Vendi minha alma para Kate Bush

Diferentona: a perfomance de Kate Bush foi bastante influenciada por Lindsay Kemp, mímico e dançarino famoso por seus trabalhos com David Bowie (Peter Still/Rolling Stone)

Leonardo Santana Teixeira

De Frank Ocean a Björk, de vez em quando a indústria musical esbarra em um tipo único de artista. É raro, mas acontece. Artistas que navegam perfeitamente entre suas ambições criativas e os desejos do público; que de um jeito ou de outro, conseguem realizar quaisquer que sejam seus experimentos musicais e, ainda assim, manter a atenção da audiência.

Kate Bush é parte desse grupo seleto e tem nos mantido, mais do que atentos, hipnotizados há 40 anos. O jornalista britânico Harry Doherty certa vez definiu a cantora como um “enigma que nos confunde a todos”. E é por aí mesmo: de sua voz soprano fantasmagórica aos conceitos inventivos que ela instala em cada um de seus trabalhos, Catherine é o exemplo máximo do que conhecemos como “fora da caixinha”, no melhor sentido possível.

A fama de Bush veio para mim antes de sua música. A cantora porta certa aura artística, sendo inovadora o bastante para agradar às desilusões adornianas dos maiores críticos da música pop e, ainda assim, soar palpável para as rádios. Tudo começou com o disco The Kick Inside (1978).

Tanta engenhosidade na arte de Bush rendeu um grande hype através das décadas. E foi exatamente o culto a clássicos como “Wuthering Heights”, seu single de estreia, que me chamou a atenção. Baseado na obra homônima (“O Morro dos Ventos Uivantes” no Brasil) de Emily Brontë, a faixa traça um monólogo do fantasma de Cathy Earnshaw, a mimada protagonista do romance, relatando o lugar de sofrimento em que se encontra sem seu amado Heathcliff.

Efeito Bush? Tetê Espíndola, a “Kate Bush brasileira”, estourou em 1985 nas rádios brasileiras com o hit “Escrito nas Estrelas” (Koh Hasebe/Shinko Music)

Seu amor nunca foi para frente pois ela se casou com outro por interesses financeiros, culpa que Cathy nega mesmo depois de morta. A petulância da personagem é facilmente identificável através do balé vocal de Kate, que sustenta agudos impressionantes e intencionalmente assombra o ouvinte. Talvez um dos hits mais improváveis de que se tem notícia, a faixa é a mais longa do disco e não era a escolha inicial da gravadora para abrir os trabalhos de divulgação do mesmo. Mas Kate insistiu. Tirou Abba do topo da parada inglesa e chegou para ficar.

É pop da melhor qualidade. Que vem, no entanto, carregado de doses cavalares de estranheza. E, levando em conta que grande parte das canções foi escrita pela compositora quando ela tinha apenas 13 anos, fica fácil entender o que David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, viu na jovem. Foi o apadrinhamento dele que encaminhou Bush à EMI Music, num momento raro em que uma gravadora deu a uma jovem artista a possibilidade de explorar livremente o próprio talento.

Gilmour pode ter tentado introduzir Kate Bush ao mundo, mas em “The Kick Inside” ela toma a função para si: dotado de certa inocência (coerente com os meros 19 anos que ela tinha à época do lançamento do álbum) o disco nos entrega a Kate pianista, a compositora, a cantora… Todos esses tópicos são extremamente representativos da personalidade compositora de “Strange Phenomena”, realmente como se ela estivesse se apresentando.

Não posso negar que conhecê-la pode ser desafiador. A produção (encabeçada por Andrew Powell) é doce e melódica até o fim, mas a temática vai além de amores perdidos. A faixa-título é a carta de suicídio de uma mulher grávida que carrega o filho do próprio irmão. Uma experiência áspera e triste, mas que vale cada acorde.

No fim das contas, o inevitável aconteceu: me vendi para Kate Bush. Impossível não reconhecer que seu piano que dança, sua voz única e a poesia que é bela pela esquisitice estão entre os melhores presentes que a música pop pode oferecer.

The Kick Inside é um começo dos bons para uma carreira brilhante. Kate se aventuraria em trabalhos mais viajados durante nos anos seguintes, mas sua natureza está aqui: alguns momentos me desconcertam, em outros eu só queria ouvir sua voz para sempre.

É repleto desta essência, como se a tracklist fosse um passeio bastante incomum pela cabeça de uma heroína romântica tão complexa quanto as que Emily Brontë criou, com a diferença de que os pensamentos que Kate Bush nos entrega são aqueles íntimos demais, dos quais o mocinho nunca deverá tomar conhecimento.

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