Mirrors No. 3, Foi Apenas um Acidente e o inescapável lado humano

À esquerda: Cena de Mirrors No. 3. Uma mulher de cabelo cacheado, veste um moletom roxo, olha para o lado esquerdo de um campo verde, segurando uma bicicleta. À direita: Cena de Foi Apenas um Acidente. Em uma paisagem desértica, um homem de camiseta azul está em pé, enquanto um homem de camisa branca e uma mulher vestida de noiva estão sentados na parte traseira aberta de uma caminhonete branca.
Foi Apenas um Acidente fez parte das seções Homenagem e Apresentação Especial (Foto: Schramm Film Koerner Weber Kaiser e Jafar Panahi Productions)

Guilherme Moraes

A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que elas se interligam de maneiras inimagináveis. Mirrors No. 3, dirigido por Christian Petzold, é um longa alemão sobre pessoas superando o luto. Por outro lado, Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, tem como foco principal um grupo de ex-prisioneiros políticos iranianos que encontram, possivelmente, o seu antigo torturador. Apesar das temáticas diametralmente distintas, ambas se aproximam por sentimentos basilares do ser humano: a dor e o trauma.

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Latente, Afire estremece e queima

Afire foi o vencedor do Urso de Prata do Grande Prémio do Júri no Festival Internacional Cinema de Berlim de 2023 e estreou no Brasil na 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Piffl Medien)

Enzo Caramori

‘‘O amor da juventude, a  juventude do amor

desaparecerá e passará quanto antes.’’

– John Hay

Período em que a suspensão da realidade diária cede lugar à educação sentimental, ao titubear emocional, ao erro e à tentativa: o verão é uma quietude na qual a procrastinação dá espaço a descobertas sensíveis. É uma das temporadas dos filmes de Éric Rohmer, cujos propósitos de suas relações ficcionais são, de qualquer maneira, a afetação, seja por leituras tediosas de Balzac, gestos sutis de sedução e o mormaço claro do sol francês. Mesmo que dispondo de um olhar que se dedica às delicadezas da estação, o drama Afire (2023), presente na Perspectiva Internacional da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, não almeja o lugar da beleza e da delicadeza rohmeriana – na qual se inspira –, mas enfoca justamente nas feridas subjetivas de suas personagens, colhendo, do tédio, o sentimento melancólico de alheamento. 

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