The Get Down: uma homenagem às origens do hip-hop

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Os Get Down Brothers

Matheus Fernandes

Na década de 70, Nova Iorque era o inferno na terra. A divida impagável crescia na medida em que o arrecadamento caia e a classe média abandonava a cidade pelos recém criados Suburbs. A situação econômica motivou uma série de cortes na máquina pública, principalmente nos mecanismos de bem-estar social, gerando as condições perfeitas para picos históricos de criminalidade. Filmes da época como The Warriors e Escape From New York retratam bem a impressão que se tinha, de uma violência epidêmica que dominava tudo. Mesmo Taxi Driver, clássico de Martin Scorcese, exibe a cidade como epicentro da degeneração humana.

Ainda assim, nesse período desolador a cidade passou por uma de suas maiores ondas criativas. Estilos musicais como o punk, a disco e o hip-hop, para ficar nos principais, prosperaram. E esse é o momento histórico de The Get Down, nova série do Netflix, idealizada e produzida por Baz Luhrmann, cuja primeira parte da primeira temporada estreou recentemente. Como diz o título do primeiro episódio da série: Onde há ruínas, há esperança de tesouros.

A história é narrada na década de 90, por meio do hip-hop de Zeke – dublado aqui pelo lendário Nas – que contam as histórias de sua juventude no South Bronx. Zeke (Justice Smith) é um adolescente de origens negra e porto-riquenhas, conhecido por sua habilidade com a escrita. O Bronx estava em chamas, e Ezekiel também, dividido entre diferentes projetos de vida representados por dois personagens ao seu redor: Shaolin Fantastic (Shameik Moore, de DOPE), conhecido por sua devoção à cultura asiática, seus grafites e por seus impecáveis Puma Clyde vermelhos, que busca se tornar um DJ enquanto se sustenta como auxiliar nos esquemas criminosos da gangster Fat Annie; e Mylene, amiga de infância e interesse romântico, que vê a possibilidade de ascensão social em uma carreira como cantora disco, enquanto lida com obstáculos como um produtor decadente, Jackie Moreno, e o pai ultrarreligioso, interpretado por Giancarlo Exposito, o Gus de Breaking Bad.

Completam o núcleo principal Dizzee, Ra Ra e Boo Boo, três irmãos que com Zeke e Shao formam os Get Down Brothers. Dizzee, interpretado por Jaden Smith, é um dos destaques da série, representando o aspecto artístico do hip-hop, com suas roupas customizadas e seus grafites no metrô, em um estilo que remete a artistas como Basquiat e Haring.

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antes do MoMA, as paredes.

Ao longo dos seis episódios os personagens vão encontrando na arte uma forma de expressão, principalmente nas batalhas de DJ, enquanto enfrentam as dificuldades próprias do ambiente, como a criminalidade e a negligência do poder público. O conceito é basicamente uma combinação de rag to riches com coming of age, mas a ambientação que foge ao comum das séries consegue tornar interessante a história simples.

A obra busca um misto de ficção e documentalidade. Ainda que boa parte dos personagens sejam criações, outros, como o bilionário conservador (mesmo sendo parte do partido democrata) e prefeito de Nova Iorque por 12 anos Ed Koch são reais, dando uma contextualização temporal maior. Na parte do hip-hop, uma série de lendas do ritmo fazem aparições, como Kool Herc e Grandmaster Flash, que funciona como mentor dos personagens em sua jornada musical. Flash trabalhou como produtor da série, junto de gente como Nas e Kurtis Blow, ajudando a manter a autenticidade e o respeito ao período e à cultura do hip-hop. Eventos reais da época também entraram no roteiro, como o apagão de 1977, que acaba servindo como ponto de virada na carreira e no romance de Zeke. Até as gangues de rua, imortalizadas em The Warriors e tema de documentários como Rubble Kings e Flyin’ Cut Sleeves, são representadas aqui, com os Savages Warlords.

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Grandmaster Flash, em sua versão fictícia, e Shaolin Fantastic

Mesmo que Luhrmann não seja exatamente um exemplo de bom diretor e venha do fracasso de Great Gatsby, sua experiência com musicais, como Moulin Rouge, é visível na série. Quase toda cena tem sua música, que nos momentos principais é alternada e fundida com a trilha de outros personagens, o que além de manter o pacing, dá o ar de mixagem próprio do hip-hop. O fato do rap ser fortemente ligado à contação de histórias beneficia a música como instrumento de storytelling, fugindo do aspecto kitsch que assola os musicais, sobretudo os televisivos.

A parte estética segue a grandiosidade extravagante de seus trabalhos, com cores que enchem os olhos e figurinos atrativos. As festas, responsáveis pelas melhores cenas, são frequentes e chamam a atenção, de uma competição de dança em uma discoteca à uma batalha de DJs em um terreno abandonado.

A música, além de destaque na história, funciona como o grande fio condutor dos episódios, com uma seleção extremamente numerosa e variada, mas impecável. Dezenas de clássicos e pérolas perdidas da música disco, gospel, hip-hop e até do rock experimental (como Vitamin C dos alemães do Can, tema de Dizzee) dão o tom a suas cenas. Os mais familiarizados ainda conseguem encontrar referências, como Shao testando sua discotecagem com o break que seria a base de “It Takes Two”, de Rob Base e DJ EZ Rock, uma das faixas mais influencias da história do hip-hop. O destaque ao disco ajuda a consolidar a recuperação moderna do ritmo, que apesar de ser base de boa parte da música moderna, foi injustiçado por décadas por críticos e fãs. Se a série é a mais cara da história do Netflix, boa parte do investimento foi em sua trilha.

 

Como decepção na parte sonora ficam justamente as canções originais, que apesar de nomes como ZAYN, Miguel e Cristina Aguilera, acabam soando sem graça perto das canções do período.

Depois de vários anos em development hell, The Get Down consegue chegar ao público, ainda que pela metade, sendo cortada no momento onde as coisas parecem engrenar. Ainda assim, sua dedicação à pesquisa histórica e o trabalho estético, combinado com uma narrativa funcional, é suficiente para superar concorrentes de peso como Vinyl, e criar expectativa para a segunda metade da temporada, onde a promessa é expandir ainda mais o universo musical da série.

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