Em tudo, há Valor Sentimental

Cena do filme Valor Sentimental. Na imagem, há um homem branco de cabelos louros grisalhos olhando para uma mulher branca de cabelos castanhos. Eles estão em frente a diversos arbustos. Ele veste uma camisa social e ela usa uma blusa preta com uma jaqueta jeans por cima.
A ausência do pai moldou a personalidade de Nora e a maneira como ela se envolve com todas as pessoas de sua vida (Foto: Kasper Tuxen)

Nos filmes de Joachim Trier, a cidade Oslo se torna parte da história que o cineasta gosta de contar. As ruas, estabelecimentos e arquiteturas da capital da Noruega registram por meio das lentes a sensação de como é viver no local. Em Valor Sentimental, o diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgård) retorna à cidade natal para convencer a filha, Nora (Renate Reinsve), a gravar um filme baseado na vida de sua família após mais de uma década afastado das telas. No entanto, há um fator especial: a primogênita seria a protagonista da narrativa, que entra na ferida mais profunda de um filho: a ausência de um pai.

Afastada física e emocionalmente daquele homem, a personagem é uma atriz predominantemente conhecida por peças teatrais e trabalhos esporádicos em outras mídias. Todavia, nos primeiros minutos da produção, é notável o pânico da mulher nos momentos em que precisa dominar o palco. Os enfrentamentos mentais alinhados à volta do artista revivem traumas que mal foram varridos propriamente em seu imaginário, mas que agora, se espalharam diante do início do longa-metragem.

Cena do filme Valor Sentimental. Na imagem, há um homem branco de cabelos louros grisalhos e uma mulher branca loira na praia. Eles estão sorrindo e olhando em direção ao mar. Ele veste um terno preto com camisa branca e ela usa um vestido dourado brilhante estampado.
Em uma das cenas mais emocionantes de Valor Sentimental, Rachel confessa a Gustav o desejo de fazer filmes que signifiquem algo para ela (Foto: Kasper Tuxen)

Após a recusa de Nora, o cineasta convida Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz de Hollywood que deseja fazer um projeto desafiador em sua carreira. Na Noruega, a artista tenta encontrar o tom correto e acessar as camadas de sua personagem, porém, nesse contexto, há diferenças entre a interpretação de uma estrangeira e uma norueguesa. Por ser um papel que examina aquela família, a língua é muito importante, por isso a norte-americana tem dificuldades de se conectar. Aqui, o sentimento e a melancolia que retratam aquele núcleo familiar expressam muito mais do que meras palavras agrupadas em um roteiro.

O fazer Cinema em Valor Sentimental é voltar à carreira de Joachim Trier, indicado a Melhor Diretor no Oscar 2026. Pegando a trilogia de Oslo [que contém os filmes Começar de Novo (2006), Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021)] como base, focalizar todo o trauma daquelas irmãs a partir dos sentimentos mal resolvidos de Gustav é a maneira que o diretor encontra de conversar sobre a Sétima Arte. Embora não seja um pai presente, o olhar cinematográfico do veterano é capaz de compreender e nomear o mais obscuro que assola a protagonista. 

A casa da família também é uma representação de toda a mágoa daquele universo e a rachadura em uma das paredes é muito mais do que uma simples alteração do espaço físico. Aquela falha, na verdade, conta uma história que atravessa gerações. Semelhante à dinâmica entre o diretor e Nora, os metros quadrados que dão firmeza a tudo vivido espelham o sentimentalismo do lar norueguês. Brigas, separações e ressentimentos se juntam aos momentos felizes e aos almoços entre entes queridos. 

Cena do filme Valor Sentimental. Na imagem, há duas mulheres brancas de cabelos castanhos em uma cama. Enquanto chora, a mulher da esquerda abraça a da direita, que está sorrindo. Elas vestem roupas da cor cinza e azul.
A dinâmica entre Nora e Agnes sintetiza um sentimento universal: o de irmandade (Foto: Kasper Tuxen)

A montagem, nos filmes de Trier, é facilmente um de seus êxitos. No filme de 2025, o profissional responsável é Olivier Bugge Coutté, indicado à categoria na premiação cinematográfica. O início dos longas do diretor carrega uma narração e tipos de ‘resumos’, que apresentam aquele mundo ao espectador, bem como os personagens que iremos acompanhar durante algumas horas. Assim como em The Worst Person In The World, a personagem de Renate Reinsve também ganha uma espécie de sinopse de sua personalidade, ambições e defeitos.

Uma boa descrição no universo do norueguês só é possível por conta do roteiro, que Joachim assina ao lado de Eskil Vogt, com quem trabalhou durante toda sua filmografia. O texto, alinhado à atuação propositalmente apática da protagonista e que se amolece conforme o tempo passa, justifica os reconhecimentos em Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original na Academia. Nora, que já tentou se suicidar, carregou muito da solidão e rancor após a ida do pai. 

Ainda assim, o desgosto não foi capaz de suprir uma de suas capacidades mais especiais: a de cuidar da irmã Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) na infância das duas. Aliás, a interação entre a dupla tem o clímax, no desfecho do filme, garante a cena mais marcante de Valor Sentimental. Ali, desde os filhos únicos àqueles que cresceram com um(a) caçula do lado, vão se identificar com o instinto de irmandade, selado desde a compreensão do que é um núcleo familiar. “A vida é muito curta para ficar briga com uma irmã”, diz Jo March (Saoirse Ronan) para Amy March (Florence Pugh), em Adoráveis Mulheres (2019).

Cena do filme Valor Sentimental. Na imagem, há uma mulher branca de cabelos castanhos e uma mulher branca de cabelos louros. À direita, a moça está tirando uma fotografia na câmera da frente com a moça. Enquanto a mulher de cabelos castanhos usa uma camisa moletom azul escura, a loira utiliza uma blusa manga longa branca com uma jaqueta preta.
Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning foram indicadas em Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar 2026 (Foto: Kasper Tuxen)

Pois bem, na obra indicada a Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, a sororidade é acompanhada de respeito mútuo, apreço e confiança. Com medo da primogênita voltar ao lugar obscuro onde chegou anteriormente, ela cuida da mulher, assim como a mesma fez quando ambas eram pequenas. Em uma jornada marcada pela finitude, o amor por um irmão nunca morre, ele se fortalece, mesmo que precise adquirir novas facetas ao longo da caminhada.

Outro destaque é a seleção musical  escolhida a dedo por Trier nas cenas de seus personagens. Aqui, as produções musicais dialogam com o interior do quarteto principal, especialmente as faixas Dancing Girl, de Terry Callier, e Cannock Chase, de Labi Siffre, que encerram a produção. Embora o roteiro de Gustav só possa ser entendido pela família que viveu aquela história, as canções citadas se conectam universalmente com quem acompanha a narrativa. É utilizar a sonoridade folk dos anos 70 e, a partir disso, criar um sentimento de completude ao término do filme. É daquelas experiências que nos fazem salvar as músicas nas nossas playlists e revisitar aquilo que experimentamos durante a primeira assistida. 

Cena do filme Valor Sentimental. Na imagem, há uma mulher branca de cabelos castanhos em uma casa. Ela veste uma blusa com tons terrosos e uma bolsa dourada utilizada na transversal.
Renate Reinsve já trabalhou com Joachim Trier em A Pior Pessoa do Mundo e Oslo, 31 de Agosto (Foto: Kasper Tuxen)

Mesmo reconhecido como Melhor Ator Coadjuvante na premiação, o trabalho de Stellan Skarsgård é de protagonista. Seja por causa dos problemas que se originam com o seu retorno a Oslo ou pela relação de professor e aluno que cria com a artista hollywoodiana, o fato é que todo o drama presente em Sentimental Value (título original) vem com a figura do patriarca. As personagens, por exemplo, necessitam da aprovação do veterano. É como se a recognição de seus atos e ‘performances’ (no caso, de Nora e Rachel) apenas fossem de fato algo caso ganhassem a aprovação do cineasta. 

A partir disso, Trier apresenta a sua versão do que é o daddy issues, uma relação fria, distante e inóspita de níveis mais intensos de amabilidade. Por outro lado, a paixão de Gustav pela Sétima Arte é o que o faz ser um gênio naquele universo. Realmente, o prêmio de melhor pai do ano não foi para ele. O veterano até o perdeu – diversas vezes. No entanto, a dedicação e a excelência com a qual trabalhou para examinar os sentimentos fizeram com que ele alcançasse o patamar que ocupa. E, por ter uma filha que também faz parte do meio, a dinâmica entre a dupla ganha um leque de sentidos. Duas coisas podem ser verdade: a admiração pelo diretor norueguês e o ressentimento ao pai ausente caminham lado a lado e se nutrem de maneira interminável.

Transformador e longe de ser unânime, Valor Sentimental se camufla no seu maior amor ou medo: pelo Cinema, pela omissão patriarcal e pelas questões psicológicas. Lidar com a depressão não é algo corriqueiro, tampouco usual. Mas se ver em tela, após os picos da doença e o abandono de uma figura familiar por meio de Nora, é único e brutalmente aconchegante. O rombo que um laço parental acarreta em um ser humano em construção é irremediável. No entanto, como versa Labi Siffre no encerramento da narrativa, “Parecia que minha alma tinha morrido e ido embora. Mas tá tudo certo, estou de volta à luta”.

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