Virtuosas nos mostra uma realidade escondida, porém em ascensão 

Cena do filme Virtuosas (2025). Na imagem, uma mulher está em um ambiente interno, iluminado por uma luz suave. Ela tem o cabelo curto, de um tom loiro meio escuro e veste uma blusa branca de gola alta. Seu olhar está atento e suas mãos estão erguidas
No filme nos é apresentado o movimento Virtuosas, que vem crescendo dentro do conservadorismo feminino (Foto: Novelo Filmes)

Stephanie Cardoso

Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Mostra Brasil, Virtuosas apresenta um retrato inquietante do conservadorismo contemporâneo. Dirigido por Cíntia Domit Bittar, a produção acompanha Virginia (Bruna Linzmeyer), uma influenciadora que defende a submissão feminina e o cuidado exclusivo com a família como forma de moralidade. Por trás da aparente devoção, a personagem busca controle absoluto: manipula, engana e silencia em nome de princípios ideológicos. Ao reunir três participantes em um retiro voltado para o aperfeiçoamento pessoal, surge um ambiente de tensão crescente, histeria e violência, onde regras de perfeição transformam-se em prisões psicológicas.

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Mirrors No. 3, Foi Apenas um Acidente e o inescapável lado humano

À esquerda: Cena de Mirrors No. 3. Uma mulher de cabelo cacheado, veste um moletom roxo, olha para o lado esquerdo de um campo verde, segurando uma bicicleta. À direita: Cena de Foi Apenas um Acidente. Em uma paisagem desértica, um homem de camiseta azul está em pé, enquanto um homem de camisa branca e uma mulher vestida de noiva estão sentados na parte traseira aberta de uma caminhonete branca.
Foi Apenas um Acidente fez parte das seções Homenagem e Apresentação Especial (Foto: Schramm Film Koerner Weber Kaiser e Jafar Panahi Productions)

Guilherme Moraes

A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que elas se interligam de maneiras inimagináveis. Mirrors No. 3, dirigido por Christian Petzold, é um longa alemão sobre pessoas superando o luto. Por outro lado, Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, tem como foco principal um grupo de ex-prisioneiros políticos iranianos que encontram, possivelmente, o seu antigo torturador. Apesar das temáticas diametralmente distintas, ambas se aproximam por sentimentos basilares do ser humano: a dor e o trauma.

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A Árvore do Conhecimento tenta ser crítico, mas acaba sendo apenas debochado e raso

Cena de A Árvore do Conhecimento. Em um quarto de aparência clássica, um jovem de cabelos escuros cacheados senta-se abruptamente na cama com uma expressão de surpresa, vestindo uma camisa de dormir branca. A cena é inusitada, pois ele está ladeado por dois animais: à sua esquerda, um burro cinza está em pé ao lado da cama olhando para ele, e à sua direita, um cachorro da raça golden retriever descansa tranquilamente sobre o edredom marrom.
Eugène Green já participou da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo anteriormente (Foto: O Som e a Fúria)

Guilherme Moraes

Assim como na edição anterior, o que não falta na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo são filmes escondidos que podem surpreender positivamente. Este não é o caso de A Árvore do Conhecimento, dirigido por Eugène Green e que fez parte da seção Perspectiva Internacional. A obra portuguesa se apega à fantasia e à comédia escrachada para fazer críticas à extrema direita mundial – especialmente a norte-americana –, porém as piadas não conseguem ir além do deboche.

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Babystar convida a rir do absurdo e implora para que ele não seja o novo normal

Cena do filme Babystar: À esquerda, um homem de cabelo longo preso em um coque olha para uma tela. No centro, Luca, uma mulher branca e loira, de vestido vermelho amarrado ao pescoço, tira uma selfie com o celular, enquanto sua mãe, à direita, também branca e loira em um conjunto rosa, fotografa a cena com o celular. Todos estão sentados em uma mesa de jantar elegante, iluminada por luz amarela suave, com taças, guardanapos dobrados e cortinas de tons claros.
”Eu penso que o problema [nas redes sociais] é que todos pensam ser a pessoa mais importante do mundo”- Joscha Bongard para o Persona (Foto: Lise Lotte Films)
Mariana Bezerra 

Babystar é um filme alemão independente, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 2025. No Brasil, ele foi exibido, pela primeira vez, na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo como integrante competitiva na categoria Novos Diretores. O longa de Joscha Bongard mergulha no universo das redes sociais e dos influencers para construir a narrativa sobre uma família cuja vida íntima é completamente exposta, sem qualquer indício de privacidade. Com um orçamento extremamente limitado, Bongard mantém a câmera centralizada na casa desse núcleo familiar, que parece mais um estúdio do que um lar. Nela, os laços genuínos estão em guerra constante com o desejo e a necessidade de performar.

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Em Bugonia, Yorgos Lanthimos explora o limite entre a morte e a criação

Imagem de Bugonia, filme de Yorgos Lanthimos. Na foto vemos a personagem Michelle, uma mulher branca com a cabeça raspada, olhando para cima. Na região de cima da imagem escorrem dois líquidos sobrepostos, um na cor vermelha e outro na cor amarela.
Bugonia pode figurar entre os indicados no Oscar de Melhor Filme (Foto: Universal Pictures)

Vitória Borges

Exibida no Festival de Veneza de 2025, Bugonia, nova produção de Yorgos Lanthimos, faz parte da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O longa, que acompanha a história de dois jovens primos obcecados por teorias da conspiração, busca trazer uma sátira um pouco grotesca sobre os pensamentos políticos da esquerda e da direita.

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O Mundo do Amor nos ensina a não sermos definidos pela nossa dor

Cena do filme O Mundo do Amor. Uma estudante de uniforme escolar está sentada sozinha em uma sala de aula vazia, lendo uma carta com expressão preocupada. Ela veste uma camisa branca, colete bege e gravata azul escura. Ao redor, há mesas desorganizadas com livros e mochilas.
Os bilhetes recebidos durante o filme sempre a questionam ‘você realmente seguiu em frente?’ (Foto:Barunson E&A)

Stephanie Cardoso

Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Perspectiva Internacional, O Mundo do Amor confirma Yoon Ga-eun como uma das vozes mais sensíveis e afiadas do cinema sul-coreano. Depois de encantar com O Nosso Mundo (2016) e The House of Us (2019), a diretora volta ao universo adolescente com um olhar maduro, quase dolorosamente humano. Aqui, cada silêncio diz mais que qualquer diálogo, e a câmera parece sussurrar o que os personagens não conseguem falar.

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Depois, a Névoa revela o que resta quando o tempo se dissolve

Um plano médio de César (Pablo Limarzi) no filme 'Depois, a Névoa'. Ele é um homem de meia-idade com barba e cabelo grisalhos, vestindo um casaco de couro escuro e um cachecol marrom grosso. Ele olha diretamente para a câmera com uma expressão séria, em um ambiente externo à noite, com luzes de rua ou carros desfocadas ao fundo.
A travessia de César é também a travessia do olhar (Foto: Punto de Fuga Cine)

Arthur Caires

Há algo de ritualístico em Depois, a Névoa, segundo longa-metragem de Martín Sappia, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores. O filme se inscreve na tradição do cinema cordobês – vertente argentina que há anos busca capturar a serenidade e o isolamento de personagens mergulhados em paisagens interiores tanto quanto geográficas. No entanto, Sappia não apenas revisita esse território: ele o observa como se fosse a primeira vez, como se cada névoa, cada pedra e cada sopro de vento ainda tivessem algo a revelar sobre o que significa existir no mundo.

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O Agente Secreto: pensado para que o Brasil visse a si mesmo, abriu portas no mundo todo

Tapete vermelho do filme Agente Secreto. Várias pessoas estão juntas enquanto olham para a câmera, para tirarem uma foto. Ao fundo está o painel da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Elenco e equipe de O Agente Secreto durante o tapete vermelho em São Paulo (Foto: Mariana Bezerra)

Mariana Bezerra e Stephanie Cardoso

Na noite de 28 de outubro, o Cultura Artística, em São Paulo, foi tomado por flashes, tapete vermelho e uma plateia ansiosa para a exibição de O Agente Secreto durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A sessão contou com a presença do elenco e uma recepção calorosa – um marco simbólico para um filme que já nasceu com vocação internacional. Depois de brilhar no Festival de Cannes e ser escolhido para representar o Brasil no Oscar, o novo longa de Kleber Mendonça Filho vem consolidando o diretor como uma das vozes mais originais e respeitadas do cinema contemporâneo.

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Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado

Cena do filme Terra Perdida. Somira, vestindo uma camiseta laranja, carrega o irmão mais novo, Shafi, vestindo uma camiseta branca, nas costas em um campo verde sob um céu nublado. Ambos têm expressões sérias.
O longa foi premiado com a Menção Especial do Júri na seção Orizzonti do 82º Festival de Veneza (Foto: Rediance)

Eduardo Dragoneti

Há filmes que parecem nascer do silêncio – não o que acalma, mas o que grita. Terra Perdida, de Akio Fujimoto, é um desses. Exibido na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa do diretor japonês surge para contar uma história antiga, porém que o mundo insiste em não ouvir. A trama acompanha dois irmãos Rohingya, minoria muçulmana apátrida de Mianmar, Somira (Shomira Rias), de nove anos, e Shafi (Muhammad Shofik), de quatro, que partem ao lado da tia e do avô para uma jornada perigosa rumo à Malásia junto a outros refugiados, movidos pela esperança de reencontrar a família. Continue lendo “Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado”

Persona Entrevista: Cristiano Burlan

                Em estreia na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor de Nosferatu revela as características decoloniais de seu vampiro

Arte do Persona Entrevista. Na ilustração, no canto direito, há um quadrado com uma fotografia do diretor Cristiano Burlan. Ele está de frente, veste um casaco preto com botões. Ele é um homem branco de cabelos e barbas grisalhos. No canto esquerdo, há a logo do Persona, um olho com um ícone de play na íris., que é da cor azul-piscina. Abaixo, está escrito em branco "Persona", seguido de "Entrevista". Mais para baixo, para a direita, está a logo da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. No canto inferior esquerdo, está escrito o nome do cineasta "Cristiano Burlan". O fundo da imagem tem a arte do festival, assinado por Valter Hugo Mãe. Várias bolas brancas e ondas azuis.
Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet estrelam o filme (Arte: Arthur Caires/Fotografia: Zé Carlos Barretta/Folhapress)

Davi Marcelgo

Um navio chega ao litoral do Brasil. Os contêineres substituem as silhuetas imensas dos altos prédios no horizonte. Em seguida, o título Nosferatu surge no casco da embarcação em uma tipografia de pichação na cor vermelha. O transporte que se confunde com a cidade nas imagens em branco e preto de Cristiano Burlan transmite uma mensagem de integração. Seria o vampiro incorporado a uma metrópole brasileira ou o país condicionado ao colonialismo das produções hollywoodianas? Quem chega de navio a um país suga, como um parasita, a identidade daquele território ou ele é sufocado pelo que já habita ali?  Continue lendo “Persona Entrevista: Cristiano Burlan”