Aviso: Este texto contém spoilers do filme

Eduardo Dragoneti
Ao completar 60 anos, Bárbara, vivida por Glória Pires, descobre que o maior desafio da maturidade pode ser reaprender a se permitir. A mesma lição se estende à sua intérprete, que estreia na direção do longa-metragem Sexa. Apostando em temas como o etarismo, a feminilidade e a liberdade sexual, o filme, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, expressa sua mensagem com o tom de novela que marca as cinco décadas de Glória dedicadas à televisão. As escolhas de roteiro (Guilherme Gonzalez) e montagem (Livia Arbex) reforçam essa familiaridade com o formato televisivo, mas engana-se quem julga o ritmo. A proposta é dialogar justamente com o público 60+, formado pelas novelas da Globo, SBT e Record, e nesse ponto a produção acerta em cheio.
O longa utiliza a catarata, doença ocular comum na terceira idade, como metáfora para a visão limitada de Bárbara diante do envelhecimento. Aos 60 anos, ela acredita estar velha demais para ‘viver a vida’, e parte desse desânimo vem da forma como seu próprio filho, vivido por Danilo Mesquita, a trata. Em uma das primeiras cenas, na mesa de um restaurante, ele e a nora não hesitam em pedir que a vó pague a creche do neto, enquanto Bárbara arca com a conta dos três e ainda escuta julgamentos por usar uma roupa que ele considera inadequada para sua idade.

O papel de romper a apatia de Bárbara fica com Cristina, sua melhor amiga, vivida por Isabel Fillardis, que provoca a protagonista a sair da zona de conforto e se permitir novas experiências. Mesmo sem grande desenvolvimento no roteiro, Fillardis se destaca pela espontaneidade em cena e por equilibrar o tom cômico com o afetuoso. Ainda assim, a direção de Glória, acostumada com as novelas, nem sempre ajuda. Em vários momentos, a atriz acaba presa a uma atuação caricata, que arrasta o humor para o campo do constrangimento.
Em meio a essa fragilidade surge Davi, vivido por Thiago Martins, um homem 25 anos mais jovem que aparece na vida de Bárbara como uma surpresa com a qual ela não sabe bem como lidar. O relacionamento desperta um entusiasmo que há tempos a ‘sexa’ não sentia e, também, uma insegurança alimentada pela opinião dos outros, principalmente do filho. A diferença de idade se torna menos um obstáculo real e mais um reflexo do etarismo que cerca a protagonista. Glória explora esse impasse durante boa parte da trama, como é de costume em novelas, mas tentar encaixar tantas idas e vindas em um roteiro de cinema torna o conflito forçado e enjoativo de acompanhar.

A parte técnica também sofre com escolhas que comprometem a imersão. A dublagem é irregular em várias cenas, principalmente nas falas do neto de Bárbara, que soam artificiais e destoam do restante da mixagem. Somam-se a isso os vícios de montagem herdados da TV, como os constantes fade-ins e fade-outs e alguns cortes abruptos que quebram o ritmo das sequências. Esses recursos, somados à trilha que sobe e desce sem muita sutileza, deixam o filme com um acabamento instável, reforçando a sensação de que Sexa não se entende como uma produção para o cinema.
O roteiro também acumula pontas soltas. O filho de Bárbara, construído como símbolo do etarismo e da dependência emocional, termina a trama recompensado com uma boa oportunidade de trabalho, sem qualquer reflexão sobre o modo como tratou a mãe. Já a personagem de Rosamaria Murtinho, apresentada quase como uma figura de sabedoria, surge apenas para um diálogo final à beira-mar que tenta dar encerramento à história, porém acaba soando explicativo e apressado – como um final de novela.
Mesmo com boas intenções, Sexa termina vítima dos próprios vícios de linguagem que Glória Pires parecia querer superar em sua estreia como diretora. Falta ao longa o olhar cinematográfico que o distanciaria da televisão, mas ainda existe a sensibilidade e vontade pertinente de conversar com o público que ele se propõe a alcançar. No fim, Sexa não inova o gênero das comédias românticas nem a carreira de sua realizadora, porém reafirma que, aos 60, Glória Pires continua a se reinventar, mesmo que o resultado soe familiar demais.
