40 anos de Rumours: a corrente não se quebrou

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Leonardo Santana

Nas décadas de 60 e 70, a indústria fonográfica lidou com o hedonismo entorpecido reproduzido na cultura. Em 1977, no entanto, a ressaca já havia chegado para alguns: concebido sob tretas homéricas entre os membros do Fleetwood Mac, Rumors é um desabafo sobre as implosões internas que, no fim das contas, não impediram a banda de conceber um clássico.

Apesar de ter flertado com o pop em momentos anteriores, foi com a adição do duo Stevie Nicks e Lindsey Buckingham ao line up, em 1975, que o mercado abraçou o Mac com força total. O hit “Rhiannon” colocou a banda no topo das paradas, mas nem tudo ia bem nos bastidores: Nicks e Buckingham decidiam se separar, ao passo que Christine e John McVie (teclado e baixo) mal se falavam após o divórcio e o baterista e fundador, Mick Fleetwood, permanecia avulso na quadrilha, mas lidava com a traição da esposa com seu melhor amigo.

Num cenário tão fadado ao desastre, é mesmo louvável que algo tão especial tenha nascido. “Second Hand News” mostra o Fleetwood Mac nos deixando a par de suas intenções: cativar o público com sua honestidade. A batida pop e a influência do folk irlandês no arranjo são a abertura perfeita para o seu trabalho mais comercial – e também mais inventivo.

Mesmo em meio ao caos, Rumors é um álbum extremamente positivo, tanto quando fala sobre términos como de novos começos. Lamenta os erros do passado, enquanto olha para o futuro. “Never Going Back Again” é exemplo disso: parceria entre Stevie e Lindsey, a letra é agradecida pelo fim de relações falidas e é acompanhado por um complexo arranjo de violão. Apesar de estarem da separação, a química musical entre os dois não morrera e continuou a lembrar o público da razão pela qual foram incluídos na banda anos antes.

fleetwood mac rumours
#vidaquesegue: juntos desde 1967, Stevie Nicks e Lindsey Buckingham não permitiram que os problemas conjugais rompessem a parceria artística (Foto: Petter Still/Getty Images)

A dupla carrega os créditos da maioria dos sucessos do álbum. Consideradas canções complementares, “Go Your Own Way” e “Dreams” mostram, respectivamente, a versão de Nicks e Buckingham da história. Ambos entendem o fim, embora ela hesite em aceitar esse porvir. Vida que segue. As guitarras extraordinárias e inconfundíveis de Lindsey são destaque em ambas as faixas.

Mas a excelência da obra não se resume a apenas dois membros da banda. Dez anos antes do início das gravações, Christine McVie compusera um hino otimista e vibrante chamado “Don’t Stop”, sobre as perspectivas que tinha para o seu futuro com John. No contexto do disco, porém, a faixa ganha certa obscuridade (o que não impediu Bill Clinton de usá-la como tema de sua campanha para a presidência dos EUA em 1992), mas a mensagem persiste.

“Songbird” é outro destaque para Christine e umas de suas canções-assinatura. Numa espécie de oração repleta de metáforas que têm sua beleza na subjetividade, a compositora consegue emocionar qualquer um através da letra belíssima e do vocal suave. Em entrevista ao VH1, McVie afirmou que a faixa é sobre “ninguém e todo mundo”.

Como uma forma de afastar a banda do ambiente intoxicado de Hollywood, as gravações ocorreram principalmente na cidade de Sausalito, na Califórnia. Talvez tenha sido essa distância — espacial e crítica — que permitiu Stevie Nicks de escrever a confessional “Gold Dust Woman”, que consegue sumarizar todos os componentes do lugar problemático em que o Fleetwood Mac se encontrava: drogas, relacionamentos estragados e dias motivados pela máxima do carpe diem.

Da esquerda para a direita: Lindsey Buckingham, Stevie Nicks, Mick Fleetwood, Christine e John Mcvie. Migos (Foto: Herbert W. Worthington)
Da esquerda para a direita: Lindsey Buckingham, Stevie Nicks, Mick Fleetwood, Christine e John Mcvie. (Foto: Herbert W. Worthington)

No fim das contas, o hedonismo que embalara os anos anteriores fora o criador dos problemas que quase implodiram o grupo. Este afastamento também permitiu que cerca 40 milhões de cópias do álbum fossem vendidas até hoje, garantindo lugar cativo na lista dos mais vendidos da história. Nada mal para uma banda em crise.

O epicentro da obra é, sem dúvidas, “The Chain”. Sendo a única composta por todos os membros do Mac, a faixa consiste em várias canções em uma única mensagem. Está tudo aqui: o baixo inconfundível de John McVie, Mick Fleetwood e sua versatilidade, a fluidez estrutural característica das composições de Stevie e a voz inconfundível de Christine nas harmonias, além do talento de Lindsey com a guitarra elétrica. É uma canção completa, que discorre da força que mantém as pessoas juntas.

No caso do Fleetwood Mac, o que os manteve juntos foi a música. É admirável como o empenho em fazer algo grandioso venceu as desavenças e possibilitou algo excepcional. São poucos os momentos como esse na cultura e é por isso que Rumors permanece, 40 anos depois, intacto no tempo, como um presente da banda para o mundo. E só nos resta agradecer.

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