A primeira viagem do Pink Floyd completa 50 anos

O primeiro dos prismas do Pink Floyd
O primeiro dos prismas do Pink Floyd

Guilherme Sette

A estreia do Pink Floyd, lançada há 50 anos, tem o mesmo título de um dos capítulos de um livro infantil, The Wind in The Willows (1908) de Keneth Grahame. O episódio em questão conta a história de uma topeira e de um rato, que saem a noite pela floresta em busca de um bebê lontra, que estava desaparecido.

Na procura da lontra, os animais escutam o som de uma flauta, que os conduz por um caminho colorido e brilhante até a figura de um Fauno, que tocava sua flauta. Os animais contemplam o semideus por um tempo, até que ele desaparece. Logo depois, o amanhecer vem, e junto com ele, encontram o bebê lontra. No caminho de volta para o papai lontra, agora um pouco mais cinzento e menos cintilante, os animais não se lembram do Fauno, mas sentem saudade da boa sensação que os acompanhou ao ouvir sua flauta.

Da esquerda para direita, Richard Wright, Roger Waters, Syd Barrett e Nick Mason
Da esquerda para direita, Richard Wright, Roger Waters, Syd Barrett e Nick Mason

O flautista nos portões do amanhecer vem daí. Foi Syd Barrett quem nomeou o disco, talvez sugerindo que o mesmo viria para elucidar questionamentos e apontar o caminho para os perdidos. A relação que é possível observar, é a influência que o LSD, o semideus que iluminaria o caminho e traria um prazer efêmero, exerce nesta obra em particular e na vida de Syd.

Diversas características relacionadas ao folclore da droga estão, de alguma forma, incorporadas no álbum. Há menções à gnomos (“The Gnome”), comparações existenciais com seres inusitados (“The Scarecrow”) e “passeios” de bicicleta (“Bike”). A arte do disco, os membros da banda vestidos com roupas coloridas fotografados através de um prisma, foi construída para aludir a uma trip de LSD, estilo comum na época para capas, como visto em Revolver dos Beatles e Are You Experienced de Hendrix.

O disco abre com “Astronomy Domine”, exibindo características que a banda não abandonaria durante a carreira. O riff forte de Syd Barrett, que progride junto com as introduções um a um dos outros instrumentos: a bateria de Nick Mason, as linhas de órgão de Richard Wright e o baixo de Roger Waters. Barrett leva o ouvinte a uma viagem pelos distantes planetas do sistema solar e suas luas que culminam numa mistura de gritos e beeps, talvez um prelúdio da jornada do icônico frontman pela fronteira tênue entre a divagação e a loucura.

Na versão americana, a abertura fica a cargo de “See Emily Play”, lançada apenas em single no Reino Unido. Talvez a canção mais importante do ínicio da carreira da banda, os boatos sobre sua inspiração vão desde uma garota que Syd observou enquanto descansava na floresta, até uma famosa escultora inglesa chamada Emily Young, que frequentava pubs do underground londrino na década de 60. A Emily de Syd pode ser todas essas quanto nenhuma delas. A mística do músico, e da banda só cresceu ao longo dos anos.

Em “Interstellar Overdrive”, instrumental creditada aos quatro membros, as características marcantes do Floyd se apresentam. Uma longa faixa sem vocais que surgiu de uma sessão de improviso nos estúdios, é considerada uma das primeiras peças psicodélicas deste estilo colocadas em uma gravação por uma banda de rock.

Barrett durou pouco na banda, e no mundo da música. Em 1968 já havia deixado o Pink Floyd, substituído por David Gilmour. Muitos problemas com drogas, incapacidade de cumprir compromissos e a deterioração de seu estado mental o tornaram insustentável no grupo. Barrett gravou mais dois discos, fez seu último show em 1972 e dedicou os seus próximos 30 anos de vida a viver recluso com a mãe, em Cambridge. Passou os anos pintando e devotado a jardinagem, sendo sustentado pelos royalties que o Pink Floyd foi capaz de lhe proporcionar após o estouro comercial da banda.

Apesar da rápida passagem, sua influência na música é marcante. O estilo irreverente e descolado de trazer novidades para a música psicodélica, ajudou a moldá-la. Distorções, ecos, loops e até o uso de um isqueiro para tocar guitarra foram algumas de suas brisas. Para o Pink Floyd, o impacto é ainda mais reconhecível. A visita de Barrett aos estúdios da Abbey Road durante a gravação de Wish You Were Here em 1975, um disco bastante inspirado nele, é um dos episódios definitivos da trajetória do Floyd:

Curioso como é possível traçar um paralelo com o encontro da lontra e do rato com o Fauno. Todos da banda pareciam ter se esquecido de Syd, embora tivesse sido crucial para a banda. Entretanto, ao reconhecerem-no, imediatamente se ligaram da importância para o seu sucesso. A imagem do Sol como caminho para elucidação também continuou fazendo parte do “enredo” dos futuros discos conceituais do Pink Floyd, aparecendo como imagem do prazer e da satisfação.

Menções a Barrett também estão em outros trabalhos clássicos da banda, como a faixa “Brain Damage de The Dark Side of The Moon (1973) e a cena do filme The Wall (1982), inspirado no disco homônimo, em que o protagonista sofre um surto emocional e raspa seu cabelo.

Comercialmente, The Piper at Gates of Dawn não foi um hit. A certificação dourada só viria cinco anos depois, quando foi comercializado junto com o segundo LP do Pink Floyd, A Saucerful of Secrets, aproveitando o estrelato alcançado pelo grupo. Em 1967, a banda operava sob um contrato que lhes pagaria cinco mil libras por cinco anos. Poucos anos depois, a banda comercializou um dos discos mais vendidos da história, estampado pelo icônico prisma. Tudo isso, graças ao portão aberto por Syd Barrett neste disco curioso e empolgante.

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