A estreia de Harris Dickinson em Urchin é traiçoeira

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme UrchinNa imagem, o personagem Mike está sentado em uma cadeira, com as costas apoiadas na parede e pernas em uma mesa. Ele está à direita da fotografia, vestindo camisa de botões verde clara, óculos escuros, shorts com estampas de cruz na tom verde e mocassim de pele de cobra. Ele está com as costas apoiadas no canto da sala, em uma parede, enquanto as costas da cadeira estão na parede da frente. Na mesa de madeira, há um ventilador branco de hélices azuis, um rádio grande, um abajur aceso e uma folha. No canto inferior esquerdo há um aquecedor. As paredes são amarelas. Mike é um rapaz branco, na faixa dos 30 anos, de cabelos castanhos claros e barba por fazer.
O longa marca a estreia do britânico na direção (Foto: BBC Film)

Davi Marcelgo

Urchin é um daqueles filmes que você já sabe o que vai acontecer, pois não trabalha com o segredo ou indicações de reviravolta, apenas com a confirmação da expectativa que o público possui. Nesse sentido, se assemelha a Anora (2024), que dilui um sonho à la Cinderela na primeira parte do enredo para depois desmanchá-lo, puxando o tapete do espectador. Com esse senso de ameaça, o roteirista e diretor estreante, Harris Dickinson, consegue tornar o peito de quem vê, um lar de angústias. A ficção faz parte de duas seções na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Foco Reino Unido e Competição Novos Diretores. Continue lendo “A estreia de Harris Dickinson em Urchin é traiçoeira”

Os caminhos do Cinema em Nouvelle Vague

Cena do filme Nouvelle VagueNa imagem, que é em preto e branco, a personagem Jean Seberg está dentro de um carro, ajoelhada nos bancos de trás, olhando para a janela traseira, de costas para o painel do veículo. Ela está com as mãos apoiadas no rosto e olha com admiração à sua frente. Ela é uma mulher branca, na faixa dos 30 anos, de cabelos loiros e curtos, penteados para o lado.
O filme foi exibido no Festival de Cannes (Foto: ARP Sélection)

Davi Marcelgo

Antes da sessão de Nouvelle Vague na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começar, um medo pairava no ar: Richard Linklater conseguiria respeitar ou se equivaler ao Acossado (1960) de Jean-Luc Godard? A resposta para essa pergunta tampouco importou durante os 105 minutos que rolaram no projetor, porque muito foi sentido na exibição. O diretor americano demonstra saudosismo pelo movimento francês, mas sem se ‘masturbar’ perante a genialidade de Godard, Truffaut ou Varda

Continue lendo “Os caminhos do Cinema em Nouvelle Vague”

Frankenstein, de Guillermo del Toro, é uma invenção eclesiástica demais para ser eternizada

Cena do filme Frankenstein Na imagem, o personagem Frankenstein está no canto direito, olhando para a mesma direção, com o rosto virado. Ele veste um casaco de pele escura e capuz. No rosto, ele usa uma faixa que cobre boca e nariz. Pequenos flocos de neve caem. Sua pele tem tom esverdeado e possui costuras. Na esquerda, uma luz laranja ilumina o personagem, que está em um cenário noturno.
O filme foi exibido no Festival de Veneza e recebeu 14 minutos de aplausos (Foto: Netflix)

Davi Marcelgo

O diretor mexicano tem afinidade com temas e estilos: a criatura que não é aceita pela humanidade, o trabalho artesanal (do stop motion à criação de equipamentos) e a influência de movimentos artísticos, como o gótico, o ultraromântico e o neoclássico. Frankenstein, que faz parte da seção Apresentação Especial na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, prossegue a parceria de Guillermo del Toro com a Netflix em mais um filme que adapta um clássico da literatura sobre um ser trazido à vida com todos os símbolos que remetem ao Cinema do artista.  Continue lendo “Frankenstein, de Guillermo del Toro, é uma invenção eclesiástica demais para ser eternizada”

Por meio do voyeurismo, Animais Perigosos manifesta seu olhar sobre o Terror

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Animais PerigososNa imagem, do ponto de vista de cima para baixo, o personagem Moses está, de costas para a câmera, preso em um gancho, servindo de isca para tubarões. Ele está pendurado, acima do mar, balançando as pernas em desespero. Na água há sangue e um tubarão nadando. No canto superior direito da foto, há a popa de um barco.
50 anos após o clássico Tubarão de Spielberg, Sean Byrne cria sua própria caçada (Foto: Diamond)

Davi Marcelgo

Sentir medo não é a única forma de se conectar com um filme de Terror. Ora, podemos ser atingidos por outras facetas, do prazer à indiferença. Essa relação é guiada por particularidades de quem assiste, como crenças, familiaridade com o gênero e sensibilidade. O Terror Frontal, aquele que dispensa a construção psicológica para assustar, parte do que está no plano para apavorar ou causar nojo. Animais Perigosos parte do voyeurismo para criar catarse e prazer – características intrínsecas do slasher mainstream.   Continue lendo “Por meio do voyeurismo, Animais Perigosos manifesta seu olhar sobre o Terror”

Ver nunca foi tão político em Uma Batalha Após a Outra

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Uma Batalha Após a OutraNa imagem, da esquerda para a direita, estão Perfidia, Willa e Bob, eles são uma família. Os três estão deitados em uma cama, sem roupas, Willa, um bebê, está no meio de Bob e Perfidia, chorando. Ela está deitada em uma coberta grossa. Os pais estão com a mão apoiada no corpo dela, em sinal de calma. Raios de sol atingem o peito e ombros de Perfidia, iluminando a cena. Perfidia é uma mulher negra na faixa dos 35 anos, usa cabelo curto. Bob é um homem branco, na faixa dos 50 anos, de cabelos lisos e claros.
O filme já está entre os cotados para disputar o Oscar 2026 (Foto: Ghoulardi Film Company)

Davi Marcelgo

A relevância e a qualidade de uma obra costumam ser medidas pelos temas abordados. Durante a temporada do Oscar 2025, a vitória de Anora sobre Ainda Estou Aqui e A Substância fez com que algumas esferas de cinéfilos e de fervorosos com a presença do Brasil na cerimônia, menosprezassem, em redes sociais, a conquista por considerarem os filmes de Salles e Fargeat dotados de tópicos mais importantes — um julgamento sem argumentos sólidos, centrado no olhar de quem falava. Entre o campo de guerra do que é mais ou menos significativo, se esqueceu de que Arte não é um produto feito para agradar o consumidor, tampouco deve ser considerado posicionamento político como a principal forma de se relacionar com ela. Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, surge como um trabalho artístico politizado, mas que preserva aspectos do fazer Cinema.  Continue lendo “Ver nunca foi tão político em Uma Batalha Após a Outra”

Juntos viola o body horror em metáfora covarde

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme JuntosNa imagem, os personagens Tim e Millie estão de pé, abraçados. Ela, à esquerda, está com o braço direito apoiado atrás do pescoço dele, parte do punho está enfaixado. Ambos os rostos estão próximos. Enquanto ela fala, Tim a encara com ternura. Ambos vestem camiseta branca e possuem pele clara. Tim é um homem na faixa dos 40 anos, de cabelos claros e corte que parece um mullet. Sua roupa e rosto estão manchados de sangue. Já Millie é uma mulher na faixa dos 40 anos, de cabelos escuros e longos. Ela usa franja na testa.
O filme enfrenta acusações de plágio, pois sua premissa é semelhante a de outros roteiros (Foto: Diamond)

Davi Marcelgo 

É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade”, Luís Vaz de Camões já tinha cantado a bola sobre o amor ainda no século XVI com seu mais célebre soneto. É um sentimento intenso, conflitante, de oposição, que o Cinema normalmente representa como uma experiência melancólica e que leva às nuvens. Contrariando outros gêneros, não é nenhuma novidade que o Terror vai se apoderar de pessoas e núcleos da realidade que não são assustadores, exceto se os deturpar — crianças, cachorros e, no caso de Juntos (2025), um casal.  Continue lendo “Juntos viola o body horror em metáfora covarde”

Entre Montanhas é híbrido genérico com linguagem de videogame

Cena do filme Entre MontanhasNa imagem, a personagem Drasa segura uma arma com mira. Ela está no canto direito da foto, empunhando o objeto com as duas mãos. O cenário é noturno, há algumas luzes amarelas ao fundo e no canto direito. Drasa é uma mulher branca, de cabelos curtos e pretos, na faixa dos 30 anos.
Em entrevista ao Omelete, o diretor elogiou a química da dupla protagonista (Foto: Apple TV+)

Davi Marcelgo

Scott Derrickson possui uma filmografia interessante, seja dirigindo um blockbuster como Doutor Estranho (2016) ou um excelente Terror, O Telefone Preto (2021).  Apesar de ser um diretor regular, nada poderia preparar os assinantes do Apple TV+ para o desastroso Entre Montanhas (2025), a obra mais genérica do cineasta, que parece, inclusive, um embutido das sobras de um filme que nunca aconteceu. Estrelada por Anya Taylor-Joy (Drasa) e Miles Teller (Levi), a produção passeia por gêneros e não consegue acertar em nenhum.  Continue lendo “Entre Montanhas é híbrido genérico com linguagem de videogame”

O Estúdio convence que, para ter prestígio, a Comédia finge ter pompas

Cena da série O EstúdioNa imagem, os atores Seth Rogen (à esquerda) e Greta Lee (à direita) estão conversando em um set de filmagens. Ela olha com ternura para Rogen, enquanto ele presta bastante atenção nela. Greta Lee é uma mulher com traços asiáticos, de cabelos escuros na altura do pescoço. Usa um vestido verde com detalhes em amarelo e gola alta. Seth Rogen é um homem branco, de cabelos curtos e grisalhos. Ele veste uma camisa de botões e óculos. Atrás dos atores está um espelho com lâmpadas acesas na borda, trazendo uma iluminação quente ao ambiente.
Greta Lee faz uma ponta no segundo episódio do show (Foto: Apple TV+)

Davi Marcelgo

Produções satíricas ou sobre os bastidores de determinada mídia têm ganhado cada vez mais espaço na vitrine, de heróis com Deadpool (2016) ao jornalismo com The Morning Show (2019-), a característica metalinguística já deixou de ser novidade. O Estúdio (2025), criada por vários artistas, incluindo Seth Rogen, Frida Perez e Evan Goldberg, é uma série que quase fica na obviedade das sacadinhas que tem ar de superioridade, porém a mistura de gêneros e narrativas prova que a inteligência do texto extrapola qualquer suspeita de autoridade.   Continue lendo “O Estúdio convence que, para ter prestígio, a Comédia finge ter pompas”

Quando o camp é vitalício: os 35 anos de Darkman – Vingança sem Rosto

Cena do filme DarkmanNa imagem, o personagem Darkman olha para frente com expressão de desespero. Ele possui o rosto desfigurado, com cicatrizes na região da boca, bochechas e olhos, com exceção do lado esquerdo do rosto e o nariz. Na face, há ataduras. Darkman é um homem de pele branca e olhos azuis. Ele veste um paletó preto.
Darkman possui duas sequências, mas com Raimi fora da direção (Foto: Universal Pictures)

Davi Marcelgo

Entre as discussões sobre as produções da Marvel Studios, há aquelas que apontam o cinismo como principal característica dos longas. Um desprezo em abraçar o estilo cafona e ingênuo dos gibis, material base dessas adaptações. Ao contrário de Kevin Feige, chefe por trás do maquinário, o diretor Sam Raimi é alguém que jamais renegou a natureza barata das histórias de super-heróis, presente, principalmente, na sua obra mais popular: a trilogia Homem-Aranha. Porém, 12 anos antes do lançamento da primeira teia, o americano criou seu próprio (anti) herói e assumiu o espírito cartunesco como ninguém em Darkman – Vingança sem Rosto (1990). Continue lendo “Quando o camp é vitalício: os 35 anos de Darkman – Vingança sem Rosto”

Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado pesca o que há de melhor no Terror de shopping

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão PassadoNa imagem, a câmera está no ângulo de baixo para cima, com o gancho do assassino em destaque. A arma possui formato de anzol e é prateado. O assassino está em desfoque, ele usa capa de chuva e chapéu, ambos na cor preta.
Após 27 anos longe das telonas, novo filme tenta ressuscitar franquia (Foto: Sony Pictures)

Davi Marcelgo 

A força motriz de Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (1997) é o conteúdo de que a história trata: adolescentes ambiciosos com o futuro, cansados da cidade natal, ficam condenados a viver ou retornar sempre ao local. Esta temática aparece não somente no texto, mas na forma como o diretor Jim Gillespie isolava as personagens do resto da população, a tragédia era algo particular do grupo de amigos. A premissa se perdeu na sequência de 1998 e no remake de 2006, mas retorna com força total, embora reimaginada, no filme que chegou aos cinemas em 2025; a requel sem medo de ser a ‘irmã feia’ de Pânico (2022).

Continue lendo “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado pesca o que há de melhor no Terror de shopping”