Melhores discos de Março/2017

fora temer
I’m gonna make him a churras he can’t refuse

Pra evitar que você, leitor, consumisse carne estragada e passássemos vexame, nossa curadoria aproveitou o recesso para debulhar o máximo de discos possíveis – sem terceirização! O resultado foi bastante frutífero, e nossa seleção abrange de Brasil à China, indo do pop ao noise

cachorro do demônio

Blanck Mass – World Eater

industrial

World Eater é o  terceiro disco do projeto solo de John Power, metade do duo eletrônico Fuck Buttons, conhecido por sua sonoridade massiva e pela improvável trilha sonora da abertura da olimpíadas de 2012.

Aqui, invés das animadas composições psicodélicas do grupo anterior, o som se volta à agressividade industrial, como sugerido pela intimidante capa ilustrada por um cão. No entanto, alguns resquícios do trabalho passado elevam a qualidade do disco: em meio ao barulho e a instrumentação mecânica, o álbum é repleto de samples e melodias cativantes, que lhe conferem um ar estranhamente pop. Destaque para os hipnóticos nove minutos de “Rhesus Negative” (MF)


charli xcx fancy pc music

Charli XCX – Number 1 Angel

pop, pc music

Em 2016, a popstar britânica da vez anunciou um selo (junto de um ep homônimo, Vroom Vroom), onde lançaria artistas que “poderiam mudar a face do pop atual”, assim como poderia ter maior liberdade para experimentar novas sonoridades. No entanto, sua parceria com os produtores do PC Music (selo cujo som pós-irônico virou até rótulo musical) se revelou mais interessante do que propriamente boa.

Nesta nova mixtape, a história é outra. As ideias apresentadas no ep foram lapidadas e expandidas, e o resultado não é menos que delicioso. Em 10 faixas, XCX e o time de produtores da PC Music entregam um produto exagerado, festeiro e muito, mas muito, grudento. Só mesmo gente com perfeito domínio do jogo pop pra converter os elementos mais previsíveis em algo tão estiloso. (NV)


djonga rap nacional clube da esquina

Djonga – Heresia

hip-hop

Em seu debut, o rapper mineiro se consolida como um dos principais nomes do rap brasileiro atual, com rimas rápidas e repletas de referências à cultura pop (desde a capa, que acena ao álbum quintessencial da música mineira, Clube da Esquina). Destaque para Esquimó, e para O Mundo é Nosso, faixa que conta com a participação do rapper Bk, responsável por um dos melhores sons de 2016. (MF)


drake passionfruit meme hotline bling

Drake – More Life

hip-hop, dancehall

Em sua nova playlist (sim, essa é a definição oficial), o rapper canadense continua sua jornada internacional cheia de ritmos caribenhos, gírias em patois e MCs de grime, gênero favorito de Drake, representado aqui nas participações de Giggs e Skepta. Assim, More Life captura um dos lados fortes do rapper e sua equipe de produção: a capacidade de catalisar tendências e lançá-las ao mainstream, em uma relação de predador e incentivador dessas culturas.

Alguns defeitos do disco anterior, VIEWS, continuam. O principal é a duração, com 22 faixas e 1h21min é difícil manter o ritmo. Próximo ao fim, nem participações de Kanye West e Young Thug conseguem segurar a mixtape. Ainda assim, bangers como as flautas de “Portland” e o tropical house de “Passionfruit”, sucessora natural de “One Dance”, tem lugar garantido nas festas dos próximos meses. (MF)


jay som pitchfork indie

Jay Som – Everybody Works

dream pop, indie rock

Com sua sonoridade intimista de quem ainda grava suas músicas em um estúdio doméstico e a as camadas de guitarra do dream pop, Everybody Works, estreia da compositora Melina Duterte é a versão revisitada do gênero noventista, combinando o som de Dinosaur Jr e Yo La Tengo com o pop millenial de Carly Rae Jepsen (a principal influência no trabalho, segundo a própria autora) e a sensibilidade política requerida na américa trumpista. Um disco retrô e inovador, que se destaca dentro do fraquíssimo indie rock contemporâneo, da mesma maneira que sua companheira de cena e turnê Mitski. (MF)


kelly lee owens jenny hval fact techno

Kelly Lee Owens – Kelly Lee Owens

ambient pop, techno

Com classe surpreendente para uma estreia, o primeiro LP da produtora e cantora britânica é um deleite auditivo. Passeando por ritmos como o downtempo (“Keep Walking” parece ter saído de um álbum do Massive Attack), tech house e techno sem perder o acento pop, as texturas casam de maneira sublime com a voz tímida de Kelly, em um dos trabalhos mais relaxantes do ano até agora. De brinde, ainda tem a participação da norueguesa Jenny Hval. (NV)


lantern death metal dark descent

Lantern – II: Morphosis

death metal

O segundo do disco do grupo sueco (um duo agora convertido em quinteto) segue uma direção parecida com o antecessor, com os preceitos do death metal conterrâneo sendo novamente a espinha dorsal. A diferença fica na produção, menos arenosa. Nada inovador, mas a classe com que as sequências de riffs guitarrísticos são despejados já vale o play no Bandcamp. (NV)


mount eerie phil genevieve elverum

Mount Eerie – A Crow Looked At Me

folk

A morte pode não ser novidade nas narrativas de Phil Elverum (a mente por trás do Mount Eerie), desde seu tempo no comando do The Microphones. No entanto, seus relatos sobre o assunto nunca soaram tão crus e potentes como neste novo álbum – o próprio afirma ser mais sobre gritar o nome de sua falecida esposa, Geneviève, do que sobre música.

Gravado com os instrumentos e no quarto onde a mãe de sua única filha morreu em junho do ano passado, A Crow Looked At Me é uma experiência emocional difícil de ser encarada, e mais ainda de ser traduzida em palavras. Não que isso pareça importar, no final; ouça e sinta, apenas. (NV)


pharmakon

Pharmakon – Contact

death industrial

Desde seu registro de estreia, Margaret Chardiet chamou a atenção da imprensa especializada. Não por menos: além de entrevistas muito inteligentes, as capas e músicas de seus discos exalam uma visceralidade assustadora, sem que se apresentem totalmente impenetráveis ao ouvinte menos contextualizado.

Em Contact, terceiro álbum sob o nome Pharmakon, esta faceta mais plana (ruídos em alto volume agora dividem mais espaço com drones) é mais explorada, resultando no LP mais “amigável” e viciante do projeto até então. Uma bela trilha sonora para crises de pânico. (NV)


talaboman

Talaboman – The Night Land

deep house

A harmonia musical é o carimbo que sela as pequenas carreiras dos produtores John Talobot e Axel Boman. Se por um lado, Boman trabalha com elementos contemporâneos da Deep House, como é o caso de “Family Vacation”, o seu primeiro LP de 2013, de outro lado temos a variedade orgânica e quase tribal em “Fin”, o primeiro LP de Talabot de 2012. Agora, em The Night Land, a formação musical do duo é novamente posta aprova para colocar em pares elementos vindo de mundos aparentemente dispares.

Assim, o mérito de The Night Land está justamente na conciliação desses elementos. Podemos ouvir em “Loser Hynn”, “Six Million Ways” e na incrível abertura “Midnattssol” a mescla de instrumentos tribais, passarinhos e sussurros com batidas hipnóticas de relógios a potência musical que os jovens produtores possuem. Embora haja um apelo nostálgico em algumas faixas (“Safe Changes”), elas soam progressistas e, na maioria das vezes, seus elementos vão crescendo até alcançarem suas melodias ou, ainda, transformá-las completamente.

Para guiá-las, há uma vasta composição minimalista que são o fio condutor das faixas relativamente longas do disco, mas que nunca caem na monotonia (“Dins el Llit”, “The Ghosts Hood”). Assim, a cada fração de tempo, é possível ir descobrindo elementos que se transmutam, vão e voltam, e criam mundos particulares que lidam com a dicotomia da música eletrônica e das diferenças dos produtores, mas sem deixarem de ser inovadores ou perderem a harmonia que há nas diferenças. (AA)


tzusing

Tzusing – 東方不敗 

techno industrial

Lançado pela aclamada label de eletrônico outsider L.I.E.S., 東方不敗, o primeiro disco do produtor malaio-chinês após uma série de EPs é uma obra destacada de techno industrial, combinando a percussão pesada com os metais tipicamente associados com a música oriental.

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