Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é familiar, fantasioso, divertido e, de fato, fantástico

Aviso: O texto contém alguns spoilers

A imagem mostra os quatro integrantes do Quarteto Fantástico — Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm — em uma rua da cidade, ao lado de um veículo futurista azul. Distribuídos em diferentes pontos da cena, os heróis exibem poses de alerta e nervosismo, encarando um novo desafio. A atmosfera é fria e dramática, reforçada pelo cenário de cidade grande em pleno inverno. Usam uniformes azul-claro com variações de branco e o número 4 em destaque no peito, reforçando a identidade do grupo. Reed, esguio e sério, veste um traje inteiramente azul; Sue, de postura atlética e serena, tem gola branca no uniforme e aparência etérea; Johnny, jovem e confiante, exibe braços e gola brancos, com chamas vivas nas mãos; Ben, corpulento e coberto por pele rochosa alaranjada, usa faixas brancas até os cotovelos e roupas de estilo retrô. O fundo é urbano, com tonalidade azulada, e a iluminação clara e uniforme destaca os detalhes dos trajes e os efeitos visuais, criando uma atmosfera neutra e moderna centrada na apresentação dos heróis.
O filme marca o retorno do Quarteto Fantástico ao MCU, após a aquisição da Fox pela Disney em 2019 (Foto: Marvel Studios)

Marcela Jardim

Quase vinte anos depois da versão morna de 2005 e do desastre completo de 2015, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) chega como a reinvenção mais ambiciosa da equipe que, por tanto tempo, parecia amaldiçoada no cinema. Sob uma Marvel Studios mais madura, o filme surpreende ao deslocar o foco da ação pela ação e propor uma narrativa centrada na ideia de família como núcleo emocional e político, sem abandonar o tom aventureiro típico do gênero. A aposta é clara: em vez de heróis distantes e inatingíveis, o longa apresenta figuras profundamente humanas, cujos poderes servem mais como extensão de seus vínculos do que como ferramentas de ego. Em conjunto com Superman (2025), o longa veio para aquecer os corações – nerds ou não –, trazendo uma boa adaptação e com mensagens sensíveis.

Essa centralidade na família não se traduz em sentimentalismo raso ou em convenções batidas sobre laços sanguíneos. Ao contrário, o roteiro utiliza a estrutura familiar como motor ético, político e afetivo da narrativa. Cada integrante do Quarteto é posicionado não apenas como um herói com habilidades específicas, mas como parte de uma engrenagem emocional complexa, onde o cuidado, o conflito e o afeto se entrelaçam. Sue Storm (Vanessa Kirby) é o coração dessa construção: mais do que uma presença maternal, ela atua como uma liderança estratégica, sensível e, sobretudo, racional. 

A Mulher Invisível não é reduzida à figura de cuidadora de forma passiva ou sacrificial. Pelo contrário, ela organiza a equipe, toma decisões cruciais e sustenta a estabilidade emocional de todos, sem abrir mão da assertividade. É uma feminilidade que rompe com o binarismo entre força e sensibilidade, apresentando a mãe como símbolo de resistência lúcida. A frase “Eu não vou sacrificar o meu filho por esse mundo, nem sacrificar esse mundo pelo meu filho” prova isso.

A imagem retrata os quatro personagens principais, em poses estáticas sobre um palco circular de cor clara. Vestem trajes azuis semelhantes, com detalhes brancos e o número 4 estampado, uma estética de super-herói. Com expressões neutras e composição simétrica, a cena sugere formalidade e apresentação. O fundo apresenta formas geométricas e um grande símbolo circular azul, verde e branco, reforçando o tema heroico. O estilo visual combina modelagem 3D com design de pôster, com iluminação uniforme, atmosfera neutra e poucos elementos ambientais.
Ao contrário de versões anteriores, o longa não reconta a origem da equipe, os heróis já estão estabelecidos (Foto: Marvel Studios)

Já Reed Richards (Pedro Pascal), historicamente retratado como um cientista frio, lógico e quase desumano, passa por uma transformação surpreendente e bem-vinda. A paternidade não apenas o suaviza como também o humaniza. Ao ser confrontado com as fragilidades de quem tem algo a perder que não cabe em cálculos, Reed aprende a falhar, a hesitar, a ouvir. Ele deixa de ser o homem que busca salvar o mundo com fórmulas perfeitas e passa a ser alguém que reconhece os limites da própria genialidade. Sua vulnerabilidade, longe de ser uma fraqueza, se revela como uma nova forma de inteligência: emocional, ética, relacional. Nesse sentido, o filme rompe com a lógica do herói solitário e aposta em uma visão de salvação coletiva, construída na escuta, na confiança mútua e no reconhecimento de que o vínculo afetivo é tão crucial quanto qualquer superpoder.

Essa estrutura familiar se completa com Ben Grimm, o Coisa (Ebon Moss-Bachrach), cuja dureza exterior contrasta com uma interioridade profundamente tocante. Sua condição corporal, frequentemente tratada em adaptações anteriores como objeto de autopiedade ou piada, aqui é encarada com mais delicadeza e humanidade. Ele não está ligado ao grupo por laços de sangue, mas por laços de cuidado e lealdade, o que reforça uma noção de família escolhida. Em vez de ser o ‘fortão da equipe’, Ben é retratado como aquele que mais sente, escuta e oferece acolhimento em silêncio. Sua presença é menos sobre força bruta e mais sobre solidez emocional: ele é a âncora afetiva de um grupo em constante tensão entre o caos e a esperança. Tanto que foi Ben quem percebeu que Sue e Reed estavam esperando por um bebê.

Por sua vez, Johnny Storm (Joseph Quinn), tradicionalmente reduzido a uma caricatura do jovem impulsivo e vaidoso, finalmente ganha camadas mais complexas. O filme o apresenta como alguém que usa o humor como defesa, mas cuja inteligência e inventividade são centrais para o desenrolar da trama. Mais do que o ‘bonitão mulherengo’, Johnny é agora um cientista em formação, inquieto, curioso e engajado. O personagem foi essencial para entender e conhecer a Surfista Prateada, até mesmo para a redenção da serva de Galactus. Ao longo da narrativa, o Tocha Humana se revela como um personagem que deseja pertencer, contribuir e ser levado a sério. Seu arco é, portanto, de uma maturidade afetiva, em que ele deixa de performar apenas charme e passa a assumir responsabilidades reais dentro do grupo e da missão.

A imagem mostra o Coisa, com uma roupa azul e branca, em um ambiente doméstico. O fundo da imagem é composto por uma parede de cor neutra e um telefone vermelho de botão. A iluminação parece suave, sem fortes contrastes. Coisa é a figura principal, com pele de cor marrom-terra e um visual robusto. O seu traje é azul e branco com detalhes que lembram roupas dos anos 60/70. O ambiente parece ser um apartamento ou uma cozinha, com elementos de decoração clássicos de décadas anteriores. A iluminação é natural e homogênea, sem sombras acentuadas e a cor de fundo é um tom suave e quase monocromático.
H.E.R.B.I.E., o clássico robô auxiliar, aparece pela primeira vez em live action, após cenas planejadas em 2005 terem sido cortadas (Foto: Marvel Studios)

Embora a introdução de Galactus (Ralph Ineson) e da nova Surfista Prateada (Julia Garner) prometa uma ameaça cósmica com potencial filosófico, o filme falha em desenvolver de fato seus antagonistas. A trajetória de redenção da Surfista, marcada pela culpa e pela escolha de se rebelar contra a entidade que a criou, carrega um forte simbolismo de autonomia e resistência, distanciando-se da passividade da versão de 2007. No entanto, sua transição de antagonista a aliada acontece de forma abrupta, esvaziando o impacto de suas ações. Assim, o longa desperdiça a chance de construir uma tensão dramática robusta: o perigo nunca parece palpável, e o clímax se resolve sem verdadeiro sacrifício — uma ameaça estética, mas não emocional, que impede a catarse prometida.

Além disso, a produção sofre com uma inconstância visual que compromete parte da experiência. Embora os efeitos especiais acertem em momentos cruciais — como nas sequências que envolvem distorções do espaço-tempo e os poderes elásticos de Reed —, há cenas onde o CGI parece apressado ou artificial demais, com texturas mal renderizadas, movimentos plastificados e iluminação que não se integra ao ambiente. Isso é especialmente evidente em Franklin, filho de Sue e Reed, e nos confrontos de grande escala, onde o caos visual engole a clareza da ação. Em um blockbuster desse porte, essa irregularidade tira um pouco força do espetáculo, mas não compromete a experiência.

Por outro lado, um dos grandes acertos do longa é sua ambientação visual ousada, que bebe diretamente da ficção científica dos anos 1960, evocando desde a estética das capas pulp até os traços das primeiras HQs da Marvel. O longa opta por uma paleta desbotada, com cenários tecnológicos de aparência analógica e design de produção que mescla o vintage com o especulativo, criando uma identidade distinta dentro do MCU. Essa escolha confere uma certa singularidade — um gesto estético que assume o legado do Quarteto como produto de outra era, mas o transporta para uma narrativa emocional contemporânea. O figurino, os interiores dos laboratórios e até a forma como o espaço é representado remetem à ideia de futuro como utopia perdida, o que combina com o tom mais melancólico da trama. 

A imagem mostra Sue e um Franklin, próximos um do outro, em um momento de afeição e carinho. A composição da imagem é centrada no encontro próximo entre a mulher e o bebê. A mulher está olhando para o bebê, seus rostos estão próximos. O bebê está sendo segurado pela mulher. O foco está principalmente nos rostos da mulher e do bebê, enquanto o fundo é desfocado. A imagem sugere intimidade e carinho. Seu rosto e expressões demonstram emoção e carinho. Franklin é um bebê, de pele clara e cabelos claros. Seu rosto é incrivelmente expressivo e mostra um sorriso suave e genuíno, expressando alegria. A luz natural cria um ambiente suave e aconchegante, focando na conexão entre as duas pessoas. A atmosfera é de ternura e afeto materno.
A escolha do número Earth‑828 faz referência ao aniversário de Jack Kirby – 28 de agosto –, o quadrinista, co-criador da equipe (Foto: Marvel Studios)

Em contraste com o ritmo acelerado típico dos filmes de super-herói, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos adota uma abordagem contemplativa e ponderada, permitindo que a narrativa respire. O longa dá espaço para silêncios, olhares prolongados e hesitações, privilegiando o desenvolvimento emocional dos personagens, sobretudo Reed e Sue. Essa cadência convida o espectador a mergulhar na intimidade das crises individuais e na complexidade dos vínculos afetivos que os unem. No entanto, essa escolha estilística não é livre de riscos: especialmente no segundo ato, o ritmo desacelera de forma excessiva, comprometendo o dinamismo da trama e gerando uma sensação de estagnação. Ainda assim, essa pausa intencional entre os grandes eventos do enredo representa um respiro bem-vindo em um gênero cada vez mais marcado por ação ininterrupta — aqui, a humanidade vem antes da explosão.

Essa sensibilidade emocional só se sustenta graças às atuações consistentes do elenco principal. Pedro Pascal entrega um Reed Richards emocionalmente desgastado, dividido entre o raciocínio lógico e a vulnerabilidade da paternidade, enquanto Vanessa Kirby constrói uma Sue Storm firme, inteligente e afetiva, tornando-a o centro emocional do grupo. Joseph Quinn e Ebon Moss-Bachrach também trazem complexidade aos seus personagens: Johnny Storm, com sua inteligência subestimada por trás da impulsividade, e Ben Grimm, cuja dureza externa esconde feridas profundas. 

Além disso, o plano megalomaníaco e fantasioso de Reed Richards deixa a desejar tanto no âmbito científico quanto emocional. Do ponto de vista narrativo, a proposta de alinhar dispositivos quânticos em escala global para conter uma entidade cósmica beira o absurdo — não apenas por ser impossível, mas por destoar completamente da lógica interna que o próprio filme vinha estabelecendo. A suspensão de descrença, essencial em obras do gênero, aqui é levada ao limite sem o devido preparo dramático, transformando o clímax em um espetáculo visual vazio de consequência real. O resultado é uma conclusão grandiosa, porém desconectada — um final que mira no épico, mas acerta no genérico.

A imagem mostra Sue Storm, uma mulher loira de olhos azuis, envolta por um fundo abstrato com efeitos de luz e cores vibrantes, representando seu campo de força. Com expressão determinada, ela veste um traje azul e branco. O fundo é composto por um turbilhão de tons intensos que criam uma atmosfera dinâmica e energética, sugerindo ação/habilidades sobre-humanas. O estilo visual é moderno e experimental, com uso expressivo de luz e cor para enfatizar a força e o foco da personagem em um ambiente surreal.
A figurinista Alexandra Byrne criou mais de 90 uniformes inspirados em designs dos anos 1960 (Foto: Marvel Studios)

Por fim, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos propõe um plano mirabolante para salvar o planeta, envolvendo a união coordenada de líderes mundiais, cientistas e até vilões convertidos. Idealista até a medula, a proposta de Reed Richards extrapola os limites da plausibilidade, tanto científica quanto emocional. O alinhamento de dispositivos quânticos ao redor do globo para conter uma entidade cósmica soa fantasioso, beirando o absurdo, e transforma o clímax em um espetáculo desconectado da lógica interna construída ao longo da trama. Ainda assim, esse irrealismo não enfraquece por completo a experiência: o plano funciona menos como solução técnica e mais como metáfora — um chamado simbólico à cooperação em tempos de crise, especialmente diante dos dilemas ambientais e políticos contemporâneos. Nesse sentido, o filme não tenta convencer pela ciência, mas pela esperança.

No fim das contas, Primeiros Passos se assume como uma fábula emocional — não como ficção científica rigorosa. Sua força está na reinvenção afetiva dos personagens e na escolha consciente de valorizar vínculos em vez de fórmulas. Entre rachaduras no céu e buracos narrativos, o que prevalece é a potência do coletivo, a força de um grupo que se recusa a ceder à lógica individualista. A esperança aqui não vem como bravata, mas como construção diária, ética e vulnerável. Mesmo com soluções previsíveis e antagonistas pouco desenvolvidos, a produção conquista ao reafirmar que, no fim, ninguém se salva sozinho — e talvez, nesse gesto, esteja o verdadeiro heroísmo.

Deixe uma resposta