O Agente Secreto: o Brasil dos anos 70 e o atual em um só retrato

Cena do filme O Agente Secreto. Marcelo. Um homem de barba e cabelo escuro, aparece de pé ao ar livre, com expressão séria . Ele veste uma camisa azul-clara com bolso do lado esquerdo do peito, parcialmente aberta. Ao fundo há um campo verde e céu com nuvens claras. Ao seu lado, aparece um fusca amarelo.
Wagner Moura está entre os favoritos para ser indicado ao Oscar de Melhor Ator (Foto: Vitrine Filmes)

Mariana Bezerra

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vem percorrendo o mundo com uma campanha de sucesso, que já conquistou premiações e indicações internacionais, as quais podem ser vistas como termômetros da temporada de premiações, como o Gotham Awards e o Festival de Cannes. A estreia do filme subverteu a lógica dominante do eixo Rio-São Paulo. Foram os recifenses, conterrâneos do cineasta e cuja cidade serviu de base para muitos de seus trabalhos, que assistiram ao longa pela primeira vez. Já a sessão de estreia no estado de São Paulo aconteceu na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Apresentação Especial. Continue lendo “O Agente Secreto: o Brasil dos anos 70 e o atual em um só retrato”

Em Nuvens Passageiras Obscurecem o Sol, o fluxo do tempo é uma correnteza angustiante

É possível entrar em contato com a personagem e sua forma de sentir apenas observando suas ações (Foto: Shuxuan Mei)

Victor Hugo Aguila

O maior desafio da vida adulta é se reconhecer para além de suas funções. Na seção de Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Nuvens Passageiras Obscurecem o Sol é um retrato sutilmente provocante do que realmente significa viver. Após passar a vida cuidando dos filhos e dos pais idosos, Tianzhen (Xiang Shizhen), uma mulher de 52 anos do sul da China, encontra seu maior desafio até então: descobrir sua identidade com o tempo que lhe é concedido. 

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Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer reencontra a artista que moldou o invisível

Amelia Toledo, uma mulher mais velha de cabelos brancos, é vista de perfil, tocando com a mão direita uma grande instalação têxtil laranja, semelhante a uma malha. Ela veste um suéter marrom e olha para a obra com um leve sorriso, em um ambiente interno com uma janela ao fundo.
Amelia Toledo em seu ateliê, a artista que fez da casa estúdio um laboratório de matéria e memória (Capture Produções)

Arthur Caires

Há artistas que fazem do tempo o seu principal material. Amelia Toledo foi uma delas. Em Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Mostra Brasil, o diretor Hélio Goldsztejn convida o espectador a atravessar o território poroso entre Arte, Ciência e Natureza. O filme não busca apenas narrar uma trajetória, mas compreender o modo como Amelia transformava o mundo em experimento. Sua Arte não se prendia à forma: era fluxo, metamorfose, lembrança e invenção.

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A História do Som: Paul Mescal e Josh O’Connor brilham em uma ode ao amor e a música

Cena do filme A História do Som: Dois homens, Lionel e David ( da esquerda para a direita), brancos e de cabelos castanhos, estão sentados lado a lado em um banco de madeira em uma sala de uma estação de trem antiga. Ambos vestem roupas de época, em tons marrons. Lionel olha para o outro enquanto conversa; David toca o próprio pescoço com a mão e parece pensativo. Ao fundo, há outras pessoas sentadas; um homem lê o jornal e um casal conversa entre si.
A História do Som faz um retrato de uma relação rodeada de partituras e acordes (Fonte: Mubi)

Mariana Bezerra 

Toda história de amor deveria poder ser vivida em alto e bom som, mas, nas trincheiras, resistem aquelas que precisaram criar uma melodia própria – e silenciosa – para si. A História do Som, dirigido por Oliver Hermanus, é baseado em um conto homônimo de Ben Shattuck, responsável pela adaptação do próprio texto em roteiro. O longa teve sua primeira exibição no Brasil na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo nas seções Foco Reino Unido e Perspectiva Internacional. O filme apresenta a música em um lugar quase de protagonista e mergulha na Quarta Arte para contar a história de Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), dois artistas que se conhecem em Boston, no fim da década de 1910, e cuja relação reverbera para muito além de sua breve duração.

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Roussil – A Liberdade da Imaginação prova que o Cinema é uma das principais armas contra o esquecimento

Uma escultura alta e abstrata de Robert Roussil, de cor clara, com uma forma humanóide estilizada. A figura, que se assemelha a uma pessoa dançando com braços curvos e erguidos, está posicionada ao ar livre contra um fundo escuro de um paredão rochoso.
As esculturas de Roussil resistem ao tempo – monumentos de imaginação e aço (Foto: Tulp Films)

Arthur Caires

Há algo muito humano no ato de lutar contra o esquecimento. A Arte, quando nasce, já carrega em si uma resistência ao tempo, uma tentativa de permanecer quando tudo o mais se dissolve. R. Roussil – A Liberdade da Imaginação, dirigido por Maxime-Claude L’Écuyer e que está em exibição na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores, surge como um desses gestos de resistência. Mais do que resgatar a figura de um escultor esquecido, o filme convoca o espectador a pensar na Arte como um modo de permanecer vivo na memória dos outros, mesmo quando a matéria se desgasta.

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Persona Entrevista: Noá Bonoba

Atriz e protagonista de Morte e Vida Madalena fala sobre sentimentos e diversidade na produção cinematográfica

Arte do Persona EntrevistaNa ilustração, no canto direito, há um quadrado com uma fotografia da atriz Noá Bonoba. Ela está de perfil, veste uma roupa vermelha com botões. Ela é uma travesti de cabelos cacheados e alaranjados. No canto esquerdo, há a logo do Persona, um olho com um ícone de play na íris., que é da cor azul-piscina. Abaixo, está escrito em branco "Persona", seguido de "Entrevista". Mais para baixo, para a direita, está a logo da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. No canto inferior esquerdo, está escrito o nome da atriz "Noá Bonoba". O fundo da imagem tem a arte do festival, assinado por Valter Hugo Mãe. Várias bolas brancas e ondas azuis.
A dramaturga dedicou a obra a  todas as profissionais trans do audiovisual e para as que “trabalham com atuação nesse país”. (Arte: Arthur Caires)

Davi Marcelgo

Antes da última sessão de Morte e Vida Madalena (2025) na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começar, Noá Bonoba, a atriz que interpreta a personagem título, advertiu a plateia: “É um filme muito divertido, muito engraçado”, mas… dava para confiar? Afinal, dificilmente uma profissional vai criticar seu trabalho, quanto mais dentro de um dos principais festivais do Brasil. Entre situações inusitadas e expressões hilárias, quem ignorou o aviso de Bonoba teve uma grata surpresa, o filme é o superlativo de divertido.  Continue lendo “Persona Entrevista: Noá Bonoba”

O Último Beat revisita uma geração pelo olhar íntimo de quem ficou

O poeta Lawrence Ferlinghetti, em cena do documentário 'A Última Batida', sentado em uma mesa na área externa de um café. Ele usa um boné escuro, um cachecol vermelho e um casaco texturizado, e sorri levemente para a câmera. Ao fundo, desfocados, outros clientes sentam-se em mesas e uma placa verde de 'ESPRESSO' se projeta da fachada.
O rosto de Ferlinghetti carrega o peso doce de quem já viu o mundo mudar (Foto: 39 Films)

Arthur Caires

Há encontros que parecem ter sido marcados pela própria história. Em 2007, o cineasta Ferdinando Vicentini Orgnani cruzou o caminho de Lawrence Ferlinghetti, poeta, editor e um dos pilares da Geração Beat. Dali nasceu uma amizade, e dela, um testemunho. O filme O Último Beat, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Apresentação Especial, emerge como o registro derradeiro de um homem que fez da palavra um ato político. Mais do que um retrato biográfico, o documentário soa como um eco distante – uma reverberação tardia da utopia beat, que ainda tenta resistir ao peso do complexo militar-industrial que Ferlinghetti denunciava com ironia e lucidez.

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Não tenha medo, A Memória do Cheiro das Coisas é apenas uma redenção que não se purifica

Na fotografia, um homem branco idoso de barba grisalha está sentado à beira de uma cama em um quarto de hospital com paredes azuis. Ele usa um colete de tricô, majoritariamente da cor verde oliva, sobre uma camisa social branca enquanto olha para baixo, com expressão melancólica. Ao fundo, há uma luminária acesa e uma mesa de cabeceira amarela com porta-retratos e um abajur.
Com coprodução brasileira, A Memória do Cheiro das Coisas estreou mundialmente no Festival de Xangai (Foto: Persona Non Grata Pictures)

Gabriel Diaz

Há algo inevitavelmente político em qualquer tentativa de revisitar o passado colonial português – sobretudo quando essa memória é filtrada pelo olhar do envelhecimento, a doença e a solidão. Diretamente da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor António Ferreira apresenta A Memória do Cheiro das Coisas, um filme que mergulha nesse terreno delicado, tentando equilibrar a culpa histórica com o afeto cotidiano, e parte dessa convergência para construir um drama intimista que atravessa corpo e história. 

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Vampiros ladram, mas não mordem em Love Kills

Cena do filme Love Kills.Na imagem, com cores em tons de verde neon, a personagem Helena está com as duas mãos nas bochechas com expressão de prazer. Ela é uma vampira e se delicia com sangue na boca, que está aberta, mostrando as presas. Ela está de olhos fechados e a fotografia fecha o plano em seu rosto. Ao fundo, em desfoque, há uma parede laranja. Helena é uma mulher negra, na faixa dos 35 anos, de cabelos dread na cor preta. Suas unhas estão pintadas em tom escuro.
Love Kills foi exibido no Festival do Rio 2025 (Foto: Filmland Internacional)

Davi Marcelgo

Existem filmes que transformam cidades em personagens ou fazem delas elementos importantes para a trama. Na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, por exemplo, o longa A Árvore do Conhecimento (2025) usa as transformações de Lisboa como ponto de partida de sua história. Já Baby (2024) faz das ruas da capital paulista um local de refúgio e identidade. Essa característica não está presente em Love Kills, apesar de a diretora Luiza Schelling transformar a terra da garoa em sua Transilvânia, ela pode ser substituída por qualquer outro cenário. A produção faz parte da seção Mostra Brasil do evento e reproduz a linguagem e a gramática de países externos.  Continue lendo “Vampiros ladram, mas não mordem em Love Kills”

A Incrível Eleanor: envelhecer também é viver; uma reflexão sobre amor e luto

Cena do filme A Incrível Eleanor.Na imagem, aparece Eleanor, uma mulher branca, idosa, de cabelos brancos, ​​que está sentada em uma lanchonete, usando um casaco rosa e uma blusa verde-azulada. Ela está com as mãos apoiadas sobre a mesa e olha para o lado parecendo pensativa. À sua frente há dois copos grandes de refrigerante. Ao fundo, há mesas e cadeiras vermelhas e pretas.
Após mais de uma década morando com sua amiga na Flórida, Eleanor volta para Nova Iorque e questiona sua relação com esse antigo, mas, também, novo lar (Fonte: Sony Pictures)

Mariana Bezerra 

A Incrível Eleanor, estreia de Scarlett Johansson na direção, foi lançado no início de 2025 no Festival de Cannes. Ainda sem data de lançamento nos cinemas nacionais, a primeira sessão do longa, no Brasil, aconteceu na 49ª Mostra de Cinema de São Paulo, como parte da seção Apresentação Especial. Como já ocorreu com outras atrizes que conquistaram renome na frente das câmeras, Johansson se posicionou, pela primeira vez, por trás delas. Aqui, a estrela de Hollywood concede um respiro às próprias personagens e se aventura em uma função responsável por orquestrar um resultado belíssimo, que surpreende pela delicadeza e pela simplicidade.  Continue lendo “A Incrível Eleanor: envelhecer também é viver; uma reflexão sobre amor e luto”