
Nos filmes de Joachim Trier, a cidade Oslo se torna parte da história que o cineasta gosta de contar. As ruas, estabelecimentos e arquiteturas da capital da Noruega registram por meio das lentes a sensação de como é viver no local. Em Valor Sentimental, o diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgård) retorna à cidade natal para convencer a filha, Nora (Renate Reinsve), a gravar um filme baseado na vida de sua família após mais de uma década afastado das telas. No entanto, há um fator especial: a primogênita seria a protagonista da narrativa, que entra na ferida mais profunda de um filho: a ausência de um pai.
Afastada física e emocionalmente daquele homem, a personagem é uma atriz predominantemente conhecida por peças teatrais e trabalhos esporádicos em outras mídias. Todavia, nos primeiros minutos da produção, é notável o pânico da mulher nos momentos em que precisa dominar o palco. Os enfrentamentos mentais alinhados à volta do artista revivem traumas que mal foram varridos propriamente em seu imaginário, mas que agora, se espalharam diante do início do longa-metragem.

Após a recusa de Nora, o cineasta convida Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz de Hollywood que deseja fazer um projeto desafiador em sua carreira. Na Noruega, a artista tenta encontrar o tom correto e acessar as camadas de sua personagem, porém, nesse contexto, há diferenças entre a interpretação de uma estrangeira e uma norueguesa. Por ser um papel que examina aquela família, a língua é muito importante, por isso a norte-americana tem dificuldades de se conectar. Aqui, o sentimento e a melancolia que retratam aquele núcleo familiar expressam muito mais do que meras palavras agrupadas em um roteiro.
O fazer Cinema em Valor Sentimental é voltar à carreira de Joachim Trier, indicado a Melhor Diretor no Oscar 2026. Pegando a trilogia de Oslo [que contém os filmes Começar de Novo (2006), Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021)] como base, focalizar todo o trauma daquelas irmãs a partir dos sentimentos mal resolvidos de Gustav é a maneira que o diretor encontra de conversar sobre a Sétima Arte. Embora não seja um pai presente, o olhar cinematográfico do veterano é capaz de compreender e nomear o mais obscuro que assola a protagonista.
A casa da família também é uma representação de toda a mágoa daquele universo e a rachadura em uma das paredes é muito mais do que uma simples alteração do espaço físico. Aquela falha, na verdade, conta uma história que atravessa gerações. Semelhante à dinâmica entre o diretor e Nora, os metros quadrados que dão firmeza a tudo vivido espelham o sentimentalismo do lar norueguês. Brigas, separações e ressentimentos se juntam aos momentos felizes e aos almoços entre entes queridos.

A montagem, nos filmes de Trier, é facilmente um de seus êxitos. No filme de 2025, o profissional responsável é Olivier Bugge Coutté, indicado à categoria na premiação cinematográfica. O início dos longas do diretor carrega uma narração e tipos de ‘resumos’, que apresentam aquele mundo ao espectador, bem como os personagens que iremos acompanhar durante algumas horas. Assim como em The Worst Person In The World, a personagem de Renate Reinsve também ganha uma espécie de sinopse de sua personalidade, ambições e defeitos.
Uma boa descrição no universo do norueguês só é possível por conta do roteiro, que Joachim assina ao lado de Eskil Vogt, com quem trabalhou durante toda sua filmografia. O texto, alinhado à atuação propositalmente apática da protagonista e que se amolece conforme o tempo passa, justifica os reconhecimentos em Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original na Academia. Nora, que já tentou se suicidar, carregou muito da solidão e rancor após a ida do pai.
Ainda assim, o desgosto não foi capaz de suprir uma de suas capacidades mais especiais: a de cuidar da irmã Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) na infância das duas. Aliás, a interação entre a dupla tem o clímax, no desfecho do filme, garante a cena mais marcante de Valor Sentimental. Ali, desde os filhos únicos àqueles que cresceram com um(a) caçula do lado, vão se identificar com o instinto de irmandade, selado desde a compreensão do que é um núcleo familiar. “A vida é muito curta para ficar briga com uma irmã”, diz Jo March (Saoirse Ronan) para Amy March (Florence Pugh), em Adoráveis Mulheres (2019).

Pois bem, na obra indicada a Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, a sororidade é acompanhada de respeito mútuo, apreço e confiança. Com medo da primogênita voltar ao lugar obscuro onde chegou anteriormente, ela cuida da mulher, assim como a mesma fez quando ambas eram pequenas. Em uma jornada marcada pela finitude, o amor por um irmão nunca morre, ele se fortalece, mesmo que precise adquirir novas facetas ao longo da caminhada.
Outro destaque é a seleção musical escolhida a dedo por Trier nas cenas de seus personagens. Aqui, as produções musicais dialogam com o interior do quarteto principal, especialmente as faixas Dancing Girl, de Terry Callier, e Cannock Chase, de Labi Siffre, que encerram a produção. Embora o roteiro de Gustav só possa ser entendido pela família que viveu aquela história, as canções citadas se conectam universalmente com quem acompanha a narrativa. É utilizar a sonoridade folk dos anos 70 e, a partir disso, criar um sentimento de completude ao término do filme. É daquelas experiências que nos fazem salvar as músicas nas nossas playlists e revisitar aquilo que experimentamos durante a primeira assistida.

Mesmo reconhecido como Melhor Ator Coadjuvante na premiação, o trabalho de Stellan Skarsgård é de protagonista. Seja por causa dos problemas que se originam com o seu retorno a Oslo ou pela relação de professor e aluno que cria com a artista hollywoodiana, o fato é que todo o drama presente em Sentimental Value (título original) vem com a figura do patriarca. As personagens, por exemplo, necessitam da aprovação do veterano. É como se a recognição de seus atos e ‘performances’ (no caso, de Nora e Rachel) apenas fossem de fato algo caso ganhassem a aprovação do cineasta.
A partir disso, Trier apresenta a sua versão do que é o daddy issues, uma relação fria, distante e inóspita de níveis mais intensos de amabilidade. Por outro lado, a paixão de Gustav pela Sétima Arte é o que o faz ser um gênio naquele universo. Realmente, o prêmio de melhor pai do ano não foi para ele. O veterano até o perdeu – diversas vezes. No entanto, a dedicação e a excelência com a qual trabalhou para examinar os sentimentos fizeram com que ele alcançasse o patamar que ocupa. E, por ter uma filha que também faz parte do meio, a dinâmica entre a dupla ganha um leque de sentidos. Duas coisas podem ser verdade: a admiração pelo diretor norueguês e o ressentimento ao pai ausente caminham lado a lado e se nutrem de maneira interminável.
Transformador e longe de ser unânime, Valor Sentimental se camufla no seu maior amor ou medo: pelo Cinema, pela omissão patriarcal e pelas questões psicológicas. Lidar com a depressão não é algo corriqueiro, tampouco usual. Mas se ver em tela, após os picos da doença e o abandono de uma figura familiar por meio de Nora, é único e brutalmente aconchegante. O rombo que um laço parental acarreta em um ser humano em construção é irremediável. No entanto, como versa Labi Siffre no encerramento da narrativa, “Parecia que minha alma tinha morrido e ido embora. Mas tá tudo certo, estou de volta à luta”.
