
Lara Fagundes
Um adolescente recebe um dom: pode decidir quando acabar com a vida de alguém apenas escrevendo seu nome. Death Note surgiu como um mangá de sucesso, escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata, contando a história de um garoto brincando de Deus e um detetive que o investiga de mais perto do que imagina. A adaptação em anime, sob direção de Tetsurō Araki, teve seu primeiro episódio lançado poucos meses após o final do mangá ser publicado. Em 2026, já é um clássico do gênero e permanece presente na cultura pop, não apenas como um grande thriller narrativo, mas pelo jogo de gato e rato que entretém qualquer um.
Durante 37 episódios, somos guiados por Light Yagami, um jovem no final do ensino médio, filho de policial, um pouco ‘mesquinho’, que encontra um caderno misterioso. Esse objeto vem de um Shinigami, nome associado a entidades relacionadas à morte no imaginário japonês moderno, e que é representado por uma criatura que acompanha o personagem durante a série. Com tanto poder nas mãos de um adolescente, observamos sua tentativa de colocar fim na criminalidade mundial da forma como considera mais correta, se tornando um assassino apelidado de Kira. As atitudes cada vez mais extremas dele são um ponto central na narrativa.

Cada ação de Light é iniciada por um motivo, na teoria, nobre: a busca por um mundo melhor. Ele é apresentado como alguém que sabe que suas ações podem ser questionadas, mas que acredita tão fielmente em seus ideais, e que, do início ao fim, se coloca como um bom moço, que apenas busca um mundo mais seguro. Assim, conforme os episódios, a história vai mostrando a distância entre o discurso dele e aquilo que faz, levando-o a enlouquecer por trás das páginas do caderno. Logo que os policiais percebem seus passos, L entra no jogo, um grande nome na investigação, que se torna um dos personagens mais interessantes da obra por ser o único capaz de acompanhar e desafiar o protagonista intelectualmente.
Com a imprevisibilidade de suas ações, a investigação passa a se entrelaçar cada vez mais nos planos de Kira. Os dois possuem personalidades opostas, mas constroem um vínculo peculiar dentro da rivalidade, baseado na inteligência que os torna ‘diferente de todos’. O suspense é construído pela curiosidade de entender qual será o próximo passo na rivalidade. Isso inicia logo no segundo episódio, quando L utiliza uma transmissão televisiva para enganar o adversário, fingindo se expor. Light acredita estar no controle naquele momento, mas o investigador usa sua reação à armadilha como pista. Esse é o principal diferencial de Death Note: o mistério não depende da necessidade de desvendar quem é o assassino. O espectador já sabe da verdade o tempo todo. Assim, a atenção é mantida pela expectativa de descobrir quem antecipará o movimento do outro primeiro.

Assim, ao lidar com um mangá marcado por mais falas e pensamentos do que ações, o diretor da adaptação, Tetsurō Araki – que também foi responsável pelas primeiras temporadas de Attack on Titan (2013) –, conseguiu tornar as investigações dinâmicas por meio de muitas jogadas visuais. Sua direção destaca atos banais por meio de cores, focos nos detalhes de cada personagem, montagens exageradas e uma trilha sonora (composta por Hideki Taniuchi e Yoshihisa Hirano) com muitas melodias dramáticas. Araki entende que o lápis encostando no caderno deve ser tão impactante quanto apertar o gatilho de uma arma, e a união desses recursos audiovisuais conseguiu trazer a sensação de um assassinato real sendo cometido a partir de um nome sendo escrito.

Araki traz a personalidade de cada personagem para a tela, com enquadramentos que pontuam suas diferenças e suas similaridades. Contrastes visuais surgem principalmente com Light em cores quentes, sendo representado ora como uma divindade, ora com um olhar maligno, dependendo de como a iluminação e os ângulos são utilizados. Além disso, as músicas unem elementos de rock metal e de ópera com cantos em coral, refletindo sua dualidade moral. L, por sua vez, aparece em cores frias, com ar de mistério e destaques em suas peculiaridades comportamentais. A relação entre os dois é uma das maiores forças da história, principalmente por não construir nenhum deles como herói, deixando claro que ambos apresentam atitudes que testam limites éticos.
Além da história e dos personagens, Death Note também foi reconhecido por sua qualidade artística e técnica. Em 2007, recebeu o prêmio de Obra Notável no Tokyo Anime Awards, concedido a produções aclamadas pelo júri, mesmo sem vencerem o prêmio máximo. No ano seguinte, em 2008, voltou a ser mencionado com Mamoru Miyano, dublador original de Light no prêmio de Melhor Dublador. Depois, a série ainda repercutiu com seis filmes, sendo cinco live-actions e uma recapitulação animada em duas partes. Apesar de nenhuma nova adaptação ter alcançado o sucesso da primeira, a produção segue ganhando novos produtos duas décadas depois, como o lançamento de bonecos Funko em celebração ao aniversário.

trailer: https://www.youtube.com/watch?v=NlJZ-YgAt-c
