CODA</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), Alana Haim (</span><a href="https://personaunesp.com.br/licorice-pizza-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) estão todas lá, mas não aqui. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na verdade, a leva de 2022 foi tão boa que seria possível construir uma lista com outras cinco atrizes merecedoras de reconhecimento. Além das já citadas, entrariam tranquilamente na disputa os trabalhos de Tessa Thompson (</span><a href="https://personaunesp.com.br/identidade-passing-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Identidade</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) e Renate Reinsve (</span><a href="https://personaunesp.com.br/a-pior-pessoa-do-mundo-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Pior Pessoa do Mundo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">). Enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">West Side Story</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i><span style="font-weight: 400;"> têm mais de uma pessoa no posto de principal, são filmes contados sob o ponto de vista predominantemente masculino. </span><i><span style="font-weight: 400;">CODA</span></i><span style="font-weight: 400;">, por outro lado, escrito e dirigido por uma mulher, tem ponto de vista feminino, mas sua protagonista só foi reconhecida no júri do </span><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_27016" aria-describedby="caption-attachment-27016" style="width: 2047px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27016" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/lista-1.jpg" alt="Arte roxa que mostra o nome das indicadas ao Oscar de Melhor Atriz. No canto esquerdo, vemos escrito em branco: Nominees for Actress in a Leading Role. No lado direito, vemos os cinco nomes, listado em duas colunas, são eles: Jessica Chastain - The Eyes of Tammy Faye; Olivia Colman - The Lost Daughter; Penélope Cruz - Madres Paralelas; Nicole Kidman - Being the Ricardos; e Kristen Stewart - Spencer. " width="2047" height="1070" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/lista-1.jpg 2047w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/lista-1-800x418.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/lista-1-1024x535.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/lista-1-768x401.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/lista-1-1536x803.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/lista-1-1200x627.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27016" class="wp-caption-text">Além de da seleção ser composta apenas por atrizes brancas, nenhuma das indicadas em 2022 tem seu filme competindo na categoria principal (Foto: The Academy)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Existe uma resistência maciça em reconhecer narrativas femininas. Não faz nem três anos que vários votantes da Academia se recusaram a participar das exibições de </span><a href="https://valkirias.com.br/oscar-2020/"><i><span style="font-weight: 400;">Adoráveis Mulheres</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Greta Gerwig. O motivo nem é preciso dizer, certo? Passa ano, chega ano e o cenário continua desfavorável para elas, por mais que recordes sejam quebrados e barreiras, ultrapassadas. Em 2022, a maioria da categoria de Atriz é formada por </span><a href="https://www.estrelando.com.br/foto/2022/02/24/confira-algumas-das-maiores-cinebiografias-ja-feitas-197916/foto-1"><span style="font-weight: 400;">filmes biográficos</span></a><span style="font-weight: 400;">, enquanto os dois quintos restantes provêm de narrativas fictícias. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jessica Chastain dá vida a uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-olhos-de-tammy-faye-critica/"><span style="font-weight: 400;">Tammy Faye</span></a><span style="font-weight: 400;"> que experimenta tudo, da ascensão à queda e o esquecimento, tornando o que era uma figura caricata e cômica para a mídia em uma mulher fragilizada mas nunca covarde. Olivia Colman se engancha em Maggie Gyllenhaal e transpõe a mística de Elena Ferrante para as telas na forma de uma ácida </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">Leda</span></a><span style="font-weight: 400;">, a figura materna mais controversa da temporada. Penélope Cruz é recrutada por Almodóvar para revisitar os traumas da ferida do franquismo pelos olhos de </span><a href="https://personaunesp.com.br/maes-paralelas-critica/"><span style="font-weight: 400;">Janis</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, no percurso, reavaliar o significado da maternidade e os limites de um amor incondicional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nicole Kidman é colocada nas saias e na peruca ruiva de </span><a href="https://personaunesp.com.br/apresentando-os-ricardos-critica/"><span style="font-weight: 400;">Lucille Ball</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, na semana de mentirinha mais conturbada da vida do casal por trás de </span><i><span style="font-weight: 400;">I Love Lucy</span></i><span style="font-weight: 400;">, a personagem é posta à teste, sendo atravessada pela ideia de ser mãe, tanto na vida real quanto nos televisores de todos os americanos. Por fim, Kristen Stewart encara a </span><a href="https://personaunesp.com.br/spencer-critica/"><span style="font-weight: 400;">Princesa Diana</span></a><span style="font-weight: 400;"> de peito aberto e postura de campeã. Quebradiça, mas resiliente, a Lady enxerga nos filhos os únicos pontos de calcificação dos ossos sentimentais que lhe foram estraçalhados. Juntas, Tammy, Leda, Janis, Lucille e Diana representam a exuberância e a intensidade das mulheres e das mães no Oscar 2022.</span></p>
<figure id="attachment_27017" aria-describedby="caption-attachment-27017" style="width: 1296px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27017" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/jessica.jpeg" alt="Foto da atriz Jessica Chastain no palco do SAG Awards em 2022. Ela é uma mulher branca, ruiva e usa um terno prateado, sorrindo com as mãos no púlpito que segura o troféu e o microfone. " width="1296" height="730" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/jessica.jpeg 1296w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/jessica-800x451.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/jessica-1024x577.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/jessica-768x433.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/jessica-1200x676.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27017" class="wp-caption-text">Antes de ganhar o prêmio de Melhor Atriz do Sindicato dos Atores por Os Olhos de Tammy Faye, Chastain já havia vencido como parte do elenco de Histórias Cruzadas (Foto: TNT)</figcaption></figure>
<p><b>Jessica Chastain </b><span style="font-weight: 400;">por</span><b> Vitor Evangelista</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De fato, Jessica Michelle Chastain pode fazer de tudo. Surgindo na TV em pequenas participações, que passam por </span><a href="https://watchmojo.com/video/id/24082#:~:text=%238%3A%20Jessica%20Chastain&amp;text=%E2%80%9CER%E2%80%9D%20was%20Chastain's%20first%20significant,aired%20in%20February%20of%202004."><i><span style="font-weight: 400;">Plantão Médico</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">E.R.</span></i><span style="font-weight: 400;">), </span><i><span style="font-weight: 400;">Veronica Mars</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://lawandorder.fandom.com/wiki/Jessica_Chastain"><i><span style="font-weight: 400;">Law &amp; Order</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, foi em 2011 que o mundo teve o prazer de vê-la numa tela grande. O filme da vez era </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=aL1gylDzEAw"><i><span style="font-weight: 400;">A Árvore da Vida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o apogeu de Terrence Mallick; mas se engana quem pensa que a ruiva parou por ali. Naquele mesmo ano, Chastain trabalhou em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=GV1zRwwpXJw"><i><span style="font-weight: 400;">O Abrigo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Take Shelter</span></i><span style="font-weight: 400;">) e no que provavelmente se tornou seu papel mais conhecido até então, responsável por sua primeira indicação ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">: </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Wv8dw6rDkUw"><i><span style="font-weight: 400;">Histórias Cruzadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">The Help</span></i><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora levante discussões que dizem respeito ao </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/12/protagonista-de-historias-cruzadas-nao-recomenda-filme-para-debate-racial.htm"><span style="font-weight: 400;">caráter e as intenções</span></a><span style="font-weight: 400;"> da história até hoje, foi na obra de Tate Taylor que Chastain subiu um degrau na escada de Hollywood. Dois anos mais tarde, e dessa vez guiada pela direção de Kathryn Bigelow, parecia ter </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9VOIq5DvrnE"><span style="font-weight: 400;">chegado a hora</span></a><span style="font-weight: 400;"> da atriz receber o prêmio da Academia pela performance arrebatadora e claustrofóbica de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LJFra3B9sbA"><i><span style="font-weight: 400;">A Hora Mais Escura</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Zero Dark Thirty</span></i><span style="font-weight: 400;">), mas a extravagância e a espontaneidade de uma Jennifer Lawrence no foguete da popularidade acabou caminhando, aos tropeços, até o palco e o envelope premiado daquela edição. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dali em diante, a artista experimentou o terror em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UlyYpFITUNQ"><i><span style="font-weight: 400;">Mama</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, os dois lados do amor no experimental </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9KrhMbS9uh8"><i><span style="font-weight: 400;">The Disappearance of Eleanor Rigby: Them</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o perfeccionismo em </span><i><span style="font-weight: 400;">Interestelar</span></i><span style="font-weight: 400;">, o perigo em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VUnmVK_WLN8"><i><span style="font-weight: 400;">O Ano Mais Violento</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e o horror em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=c2SbrLVGORM"><i><span style="font-weight: 400;">A Colina Escarlate</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Em 2017, protagonizou a estreia como diretor de Aaron Sorkin, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Grande Jogada</span></i><span style="font-weight: 400;">. Porém, o salto de popularidade aconteceu mais tarde, com o combo </span><a href="http://personaunesp.com.br/fenix-negra-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">X-Men: Fênix Negra</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/it-capitulo-dois-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">It: Capítulo Dois</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Em 2021, além de estrelar e produzir o filme com faro de prêmio, Chastain cortou o coração e fez sangrar a dor ao lado de Oscar Isaac na minissérie </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=mRuVWHnQlV8"><i><span style="font-weight: 400;">Cenas de um Casamento</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que pode render uma indicação inédita ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_27018" aria-describedby="caption-attachment-27018" style="width: 1836px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27018" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/tammy.jpg" alt="Cena do filme Os Olhos de Tammy Faye, mostra a personagem principal se olhando por entre duas cortinas azuis. Ela é uma mulher branca, adulta e usa roupas brancas." width="1836" height="1033" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/tammy.jpg 1836w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/tammy-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/tammy-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/tammy-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/tammy-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/tammy-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27018" class="wp-caption-text">Em 2012, Jessica Chastain perdeu o Oscar para Octavia Spencer, sua colega de elenco em The Help; desde então, <a href="https://www.goldderby.com/article/2018/2018-oscars-the-help-actress-winners-whos-next-poll/">várias atrizes do filme venceram</a> o prêmio da Academia: Viola Davis, Emma Stone, Allison Janney (Foto: 20th Century Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_XVy88x63yg"><span style="font-weight: 400;">projeto de Tammy Faye</span></a><span style="font-weight: 400;"> surgiu como forma de documentário na virada do século, e não demorou para que, alguns anos depois, Chastain adquirisse os direitos da obra e transformasse essa oportunidade em um veículo até a temporada de premiações. Prestigiada com menções no círculo da crítica, ela se viu aclamada e premiada em termômetros como o</span> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=RKCCJz9AMj0"><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choice Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e, mais importante ainda, o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=AOOSwVtIEAM"><span style="font-weight: 400;">Sindicato dos Atores</span></a><span style="font-weight: 400;">, parcela mais farta entre os votantes da Academia. O motivo de tanto burburinho e condecorações é o trabalho dedicado que ela desempenha no filme de Michael Showalter.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Longe de se destacar por questões de narrativa ou de roteiro, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Olhos de Tammy Faye</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">particular da ruiva, que ficou irreconhecível para viver a televangelista mais famosa dos Estados Unidos. Com empenho e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ik-Xgdhti4g"><span style="font-weight: 400;">longas horas na cadeira de maquiagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, Jessica desapareceu para que Tammy viesse à vida. Entretanto, por mais que os exageros e as bochechas excessivamente rígidas chamem atenção, é no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=jc7lEGINb7Y"><span style="font-weight: 400;">tratamento das sutilezas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que o trabalho da atriz melhor ganha forma. Em um momento onde vê a vizinha atacá-la com ódio e repugnação, Tammy escolhe a outra via e a repreende com zelo e afeto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chastain internaliza tudo que sua personagem sofreu, uma mulher </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/escandalos-sexuais-e-financeiro-o-imperio-dos-televangelistas-jim-e-tammy-faye-bakker.phtml"><span style="font-weight: 400;">alvo de críticas</span></a><span style="font-weight: 400;"> desde sua aparência até os negócios que fazia na TV, e o grande esquema de corrupção que colocou o </span><a href="https://br.leskanaris.com/16621-televangelist-jim-bakker-is-indicted-on-federal-char.html"><span style="font-weight: 400;">marido na cadeia</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mesmo que a maternidade não seja figura central da trama, a questão da gravidez se revela um ponto de fricção do texto e, para além da visão mais simplista da mãe como progenitora, a produção ressalta o caráter materno de Tammy para com seu público, cativo e grudado ao aparelho televisor a cada vez que ela louva a Deus e, no processo, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ybu1PWwDvBg"><span style="font-weight: 400;">busca redenção</span></a><span style="font-weight: 400;">. Redenção da população feroz, do Deus misericordioso, do expurgo da alma, e Chastain atravessa cada estado de desordem e dor com euforia, perseverança e muita fé. </span></p>
<hr />
<figure id="attachment_27019" aria-describedby="caption-attachment-27019" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27019" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-1.jpg" alt="Fotografia retangular colorida da atriz Olivia Colman no Oscar 2019. Ela é uma mulher branca, possui cabelos lisos e curtos de cor castanha, está fotografada da cintura para cima e segura uma estatueta dourada com a mão esquerda, com sua base apoiada em sua mão direita. A estatueta do Oscar que ela está segurando consiste na figura de um humanóide, com as duas mãos junto a barriga e suas duas pernas juntas. Colman veste um vestido de cor verde, com um véu de também de cor verde sobre os braços, com detalhes em cor branca. Ao fundo há uma parede de cor roxa com detalhes em cor branca." width="1000" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-1.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-1-800x640.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-1-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27019" class="wp-caption-text">Interpretando a Rainha Anne em A Favorita, Olivia Colman recebeu sua primeira indicação ao Oscar, sendo a vencedora (Foto: The Pioneer)</figcaption></figure>
<p><b>Olivia Colman</b><span style="font-weight: 400;"> por</span><b> Bruno Andrade </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de ser reconhecida como uma atriz multifacetada, capaz de dar vida a qualquer papel com maestria, Sarah Caroline Olivia Colman foi frequentemente retratada pela mídia britânica como uma promissora atriz de Comédia. A carreira da artista inglesa teve início em séries cômicas do Reino Unido, com o começo definitivo no seriado </span><i><span style="font-weight: 400;">Bruiser </span></i><span style="font-weight: 400;">(2000), da </span><i><span style="font-weight: 400;">BBC</span></i><span style="font-weight: 400;">, mas com a verdadeira aclamação pelo público na </span><i><span style="font-weight: 400;">sitcom</span></i> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=3l1mbCSUw-0"><i><span style="font-weight: 400;">Peep Show</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2003). Isso porque, ao longo de sua carreira cinematográfica, diretores e produtores demoraram para compreender sua versatilidade. Quando a atriz começou a desvincular-se da pecha de “atriz de Comédia”, foi colocada em outra caixinha: atriz para interpretar “Mãe”. O primeiro longa de Colman foi uma animação, </span><a href="https://terkelpedia.fandom.com/wiki/Terkel_I_Knibe_(movie)"><i><span style="font-weight: 400;">Terkel in Trouble</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2004), no qual deu voz a mãe do protagonista; no ano seguinte, fez um pequeno curta-metragem, </span><a href="http://oliviacolmanonline.co.uk/wordpress/?page_id=542"><i><span style="font-weight: 400;">One Day</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, em que também interpretou uma mãe. Porém, em </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2011/oct/06/tyrannosaur-film-review"><i><span style="font-weight: 400;">Tyrannosaur </span></i></a><span style="font-weight: 400;">(2011), a crítica inglesa entendeu o que Olivia Colman era capaz de fazer – embora, ao longo dos anos seguintes, sua representação como “Mãe” continuasse sendo explorada.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atriz foi uma das estrelas em </span><a href="https://personaunesp.com.br/fleabag-5-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2016-2019), série na qual atuou como a madrasta da personagem homônima (Phoebe Waller-Bridge), e isso somente um ano depois de ter trabalhado pela primeira vez com o diretor grego Yorgos Lanthimos, no longa </span><i><span style="font-weight: 400;">A Lagosta </span></i><span style="font-weight: 400;">(2015). A parceria foi próspera, e em 2018, em decorrência de sua fabulosa interpretação da Rainha Anne em </span><a href="https://valkirias.com.br/critica-a-favorita/#:~:text=A%20do%C3%A7ura%20de%20Abigail%20mascara,a%20empregue%20como%20sua%20camareira."><i><span style="font-weight: 400;">A Favorita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – que, curiosamente, perdeu 17 filhos em sua vida (algo representado no longa) –, recebeu todos os holofotes. Houve, então, sua primeira indicação ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, seguida por sua primeira vitória. No </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YUytvAg_hE4"><span style="font-weight: 400;">discurso emocionante</span></a><span style="font-weight: 400;">, revelou que treinava no espelho o que falar no momento em que abraçasse a estatueta, mas isso muitos anos antes, quando trabalhava como faxineira em residências domésticas e o sonho de viver da atuação parecia distante. Daí em diante, Colman não deixou de figurar nos principais prêmios do Cinema, e em 2022, com esta nomeação ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, soma 3 indicações num período de apenas 4 anos. No ano passado, ela também levou um </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy Awards </span></i><span style="font-weight: 400;">por sua interpretação da Rainha Elizabeth em </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-crown-5-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">The Crown</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_27020" aria-describedby="caption-attachment-27020" style="width: 1783px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27020" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-2.png" alt="Cena do filme A filha perdida. Na imagem retangular colorida, a atriz Olivia Colman está fotografada dos braços para cima, na margem de uma praia, olhando para o horizonte. Ela está com os olhos marejados, e possui cabelos lisos e curtos de cor castanha, utiliza um colar com detalhe em cor branca e veste uma camisa de cor branca. Seus cabelos e a camisa estão enxergados pela água do mar." width="1783" height="1076" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-2.png 1783w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-2-800x483.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-2-1024x618.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-2-768x463.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-2-1536x927.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/olivia-colman-2-1200x724.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27020" class="wp-caption-text">Em A Filha Perdida, Olivia Colman dá vida a uma Leda complexa, mas profundamente verossímil, e põe em diálogo, com os olhos marejados, alguns tabus contemporâneos (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na adaptação do fabuloso livro de </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">Elena Ferrante</span></a><span style="font-weight: 400;">, Olivia Colman atinge um tipo sutil de grandeza, na qual elegância e força se cruzam, rendendo uma atuação primorosa. Na obra, ela dá vida a Leda – interpretada em sua juventude por </span><a href="https://personaunesp.com.br/estou-pensando-em-acabar-com-tudo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jessie Buckley</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, uma mulher que decide passar suas férias em uma ilha grega e começa a ser confrontada diariamente, e de diferentes formas. Sob o comando de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/12/a-filha-perdida-em-filme-traduz-bem-incomodo-do-livro-de-elena-ferrante.shtml"><span style="font-weight: 400;">Maggie Gyllenhaal</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> emplaca, pela primeira vez, duas atrizes indicadas ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">nas principais categorias após interpretaram a mesma personagem em um mesmo filme, além de ser o único longa, na lista das mulheres indicadas a Melhor Atriz, dirigido por uma mulher. A atuação de Colman também rendeu indicações ao Globo de Ouro, </span><i><span style="font-weight: 400;">SAG Awards </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choice Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Leda é uma personagem complexa, que põe em voga, desde o início, questões sobre a </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2022/jan/05/the-lost-daughter-elena-ferrante-maggie-gyllenhaal-motherhood"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, além de estar cercada por simbologias. Primeiramente, suas férias são conturbadas com a chegada de uma truculenta família na praia, cuja relação entre a jovem Nina (Dakota Johnson) e sua filha criança – que carrega uma boneca – trazem lembranças de sua própria relação familiar, quando, também na juventude e em uma idade possivelmente similar a de Nina, Leda deixou as duas filhas sob o cuidado do marido e seguiu sua vida longe delas. É interessante notar como diversas “filhas perdidas” orbitam a vida de Leda: suas próprias filhas sanguíneas, Bianca e Marta; a visão que Nina nutre acerca de Leda, enxergando-a como um ideal a ser seguido (como se fosse uma filha vislumbrando a mãe); a boneca perdida pela filha de Nina, que é “adotada” pela própria Leda; e a relação conturbada que a personagem teve com sua mãe na infância. Talvez a parte mais importante de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> seja a representação da autoconsciência angustiante que Leda possui – possivelmente o que levou Colman novamente à indicação de Melhor Atriz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A personagem sabe como será – e de fato é – julgada por suas relações afetivas, tem ciência de suas escolhas e, mesmo assim, não consegue deixar de enxergar em Nina uma mãe que, em breve, terá seu </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/a-filha-perdida"><span style="font-weight: 400;">futuro comprometido</span></a><span style="font-weight: 400;"> por expectativas que não pertencem a ela. Por essa razão, Leda não consegue deixar de ver a representação virtual do que foi o seu próprio passado, mas, quando é indagada sobre o tempo que passou longe das filhas, também não consegue mentir: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Foi maravilhoso, eu faria tudo de novo”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Junto a isso, a direção de Gyllenhaal reflete uma certa urgência de proximidade, inserindo </span><i><span style="font-weight: 400;">closes </span></i><span style="font-weight: 400;">intensos nos rostos das personagens e fazendo uma demonstração constante da quebra de espaço que Leda sofre (como na cena em que Lyle [Ed Harris] vai até sua casa para cozinhar uma lula, ou quando a personagem confunde seu carro com o do marido de Nina). Agora pense na carreira de Olivia Colman – seus altos e baixos na Comédia, sua representação constante de mães no Cinema e seu discurso do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">de 2019 –, e me responda: quem faria uma Leda melhor?</span></p>
<hr />
<figure id="attachment_27021" aria-describedby="caption-attachment-27021" style="width: 1240px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27021" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/penelope.jpg" alt="Imagem da atriz Penélope Cruz no Oscar 2008. Ela é uma mulher branca, de cabelos e olhos castanhos, e está fotografada do peito para cima, de frente. Penélope usa um vestido branco tomara-que-caia, e um colar, pulseira e brincos brilhantes prateados. Seu cabelo está preso e ela usa uma franja curta sobre a testa. Penélope olha para a esquerda, para fora da imagem, e está sorrindo. Na mão direita, ela segura uma estatueta dourada do Oscar. Ao fundo, existe uma cortina branca e uma estátua do prêmio." width="1240" height="744" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/penelope.jpg 1240w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/penelope-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/penelope-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/penelope-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/penelope-1200x720.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27021" class="wp-caption-text">O primeiro e único Oscar de Penélope Cruz é de 2008, pela sua coadjuvante em Vicky Cristina Barcelona (Foto: Gtresonline)</figcaption></figure>
<p><b>Penélope Cruz </b><span style="font-weight: 400;">por</span><b> Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O nome de Penélope Cruz é precedido por uma das maiores afeições de Hollywood. Ela começou bem cedo, quando apresentava programas de auditório juvenis na Espanha aos 16 anos. Em 1992, dois anos depois de sua estreia na TV, ela brilhou pela primeira vez nos cinemas com </span><a href="https://mubi.com/pt/films/jamon-jamon"><i><span style="font-weight: 400;">Jamón, jamón</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que apesar do sucesso da crítica, a colocou no lugar de “símbolo sexual” quando tinha apenas 18 anos, firmando uma fama que a perseguiria pelos seus trabalhos seguintes. Quando a indústria cinematográfica descobriu o apelo de Cruz, a colocou para estrelar </span><a href="https://play.hbomax.com/feature/urn:hbo:feature:GX07XkwflgoaMwgEAAAEq?camp=googleHBOMAX&amp;action=open"><i><span style="font-weight: 400;">Blow</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.netflix.com/watch/60021786?source=35"><i><span style="font-weight: 400;">Vanilla Sky</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ambos de 2001, ao lado de nomes como Tom Cruise, Tilda Swinton e Johnny Depp (com quem trabalharia novamente em </span><a href="https://entretenimento.band.uol.com.br/noticias/100000426468/penelope-cruz-diz-como-e-sua-personagem-em-piratas-do-caribe-4.html"><span style="font-weight: 400;">alto-mar</span></a><span style="font-weight: 400;">) &#8211; antes de sua monstruosidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, sempre presente em produções independentes na Europa e aos poucos conquistando o apreço da crítica e circuitos de festivais, ela construiu seu nome através de trabalhos como </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/inao-se-movai"><i><span style="font-weight: 400;">Não Se Mova</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2004), que a indicou ao </span><a href="https://www.prensalatina.com.br/2022/02/07/os-premios-goya-com-protagonismo-feminino-no-cinema-espanhol/"><span style="font-weight: 400;">Goya</span></a><span style="font-weight: 400;">, o prêmio mais importante do Cinema espanhol que a acompanha desde sua estreia cinematográfica. Tudo mudou quando ela venceu o </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Melhor Atriz Coadjuvante em 2008 por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=A6QFfJHuFy4"><i><span style="font-weight: 400;">Vicky Cristina Barcelona</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, direcionando todos os agradecimentos ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/allen-contra-farrow-critica/"><span style="font-weight: 400;">infame Woody Allen</span></a><span style="font-weight: 400;">, cujas denúncias já eram deflagradas na época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas foi pouco antes da virada do século que ela encorpou sua carreira e conheceu seu par perfeito &#8211; e não, não estamos falando de seu companheiro de vida e de </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2022 </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2022/02/09/penelope-e-javier.htm#:~:text=Bardem%20e%20Cruz%20se%20conheceram,romance%20come%C3%A7ou%20alguns%20anos%20depois."><span style="font-weight: 400;">Javier Bardem.</span></a><span style="font-weight: 400;"> Em 1997, Cruz participa de </span><a href="https://www.netflix.com/watch/60000667?source=35"><i><span style="font-weight: 400;">Carne Trêmula</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, seu primeiro trabalho com Pedro Almodóvar. A partir dali, a atriz iniciaria sua trajetória como a fiel intérprete das personagens femininas do diretor espanhol, seguindo com sua passagem um pouco mais notável em </span><a href="https://www.primevideo.com/dp/amzn1.dv.gti.08b120c8-acde-f2ee-7363-20cad6bbd984?autoplay=1&amp;ref_=atv_cf_strg_wb"><i><span style="font-weight: 400;">Tudo Sobre Minha Mãe</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1999). O apogeu foi em 2006, com </span><a href="https://www.netflix.com/watch/70044890?source=35"><i><span style="font-weight: 400;">Volver</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">quando Penélope já era a atriz favorita declarada do cineasta e convenceu o Festival de Cannes, retornou vitoriosa ao Goya, estreou no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> no</span><i><span style="font-weight: 400;"> BAFTA</span></i><span style="font-weight: 400;">, sendo lembrada também pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">SAG</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choice</span></i><span style="font-weight: 400;"> e</span> <span style="font-weight: 400;">Globo de Ouro, num circuito impecável que ela voltaria a percorrer mais de 15 anos depois. </span></p>
<figure id="attachment_27022" aria-describedby="caption-attachment-27022" style="width: 1865px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27022" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/janis.jpg" alt="Cena do filme Mães Paralelas. A imagem mostra Janis, personagem de Penélope Cruz, sentada na frente de um computador, de perfil para o lado esquerdo, enquanto cuida de sua filha bebê ao seu lado. Ela é uma mulher branca de cabelo em tom de castanho claro presos num coque, e veste uma blusa de lã verde. A mesa onde ela está é de vidro e o computador que ela usa é branco. Ao seu lado direito, está um bercinho de bebê laranja, onde sua filha repousa. O ambiente é decorado com quadros, vasos e demais móveis de escritório em cores vibrantes como laranja, verde, amarelo, vermelho e azul." width="1865" height="1367" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/janis.jpg 1865w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/janis-800x586.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/janis-1024x751.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/janis-768x563.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/janis-1536x1126.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/janis-1200x880.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27022" class="wp-caption-text">Na TV, ela também é aclamada: em 2018, Penélope Cruz foi indicada ao Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie por The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No universo </span><i><span style="font-weight: 400;">Almodóvariano </span></i><span style="font-weight: 400;">pela oitava vez, Penélope Cruz é Janis, o centro de </span><a href="https://personaunesp.com.br/maes-paralelas-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que direciona a experiência do diretor com personagens femininas e no tratamento da maternidade para criar uma analogia ao </span><a href="https://www.cartacapital.com.br/cultura/maes-paralelas-expoe-traumas-espanhois-historicos-sem-trair-temas-habituais-de-almodovar/"><span style="font-weight: 400;">passado, presente e futuro</span></a><span style="font-weight: 400;"> da Espanha. Poupando detalhes da trama envolvente do filme, ao lado de Ana (</span><a href="https://www.vogue.pt/entrevista-milena-smit"><span style="font-weight: 400;">Milena Smit</span></a><span style="font-weight: 400;">), a protagonista Janis nos apresenta uma mãe cheia de camadas de dores e sabedoria, exatamente como deve ser um retrato que se propõe a contemplar uma das vivências mais complexas da humanidade. Mas para um contexto que tende a rejeitar a apreciação de histórias sobre experiências femininas, a indicação da protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;"> ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; onde também foi nomeado pela </span><a href="https://www.musicontherun.net/2022/03/resenha-alberto-iglesias-trilha-sonora-madres-paralelas.html"><span style="font-weight: 400;">trilha sonora de Alberto Iglesias</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ensaia uma imagem vanguardista, mas acaba demonstrando o mesmo conservadorismo de sempre da Academia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É que a narrativa do espanhol, por mais representativa e sincera que seja, ainda parte de uma perspectiva masculina e um tanto adocicada pela sua </span><a href="https://institutodecinema.com.br/mais/conteudo/o-cinema-de-pedro-almodovar-"><span style="font-weight: 400;">identidade exuberante</span></a><span style="font-weight: 400;">. Graças ao tato e respeito que tem pelas suas personagens, Almodóvar é conhecido por driblar os crimes do </span><a href="https://www.instagram.com/p/CbYiO4FuLv5/"><i><span style="font-weight: 400;">male gaze</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Então, longe de ser um defeito, isso é o que coloca a </span><i><span style="font-weight: 400;">performance</span></i><span style="font-weight: 400;"> deslumbrante de Penélope Cruz à frente de personagens mais incisivas, criadas a partir da identificação direta de mulheres, como a de Olivia Colman na obra dirigida por </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">Maggie Gyllenhaal</span></a><span style="font-weight: 400;"> a partir da adaptação do romance de </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">Elena Ferrante</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A isso, soma-se também o já conhecido apreço que envolve Penélope Cruz, como </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2009/02/22/interna_mundo,81946/penelope-cruz-e-a-primeira-atriz-espanhola-a-receber-um-oscar.shtml"><span style="font-weight: 400;">uma das poucas atrizes</span></a><span style="font-weight: 400;"> de língua não-inglesa que encontra espaço no ambiente majoritariamente norte-americano, e o carinho que o mundo tem pela obra do diretor, especialista em construir belíssimas histórias identificáveis e em </span><a href="https://personaunesp.com.br/dor-e-gloria-critica/"><span style="font-weight: 400;">emplacar seus atores</span></a><span style="font-weight: 400;"> na premiação da Academia. E apesar de não ter sido lembrada nos prêmios precursores, Penélope Cruz é a continuação de uma tendência criada lá no </span><a href="https://www.instagram.com/p/CT5ssphNzJv/"><span style="font-weight: 400;">Festival de Veneza</span></a><span style="font-weight: 400;">, onde o filme estreou já garantindo o seu lugar como a Melhor Atriz de 2021 e prometendo a sua indicação ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">. Dentre as mães de 2022, a Janis de Almodóvar e Cruz ascende como a beleza mais atraente que pode existir da vivência complexa de uma mulher com a maternidade.</span></p>
<hr />
<figure id="attachment_27023" aria-describedby="caption-attachment-27023" style="width: 1932px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27023" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-1.jpg" alt="Foto da atriz Nicole Kidman segurando uma estatueta do Oscar. Nicole é uma mulher branca de olhos azuis, ela tem cabelos loiros, que estão presos em um coque baixo; ela veste um vestido preto com uma alça atravessada no colo do seu peito e usa um par de brincos com pedras. Ao fundo, é possível ver uma parte da estatueta do Oscar em tamanho grande. " width="1932" height="1617" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-1.jpg 1932w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-1-800x670.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-1-1024x857.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-1-768x643.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-1-1536x1286.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-1-1200x1004.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27023" class="wp-caption-text">Nicole Kidman já acumula 4 indicações e 1 vitória ao prêmio da Academia (Foto: Getty Images)</figcaption></figure>
<p><b>Nicole Kidman</b><span style="font-weight: 400;"> por </span><b>Vitória Silva</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nicole Kidman tem se provado cada vez mais como uma das grandes camaleoas do ramo da atuação. Com uma </span><a href="https://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-15760/biografia/"><span style="font-weight: 400;">carreira que já acumula quase 40 anos</span></a><span style="font-weight: 400;">, é difícil ver o nome da australiana cair no esquecimento, em qualquer momento que seja. Sua notabilidade na indústria iniciou-se em 2001, com o aclamado musical </span><i><span style="font-weight: 400;">Moulin Rouge</span></i><span style="font-weight: 400;">, que rendeu sua primeira indicação ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, já na categoria de Melhor Atriz. E não demorou muito para que ela conseguisse se consagrar, de fato, perante à Academia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A primeira conquista ao careca dourado ocorreu no ano seguinte, na mesma categoria, pela performance quase irreconhecível como a lendária escritora Virginia Woolf, em </span><i><span style="font-weight: 400;">As Horas</span></i><span style="font-weight: 400;">. A caracterização impecável provocou até uma menção por Denzel Washington ao anunciar a vencedora: </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=D0FWFQpnZ54"><i><span style="font-weight: 400;">“Por um nariz, Nicole Kidman”</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. E foi um feito ainda mais poderoso considerando que, durante as gravações, a atriz estava passando por um </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/cinema/nicole-kidman-sofreu-de-depressao-ao-interpretar-virginia-wolf-no-filme-horas/"><span style="font-weight: 400;">período de depressão</span></a><span style="font-weight: 400;">, decorrente do divórcio turbulento com o ator </span><a href="https://personaunesp.com.br/missao-impossivel-efeito-fallout-critica/"><span style="font-weight: 400;">Tom Cruise</span></a><span style="font-weight: 400;">, pai de seus dois filhos mais velhos, Isabella e Connor. De certa forma, essa fase ainda encontrou-se pessoalmente com a trajetória da própria personagem a quem deu vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quase 20 anos depois, o cenário já não era mais tão frutífero para a atriz. Já com 54 anos, Nicole passou por um significativo apagamento em sua carreira, considerando uma </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2022/02/23/posso-estar-enrugada-mas-quero-neuronios-funcionando-diz-marieta-severo.htm"><span style="font-weight: 400;">indústria que despreza mulheres mais velhas</span></a><span style="font-weight: 400;"> para ganharem papéis de destaque. A idade sempre foi motivo de insegurança para a própria, que por muito pensou que </span><a href="https://revistamonet.globo.com/Filmes/noticia/2022/02/nicole-kidman-revela-ter-temido-pelo-fim-de-sua-carreira-ao-completar-40-anos.html"><span style="font-weight: 400;">não teria mais sucesso após os 30 anos</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas não foi suficiente para que caísse no esquecimento. Na atualidade, Kidman tem engatado em um projeto atrás do outro. Sua parceria com o produtor David E. Kelley rendeu seus sucessos mais recentes no meio televisivo, com </span><a href="https://personaunesp.com.br/big-little-lies-s2-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Big Little Lies</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, &#8211; com o qual conquistou dois </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmys </span></i><span style="font-weight: 400;">&#8211; </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-undoing-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">The Undoing</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Nove Desconhecidos</span></i><span style="font-weight: 400;">. Em seus futuros lançamentos, está o provável retorno ao universo de </span><a href="https://personaunesp.com.br/aquaman-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Aquaman</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e a nova série antológica da </span><i><span style="font-weight: 400;">Apple TV+</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.omelete.com.br/apple/roar-apple-tv-trailer"><i><span style="font-weight: 400;">Roar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, das mesmas criadoras de </span><a href="https://personaunesp.com.br/glow-netflix-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Glow</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_27024" aria-describedby="caption-attachment-27024" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27024" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-2.jpg" alt="Cena do filme Apresentando os Ricardos. Nela, está a atriz Nicole Kidman, que interpreta Lucille Ball, com o olhar voltado para o lado esquerdo. Lucille é uma mulher branca, de cabelos ruivos ondulados, presos em um coque alto com uma fita branca. Ela usa um par de brincos dourados e uma camisa de mangas compridas estampada. Ao fundo, é possível ver um espelho com luzes ao redor, ele está desfocado pela câmera. " width="1400" height="787" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-2.jpg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kidman-2-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27024" class="wp-caption-text">Mais recentemente, Nicole também protagonizou longas dirigidos por mulheres: O Peso do Passado, de Karyn Kusama, e O Estranho que Nós Amamos, de Sofia Coppola (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meio a avalanche de novas produções, Kidman integrou o novo filme de Aaron Sorkin, </span><a href="https://personaunesp.com.br/apresentando-os-ricardos-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Apresentando os Ricardos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, produzido e distribuído pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Amazon Prime Video</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ainda na onda de afeição por narrativas históricas, o diretor decide centrar-se no notável casal Lucille Ball e Desi Arnaz, protagonistas de</span><i><span style="font-weight: 400;"> I Love Lucy</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma das </span><i><span style="font-weight: 400;">sitcoms </span></i><span style="font-weight: 400;">mais importantes da história da Televisão norte-americana. Com um roteiro e direção que, mais uma vez, bagunçam os acontecimentos da realidade, unidos aos mesmos </span><i><span style="font-weight: 400;">flashbacks</span></i><span style="font-weight: 400;"> frenéticos de </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-7-de-chicago-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Os 7 de Chicago</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, e narradores que não ajudam em muita coisa, Sorkin cria uma salada mista confusa e problemática. Mesmo em meio a uma escolha não muito certeira, Nicole Kidman encontra seu espaço para brilhar na pele da intérprete de Lucy Ricardo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, a produção não poderia focar em outra pessoa senão um dos </span><a href="https://www.eql.com.br/usufruir/2021/12/quem-foi-lucille-ball-atriz-interpretada-por-nicole-kidman-em-being-the-ricardos/"><span style="font-weight: 400;">rostos mais memoráveis do meio televisivo</span></a><span style="font-weight: 400;">. O longa tem como premissa a polêmica filiação da atriz ao Partido Comunista, que emenda nas crises de seu casamento com o personagem de Javier Bardem e em uma gravidez inesperada. Com uma obra que não decide em que tema se aprofundar, a atriz acaba por dominar todos os espaços, com uma atuação admirável, que escancara minuciosamente os trejeitos e as diferentes facetas de Lucille Ball, em frente e por trás das câmeras. Mas que dificilmente será suficiente para condecorá-la como Melhor Atriz novamente, levando em consideração as sucessivas perdas ao longo da temporada de premiações depois de vencer o Globo de Ouro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No aspecto da maternidade, a personagem também sai perdendo se formos comparar a outros nomes da categoria. Porém, não é de se tirar o mérito por completo, por </span><i><span style="font-weight: 400;">Apresentando os Ricardos </span></i><span style="font-weight: 400;">retratar um dos </span><a href="https://snews.pro/pt/p/i-love-lucy-a-gravidez-de-lucille-ball-foi-quase-polemica-demais-para-a-tv-14990561"><span style="font-weight: 400;">atos mais revolucionários da história da Televisão</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que se trouxe pela primeira vez uma mulher grávida para as telas, numa época em que o conservadorismo asqueroso não era capaz de aceitar qualquer alusão sexual &#8211; quem dirá vindo de uma figura feminina.</span></p>
<hr />
<figure id="attachment_27025" aria-describedby="caption-attachment-27025" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27025" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-1.jpg" alt="Foto. Ao centro da foto, vemos Kristen Stewart bem iluminada, diante de um microfone e de um troféu dourado. Ela aparenta estar em um palco de premiação. Kristen Stewart é uma mulher branca, de cabelos castanhos, lisos e curtos, na altura do queixo, aparentando cerca de 25 anos, usando um vestido branco tomara que caia com um cinto preto, maquiada, e tem suas mãos unidas à frente de seu peito." width="800" height="600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-1.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-1-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27025" class="wp-caption-text">Até hoje, Kristen Stewart é a única atriz estadunidense a ter vencido o prêmio César, a maior honraria do Cinema francês (Foto: RINDOFF/CHARRIAU)</figcaption></figure>
<p><b>Kristen Stewart </b><span style="font-weight: 400;">por </span><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em pleno 2022, existe alguém que não saiba quem é Kristen Stewart? Com pouco mais de trinta anos, a atriz já pode se considerar veterana: entre atuação, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Ti_o4fv2Ta0"><span style="font-weight: 400;">roteiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=u37GTEjnQv4"><span style="font-weight: 400;">direção</span></a><span style="font-weight: 400;">, vinte deles foram dedicados ao Cinema. Começando cedo, aos 11 anos, a atriz estreou em </span><i><span style="font-weight: 400;">Encontros do Destino </span></i><span style="font-weight: 400;">(2001) e, um ano depois, ganhou destaque com seu papel em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sp2kKzrCm44"><i><span style="font-weight: 400;">O Quarto do Pânico</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2002). Daí pra frente, não teve pra ninguém. Stewart participou de dramas, suspenses e até ficção científica, alternando entre grandes produções, como </span><i><span style="font-weight: 400;">Zathura: Uma Aventura Espacial </span></i><span style="font-weight: 400;">(2005), e outras independentes, como </span><i><span style="font-weight: 400;">Na Natureza Selvagem </span></i><span style="font-weight: 400;">(2005). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até que emplacou o papel que a levou ao estrelato: como Bella Swan, na franquia de cinco filmes adaptados da Saga </span><i><span style="font-weight: 400;">Crepúsculo</span></i><span style="font-weight: 400;">, Kristen Stewart se tornou mundialmente famosa já aos 18 anos, e a atriz </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/kristen-stewart-encabeca-lista-de-atrizes-mais-bem-pagas-de-hollywood/"><span style="font-weight: 400;">mais bem paga</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Hollywood em 2011. O </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/cinema/crepusculo-kristen-stewart-nao-acreditava-no-sucesso-do-filme-nao-achei-que-ia-ter-continuacao/"><span style="font-weight: 400;">sucesso</span></a><span style="font-weight: 400;"> a levou a outros </span><i><span style="font-weight: 400;">blockbusters</span></i><span style="font-weight: 400;">, como </span><i><span style="font-weight: 400;">A Branca de Neve e o Caçador </span></i><span style="font-weight: 400;">(2012), mas, no meio tempo, a atriz alternava as grandes produções com filmes menores e selecionados à dedo, como </span><i><span style="font-weight: 400;">The Runaways </span></i><span style="font-weight: 400;">(2010) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Na Estrada </span></i><span style="font-weight: 400;">(2012). Porém, entre as críticas e os ataques pelo papel da protagonista da </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/kristen-stewart-e-robert-pattinson-exorcizam-vampiros-e-bombam-no-cinema/"><span style="font-weight: 400;">franquia de vampiros</span></a><span style="font-weight: 400;">, e os relacionamentos amorosos e aspectos da vida pessoal da artista virando um espetáculo midiático, ela escapou de Hollywood.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A decisão de Kristen Stewart, porém, foi certeira. Se afastando da indústria hegemônica e </span><i><span style="font-weight: 400;">blockbusterizada </span></i><span style="font-weight: 400;">dos Estados Unidos, ela se dedicou, novamente, a produções independentes e artísticas. Sua colaboração com o diretor francês Olivier Assayas a rendeu um </span><i><span style="font-weight: 400;">César </span></i><span style="font-weight: 400;">como Melhor Atriz Coadjuvante por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=-EBUTVRgRCE"><i><span style="font-weight: 400;">Acima das Nuvens</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2014), a tornando a primeira estadunidense a receber o troféu do </span><a href="https://www.purepeople.com.br/noticia/kristen-stewart-ganha-cesar-awards-o-mais-importante-do-cinema-frances_a43440/1"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">francês</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Para Sempre Alice</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2014) a rendeu elogios e visibilidade ao premiar Julianne Moore com o </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">de Melhor Atriz. </span><i><span style="font-weight: 400;">Personal Shopper </span></i><span style="font-weight: 400;">(2016), de Assayas e protagonizado por Stewart, concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes. Entre esses e outros pontos altos em sua carreira, Kristen Stewart finalmente foi reconhecida por sua versatilidade e passou a escolher a dedo seus papéis. Recentemente, ela participou do </span><i><span style="font-weight: 400;">remake </span></i><span style="font-weight: 400;">de </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-151807/"><i><span style="font-weight: 400;">As Panteras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do suspense </span><i><span style="font-weight: 400;">Ameaça Profunda</span></i><span style="font-weight: 400;">, da comédia natalina </span><a href="https://personaunesp.com.br/happiest-season-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Alguém Avisa?</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e, agora, do premiado </span><a href="https://personaunesp.com.br/spencer-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Spencer</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_27026" aria-describedby="caption-attachment-27026" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27026" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-2.jpg" alt="Cena do filme Spencer. Na cena, iluminada por velas em um primeiro plano da imagem, vemos a personagem interpretada por Kristen Stewart ao centro. Ela é uma mulher branca, aparentando cerca de 30 anos, com cabelos lisos, loiros e curtos na altura do queixo, e veste uma blusa bege clara. Atrás dela, vemos um cômodo que aparenta ser um quarto, mal iluminado." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-2.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-2-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/kristen-stewart-2-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27026" class="wp-caption-text">Vindo de uma bateria de indicações, Kristen Stewart ficou de fora do SAG Awards, premiação do Sindicato dos Atores, e levantou dúvidas quanto a sua nomeação ao Oscar 2022 (Foto: NEON)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Vinte anos depois de seu início, Kristen Stewart chegou ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">. Indicada em praticamente todas as competições da temporada de premiações de 2022, mas esnobada do </span><i><span style="font-weight: 400;">SAG Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">, a </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/moda-com-historia/para-ganhar-oscar-kristen-stewart-teria-que-quebrar-padrao-de-26-anos.phtml"><span style="font-weight: 400;">descrença</span></a><span style="font-weight: 400;"> na nomeação da atriz se converteu em glória. Entre tantas possíveis aparições de </span><i><span style="font-weight: 400;">Spencer </span></i><span style="font-weight: 400;">e seus realizadores nas indicações da Academia, a dela, na categoria Melhor Atriz, brilhou como a única. No filme, Stewart assume o desafio de interpretar a Princesa Diana, personalidade que já ganhou inúmeras releituras, e, na versão da norte-americana, chega o mais próximo possível no que diz respeito à postura e aos maneirismos da Lady Di real.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Porém, parte importante do papel &#8211; e da persona a qual se inspira &#8211; é a maternidade, e Kristen Stewart não é mãe. Mesmo assim, enquanto se </span><a href="https://finance.yahoo.com/news/kristen-stewart-says-spencer-taught-192600061.html"><span style="font-weight: 400;">aprofundava</span></a><span style="font-weight: 400;"> nas nuances da personagem, a atriz soube imediatamente que a dedicação dela pelos dois filhos, os príncipes William e Harry, seria parte essencial do retrato o qual mirava. Como a </span><a href="https://ew.com/movies/kristen-stewart-protect-princess-diana-motherhood-spencer/"><span style="font-weight: 400;">própria artista afirmou</span></a><span style="font-weight: 400;">, a ligação entre os três era latente e, se ela não pudesse transmitir nas telas essa relação, não conseguiria interpretar a figura real da Princesa corretamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi com a atriz à frente do filme que a produção recebeu seu maior número de indicações. Outras menções, menos constantes e mais dispersas entre as premiações, incluíram Melhor Diretor, para Pablo Larraín; Melhor Fotografia, para Claire Mathon; e Melhor Filme (que não se repetiram no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">). A estrela, além dos reconhecimentos e do </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,kristen-stewart-impressiona-veneza-como-princesa-diana-em-filme-de-pablo-larrain,70003831508"><span style="font-weight: 400;">sucesso da crítica</span></a><span style="font-weight: 400;">, também foi </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f5hKrmpEC3A"><span style="font-weight: 400;">homenageada</span></a><span style="font-weight: 400;"> com um Tributo à sua Carreira no </span><i><span style="font-weight: 400;">Gotham Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">, premiação de filmes independentes. Em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=yS1oP3VaXQA"><i><span style="font-weight: 400;">Spencer</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Kristen Stewart não só transmite a máxima devoção de Diana pelos filhos, em uma performance arrebatadora, como prova que seu lugar é fazendo os papéis que ela bem entender.</span></p>
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		<title>Quem são as mães das filhas perdidas?</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2022 15:40:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Silva Dos tipos de representações que temos em relação à maternidade no Cinema e na TV, podemos citar vários. A mãe superprotetora, a mandona, a descolada, e, é claro, a clássica mãe que abdica de todas as suas vivências pessoais pelas conquistas dos filhos, ou até mesmo para encontrá-los no mundo. Pense em quantas &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Quem são as mães das filhas perdidas?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26968" aria-describedby="caption-attachment-26968" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26968" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-800x450.jpg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, a atriz Jessie Buckley, que interpreta Leda, está abraçando duas meninas, em que não é possível ver seus rostos. Jessie é uma mulher branca, de cabelos castanhos claros. " width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26968" class="wp-caption-text">Após levar o Leão de Ouro de Melhor Roteiro em Veneza, A Filha Perdida garantiu 3 indicações no Oscar 2022 (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Silva</b></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Dos tipos de representações que temos em relação à maternidade no Cinema e na TV, podemos citar vários. A mãe superprotetora, a mandona, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/gilmore-girls-20-anos/"><span style="font-weight: 400;">descolada</span></a><span style="font-weight: 400;">, e, é claro, a clássica mãe que abdica de todas as suas vivências pessoais pelas conquistas dos filhos, ou até mesmo para </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/"><span style="font-weight: 400;">encontrá-los no mundo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Pense em quantas personagens mães você conhece, e quantas delas não estão associadas diretamente ao papel materno que as nutre. E, quando o renegam, na maior parte das vezes são movidas por uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/carrie-a-estranha-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">maldade sobrenatural</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou pela construção de um </span><a href="https://personaunesp.com.br/enrolados-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">aspecto vilanesco</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua personalidade. Afinal, que tipo de mãe não amaria seus filhos incondicionalmente?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Transpondo para a realidade, a retórica continua a mesma. Em </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a misteriosa Elena Ferrante mergulha por inteiro neste que é apenas um dos papéis da feminilidade presentes em sua Literatura. E Maggie Gyllenhaal decide abraçar a mesma narrativa para construir o que seria a sua primeira obra na direção. A trama do filme homônimo segue Leda, interpretada pela magnífica </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-pai-critica/"><span style="font-weight: 400;">Olivia Colman</span></a><span style="font-weight: 400;">, que decide passar um período em uma ilha paradisíaca da Grécia, após deixar suas duas filhas, Bianca e Martha, com o ex-marido no Canadá.</span></p>
<p><span id="more-26967"></span></p>
<figure id="attachment_26974" aria-describedby="caption-attachment-26974" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26974" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-800x453.jpg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, a atriz Olivia Colman, que interpreta Leda, está olhando para trás, por cima do seu ombro direito. Leda é uma mulher branca de meia-idade, de cabelos castanhos curtos; ela veste um maiô azul-marinho. " width="800" height="453" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-800x453.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-1024x580.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-768x435.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26974" class="wp-caption-text">Olivia Colman é uma das atrizes da atualidade que carrega uma das melhores carreiras pós-vitória no Oscar, somando 3 indicações e 1 vitória nos últimos 4 anos de premiação (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Aproveitando o tempo consigo mesma, suas pacatas férias acabam sendo tomadas por lembranças antigas apenas pela súbita chegada de uma família no local. Nela, conhece Nina (Dakota Johnson) e sua filha Elena (Athena Martin Anderson), que de imediato desencadeiam memórias da protagonista em relação a sua própria experiência materna, o que a leva a uma estranha obsessão pela jovem mãe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sinopse ou o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=s63AZRGzUtc"><i><span style="font-weight: 400;">trailer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do filme podem enganar, por também não ser simples traduzir em poucas palavras ou minutos a </span><a href="https://azmina.com.br/colunas/elena-ferrante-por-que-so-se-fala-nela/"><span style="font-weight: 400;">hipnotizante experiência que Elena Ferrante criou</span></a><span style="font-weight: 400;"> com </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Assim como o livro, a produção não tem grandes ganchos narrativos, que prendem a atenção pelo desfecho ou em acompanhar as conquistas da personagem. Aliás, o que a obra mais faz é deixar finais de seus capítulos em aberto, o que foi fidelizado nas cenas do longa. Se podemos definir o que de fato fixa nossos olhos na tela, só poderia ser o trabalho de Olivia Colman. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/retrato-omelete-olivia-colman-de-diarista-a-rainha-elizabeth-nas-telas"><span style="font-weight: 400;">vencedora do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> compõe a peculiar Leda de forma que parecemos estar lendo letra por letra das descrições de Ferrante. Unida à atuação de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estou-pensando-em-acabar-com-tudo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jessie Buckley</span></a><span style="font-weight: 400;">, que interpreta a versão mais jovem da protagonista, criam, juntas, um dualismo perfeito das mudanças sofridas nas fases da vida da professora. Tudo isso não seria possível sem a condução de Gyllenhaal, tanto pelas lentes quanto pela escrita do roteiro, que consegue traduzir até mesmo as entrelinhas da obra da escritora napolitana em frente aos nossos olhos. O que não é uma tarefa nem um pouco fácil, tendo em vista a composição de fluxos de consciência em que a história original foi construída. </span></p>
<figure id="attachment_26972" aria-describedby="caption-attachment-26972" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26972" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-800x475.jpg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, está a atriz Dakota Johnson, que interpreta Nina, deitada em uma espreguiçadeira na praia, olhando para o lado. Nina é uma mulher branca, de cabelos escuros e compridos; ela veste um maiô colorido." width="800" height="475" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-800x475.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-1024x608.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-768x456.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-1536x912.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-1200x712.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26972" class="wp-caption-text">Enquanto Colman foi deixada para escanteio, Buckley conseguiu uma indicação ao BAFTA como Melhor Atriz Coadjuvante (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Não demora muito para a aproximação entre Leda e Nina ter uma virada de chave, quando a protagonista decide roubar a boneca da pequena Elena. E, assim, engata no acontecimento que perdura como pano de fundo durante toda a produção. A recepção para quem assiste </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode vir como uma avalanche de quebras de expectativas, talvez por esperar que a família de Toni (</span><a href="https://personaunesp.com.br/residencia-hill-critica/"><span style="font-weight: 400;">Oliver Jackson-Cohen</span></a><span style="font-weight: 400;">), marido de Nina, apontada como perigosa por motivos nunca declarados, fosse realizar algum ato direto contra a personagem; alguma filha fosse ser, de fato, perdida, ou qualquer outra reviravolta que em concepções gerais seja considerada crucial para o desenrolar da narrativa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas o resultado final não poderia ser outro. Tanto a obra de Ferrante quanto de Gyllenhaal é composta por dosagens significativas de simbolismos, que, no cerne da palavra, não precisam ser entregues de bandeja. Diante disso, a provocação pela busca de respostas é gritante. Afinal, por que Leda decidiu roubar a boneca? Foi por inveja da relação de Nina com Elena? Como forma de ensinamento por a jovem ter cometido os mesmos erros que ela durante seu casamento? Ou até mesmo para tirar de Elena a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=G3yLgETnBBo"><span style="font-weight: 400;">imposição do anseio materno</span></a><span style="font-weight: 400;"> que ela tanto negou durante a vida? </span></p>
<figure id="attachment_26975" aria-describedby="caption-attachment-26975" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26975" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-800x450.jpeg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, vemos uma boneca, que está sendo segurada pelas mãos de Leda. A boneca é branca, com cabelos castanhos claros e veste um vestido azul claro." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26975" class="wp-caption-text">Maggie Gyllenhaal já havia sido indicada ao careca dourado anteriormente, mas por sua atuação em Coração Louco, em que interpreta uma mãe solo (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir qualquer empatia ou apego pela história da protagonista não é algo natural quando analisamos a narrativa apenas pelo que ela nos entrega explicitamente. Mesmo que com a frieza amenizada pela interpretação de Colman, Leda não é agradável, quem dirá simpática. Não podemos esperar qualquer afeição positiva por uma mulher de meia-idade que decide viajar sozinha apenas para gozar de sua liberdade. Ao decorrer da história, também descobrimos que afeto nenhum poderia vir por uma mãe que abandonou suas filhas por três anos e sentiu que </span><i><span style="font-weight: 400;">“foi maravilhoso”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo que seu ex-marido tivesse realizado feito semelhante somando os finais de semana que precisava viajar a trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A regra é clara, e a personagem Nora Fanshaw, que rendeu um </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">para Laura Dern em </span><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">História de um Casamento</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, resume bem: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Nós os amamos (os pais) por suas falhas, mas as pessoas absolutamente não aceitam essas mesmas falhas nas mães. Não a aceitamos estruturalmente e não a aceitamos espiritualmente. Porque a base da nossa baboseira judaico-cristão é Maria, Mãe de Jesus, e ela é perfeita”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Se formos avaliar a cinematografia como um todo, a figura da mulher adulta é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kkM_kbZbRVY"><span style="font-weight: 400;">inerente à questão materna</span></a><span style="font-weight: 400;">. Se ela não tem filhos, por que não quer ter? E, se tem, onde eles estão?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais do que isso, é algo intocável. E, é claro, que o mesmo não é comparável aos pais. Na Televisão, basta contestar o fato do porquê costumam estranhar a falta dos comentários ou ações de Midge (Rachel Brosnahan) em relação aos seus filhos em </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-marvelous-mrs-maisel-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">The Marvelous Mrs. Maisel</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, enquanto personagens masculinos como Kendall Roy (</span><a href="https://personaunesp.com.br/os-7-de-chicago-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jeremy Strong</span></a><span style="font-weight: 400;">), de </span><i><span style="font-weight: 400;">Succession</span></i><span style="font-weight: 400;">, sequer são lembrados como pai ou contestados por sua presença nada paterna. Mesmo com todas as suas questões, Bianca e Martha continuam sendo a principal referência de Leda para qualquer aspecto. Quando conversa com Will (</span><a href="https://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><span style="font-weight: 400;">Paul Mescal</span></a><span style="font-weight: 400;">) e ele conta a sua idade, a primeira coisa que ela faz é associar a de sua filha. O papel materno que lhe foi empurrado goela abaixo a vida inteira continua sendo intrínseco a ela. </span></p>
<figure id="attachment_26973" aria-describedby="caption-attachment-26973" style="width: 1400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26973" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/the-lost-daughter-dancing-1.webp" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, Leda, interpretada por Olivia Colman, está dançando em uma festa com Lyle, interpretado por Ed Harris. Leda é uma mulher branca de meia-idade, com cabelos castanhos curtos e escuros, ela usa um vestido rosa de mangas compridas. Lyle é um senhor branco, ele usa uma boina marrom, um casaco marrom escuro, e calças bege claro. É possível ver outros casais dançando ao redor deles. " width="1400" height="700" /><figcaption id="caption-attachment-26973" class="wp-caption-text">Essa edição marca a primeira vez que duas atrizes concorrem ao Oscar pela mesma personagem em um mesmo filme (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em sua estreia, o que Maggie Gyllenhaal faz é digno de </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar+2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A primazia com que transpôs a narrativa de Ferrante, e até deu novos significados a ela, ganhou sua merecida indicação em Roteiro Adaptado. A profundidade de Leda em tela também, em dose dupla, com Olivia Colman, que já virou figurinha carimbada na premiação, e Jessie Buckley estreando na categoria. No circuito independente, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Lost Daughter</span></i><span style="font-weight: 400;"> levou a melhor nas principais premiações do meio, o </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-162650/"><i><span style="font-weight: 400;">Spirit</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o </span><a href="https://ew.com/awards/2022-gotham-awards-winners-list/"><i><span style="font-weight: 400;">Gotham Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. No </span><a href="https://www.omelete.com.br/festival-de-veneza/festival-veneza-vencedores"><span style="font-weight: 400;">Festival de Veneza</span></a><span style="font-weight: 400;">, a diretora ainda ganhou Melhor Roteiro, sinalizando um vindouro reconhecimento da indústria para seu trabalho atrás das câmeras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A genialidade da narrativa nós deixamos para Ferrante, mas o trabalho sagrado de popularizar ela tem o mérito total de Gyllenhaal. Das representações maternas que temos culturalmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma das únicas que encara a questão com sinceridade e respeito a quem ocupa aquele lugar. Apesar da falta de representatividade no audiovisual, Leda está em todos os lugares, com as imperfeições, traumas e dificuldades que carrega. Daí a coragem de Olivia, Jessie, Dakota, Maggie e Elena em conseguirem retratar uma figura com tanta honestidade. De mães, e também filhas perdidas. </span></p>
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		<title>O leite derramado de Mães Paralelas</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Mar 2022 15:38:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori Duas mães, duas Espanhas, dois paralelos. Uma mãe dá à luz a uma criança nascida do amor. Outra, à uma criança nascida da dor. Uma Espanha segue sem culpas do passado sombrio do Franquismo. Outra carrega consigo os traumas geracionais de vestígios mortais dos ossos inidentificáveis que jazem em covas ilegítimas. Firmado pelos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/maes-paralelas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O leite derramado de Mães Paralelas"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26911" aria-describedby="caption-attachment-26911" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26911" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1.png" alt="Cena do filme Mães Paralelas. Nela estão Ana e Janis de costas, em ordem. Ana é uma jovem branca de cabelo curto estilo joãozinho platinado. Ela veste uma jaqueta esportiva azul marinho com detalhes em vermelho nas laterais. Ela segura uma taça de vidro âmbar em direção à Janis, que está à esquerda. Janis é uma mulher branca de meia idade com cabelo castanho médio iluminado e ondulado. Sua roupa é coberta pelo cabelo. O fundo é uma parede verde musgo com retratos de ancestrais emoldurados por molduras vermelhas." width="1920" height="1029" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-800x429.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-1024x549.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-768x412.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-1536x823.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-1200x643.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26911" class="wp-caption-text">Após abrir o Festival de Veneza em 2021, Mães Paralelas foi indicado à duas categorias do Oscar 2022: a de Melhor Atriz e Melhor Trilha Sonora Original (Foto: El Deseo/Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Duas mães, duas Espanhas, </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/12/23/movies/parallel-mothers-review.html"><span style="font-weight: 400;">dois paralelos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Uma mãe dá à luz a uma criança nascida do amor. Outra, à uma criança nascida da dor. Uma Espanha segue sem culpas do passado sombrio do Franquismo. Outra carrega consigo os traumas geracionais de vestígios mortais dos ossos inidentificáveis que jazem em covas ilegítimas. Firmado pelos opostos, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;"> (no original, </span><i><span style="font-weight: 400;">Madres Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;">) </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/pedro-almodovar/"><span style="font-weight: 400;">Pedro Almodóvar</span></a><span style="font-weight: 400;"> posiciona passado e presente, ambos em confronto entre si. O longa dá sequência ao universo melodr</span><span style="font-weight: 400;">amático deslumbrante – mas cru – do cineasta espanhol, desta vez, como manifesto político. O leite já foi derramado e o resquício azedo de sua sujeira continua incrustado nos rejuntes do país. Resta, aceitá-lo.</span></p>
<p><span id="more-26910"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como enredo central da narrativa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;"> acompanha o encontro de duas mães </span><i><span style="font-weight: 400;">solo</span></i><span style="font-weight: 400;"> que engravidaram por acidente: Janis (Penélope Cruz), uma fotógrafa de meia-idade bem sucedida, e Ana (Milena Smit), uma jovem traumatizada. No mesmo quarto hospitalar, momentos antes do parto, elas compartilham suor, gritos e poucas confidências, dando à luz quase simultaneamente as respectivas recém-nascidas. Assim, a breve troca de experiências foi o suficiente para ligar o destino de Janis ao de Ana, numa sucessão de tramas movidas pelo </span><a href="https://institutodecinema.com.br/mais/conteudo/o-cinema-de-pedro-almodovar-"><span style="font-weight: 400;">ritmo autoral</span></a><span style="font-weight: 400;"> do diretor. Através de reviravoltas absurdas, o relacionamento da dupla se progride por diferentes estágios, sejam juntas, como parceiras, ou sós, como mães.</span></p>
<figure id="attachment_26912" aria-describedby="caption-attachment-26912" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26912" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2.png" alt="Cena do filme Mães Paralelas. Nela estão Cecilia e Janis deitadas lado a lado. Cecilia é uma recém nascida branca. Ela usa brincos arrendados na cor dourada e uma roupa rosa pastel de mangas compridas. Janis é uma mulher branca de meia idade com olhos castanhos e cabelo médio castanho iluminado e ondulado. Janis encara a bebê. Ambas estão deitadas numa cama com lençol verde limão detalhado por bordados floridos na mesma cor." width="1920" height="1030" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-800x429.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1024x549.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-768x412.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1536x824.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1200x644.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26912" class="wp-caption-text">Disponível nas plataformas da Netflix e em salas de cinema selecionadas no Brasil, Mães Paralelas é um projeto em desenvolvimento desde 1999, com primeira aparição no universo Almodóvariano em 2009, através de um cartaz exposto em uma cena de Abraços Partidos (Foto: El Deseo/Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com carinho, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> é encarada honestamente pelas diferentes figuras demonstradas no filme. Janis e Ana são genitoras devotadamente calorosas, mas diferentemente delas, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), mãe da segunda personagem, apresenta-se como uma mulher narcisista sem vocação para a coisa. E refletidas por íntimas complexidades, as mães são verdadeiramente humanas. Longe da perfeição, elas são protagonistas da própria sorte e, como tal, elas cometem erros imperdoáveis em nome do amor – “</span><i><span style="font-weight: 400;">Uma mãe e uma filha </span></i><span style="font-weight: 400;">–</span> <a href="https://youtu.be/eOizTkQocaY"><i><span style="font-weight: 400;">que combinação terrível de sentimentos e confusão e destruição</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses laços se progridem em revelações surpreendentes por um palco ainda envolvido pelo carmesim intenso, pelo calor da comida e pela faca amolada. O mundo de Almodóvar é belíssimo, à parte da monotonia cinza comum da realidade. É uma versão </span><a href="https://www.architecturaldigest.com/story/most-iconic-design-moments-pedro-almodovar"><span style="font-weight: 400;">exageradamente brilhante</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma Madri ornada pelas tradições estéticas </span><a href="https://personaunesp.com.br/el-mal-querer-rosalia-critica/"><span style="font-weight: 400;">flamencas</span></a><span style="font-weight: 400;">, pelo surrealismo brilhante e pela propulsão da </span><a href="https://open.spotify.com/album/28r1UyARKoyScuEEgggLo2?si=CDQOtepXSd6Bz0BKp0UAeQ"><span style="font-weight: 400;">trilha sonora</span></a> <i><span style="font-weight: 400;">hitchcockiana</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na cozinha, por exemplo, acontece tudo. Espaço de conexão, a cozinha catalisa o drama narrativo das personagens: nela se cozinha, nela se discute, nela se desperta o </span><i><span style="font-weight: 400;">eros </span></i><span style="font-weight: 400;">sexual, nela se assassina. Um cômodo universal desempenha papel importantíssimo no melodrama </span><a href="https://portaldeperiodicos.animaeducacao.com.br/index.php/Critica_Cultural/article/view/722/pdf_1"><i><span style="font-weight: 400;">camp</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de Almodóvar, como uma espécie de portal entre o novo e a tradição. Os revestimentos se renovam, mas as receitas são heranças ancestrais.</span></p>
<figure id="attachment_26913" aria-describedby="caption-attachment-26913" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26913" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3.png" alt="Cena do filme Mães Paralelas. Nela aparece um par de mãos cortando uma cenoura laranja com uma faca de inox prateada. As mãos estão ampliadas. O fundo é uma tábua de madeira com marcas de usos." width="1920" height="1032" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-800x430.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1024x550.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-768x413.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1536x826.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1200x645.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26913" class="wp-caption-text">O elenco conta com a presença ilustre de Julieta Serrano, Rossy de Palma e Penélope Cruz, três figuras recorrentes na filmografia de Almodóvar (Foto: El Deseo/Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E é em relação à </span><a href="https://www.cartacapital.com.br/cultura/maes-paralelas-expoe-traumas-espanhois-historicos-sem-trair-temas-habituais-de-almodovar/"><span style="font-weight: 400;">ancestralidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que </span><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;"> se corporifica. A inconclusão da Guerra Civil Espanhola e os quase 40 anos de ditadura que se sucederam foi o pontapé inusitado das duas horas de duração do filme, quando Janis lidera um ensaio de fotos com </span><span style="font-weight: 400;">Arturo (Israel Elejalde), um celebrado antropólogo forense cuja especialidade é examinar os restos mortais das vítimas do general Franco, muitas das quais foram sepultadas em valas inapropriadas sem identificação, incluindo o bisavô da fotógrafa. Ela busca por respostas, desenterrando feridas que silenciosamente permaneceram abertas com o passar dos tempos. Aqui, Almodóvar combina a angústia doméstica sentimental com a história nacional política de seu país, de maneira que só o veterano espanhol seria capaz de fazê-lo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De 1977 a 2007, as cicatrizes políticas da Guerra Civil Espanhola foram reprimidas legalmente pelo </span><a href="https://www.dn.pt/cultura/documentario-a-ferida-aberta-do-franquismo-numa-espanha-democratica-10836285.html"><i><span style="font-weight: 400;">Pacto del Olvido</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (ou Pacto do Esquecimento), que garantiu anistia a todos os crimes da ditadura, além de excluir o estudo do período ruinoso no currículo do </span><a href="https://brasil.elpais.com/internacional/2020-09-15/espanha-aprova-lei-que-obriga-ensino-sobre-ditadura-franquista-nas-escolas.html"><span style="font-weight: 400;">ensino escolar</span></a><span style="font-weight: 400;">. E sem a memória do passado, a Espanha seguiu em frente, transicionando para a democracia sem pedras nos sapatos </span><span style="font-weight: 400;">– só que as coisas não são tão simples assim</span><span style="font-weight: 400;">. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Bom, está na hora de você saber em que país mora</span></i><span style="font-weight: 400;">”, diz Janis irritada com o descaso de Ana em relação aos executados pelo regime Franquista, logo se disparando numa aula improvisada de história na cozinha </span><a href="https://youtu.be/5qD9Sxt54ak"><span style="font-weight: 400;">colorida</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26914" aria-describedby="caption-attachment-26914" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26914" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4.png" alt="Cena do filme Mães Paralelas. Nela estão Ana e Janis, em ordem, se encarando frente a frente. Elas estão sobre a mesa de jantar. Ana é uma jovem branca de olhos verdes e cabelo curto estilo joãozinho platinado. Ela veste uma blusa de gola alta com tons mesclados entre variações de vinho. Janis é uma mulher branca de meia idade com olhos castanhos e cabelo médio castanho iluminado e ondulado. Ela veste uma camiseta branca com estampa gráfica escrita “We Should All Be Feminists”. A mesa é de madeira, as cadeiras também, com detalhes em palha. Sobre a mesa está um monitor laranja, uma jarra de vidro cheia de água, copos de vidro, pratos com comidas e uma travessa redonda de vidro com folhas e duas espátulas de madeira. O fundo é uma sala de jantar com paredes verde musgo, uma lareira de mármore acinzentado no centro, acima, um retrato nu em preto e branco de uma mulher negra, duas luminárias com duas esferas em cada e, abaixo delas, dois gabinetes laranjas com objetos variados." width="1920" height="1034" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1024x551.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1536x827.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1200x646.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26914" class="wp-caption-text">Um dos cartazes oficiais do filme causou <a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-08-11/o-criador-do-cartaz-viral-do-filme-de-almodovar-se-o-mamilo-fosse-de-um-homem-nao-o-teriam-censurado.html">polêmica</a> ao exibir um mamilo em lactação, chegando a ser temporariamente removido do Instagram (Foto: El Deseo/Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos mais (in)significantes detalhes, elas se contrastam. Janis, batizada em homenagem à </span><a href="https://personaunesp.com.br/pearl-janis-joplin-50-anos/"><span style="font-weight: 400;">Janis Joplin</span></a><span style="font-weight: 400;">, é filha de mãe solteira </span><i><span style="font-weight: 400;">hippie</span></i><span style="font-weight: 400;">, criada pela avó, também solteira. Ela exala pujança e veste camisetas gráficas datadas com um grande “</span><i><span style="font-weight: 400;">Todas Deveríamos Ser Feministas</span></i><span style="font-weight: 400;">” estampado. Já Ana, é filha de uma atriz egocêntrica e de um pai invisível. Essa, apesar dos acasos trágicos, emana privilégio e ingenuidade confortável sobre o mundo que a envolve </span><span style="font-weight: 400;">– símbolo da “nova” Espanha, de uma geração que não tem nada para se lembrar, mas que, mesmo assim, se lembra. E em tempos de efervescência dos mais diversos negacionismos, Almodóvar bate o pé em reação, desenterrando os escombros empoeirados dos cadáveres espalhados pelo solo espanhol.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Reunindo excepcionalmente o cineasta com Penélope Cruz, o longa não foi a </span><a href="https://cinebuzz.uol.com.br/noticias/cinema-premiacoes/madres-paralelas-de-pedro-almodovar-perde-disputa-interna-e-nao-representara-espanha-no-oscar-2022.phtml"><span style="font-weight: 400;">submissão oficial</span></a><span style="font-weight: 400;"> da Espanha para o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2022</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ainda assim, a presença calorosa de Cruz, que conduz com sutilidade as nuances de uma das </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/cinema/maes-paralelas-por-que-penelope-cruz-nao-conseguiu-parar-de-chorar-durante-filmagens/"><span style="font-weight: 400;">maiores interpretações</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua carreira, foi o bastante para indicá-la à categoria de Melhor Atriz pela Academia, bem como Alberto Iglesias, que também concorre à Melhor Trilha Sonora Original. E apesar de não ter recebido nenhuma outra indicação na temporada de premiações em 2021, além de sua merecida vitória no </span><a href="https://mulhernocinema.com/noticias/mulheres-ganham-leao-de-ouro-e-premios-de-direcao-e-roteiro-no-festival-de-veneza/"><span style="font-weight: 400;">Festival de Veneza</span></a><span style="font-weight: 400;">, Cruz – que chegou a vencer a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante em 2008 com </span><i><span style="font-weight: 400;">Vicky Cristina Barcelona</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido pelo infame </span><a href="https://personaunesp.com.br/allen-contra-farrow-critica/"><span style="font-weight: 400;">Woody Allen</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, se encontra em meio a uma disputa acirrada que pode lhe garantir uma segunda estatueta, dessa vez, ao lado de Almodóvar no oitavo projeto juntos – fruto de uma colaboração veterana poderosa.</span></p>
<figure id="attachment_26915" aria-describedby="caption-attachment-26915" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26915" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5.png" alt="Cena do filme Mães Paralelas. Nela estão nove pessoas agachadas dentro de uma vala aberta, examinando restos de ossos enterrados. Todos vestem camisetas encardidas de terra e luvas de proteção. A vista da imagem é superior, de cima para baixo. O chão da vala é coberto por terra e quatro pedras laterais que formam uma espécie de cruz no centro. No chão, ao lado dos legistas forenses e dos cadáveres, estão pranchetas, sinalização em papel amarelo, baldes, pás e espanadores. A imagem é toda em tons terrosos." width="1920" height="1035" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1536x828.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1200x647.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26915" class="wp-caption-text">No Oscar 2022, Penélope Cruz e Javier Bardem são o 6º casal indicado por atuação no mesmo ano (Foto: El Deseo/Netflix)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz à tona a herança dolorida de vítimas de uma Espanha, ainda sem desfecho digno. Nos minutos finais do filme, a riqueza visual autoral do estilo </span><i><span style="font-weight: 400;">Almodóvariano </span></i><span style="font-weight: 400;">já não cabe mais, tornando-se incômoda, tamanha a densidade da sombra, espessa e depravada, que paira sobre sua narrativa brutalmente direta. Aqui, a ficção serve de lente devastadora para o </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,maes-paralelas-e-o-primeiro-longa-de-almodovar-a-usar-como-pano-de-fundo-guerra-civil-de-1930,70003968219"><span style="font-weight: 400;">documental</span></a><span style="font-weight: 400;">, para o real.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De paralelos à hipérboles se constrói personagens ambíguas, ultrajantes e, apesar disso, amorosas. A </span><a href="https://www.instagram.com/p/CbYiO4FuLv5/"><span style="font-weight: 400;">figura feminina</span></a><span style="font-weight: 400;"> mais uma vez se destaca como força motriz na filmografia do espanhol como diretor. Janis e Ana, verdadeiras </span><i><span style="font-weight: 400;">Mães Paralelas</span></i><span style="font-weight: 400;">, são o âmago do longa. À beira de perder tudo, ambas reivindicam o que lhes é direito, transgredindo os limites dos papéis de gênero. Os segredos são melhores desencavados, na esperança de seguir em frente do passado, sem, no entanto, esquecê-lo, por mais cortante que seja.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Não há história muda. Por mais que a queimem, por mais que a quebrem, por mais que mintam, a história humana se recusa a ficar calada.</span><span style="font-weight: 400;">” <em>(Eduardo Galeano)</em></span></p></blockquote>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Mães Paralelas | Trailer oficial | Netflix" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/50cJUKw9RU8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Mar 2022 17:32:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto &#8220;–claro, – respondi entendendo que o tempo sempre leva as nossas coisas preferidas no mundo e nos esquece aqui olhando pra vida sem elas&#8221; Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em O peso do pássaro morto, Aline Bei &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-peso-do-passaro-morto-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26736" aria-describedby="caption-attachment-26736" style="width: 709px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26736 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg" alt="Capa do livro O peso do pássaro morto. Na imagem, um fundo roxo carrega o título da obra como se as palavras estivessem apoiadas em fios elétricos pretos. No canto superior direito está grafado o nome da autora em branco, já no canto inferior esquerdo é marcada a logo da editora. Ainda há nos extremos da capa os números: 8, 17, 18, 28, 37, 48, 49, 50, 52." width="709" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg 709w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-554x800.jpg 554w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-768x1109.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1063x1536.jpg 1063w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1418x2048.jpg 1418w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1200x1733.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1.jpg 1595w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26736" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto, publicado pela Editora Nós em 2018, é a obra de estreia de Aline Bei (Foto: Editora Nós)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;–claro, – respondi<br />
</span><span style="font-weight: 400;">entendendo que o tempo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sempre leva<br />
</span><span style="font-weight: 400;">as nossas coisas preferidas no mundo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">e nos esquece aqui<br />
</span><span style="font-weight: 400;">olhando pra vida<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sem elas&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto, </span></i><span style="font-weight: 400;">Aline Bei nos convida para integrar essas perguntas em sua poética questionadora, que desde o lançamento do livro em 2018, compõe o ar encantador habitante da crueldade. Em um retrato versado pelo gosto amargo de perder, a autora de </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Rua sem saída</span></i><span style="font-weight: 400;"> apoia-se em palavras duras e sinceras para explorar o ato de se despedir, com toda sua naturalidade devastadora. </span></p>
<p><span id="more-26735"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado pela Editora </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2021/08/13/interna_pensar,1295420/virginia-woolf-leia-entrevista-com-editora-brasileira-de-ensaios-e-diarios.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Nós</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o texto traz uma história comovente na qual a piedade fica por conta do leitor. Com uma escrita proseada e absolutamente fluida, somos  guiados pelos caminhos de uma vida marcada pela morte de flores secas, depois de abandonadas. Através de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos coloca para viajarem sonhos sem asas, dos quais a chance de voar para longe de uma grande gaiola atulhada de frustrações foi roubada pelo tempo. </span></p>
<figure id="attachment_26737" aria-describedby="caption-attachment-26737" style="width: 740px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26737" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.2.jpg" alt="Na imagem a autora Aline Bei. Aline é uma mulher branca de cabelos claros, veste uma roupa de tom quase branco com os ombros à mostra. Ela segura o livro O peso do pássaro morto próximo ao seu rosto. Ao fundo um painel vermelho e o logo da editora constituem o cenário. " width="740" height="640" /><figcaption id="caption-attachment-26737" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto foi o vencedor do prêmio São Paulo de Literatura de 2018, na categoria Melhor Romance de Autor Estreante com Menos de 40 anos (Foto: Aline Bei)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apresentada em primeira pessoa, a personagem de </span><a href="https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Noticia/Entrevista-Aline-Bei#:~:text=Na%20entrevista%20a%20seguir%2C%20Aline,O%20Peso%20do%20P%C3%A1ssaro%20Morto."><span style="font-weight: 400;">Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> não precisa revelar seu nome para nos ser tão íntima a ponto de conhecermos o mais silencioso de dentro dela. Sua urgência vive na narrativa que tem para contar. Em capítulos intitulados pelas idades em que conheceu o incontrolável ato de morrer – seja de forma literal ou na abstração –, ela desabrocha em vocábulos o tom angustiante existente em suas decepções, fracassos e traumas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo das fases do livro, a </span><a href="https://blogs.plural.jor.br/entre-mulheres/uma-entrevista-com-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> amadurece, e o que eram palavras de uma criança curiosa e cheia de perguntas carregadas de inocência, dá lugar para uma voz embargada e desesperançosa. A mudança na escolha lexical, no entusiasmo e na estrutura das frases a cada acontecimento significativo, cria uma atmosfera na qual o livro envelhece e se machuca junto de sua protagonista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> sabe conduzir a oralidade de maneira única, e é fácil esquecer que </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> se trata de uma leitura, pois assim, o som emitido pela protagonista se solidifica. Desta forma, os vários anos parecem se condensar em um espaço pequeno, mas totalmente completo por complexidade e sentimento. As 165 páginas construtoras da dor da anônima voam tão rápido quanto os pássaros deveriam ter feito.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;voltei pra casa chamando mãe,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">– cadê o seu luís?<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ela não tinha me contado nada porque achou que era muita morte pra eu saber de uma vez só.&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A</span><span style="font-weight: 400;"> menina que aos 8 encontra o significado da </span><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/a-dificuldade-de-falar-sobre-a-morte/"><span style="font-weight: 400;">morte</span></a><span style="font-weight: 400;"> como fim da vida, a de 17 que encontra a morte no fim do controle de si mesma, e a de 18 que encontra a morte no começo da vida segue perdendo seus pedaços até os 52 anos. Todas as versões se cruzam para formar uma sobrevivente, e no piloto automático resiste uma mulher que, de tanto perder, abdicou do seu direito de sentir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em algum ponto de </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ser dá lugar ao existir, e os gostos, as vontades e os desejos da personagem são ofuscados por acontecimentos. A pergunta deixa de ser “</span><i><span style="font-weight: 400;">quem?</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e se torna “</span><i><span style="font-weight: 400;">quando?”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">onde?”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Calada por um medo e vergonha que não eram seus, mas passaram a morar em seu âmago </span><a href="https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/11/16/luto-e-dor-invisiveis-como-o-estupro-afeta-a-saude-mental-das-vitimas.htm"><span style="font-weight: 400;">à força</span></a><span style="font-weight: 400;">, ela se esconde e passa a desconhecer o amor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação com o filho é uma dos maiores conflitos abrigados pela mente da personagem, já que alguém vindo de seu sangue, na teoria da </span><a href="https://sul21.com.br/noticias/geral/2017/05/outro-lado-da-maternidade-estereotipos-expectativas-e-mitos-sao-barreiras-para-maes/"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> idealizada pela sociedade, é o amor mais verdadeiro e incodicional da vida de uma mulher. Entretanto, aqui ele representa um estranho com o qual se compartilha o mesmo teto. Por trás das barreiras, há feridas tão profundas que são incapazes de esconder a extensão do desespero. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;meu filho<br />
</span><span style="font-weight: 400;">arrumou 1 Estilingue não sei onde.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">da janela do quarto<br />
</span><span style="font-weight: 400;">o lucas e os amigos<br />
</span><span style="font-weight: 400;">bolaram um plano de matar<br />
</span><span style="font-weight: 400;">passarinhos,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">eles gostam de ver<br />
</span><span style="font-weight: 400;">brutalmente interrompido<br />
</span><span style="font-weight: 400;">algo delicado que estava em<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Movimento&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao fim, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> está intrinsecamente ligado às </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/aline-bei-faz-da-literatura-um-instrumento-a-servico-das-mulheres.shtml"><span style="font-weight: 400;">mulheres</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ao movimento dos corpos femininos transformados em objetos públicos para o mundo se sentir no direito de  moldar. Em suas entrelinhas, o livro guarda a alusão a tudo que as mãos de uma mulher tem de soltar enquanto a alma carrega um peso latente e agressivo determinado pela trivialidade de ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com simplicidade e brutalidade, o texto expõe os resultados dolorosos de cortes que continuam ardendo depois de estancar o sangue. Cada parte do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EJ2TSnZjpYg"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> revela como uma pessoa pode deixar se ser inteira cedo demais de uma forma cativante e aflitiva. Assim, perder não é sobre um objeto desaparecido. É sobre vida, ingenuidade, pureza, confiança e tudo que representa a fé, sumindo como o pássaro que é acertado pela pedra de um estilingue.</span></p>
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		<title>A esperança é o antídoto para o vício em Four Good Days</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 20:53:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Sabrina G. Ferreira A narrativa de Four Good Days tinha tudo para ser óbvia e seguir o roteiro clássico de um filme com essa abordagem, entretanto o que se vê é um show de atuações, e um recorte instigante do problema apresentado. Baseado em fatos reais, o longa dirigido por Rodrigo García (Em Terapia, Questão &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/four-good-days-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A esperança é o antídoto para o vício em Four Good Days"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26680" aria-describedby="caption-attachment-26680" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26680" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-5.jpg" alt="Cena do filme Four Good Days. Na imagem, vemos uma mulher de meia idade à esquerda; de cabelos loiros com franja, lisos e curtos; e pele clara. Ela está usando uma camisa de mangas longas, estampada de marrom e amarelo, uma calça bege, e está com os braços cruzados. Ela está sentada em uma cadeira verde escura estofada, com as pernas cruzadas, com uma expressão de preocupação, olhando para a moça que está sentada ao seu lado direito. Ao lado dela, à direita, está uma mulher jovem. Ela tem cabelos compridos, loiros, lisos e soltos. Ela está usando uma camisa xadrez cinza de mangas longas, com outra camiseta cinza por baixo, e calça preta; está olhando séria para a senhora que está sentada à sua esquerda, com as mãos fechadas sobre as pernas. Atrás delas há uma parede azul clara, com um quadro de tamanho médio. Elas estão em ambiente interno." width="1200" height="732" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-5.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-5-800x488.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-5-1024x625.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-1-5-768x468.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26680" class="wp-caption-text">Indicado ao Oscar 2022, Four Good Days mostra-nos a realidade do consumo excessivo de substâncias ilícitas e como esse abuso pode destruir os laços familiares mais fortes, como o de mãe e filha (Foto: Vertical Entertainment)</figcaption></figure>
<p><b>Sabrina G. Ferreira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Four Good Days</span></i><span style="font-weight: 400;"> tinha tudo para ser óbvia e seguir o roteiro clássico de um filme com essa abordagem, entretanto o que se vê é um </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">de atuações, e um recorte instigante do problema apresentado. Baseado em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1S4M5Xi5IJ4"><span style="font-weight: 400;">fatos reais</span></a><span style="font-weight: 400;">, o longa dirigido por </span><a href="https://www.latimes.com/entertainment-arts/books/story/2021-07-29/rodrigo-garcia-farewell-to-gabo-and-mercedes-book-club"><span style="font-weight: 400;">Rodrigo García</span></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><a href="https://personaunesp.com.br/in-treatment-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Em Terapia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.nytimes.com/2005/10/14/movies/nine-women-and-nine-intense-moments-in-their-lives.html"><i><span style="font-weight: 400;">Questão de Vida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), mostra a trajetória de Molly (</span><a href="https://www.glamour.com/story/mila-kunis-hilariously-reignited-that-whole-bathing-her-kids-debate"><span style="font-weight: 400;">Mila Kunis</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma mulher jovem viciada em drogas, que retorna para a casa da sua mãe, Deb (</span><a href="https://pagesix.com/2021/05/21/glenn-close-says-shes-traumatized-after-cult-upbringing/"><span style="font-weight: 400;">Glenn Close</span></a><span style="font-weight: 400;">), em busca de ajuda para vencer sua dependência química. Após levar a filha à reabilitação, pela 15ª vez, elas descobrem um método novo e intensivo de cura para o vício, mas para iniciar o tratamento, Molly precisa ficar quatro dias sem usar nenhum tipo de droga.</span></p>
<p><span id="more-26679"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta é a premissa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Four Good Days</span></i><span style="font-weight: 400;">, que fez sua pré-estreia no </span><a href="https://www.sundance.org/projects/four-good-days"><i><span style="font-weight: 400;">Festival de Sundance</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 2020, e agora concorre ao </span><a href="https://www.oscars.org/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;"> na categoria de Melhor Canção Original com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=r_sSxlIjDzE"><i><span style="font-weight: 400;">Somehow You Do</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, composta por </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/quem-e-diane-warren-a-eterna-favorita-ao-oscar-de-melhor-cancao/"><span style="font-weight: 400;">Diane Warren</span></a><span style="font-weight: 400;">, mulher mais nomeada aos prêmios da Academia sem nunca ter ganho. Graças ao trabalho de longa data na área de trilhas sonoras, com as faixas icônicas </span><a href="https://www.magazine-hd.com/apps/wp/historia-oscares-diane-warren-cancoes/7/"><i><span style="font-weight: 400;">There You’ll Be</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pearl Harbor</span></i><span style="font-weight: 400;">, e </span><a href="https://www.radiorock.com.br/2021/02/08/dont-wanna-miss-thing-aerosmith-foi-feita-para-ser-cantada-por-uma-mulher-diz-compositora/"><i><span style="font-weight: 400;">I Don’t Want To Miss A Thing</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Armagedom</span></i><span style="font-weight: 400;">;</span> <span style="font-weight: 400;">até o momento foram 13 indicações, e infelizmente, nenhuma vitória.</span></p>
<figure id="attachment_26681" aria-describedby="caption-attachment-26681" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26681" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-6.jpg" alt="Cena do filme Four Good Days. Na imagem, vemos uma mulher jovem à esquerda; de cabelos loiros, lisos, amarrados em um coque; e pele clara. Ela está usando um vestido comprido de cor verde, estampado com flores pequenas, uma camiseta verde escura de mangas longas, e está com os braços cruzados, enquanto olha para baixo. Ao lado dela, à direita, está uma mulher de meia idade. Ela tem cabelos curtos, loiros, lisos e com franja. Ela está usando uma camisa jeans de mangas longas, com outra camiseta vermelha por baixo, e calça preta; está olhando séria para a moça que está à sua esquerda. Ambas estão em pé, paradas em uma calçada na rua. Atrás delas há algumas casas e algumas árvores. Está de dia e está sol." width="2048" height="1363" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-6.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-6-800x532.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-6-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-6-768x511.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-6-1536x1022.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-2-6-1200x799.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26681" class="wp-caption-text">A trama é baseada em história real publicada no Washington Post em 2016, escrita pelo premiado jornalista <a href="https://www.youtube.com/watch?v=jm2RIu9R7Ks">Eli Saslow</a> (Foto: Vertical Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da trama previsível e sem grandes surpresas, o destaque mesmo é a dupla de protagonistas. Mila Kunis e Glenn Close desempenham seus papéis </span><a href="https://www.cbr.com/glenn-close-mila-kunis-four-good-days-review/"><span style="font-weight: 400;">de forma impecável</span></a><span style="font-weight: 400;">, recriando uma dinâmica familiar repleta de emoções, que vão desde o passado até o presente, envolvendo decisões, erros e perdão por parte das duas, enfatizando o relacionamento de ambas e criando várias cenas comoventes de mãe para filha (e vice-versa).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto temos Glenn Close interpretando uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4KNss3wyEpE"><span style="font-weight: 400;">mãe traumatizada</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelas ações de sua filha no passado &#8211; é perceptível pela sua casa, que é toda é acionada por alarmes &#8211; e até mesmo culpada por ter abandonado a família quando as filhas eram adolescentes e necessitavam de uma figura materna, Mila Kunis vive a filha que tinha tudo para ter um futuro promissor. Mas, após um acidente esportivo, se vê submetida a um tratamento à base de opióides e agora, se encontra dependente e totalmente destruída pelas drogas, em uma circunstância que lhe arruinou a vida e o casamento, e que a afastou dos dois filhos, e frequentemente, </span><a href="https://www.indiewire.com/2021/04/four-good-days-review-glenn-close-mila-kunis-1234634212/"><span style="font-weight: 400;">culpa a mãe</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela falta de apoio e seu vício na adolescência.</span></p>
<figure id="attachment_26682" aria-describedby="caption-attachment-26682" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-3-7.jpg" alt="Cena do filme Four Good Days. Na imagem, vemos quatro pessoas sentadas em uma mesa de madeira. No canto à esquerda, está um garoto de cabelos lisos e pretos, pele clara, vestindo uma camiseta cinza; ele tem as mãos fechadas sobre a mesa. Ao lado dele está uma garotinha, de cabelos loiros, ondulados e compridos, soltos sobre os ombros, com uma flor rosa na cabeça. Ela está vestindo uma blusa rosa de mangas longas, está olhando para baixo, e tem os braços cruzados sobre a mesa. Do lado direito dela há um homem, de boné cinza, pele clara, barba por fazer e vestindo uma camiseta cinza de mangas longas. Ele está olhando para a garota, com as mãos sobre a mesa. Do outro lado da mesa há uma moça, de cabelos loiros, lisos, amarrados em um coque. Ela usa um vestido verde, com uma camiseta verde escura de mangas longas por baixo. Ela também está olhando para a garota, e tem as mãos sobre a mesa. Há uma toalha estreita e fina no meio da mesa. O ambiente é interno, com paredes beges, e alguns móveis de madeira e quadros atrás deles. Está de dia e aparenta estar sol." width="1024" height="681" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-3-7.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-3-7-800x532.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-3-7-768x511.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26682" class="wp-caption-text">Fica claro o desconforto e o estranhamento dos filhos diante da mãe (Foto: Vertical Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem está acostumado com o semblante de Mila Kunis em outros trabalhos como em </span><a href="http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,ERT213250-17642,00.html"><i><span style="font-weight: 400;">Cisne Negro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, é assustadora a imagem da atriz, que com o auxílio de maquiagem, e um corpo exageradamente magro e curvado, na condição de alguém que já não consegue suportar o peso de seu próprio esqueleto, parece realmente uma pessoa devastada pela dependência química. Fica evidente o sofrimento da protagonista quando o ex-marido, papel de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8cDUWCJpNfw"><span style="font-weight: 400;">Joshua Leonard</span></a><span style="font-weight: 400;">, traz seus filhos para uma visita e vemos um vislumbre da vida que ela poderia ter tido se tivesse seguido outros rumos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto ao roteiro do vencedor do </span><a href="https://www.pulitzer.org/winners/eli-saslow"><span style="font-weight: 400;">Prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">Pulitzer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 2014, Eli Saslow, e do próprio García, o texto não é nem um pouco diferente de outras </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2018/sep/08/beautiful-boy-review-timothee-chalamet-shines-in-grim-addiction-drama"><span style="font-weight: 400;">produções recentes</span></a><span style="font-weight: 400;"> que tratam desta mesma temática, muitas vezes exagerando ao mostrar a verdade nua e crua de uma família que vive inúmeros problemas por ter um filho viciado em drogas. As situações são quase sempre as mesmas, e qualquer pessoa com conhecimento deste tipo de comportamento já deduz tudo o que virá no decorrer da narrativa. Entretanto, não deixa de ser um tema complicado e pesado e ao mesmo tempo importante de ser sempre lembrado e exposto.</span></p>
<figure id="attachment_26683" aria-describedby="caption-attachment-26683" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26683" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-7.jpg" alt="Cena do filme Four Good Days. Na imagem, vemos uma moça abraçando uma senhora. A senhora está sentada em uma cadeira, de frente para uma mesa de madeira, com algumas taças em cima. Ela tem cabelos curtos, loiros, lisos e com franja, e veste uma blusa roxa de mangas longas; está com uma das mãos sobre a mesa, enquanto a outra está sobre o braço da outra mulher. A moça que está abraçando a senhora tem cabelos loiros, lisos e compridos e pele clara. Ela veste uma camisa marrom de mangas longas e calça jeans. Atrás delas, há um armário de madeira com portas de vidro, com algumas peças de porcelana dentro. Elas estão em ambiente fechado." width="1200" height="798" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-7.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-7-800x532.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-7-1024x681.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-7-768x511.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26683" class="wp-caption-text">A história desfaz a visão de que problemas como esse são enfrentados por quem não teve boas oportunidades na vida (Foto: Vertical Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No desfecho, após as várias tentativas e a irredutível crença de Deb na </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/04/29/movies/four-good-days-review.html"><span style="font-weight: 400;">recuperação da filha</span></a><span style="font-weight: 400;"> quando mais ninguém acreditava, temos por fim a concretização de um final feliz. Depois de uma recaída e uma overdose, Molly consegue se desintoxicar das drogas e ter a chance de lutar pelo seu futuro como filha e como mãe. </span><i><span style="font-weight: 400;">Four Good Days</span></i><span style="font-weight: 400;"> é sobre a impaciente amargura de que tudo o que foi conquistado poderá acabar assim, do nada. O milagre da cura para o vício seria a espera durar um pouco mais, e os dias tornarem-se meses, e anos. </span><a href="https://www.freep.com/story/entertainment/movies/julie-hinds/2021/05/20/glenn-close-film-addiction-based-metro-detroit-mom-and-daughter/5162558001/"><span style="font-weight: 400;">As mães continuarão acreditando</span></a><span style="font-weight: 400;">, e os filhos seguirão tentando.</span></p>
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		<title>A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Feb 2022 20:43:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra &#8220;As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender&#8220;, define muito bem Elena Ferrante no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca, A filha perdida traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26020" aria-describedby="caption-attachment-26020" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26020 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg" alt="Imagem retangular de fundo laranja. Ao centro, foi adicionada a capa do livro A Filha Perdida, um selo escrito Clube do Livro Persona no canto direito inferior e o logo do Persona no canto esquerdo superior. A capa é repleta de casas de telhado marrom avermelhado, no estilo mediterrâneo. É possível ver o céu e o mar azuis e uma torre verde. Está escrito, em letras brancas, &quot;A FILHA PERDIDA&quot; e &quot;ELENA FERRANTE&quot;. Na parte inferior central, há o selo da Intrínseca." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26020" class="wp-caption-text">Recentemente adaptado para o cinema, A filha perdida foi a escolha para o mês de dezembro de 2021 no Clube do Livro do Persona (Foto: Intrínseca/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, define muito bem </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">Elena Ferrante</span></a><span style="font-weight: 400;"> no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Intrínseca</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por sua honestidade cortante, numa proposta de encarar com honestidade o que talvez seja um dos principais aspectos da experiência da mulher na sociedade &#8211; e também </span><a href="https://blogueirasfeministas.com/2011/05/08/feminismo-maternidade-e-a-briga-nossa-de-cada-dia/"><span style="font-weight: 400;">um dos assuntos mais intocáveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> desde o início dos tempos -: a maternidade.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span id="more-25952"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pretexto para uma análise do lugar mais comum da formação da sociedade também deveria ser simples e acessível, numa direção completamente inversa à que sua complexidade pode sugerir. Então, assim </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">La figlia oscura</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original) o faz: o livro nos coloca para acompanhar a história de </span><a href="https://claudia.abril.com.br/coluna/cronicas-de-mae/escolhas-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">uma mãe e suas filhas</span></a><span style="font-weight: 400;">, que recai também sobre a sua história com sua própria mãe e sua experiência enquanto filha. O recorte e o objeto escolhidos surgem de um período de férias de Leda, uma professora universitária de meia idade, divorciada e mãe de Bianca e Marta, de 22 e 24 anos, que procura descanso no litoral sul da Itália, próxima da cidade onde nasceu e cresceu, depois que as filhas vão morar com o pai em outro país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas Elena Ferrante não permite que o mergulho da personagem fique apenas nas águas pacificamente salgadas e agradavelmente ondulosas. O que deveria ser um momento de repouso para Leda se transforma num processo intenso de autorreflexão, desencadeado a partir do momento em que a personagem repara uma família também de férias pela região. Ela estabelece uma </span><a href="https://artrianon.com/2022/01/14/a-filha-perdida-livro-e-filme-um-honesto-relato-entre-os-tabus-da-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">identificação singular</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Nina, a jovem mãe de Elena, que sempre se mostra um tanto deslocada do resto daquele grupo de pessoas &#8211; exceto quando exercendo passionalmente a sua maternidade. </span></p>
<figure id="attachment_25955" aria-describedby="caption-attachment-25955" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25955" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg" alt="" width="1280" height="853" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25955" class="wp-caption-text">Nos cinemas, a história foi contada por Maggie Gyllenhaal, numa estreia impressionante da diretora e roteirista, que saiu premiada do <a href="https://www.instagram.com/p/CT5ssphNzJv/">Festival de Veneza 2021</a> (Foto: Yannis Drakoulidis/Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao observar as cenas protagonizadas pela família napolitana e deixar-se afetar pela maresia enquanto sozinha e longe de casa, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> acaba em memórias que remexem sentimentos profundos sobre sua família, infância, casamento e, principalmente, o início de sua vida como mãe. Impulsionada pela imersiva escrita em primeira pessoa, Elena Ferrante é dolorosamente sincera sob o pretexto de verbalizar as emoções de Leda, dedicando-se quase compulsivamente a um livro repleto de ‘canetadas’ sobre seu complexo tema central, que é marcado por </span><a href="https://leiturinha.com.br/blog/maternidade-real/"><span style="font-weight: 400;">vivências profundas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de quem o experiencia, mas também alvo de uma </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/televisao,a-filha-perdida-perturba-ao-tocar-na-sacralizacao-da-maternidade,70003941704"><span style="font-weight: 400;">sacralização</span></a><span style="font-weight: 400;"> histórica vinda de quem o observa de fora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por consequência &#8211; muito bem calculada, vale ressaltar -, a única coisa que não pode ser encontrada na protagonista é o estereótipo do </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">amor de mãe</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Leda está completamente à vontade conversando consigo mesma, e nada esconde de quem toma parte de suas emoções, mostrando-se uma personagem que, muito longe de ser agridoce, é acidamente amarga. Mas ao contrário do que todas as suas camadas podem sugerir, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> é profundamente relacionável, como o resultado de um estudo preciso da mulher que é marcada pela inevitabilidade de pelo menos uma das duas vias trabalhadas pelo romance: a experiência de uma mulher </span><a href="https://www.imagempalavramovimento.com/single-post/2016/05/06/ser-m%C3%A3e-e-ser-filha"><span style="font-weight: 400;">como filha e como mãe</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seguindo o caminho de forte oposição aos polidos padrões patriarcais, a linguagem de Elena Ferrante não procura atender nada que não seja a verdade de quem vive além de todas as </span><a href="https://agorasoumae.com.br/estereotipo-de-mae-como-a-sociedade-limita-a-mulher-ao-de-mae/"><span style="font-weight: 400;">expectativas impossíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> de benevolência, controle e sabedoria. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> não nos deixa enganar: a sinceridade de sua protagonista pode parecer autodepreciativa, mas Leda é austera demais até para o nível mais complexo de autopiedade e distanciamento da realidade. Vide os momentos mais críticos de sua história, onde é comum encontrar uma reação viciada da personagem, que como forma de se defender dos julgamentos, tentar compreender seu próprio comportamento e/ou até mesmo como forma de expressar a confusão mental que surge após relembrar memórias tão emocionalmente atribuladas, desabafa fria e sinceramente um &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Não sei o que aconteceu&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Bianca uma vez gritou para mim, aos prantos: você sempre se acha superior. E Marta: por que você quis nos ter se não faz outra coisa além de se queixar de nós? Pedaços de palavras, sílabas apenas. <strong>Sempre chega o momento em que os filhos dizem com raiva e tristeza: por que você me deu a vida?</strong></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas se a narrativa recusa completamente o principal aspecto dos padrões maternais, outro elemento fundamental da experiência é o que mais transborda das vivências de Leda &#8211; e incomoda o leitor de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ela nutre uma consciência concreta de tudo, desde o que recebeu da mãe, seus traumas, até o que deixou para as filhas e os padecimentos das garotas. Para encerrar o panorama emocional do livro, Ferrante orienta tudo isso para desencadear o sentimento mais silencioso de suas páginas reflexivamente barulhentas. E quanto à </span><a href="https://vogue.globo.com/moda/moda-news/noticia/2019/08/importancia-de-outras-maes-para-uma-maternidade-com-menos-culpa.html"><span style="font-weight: 400;">emoção mais ingrata</span></a><span style="font-weight: 400;"> para uma mulher que exerce o papel de mãe, não há o que ser discutido além da própria expressão da personagem: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Era o sentimento de culpa: eu achava que todo sofrimento que atingisse as minhas filhas era fruto do já comprovado fracasso do meu amor</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É assim que </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> compõe o retrato complexo do relacionamento mãe-e-filha, aprofundando uma análise sobre relações </span><a href="https://www.32rba.abant.org.br/arquivo/downloadpublic?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNToiYToxOntzOjEwOiJJRF9BUlFVSVZPIjtzOjQ6IjMyNDciO30iO3M6MToiaCI7czozMjoiZWQyMDQ3NDQ2MDQxZWIxZWE3OTJhODg0MmEwY2ZlYTciO30%3D"><span style="font-weight: 400;">intergeracionais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Uma menina rigidamente criada em padrões de gênero se transforma em uma mulher que cria duas garotas em uma nova época, ciente dos comportamentos maternos que lhe foram traumáticos, mas que, ao mesmo tempo, ainda carrega marcas teimosas de estereótipos sexistas e misóginos. Não por acaso, a personagem carrega como certeza a ideia de que o que mais ama em suas filhas é o que é estranho à sua própria personalidade. Assim, Leda é indiscutivelmente uma filha machucada e uma mãe que machuca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre comparações, intromissões e julgamentos que orientam sua interação com Marta e Bianca, Leda constrói sua autopercepção através da visão que as filhas têm dela &#8211; ou mais precisamente, a que acredita que elas têm. Entre ser aterrorizada pela possibilidade de infelicidade das garotas e manifestar comportamentos destrutivos para aspectos importantes da vida das duas, </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/04/11/por-que-tantas-mulheres-repetem-na-relacao-atitudes-que-criticavam-nas-maes.htm"><span style="font-weight: 400;">a relação paradoxal entre as mães e as filhas</span></a><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais longe de ser um ideal. E enquanto isso, a trama de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais próxima da realidade.</span></p>
<blockquote><p>“Nas conversas com as minhas filhas, ouço palavras ou expressões omitidas. Às vezes, elas ficam com raiva e dizem “mamãe, eu nunca falei isso, é você que está dizendo, você inventou isso”. Mas eu não invento nada, só escuto, <strong>o não dito fala mais que o não dito</strong>.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Em momento algum, porém, a escrita de Elena Ferrante coloca a sua protagonista em vestes vilanescas. É para aprofundar ainda mais </span><a href="https://glamour.globo.com/lifestyle/noticia/2022/01/a-filha-perdida-lembra-que-maes-sao-antes-de-tudo-mulheres.ghtml"><span style="font-weight: 400;">a humanidade da personagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, aliás, que existe o gatilho da história, quando a imagem de Nina atrai o olhar de Leda. Ela já tem um histórico de encantamento por mulheres jovens manifestando felicidade e liberdade, como os devaneios do livro e algumas figurantes introduzem muito bem, mas encontrar alguém em seus </span><a href="https://www.revide.com.br/noticias/cidades/dia-das-maes-sobre-ser-mae-e-ser-jovem/"><span style="font-weight: 400;">vinte e poucos anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> (aparentemente) contente com a própria maternidade é demais para aquele psicológico, que foi pego de surpresa por um ser crescendo dentro de si quando tinha 23 anos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É que a autora de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i> <a href="https://valkirias.com.br/personagens-limitrofes-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">respeita demais suas personagens</span></a><span style="font-weight: 400;"> e nem mesmo a jovem-segunda-protagonista está ali apenas como um alvo de projeção. Não há como fugir da perspectiva das mães da história, afinal. Então, Nina também tem espaço para revelar suas questões à medida em que se aproxima de Leda. Oscilando radicalmente entre ilustrar uma mãe ideal e exemplificar a </span><a href="https://www.analuizadefigueiredosouza.com.br/post/maternidade-compuls%C3%B3ria-defini%C3%A7%C3%A3o-e-problematiza%C3%A7%C3%B5es#:~:text=De%20modo%20mais%20simples%2C%20conforme,represente%20de%20fato%20uma%20escolha.&amp;text=A%20socializa%C3%A7%C3%A3o%20feminina%20%C3%A9%20fortemente%20marcada%20pelo%20maternalismo."><span style="font-weight: 400;">maternidade compulsória</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; que apreende as meninas desde o momento em que elas passam a existir neste mundo -, a relação das duas segue complexa. Assim, Ferrante traz fôlego narrativo ao livro, mais como história e menos como análise social, ao mesmo tempo em que funde as duas perspectivas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/lorena-portela/a-filha-perdida-nao-funcionaria-com-um-pai-no-papel-principal-e-isso-e-um-problema-1.3180803"><i><span style="font-weight: 400;">E cadê o pai dessas crianças?</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, alguém que lê um texto sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode se perguntar. Aqui está mais um estalo genial de Elena Ferrante: a completa desnecessidade de mencionarmos o homem que concebeu as garotas junto de Leda diz muito sobre o tipo de história encontrada em </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sem precisar da representação de uma figura de paternidade totalmente ausente, o livro mostra que pouco importa sua ação dentro da narrativa. E num retrato fiel de quem absorve a ideia social de que é a principal responsável pelos filhos numa série de cuidados tidos como impossíveis de serem divididos, a amargura de Leda não o tem entre seus principais alvos.</span></p>
<blockquote><p>“Assim, aos vinte e poucos anos, qualquer outra brincadeira havia acabado para mim. O pai corria mundo afora, uma oportunidade atrás da outra. Não tinha nem tempo de reparar o que fora copiado do seu corpo, como havia resultado a reprodução. Mal olhava as duas meninas, mas dizia com ternura verdadeira: são iguaizinhas a você. Gianni é um homem gentil, nossas filhas gostam dele. <strong>Ele cuidou pouco ou nada delas, mas, quando foi necessário, fez tudo o que podia, agora também faz tudo o que pode.</strong>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Para uma história totalmente fundamentada na densidade emocional de idas e vindas de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se organiza num ritmo regular. Trazendo ordem ao caos, os capítulos de Elena Ferrante parecem seguir um padrão muito bem disfarçado, sempre desenrolando um momento presente que logo desencadeará uma reflexão íntima na personagem que narra a história. Entretanto, </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,escrever-e-como-girar-a-faca-na-ferida-revela-elena-ferrante,70003417132"><span style="font-weight: 400;">a maestria da autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> não permite conclusões precipitadas: em momento algum, essa construção se transforma num defeito do romance, já que a progressão de sua trama é tão imprevisível quanto o caminho da mente desenfreada de Leda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto às polêmicas sobre a identidade por trás de um dos nomes de maior sucesso da Literatura contemporânea, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> estreita as possibilidades. A facilidade com que a autora arquiteta as digressões de Leda só pode surgir de um </span><a href="https://valkirias.com.br/as-mulheres-de-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">lugar radical de identificação e análise</span></a><span style="font-weight: 400;">. E é fato que a universalidade do tema faz com que a tradução do livro não seja um ponto de complicação para </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/elena-ferrante-marcello-lino/"><span style="font-weight: 400;">Marcello Lino</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas é de se questionar porque a edição brasileira não apostou numa transcrição que tivesse mais proximidade com as experiências que Elena Ferrante decidiu retratar. A impressão é de que a pessoa por trás do pseudônimo tem completa ciência de que isso poderia acontecer com as suas traduções pelo mundo, porque a objetividade de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> ancora suas leituras mais profundas em representações concretas &#8211; a boneca, a pinha, o ventre, a agulha e quem sabe até a personagem que compartilha o mesmo nome da autora.</span></p>
<blockquote><p>“As línguas, para mim, têm um veneno secreto que de vez em quando aflora e para o qual não há antídoto.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">É preciso ressaltar, no entanto, que a obra não se sufoca numa narrativa monotemática, mas ainda provoca reflexões sobre o próprio processo de formação de uma família, a cultura italiana e até observações linguísticas. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> em nada é o que parece. Muito mais do que ancorar um suspense ou melodrama, o romance, de forma quase metalinguística ao trabalho de sua autora, está em algo além: </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/28/estilo/1551353871_772692.html"><span style="font-weight: 400;">o maior trabalho que se pode ter na vida</span></a><span style="font-weight: 400;"> enquanto em uma das posições mais difíceis que se pode estar dentro da sociedade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para suceder o aclamado </span><a href="https://www.instagram.com/p/COv4EEtHyKu/?utm_medium=copy_link"><i><span style="font-weight: 400;">Dias de Abandono</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2002), visto por boa parte da crítica literária como o seu melhor romance, Elena Ferrante voltou o seu olhar para a complexidade deste processo, envolto em estereótipos de gênero, padrões históricos de comportamento, expectativas enormes de coisas que são muito maiores do que nós. Em seus caminhos para tal, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> conclui uma observação: </span><a href="https://lunetas.com.br/a-filha-perdida/"><span style="font-weight: 400;">todas nós</span></a><span style="font-weight: 400;"> somos a filha perdida em algum aspecto. Menos a criação de Elena Ferrante, que é plenamente consciente de tudo isso, sabe onde está, e certamente saberá onde te encontrar.</span></p>
<p><a href="https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6">https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6</a></p>
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