Esquadrão Suicida: vilões domesticados não mordem

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Galerinha do mal (Créditos: DC Comics/Warner)

Jefferson Garcia

Seja por questão estética ou escapismo moral, não é surpresa e nem mesmo demérito admitir que, muitas vezes, simpatizamos com vilões da ficção. Apesar de os desfechos das histórias (às vezes, de modo bem burocrático) quase sempre lhes trazerem punições, na maior parte do tempo estes personagens conseguem materializar, ainda que sob um prisma caótico, uma das maiores utopias humanas: a liberdade – de roubar, matar, se vingar e, o que talvez seja o mais atraente, não sentir um pingo de remorso por tudo isso.

Todavia, a realidade parece estar tão mais assustadora que forçou uma repaginação do modelo clássico de vilão. No segmento de animações infantis, é possível perceber uma tendência em repensar o conceito de maldade; isso se dá tanto na humanização dos antagonistas (Meu Malvado Favorito, Detona Ralph) como ao vilanizar momentaneamente personagens comuns e até mesmo bem intencionados (Divertida Mente, Procurando Dory). Também é um molde funcional: ao passo em que antes o apreço pelos malvados vinha pela idealização de alguém sem sentimentos, agora a identificação vem justamente pela fragilidade da presença de emoções.

 

Desse modo, a premissa para Esquadrão Suicida, mais novo filme da DC Comics, era no mínimo a de um bom entretenimento. Atores de renome, personagens apreciados pelo público de HQ, figurino correto, tudo favorável. O pontapé inicial da película não fica atrás: quantas outras vezes um blockbuster mostrou importantes figuras do serviço secreto do governo admitindo, com todas as letras, que manipularam heróis e recrutar criminosos confessos para uma missão de guerra é mais viável?

Mas, infelizmente, toda regra tem exceções – algumas catastróficas, como é o caso deste longa-metragem. Há uma tentativa em mesclar as duas vertentes supracitadas de vilania e, em ambas, o tiro sai pela culatra: ao passo em que a parcela humana dos protagonistas se mostra embasada em um moralismo raso, a parte monstro parece simplesmente mal justificada (o melhor exemplo é Magia, cujos preceitos só não são aleatórios por serem clichês). Aliás, curioso notar que a ideia de conflito – tão intrínseca a vilões – é praticamente nula no filme, e mesmo dilemas pesados (como ser usado como arma do governo ou vê-lo assassinar pessoas à sangue frio, sob a desculpa de manter informações em sigilo) são dissolvidos por conformismo, ora natural, ora fatalista. A direção é apática acima do permitido, e nem as problemáticas mais próximas do público conseguem extrair alguma comoção.

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Clara Delevigne como a mitológica Magia, uma versão humanas de vilões do Harry Potter

O principal problema técnico da obra é péssimo ritmo dado ao roteiro. Os componentes do inusitado time de anti-herois são apresentados de maneira demasiadamente sucinta no começo da trama, e as personalidades distintas de cada um acabam servindo unicamente para alívios cômicos, que ultrapassam o constrangedor na maior parte do tempo. A quantidade de piadas despejadas em frações curtíssimas de tempo acaba indo na contramão do ritmo rápido do filme (quando o espectador dá por si, já saiu da introdução para o cenário da batalha principal) e, por vezes, passa a impressão de que estamos assistindo uma série de comédia barata e não um blockbuster de heróis.

Um parênteses, inclusive: por ironia do destino, o afamado Coringa (Jared Leto) é dos que menos abrem a boca para piadas aqui, e os dois aspectos mais engraçados relacionados ao personagem acabam nem tendo relação com a história. O primeiro se dá pelo fato de Leto, acusado pelos próprios colegas de cast de estar levando o papel a sério demais fora das filmagens, aparecer pouquíssimo nas mais de duas horas de filme. Já o segundo é por seu personagem ser um híbrido bizarro entre o MC Guimê e o Marilyn Manson (MC Guimenso, numa tradução lúdica), tanto comportamental como visualmente.

Jared+Leto+Joker
Sweet dreams are made contando os plaquê de 100, dentro de um Citröen

Já sua parceira – antes a psiquiatra que atendia por Harleen Quinzel, depois Arlequina, uma versão gótica da Xuxa (Margot Robbie) – de crime mostra que o destaque ambíguo que recebeu Internet afora é justificado. Sua performance é a mais versátil dentre os vilões, mas a personagem é sexualizada de modo exagerado e descarado, com roupas minúsculas e takes (dela sozinha e com o grupo) traseiros desnecessários, usados a cada oportunidade – e isso atendo-se apenas às problemáticas mais evidentes. Importante ressaltar que, nos quadrinhos originais, Harley Queen é estuprada pelo Coringa, ao contrário do romance brega que Esquadrão Suicida tenta vender com os dois.

Brega, por sua vez, é um adjetivo bastante acertado para também descrever a trilha sonora do filme. Entre hits manjados de rock, orquestrações clichês e alguns momentos embalados por hip hop, são raras as cenas em que as canções realmente somam em algo – os mais atentos em música logo percebem a intenção humorística por trás das escolhas sonoras, tão cômicas quanto as piadas literais que permeiam o longa-metragem. Nem composições originais de artistas contemporâneos criativos como o guitarrista Dan Auerbach (The Black Keys) e a multifacetada Grimes conseguem injetar algum frescor na película; fica a impressão de serem sobras da raspa do tacho de seus mais recentes trabalhos.

Com tantas opções descartadas e mesmo erradas em uma obra tão atropelada, o ponto alto de Esquadrão Suicida acaba por cair nas mãos de quem expressa firmeza no que faz: a excelente Viola Davis (How To Get Away With Murder) assina a atuação mais segura do filme, e sua Amanda Waller acaba por sempre roubar a cena, sendo a real grande vilã. Sem remorsos, e com muita personalidade – características que fazem uma falta danada no resto do enredo, repleto de potencial.

Ao fim da sessão, a sensação dominante é a de desperdício. Tempo, dinheiro, personagens, reflexões, ou mesmo um bocado de entretenimento; tudo parece ter sido jogado fora. Se interessar ou se identificar com vilões continua não sendo o fim do mundo, visto que é perfeitamente humano analisar atributos que recatamos e questionar a relatividade da compreensão de justiça e moralidade. Agora, quem se reconhecer em Esquadrão Suicida tem, no máximo, a chance de se revelar como um grande bobalhão ou um paranoico armamentista – e destes vilões, definitivamente, não precisamos.

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A talentosa Viola Davis, visionária: adiantando, dentro do filme, a expressão mais comum após seu término.

1 pensamento em “Esquadrão Suicida: vilões domesticados não mordem”

  1. A verdade que o filme foi mais propaganda do que outra coisa. Com toda certeza eles conseguiram levar o público ao cinema, porém o filme foi uma decepção. Cheio de cortes ruins, coisas acontecendo aleatoriamente e tiradas infantis. Não me arrependi de ter ido assistir ao filme, mas toda vez que penso nele acabo gostando menos ainda. Com toda certeza os trailers foram melhores do que o filme 👍

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