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	<title>Arquivos Machismo &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O pesadelo feminino toma forma em The Royal Hotel</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Nov 2023 20:22:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Giovanna Freisinger Um bar fuleiro, na fronteira de uma remota cidade mineradora no deserto australiano, com a população majoritariamente masculina. Essa é a ambientação de The Royal Hotel. Não tem espíritos possessivos nem psicopatas mascarados, mas é um cenário para um filme de terror tão assustador quanto, senão mais. Pergunte a qualquer mulher. A diretora &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/the-royal-hotel-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O pesadelo feminino toma forma em The Royal Hotel"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31887" aria-describedby="caption-attachment-31887" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31887" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3.png" alt="Cena do filme The Royal Hotel. Da esquerda para direita, Liv (Jessica Henwick) abraça por trás Hanna (Julia Garner) e descansa a cabeça em seu ombro. As amigas estão em uma sacada, olhando para o lado de fora." width="1200" height="735" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3-800x490.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3-1024x627.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3-768x470.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31887" class="wp-caption-text">Kitty Green colabora novamente com Julia Garner, estrela do seu filme anterior, A Assistente (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Giovanna Freisinger</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um bar fuleiro, na fronteira de uma remota cidade mineradora no deserto australiano, com a população majoritariamente masculina. Essa é a ambientação de </span><i><span style="font-weight: 400;">The Royal Hotel</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Não tem espíritos possessivos nem psicopatas mascarados, mas é um cenário para um filme de terror tão assustador quanto, senão mais. Pergunte a qualquer mulher. A diretora </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-assistente-critica/"><span style="font-weight: 400;">Kitty Green</span></a><span style="font-weight: 400;"> aperfeiçoa o pesadelo feminino, comunicando eficientemente a sensação de ser observada como um pedaço de carne fresca, em meio a predadores famintos. O suspense se constrói sobre aquilo que é desconfortável, sinistro e, assustadoramente, familiar. </span></p>
<p><span id="more-31886"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Vocês terão que estar ok com um pouco de atenção masculina</span></i><span style="font-weight: 400;">”. As personagens de </span><a href="https://personaunesp.com.br/inventando-anna-critica/"><span style="font-weight: 400;">Julia Garner</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/punho-de-ferro-serie/"><span style="font-weight: 400;">Jessica Henwick</span></a><span style="font-weight: 400;"> são avisadas antes de seguir para o local do seu emprego de férias, após o dinheiro das amigas acabar no meio do seu mochilão pela Austrália. Lá, elas se veem diante do que é verdade para muitas mulheres em ambientes de trabalho: são forçadas a engolir seco e escutar as piadas machistas, os assédios e insinuações, os olhares e o comportamento bêbado desagradável. Elas são orientadas a sorrir mais, para não afastar os clientes. Green constrói representações fiéis das micro-agressões que acompanham a opressão estrutural e cultural.</span></p>
<figure id="attachment_31889" aria-describedby="caption-attachment-31889" style="width: 841px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31889" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3.png" alt="Cena do filme The Royal Hotel. Da esquerda para a direita, Matty (Toby Wallace) e Billy (Hugo Weaving) estão sentados em frente ao balcão do bar, olhando para e conversando com Liv, que está atrás do balcão" width="841" height="559" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3.png 841w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3-800x532.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3-768x510.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31889" class="wp-caption-text">A inspiração para o roteiro veio do documentário Hotel Coolgardie, de Pete Gleeson, que acompanha duas amigas mochileiras trabalhando em um bar no Outback Australiano (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sabemos muito pouco sobre a dupla central. Elas comentam que procuraram o lugar mais afastado possível de onde vieram, mentem ser do Canadá e parecem querer deixar algo para trás. O roteiro de Green e </span><a href="https://www.nziff.co.nz/2009/archive/van-diemens-land/"><span style="font-weight: 400;">Oscar Redding</span></a><span style="font-weight: 400;"> não oferece uma janela para as motivações e intenções das protagonistas, ao invés disso, elas servem como avatares para a experiência feminina generalizada. Apesar desse elemento empobrecer o enredo, dificultando a conexão do público com as personagens, Garner e Henwick entregam performances sinceras e intensas, que ajudam a adicionar a profundidade que falta aos papéis.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.abc.net.au/news/2017-10-26/royal-hotels-why-are-so-many-pubs-named-curious-central-west/9068572"><span style="font-weight: 400;">Royal Hotel</span></a><span style="font-weight: 400;">, como é chamado o bar, tem seus fregueses habituais. A cada cerveja que as garotas servem sobre a bancada, presenciamos as interações sempre um pouco incômodas. A paisagem da porta para fora é um horizonte vasto que parece infinito, mas lá dentro o ar é claustrofóbico. A câmera espelha a perspectiva de Hanna durante toda a trama, colocando o espectador no mesmo estado mental de constante alerta da personagem, necessário para se manter segura. A atmosfera indica perigo, mas tudo parece normal. Ela é levada a questionar o tempo inteiro se está exagerando, ou imaginando coisas onde não tem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A progressão do desconforto ao medo e, eventualmente, à violência é realizada com maestria. A tensão vai aumentando conforme fica mais certo que algo ruim está prestes a acontecer. As garotas se veem cada vez mais sozinhas, contra a cidade, contra o sistema, contra a cultura. O filme </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2023/10/the-royal-hotel-julia-garner-shot-list-awards-insider"><span style="font-weight: 400;">subverte o terror</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas sabe brincar com os seus elementos. Caminhando para a conclusão, a direção de Green e a cinematografia de Michael Latham incorporam mais recursos clássicos do gênero.</span></p>
<figure id="attachment_31888" aria-describedby="caption-attachment-31888" style="width: 500px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31888" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-2.png" alt="Cena do filme The Royal Hotel. Close no rosto de Hanna. Ela tem sangue escorrendo do lado direito do seu rosto e está olhando o isqueiro aceso que segura próximo ao rosto.]" width="500" height="281" /><figcaption id="caption-attachment-31888" class="wp-caption-text">O filme chegou ao Festival Internacional de Cinema de Toronto, após uma primeira exibição no Festival de Cinema de Telluride (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Toda a construção da narrativa em torno do gradual acúmulo de tensão pede uma resolução que finalmente compense isso. Porém, o que recebemos é um sentimento frustrado de: é isso? O filme não entrega o final catártico que antecipa, nem se compromete com a decepção intencional de uma dura mensagem pessimista &#8211; à la </span><a href="https://personaunesp.com.br/bela-vinganca-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bela Vingança</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A última cena é o cerne da obra e é tão deslocada do restante que é quase cômica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse caso, o desfecho compromete todo o enredo. É como se caminhássemos com aquelas personagens durante toda a duração de </span><i><span style="font-weight: 400;">The Royal Hotel</span></i><span style="font-weight: 400;">, para não chegarmos a lugar nenhum. É evidente que Green </span><a href="https://youtu.be/v00d-9AYEKc?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">tem o que dizer</span></a><span style="font-weight: 400;">. A diretora faz um comentário pertinente sobre a vivência feminina e a cultura do estupro, mas, ao final de tudo, falta coesão narrativa que justifique o tempo de uma hora e meia para passar essa mensagem. </span></p>
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		<title>Joy as an Act of Resistance: Há 5 anos, IDLES revolucionava ao ser feliz</title>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Veiga A felicidade incomoda, isso é fato. Outra coisa que também faz questão de desagradar é o punk-rock. O gênero que surgiu em meados dos anos 1960 e incorpora o garage rock e o proto-punk assume a roupagem de ser uma pedra no sapato do sistema, a peça que não se encaixa no quebra-cabeças. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/joy-as-an-act-of-resistance-5-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Joy as an Act of Resistance: Há 5 anos, IDLES revolucionava ao ser feliz"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31397" aria-describedby="caption-attachment-31397" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31397" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-1.jpg" alt="Ensaio fotográfico da banda IDLES para a revista NME. Nela temos, da esquerda para a direita, Mark Bowen, um homem branco de cabelos castanhos e bigode volumoso; Lee Kiernan, um homem branco de cabelos longos castanhos; Adam Devonshire, um homem branco careca de barba ruiva volumosa, seguido logo abaixo por Joe Talbot, um homem branco de cabelo preto ralo, barba por fazer e bigode e Jon Beavis, um homem branco de cabelos castanhos. Mark veste um macacão de trabalhos azul escuro com o escrito “HART” no peito esquerdo. Lee veste uma camisa branca por dentro da calça preta e um óculos de armação na cor vinho. Adam veste uma camisa vinho e calça preta. Joe veste uma camiseta branca, camisa florida e calça preta e Joe veste uma camiseta branca, camisa salmão com estampa em formato de losango e desenhos de uma pantera negra e calça preta. Eles estão sobre uma parede branca fazendo poses e seguram cinco balões prateados com letras que formam o nome da banda." width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-1.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-1-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31397" class="wp-caption-text">A grande força da banda está em se reconhecer como frágil (Foto: Fiona Garden/NME)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Veiga</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A felicidade incomoda, isso é fato. Outra coisa que também faz questão de desagradar é o </span><i><span style="font-weight: 400;">punk-rock</span></i><span style="font-weight: 400;">. O gênero que surgiu em meados dos anos 1960 e incorpora o </span><i><span style="font-weight: 400;">garage rock </span></i><span style="font-weight: 400;">e o </span><i><span style="font-weight: 400;">proto-punk</span></i><span style="font-weight: 400;"> assume a roupagem de ser uma pedra no sapato do sistema, a peça que não se encaixa no quebra-cabeças. Isso é notado desde seus expoentes não tão politizados como </span><a href="https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2023/03/01/blink-182-cancela-show-brasil/"><span style="font-weight: 400;">blink-182</span></a><span style="font-weight: 400;"> até os mais politicamente ácidos como </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2d0hyoQ5ynDBnkvAbJKORj"><span style="font-weight: 400;">Rage Against The Machine</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Iniciado juntamente com o movimento punk, seus adeptos, por mais que não liguem para estereótipos, sempre foram caracterizados como pessoas fechadas, vestidas de preto e com uma raiva internalizada. Nesse sentido, seus ouvintes majoritariamente são vistos como indivíduos em que a alegria é seu ‘</span><a href="https://personaunesp.com.br/divertida-mente-5-anos-critica/"><span style="font-weight: 400;">divertidamente</span></a><span style="font-weight: 400;">’ mais escanteado e a seu companheiro vermelho é quem assume a sua mente. Pensando nisso, o grupo britânico IDLES, em seu segundo álbum de estúdio, </span><i><span style="font-weight: 400;">Joy as an Act of Resistance. </span></i><span style="font-weight: 400;">discorre na verdade como esses dois sentimentos estão mais próximos do que se imagina.</span></p>
<p><span id="more-31394"></span></p>
<figure id="attachment_31398" aria-describedby="caption-attachment-31398" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31398" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-2.jpg" alt="Ensaio fotográfico da banda IDLES.Na imagem vemos, da esquerda para a direita, Joe Talbot, Jon Beavis, Adam Devonshire, Mark Bowen e Lee Kiernan. Joe veste uma camiseta branca, Jon veste uma camisa branca e calça preta, Adam veste uma camisa preta, cinto marrom e calça preta, Mark veste uma camisola feminina de época na cor bege e Lee veste uma camiseta preta. Todos olham para a câmera de modo que Jon está esticando um elástico com as duas mãos na direção de Adam, Mark coloca a mão direita sobre o rosto, mostrando que suas unhas estão com um esmalte vermelho e Lee abraça Mark pela cintura enquanto pousa a cabeça sobre seu ombro. Eles estão sobre uma parede de fundo amarelado." width="1000" height="666" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-2.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-2-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-2-768x511.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31398" class="wp-caption-text">O jornal inglês The Guardian definiu o quinteto como ‘a banda mais necessária do Reino Unido’ (Foto: Tom Ham)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Produzido por Space e mixado por Adam Greenspan e Nick Launay &#8211; este último que tem trabalhos com nomes como</span><a href="https://personaunesp.com.br/arcade-fire-tudo-e-nada-ao-mesmo-tempo/"><span style="font-weight: 400;"> Arcade Fire</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/4UXJsSlnKd7ltsrHebV79Q"><span style="font-weight: 400;">Nick Cave &amp; The Bad Seeds</span></a><span style="font-weight: 400;"> -, o disco vem um ano após</span><i><span style="font-weight: 400;"> Brutalism</span></i><span style="font-weight: 400;">, entrondoso </span><i><span style="font-weight: 400;">debut</span></i><span style="font-weight: 400;"> do grupo. Porém, </span><i><span style="font-weight: 400;">Joy as an Act of Resistance. </span></i><span style="font-weight: 400;">chega para consolidar a banda para além de mais um nome do – agora fora dos radares – gênero punk, além de servir de referência para como esse tipo de música seria trabalhado e consumido no século XXI.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, a obra revitaliza o estilo ao mesmo tempo que renova o próprio grupo. IDLES se mostra, aqui, muito consciente ao entender que o </span><i><span style="font-weight: 400;">punk-rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> não se porta do mesmo jeito que 40 anos atrás, quando </span><a href="https://www.rapadurarecords.com.br/post/olegadodosramones"><span style="font-weight: 400;">Ramones</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Sex Pistols reinavam. Partindo desse pressuposto, ele se atualiza para o Reino Unido atual e usa do registro para finalmente traçar um </span><i><span style="font-weight: 400;">mea culpa</span></i><span style="font-weight: 400;"> de um gênero que se moldou com </span><a href="https://nadapop.com.br/especiais/por-que-tem-tanto-punk-machista-homofobico-racista-babaca/"><span style="font-weight: 400;">doses de machismo</span></a><span style="font-weight: 400;">, a abordar como tema principal a masculinidade tóxica.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">A máscara</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Da masculinidade</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> É uma máscara</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Uma máscara que está me desgastando</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A escolha da alegria, tanto no identidade como na levada rítmica, se mostra muito acertada. </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/3VrfVLndSkH81aE4CqivdI"><i><span style="font-weight: 400;">Brutalism</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é extremamente literal em sua concepção, enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">Joy as an Act of Resistance.</span></i><span style="font-weight: 400;">, por mais que pareça ir para o extremo inverso, na verdade externaliza a brutalidade como resultado de um processo catártico. A capa do álbum, mostrando uma pequena multidão de engravatados em um </span><i><span style="font-weight: 400;">mosh</span></i><span style="font-weight: 400;"> em uma festa de casamento, evidencia as intenções do registro de criar, a princípio, um </span><i><span style="font-weight: 400;">punk-rock-colarinho-branco </span></i><span style="font-weight: 400;">que, devido às amarras sociais do mundo moderno, não vê raiva e felicidade como sentimentos antagônicos, mas sim como a primeira sendo uma forma de extravasar a segunda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se engana quem pensa que esses aspectos trazem um disco mais calmo. Ele talvez seja o mais convidativo para o público geral, mas ainda assim tem a mesma pungência característica do IDLES. Suas críticas ácidas dessa vez corroem temas como imigração e o </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/total-de-britanicos-que-dizem-que-brexit-foi-erro-bate-recorde-diz-pesquisa/"><span style="font-weight: 400;">Brexit</span></a><span style="font-weight: 400;">, enquanto se aprofundam em temáticas como solidão, o luto e a sensação de se estar completamente quebrado sentimentalmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa dualidade de assuntos fica muito visível nos dois </span><i><span style="font-weight: 400;">singles</span></i><span style="font-weight: 400;"> do projeto. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5w5_sU1TWn8&amp;ab_channel=KEXP"><i><span style="font-weight: 400;">Never Fight A Man With A Perm</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> mescla elementos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Laranja Mecânica </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Clube da Luta</span></i><span style="font-weight: 400;">, no qual o eu-lírico encontra personagens tipicamente ‘machos com M maiúsculo’ e os satiriza bestializando seus estereótipos. Já </span><i><span style="font-weight: 400;">Danny Nedelko</span></i><span style="font-weight: 400;">, que tem esse nome por conta do imigrante ucraConiano, vocalista da banda </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/07eIrj0b3z5mgvtkDmWoxo"><i><span style="font-weight: 400;">Heavy Lungs</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e amigo do </span><i><span style="font-weight: 400;">frontman</span></i> <a href="https://www.instagram.com/idlesjoe/"><span style="font-weight: 400;">Joe Talbot</span></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">é uma crítica a forma como a sociedade tratava esses grupos nos anos em que a crise migratória começou, principalmente ao fato do Reino Unido só ter olhos para eles quando são figuras notáveis.</span></p>
<figure id="attachment_31396" aria-describedby="caption-attachment-31396" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31396" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-4.jpg" alt="Cena do clipe Danny Nedelko, da banda IDLES. Nela vemos o personagem título, um homem branco de cabelos castanhos claros. Ele está abraçado com uma mulher negra. Ela veste uma jaqueta preta puffer, uma camiseta preta e um turbante preto. Danny veste uma camiseta branca com os escritos “NO ONE IS A ISLAND” um cinto aparentemente na cor marrom e uma calça preta. Ela abraça a mulher com a mão direita enquanto com a mão esquerda faz um sinal de ok. A imagem está em preto e branco." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-4.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-4-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31396" class="wp-caption-text">D-A-N-N-Y N-E-D-E-L-K-O C-O-M-M-U-N-I-T-Y S-O F-U-C-K Y-O-U (Foto: Youtube/IDLES)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O álbum promove uma montanha russa a partir do momento de seu </span><i><span style="font-weight: 400;">play</span></i><span style="font-weight: 400;">. A primeira metade é uma queda livre eufórica que expõe o melhor que o IDLES calcou no primeiro registro. Extremamente visceral, ele entrega potentes faixas como </span><i><span style="font-weight: 400;">Colossus</span></i><span style="font-weight: 400;">, que versa sobre vícios e as sombras das figuras tóxicas, enquanto </span><a href="https://youtu.be/wMehItNQKAA?si=PKRf23Xvf6exuLSb&amp;t=517"><i><span style="font-weight: 400;">I’m Scum</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">expõe a escrotidão masculina e </span><i><span style="font-weight: 400;">Love Song</span></i><span style="font-weight: 400;">, misturando diferentes vertentes do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;">, subverte o ato de se apaixonar ao abordá-lo através de uma ótica suja e bagunçada da visão do que é ser homem. Nesse conjunto de músicas, Joe Talbot, com sua voz rasgada, praticamente se coloca no púlpito de uma (</span><a href="https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/apos-polemicas-parada-do-orgulho-hetero-e-realizada-na-california"><span style="font-weight: 400;">não tão</span></a><span style="font-weight: 400;">) distópica parada do orgulho hétero e vocifera um discurso extremamente irônico e escrachado que não agradaria seus participantes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TCORxrEgr1o&amp;ab_channel=IDLES"><i><span style="font-weight: 400;">June</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">que chegamos ao ponto mais baixo da trajetória, ao mesmo tempo que se alcança o ápice do álbum. Aqui, o quinteto </span><i><span style="font-weight: 400;">punk </span></i><span style="font-weight: 400;">se despe de todas as munhequeiras e </span><i><span style="font-weight: 400;">spikes</span></i><span style="font-weight: 400;"> que o gênero adotou como identidade visual e desacelera suas guitarras estridentes para entregar um doloroso episódio da vida do </span><i><span style="font-weight: 400;">frontman</span></i><span style="font-weight: 400;"> após a morte de sua filha recém-nascida. Ela engata com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=si2pZRifgIo&amp;ab_channel=IDLES"><i><span style="font-weight: 400;">Samaritans</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que juntas formam as duas músicas mais fortes liricamente do disco e guiam a segunda metade para uma nova subida, com uma alegria descontroladamente raivosa. É como se o álbum vislumbrasse um </span><i><span style="font-weight: 400;">mosh</span></i><span style="font-weight: 400;"> e o planejasse justamente para </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HK6rWTFRs5Q&amp;ab_channel=KEXP"><i><span style="font-weight: 400;">Rottweiler</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, faixa que fecha o disco.</span></p>
<figure id="attachment_31395" aria-describedby="caption-attachment-31395" style="width: 1392px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31395" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-5.jpg" alt="Registro de um de um show do IDLES na edição 2022 do festival Glastonbury. Na imagem temos Mark, um homem branco com cabelos longos e bigode volumoso. Ele veste um vestido de alça florido enquanto segura guitarra estilizada onde parte do tampo é transparente e a parte onde ficam as distorções e o final das cordas em um tampo que simula madeira. Ele está sorrindo para a plateia enquanto o braço direito está esticado depois de tocar o instrumento." width="1392" height="884" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-5.jpg 1392w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-5-800x508.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-5-1024x650.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-5-768x488.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/IDLES-Imagem-5-1200x762.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31395" class="wp-caption-text">Sem dúvidas, o ponto alto do grupo está em suas apresentações ao vivo (Foto: Phoebe Fox/NME)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Joy as an Act of Resistance. </span></i><span style="font-weight: 400;">é o cartão de visita da banda de Bristol formada por Mark Bowen (guitarra), Lee Kiernan (guitarra), Jon Beavis (bateria), Adam Devonshire (baixo) e Joe Talbot (vocal), além de ser uma importante referência de como o </span><i><span style="font-weight: 400;">punk </span></i><span style="font-weight: 400;">se rearranjou e seguiu nos anos 2010. Isso o coloca como um dos melhores discos do gênero, e para </span><a href="https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2018/12/18/os-melhores-discos-internacionais-2018/5/"><span style="font-weight: 400;">alguns</span></a><span style="font-weight: 400;">, um dos melhores de 2018, que com certeza semeou figuras da vertente na época, como </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/3SXwqSqAoBz9WCI9PDQzY6"><span style="font-weight: 400;">Fontaines D.C.</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2nAKP6etu8wXNnezKXgqgg"><span style="font-weight: 400;">Viagra Boys</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/4IeWU3NYBI9mISFVhzXG8f"><span style="font-weight: 400;">Shame</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2qnpHrOzdmOo1S4ox3j17x"><span style="font-weight: 400;">Turnstile</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele é certeiro ao reforçar que, sim, o </span><i><span style="font-weight: 400;">punk </span></i><span style="font-weight: 400;">é o mesmo e vive como os pais que o fundaram: desordeiro, anárquico e pronto pro combate. No entanto, o trabalho reforça que isso não é produto de agressividade atribuída a essa parcela, mas a uma vulnerabilidade, que ele não tem a mínima vergonha de expor através de uma acidez crítica mesclada com uma sensibilidade inimaginada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais que seu levante se debruce por temas que são atemporais, fica perceptível a intenção de rotular o álbum como um produto de seu tempo, seja no estilo ou na própria sociedade. E sendo um recorte de um período específico, à medida que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/idles-crawler-critica/"><span style="font-weight: 400;">IDLES</span></a><span style="font-weight: 400;"> se consolide como voz de uma geração, o desejo da banda é exatamente o contrário: que suas discussões sejam superadas. No aguardo de um mundo melhor, resta a esperança e a alegria, nas diferentes roupagens que ela pode ter.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: Joy as an Act of Resistance." style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/7BbRSUBwTB37ut0Ht3yAqt?utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Nov 2022 20:29:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[2021]]></category>
		<category><![CDATA[A pediatra]]></category>
		<category><![CDATA[Andréa del Fuego]]></category>
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		<category><![CDATA[Desigualdade social]]></category>
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		<category><![CDATA[Jamily Rigonatto]]></category>
		<category><![CDATA[Machismo]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Melhor Romance do ano de 2021]]></category>
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		<category><![CDATA[Prêmio Literário José Saramago]]></category>
		<category><![CDATA[Prêmio São Paulo de Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29333" aria-describedby="caption-attachment-29333" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29333 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29333" class="wp-caption-text">A pediatra foi um dos finalistas da categoria de Romance Literário do Eixo de Literatura do Prêmio Jabuti 2022 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse ser resumida a uma palavra, “antônimo” seria um termo interessante. Ela não é doce e não pretende ser, afinal açúcar é combustível diabético, afeta o funcionamento pancreático e escraviza. Seu papel em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WO0tzxpYjiQ"><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – livro publicado pela Companhia das Letras em 2021 – é performar o descontrole da autoridade dentro de si. </span></p>
<p><span id="more-29310"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A autora do título, </span><a href="https://livreopiniao.com/2014/09/11/livre-opiniao-entrevista-andrea-del-fuego-a-palavra-e-uma-ponte-entre-voce-e-o-mundo/"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;">, espelha na construção da personagem alguém que enxerga a vida em linhas retas. Cecília é médica pediatra como o pai, mas ao contrário dele, não tem paixão pela profissão e muito menos pelas crianças. Talvez esse seja o cerne de sua narrativa: a ausência da paixão. Sua persona é motivada pela técnica: as coisas existem para suprir as necessidades do corpo e nada mais. Enquanto nos misturamos aos seus comportamentos milimetricamente moldados, viver parece tomar um tom tão prático que beira a arrogância.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O texto trabalha muito bem com a objetividade da personagem e compõe isso com uma narrativa direta &#8211; as atitudes de Cecília se alternam com seus pensamentos a todo momento. Com o passar das páginas, somos íntimos e superficiais, elementos da história com área exclusiva para o funcionamento cerebral e, ao mesmo tempo, telespectadores de uma novela do horário nobre. Assim, não há como fazer juízo de valor. </span><a href="https://personaunesp.com.br/lucifer-5a-temp-parte-2-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bondade e maldade</span></a><span style="font-weight: 400;"> são veredictos permanentes demais para serem aplicados em</span><i><span style="font-weight: 400;"> A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_29313" aria-describedby="caption-attachment-29313" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29313" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Andrea.jpg" alt="Foto em preto e branco da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos curtos, pretos e cacheados. Ela usa uma blusa de mangas longas e gola rolê e um óculos de grau. Ao fundo há o tronco de uma árvore." width="434" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-29313" class="wp-caption-text">O primeiro romance publicado por Andréa del Fuego, intitulado Os Malaquias, foi premiado com a sétima edição do Prêmio Literário José Saramago (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Independência e liberdade são pontos muito importantes para Cecília, por isso, o casamento que ela mantinha não passa das primeiras páginas. O marido tinha </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-critica/"><span style="font-weight: 400;">depressão</span></a><span style="font-weight: 400;">, a necessidade de cuidado a condicionavam ao aprisionamento e limitação, e isso não era admissível. A personagem automaticamente compara relações desse tipo as que as mães com filhos diabéticos têm. Vínculos cheios de </span><a href="https://saude.ig.com.br/2019-10-08/mae-de-crianca-com-diabetes-fala-sobre-impacto-da-hipoglicemia-veja-dados.html"><span style="font-weight: 400;">preocupação</span></a><span style="font-weight: 400;">, capazes de escravizar e fazer as vidas girarem apenas sobre o controle da insulina e o medo das convulsões nas madrugadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A protagonista mantinha um </span><a href="https://personaunesp.com.br/conversas-entre-amigos-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">relacionamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> extraconjugal com Celso, um homem também casado que conheceu por pura casualidade. Com seu divórcio, os amantes deixam de estar no mesmo patamar e os abalos surgem trazendo impactos. Enquanto ele tinha uma esposa grávida e uma família para manter, ela era uma profissional bem sucedida cuja maior prioridade era a própria qualidade de vida. Para ele, o caso significava insegurança; já ela, não tinha nada a perder. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas das atitudes da médica são motivadas por desejo e ego. Celso nunca significou amor ou romance, mas conseguir controlá-lo e ter suas vontades atendidas geravam um tipo de satisfação inconsciente. Ela sabe se mostrar indispensável e é assim que acaba na sala de parto de Camila – a esposa traída – como </span><a href="https://posfg.com.br/afinal-o-que-faz-o-neonatologista/#:~:text=O%20neonatologista%20%C3%A9%20o%20m%C3%A9dico,n%C3%A3o%20receber%20os%20cuidados%20necess%C3%A1rios."><span style="font-weight: 400;">neonatologista</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Bruninho. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Inaceitável que uma legião não estivesse espetando minha densidade de sobremesa, seio que criança nenhuma pisoteou até murchar, vagina nulípara, nunca posta à prova, músculo rosa, mucosa vítrea como a maçã de quermesse, eu permanecia inédita.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos poucos a firmeza de Cecília se mostra cada vez mais bamba. Entre os conflitos que a rodeiam, a chegada de um novo médico especialista em recém nascidos na Zona Sul de São Paulo cria um ambiente competitivo. Buscando entender o sucesso do novo profissional, a protagonista se insere em seu espaço de trabalho de maneira absurda e questionável – apesar de narrada com uma objetividade ímpar. As técnicas </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1007200519.htm"><span style="font-weight: 400;">humanizadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as doulas de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46643198"><span style="font-weight: 400;">parto</span></a><span style="font-weight: 400;"> do lugar são lidas com cinismo. Para a pediatra, dramatizar a simplicidade é assumir a ineficácia como aliada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interação com sua empregada, Deyse, também acaba revelando rachaduras nos muros da médica. A jovem funcionária engravida do marido da própria irmã, constrói uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50459101"><span style="font-weight: 400;">dependência alcoólica</span></a><span style="font-weight: 400;"> e tem perspectivas baixas. Quanto mais Cecília a conhece, mais julgamentos desenha. A aproximação também denuncia o medo de criar vínculos, mostrar fragilidade ou ser imperfeita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma visita de Bruninho é a arma que quebra o escudo de estabilidade mantido pela personagem. A mulher, incapaz de gostar de crianças, vê naqueles dedinhos pequenos algo especial: um sentimento cheio de vulnerabilidade e falta de controle. Em pouco tempo tudo se torna uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60525984"><span style="font-weight: 400;">obsessão</span></a><span style="font-weight: 400;"> repleta de atitudes impulsivas e hiperbólicas. A adulta racional se deixa levar por algo sem explicação ou sentido, apenas atravessando qualquer limite por mais uns minutos perto do cheiro de bebê daquela criança que ela mesma ajudou a colocar no mundo. </span></p>
<figure id="attachment_29314" aria-describedby="caption-attachment-29314" style="width: 450px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29314" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/a-escritora-andrea-del-fuego-1648223678210_v2_450x600.jpg" alt="Foto colorida da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos cacheados castanho escuro. Ela está em frente a uma parede branca. A autora veste uma camiseta preta com bolinhas coloridas. Há também um colar na cor bronze e um óculos de grau preto." width="450" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-29314" class="wp-caption-text">A pediatra disputou o prêmio de Melhor Romance do ano de 2021 no Prêmio São Paulo de Literatura deste ano (Foto: Celso Koyama)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> toma uma nova face sem perder o </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/19/estilo/1560957652_470106.html"><span style="font-weight: 400;">sarcasmo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Cecília continua sendo para o mundo o que sempre foi, mas Bruninho ganha uma passagem para os bastidores atrás da sua mente objetiva. Ela manipula as pessoas, o espaço e as coincidências em busca do desejo de estar perto do bebê. Agora somos nós que assistimos aos passos de fora e tentamos entender os motivos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que era pura certeza passa a ter um universo próprio de contradições em um contexto explicitado pela </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=03439"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> com uma destreza impressionante. A leitura é rápida e hipnotizante, afinal, fica no ar a curiosidade e vontade de saber o que acontece nas próximas cenas. Mais que isso, os pensamentos soltos de Cecília são alvo de identificação: todo mundo guarda coisas incongruentes no burburinho da mente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a protagonista representa a assertividade, Bruninho significa fragilidade. O tipo de coisa adiada que em algum momento deixa de caber na caixa de contenção. O enredo quase novelístico do romance deixa claro que, por mais firmes que estejam os trilhos, quem decide o caminho é o condutor e não o passageiro. A vida não é lógica, prática e muito menos </span><a href="https://personaunesp.com.br/roda-do-destino-critica/"><span style="font-weight: 400;">manobrável</span></a><span style="font-weight: 400;">, as vezes, estar vivo é puramente ficcional.  </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme. Não é diferente de quem cuida de vacas porque de sua janela era o que havia, festejando o fato de que não era mais preciso caçar, apenas manter o gado.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra não precisa se pautar em um drama sintomático para nos deixar sem palavras. Entre a lógica exacerbada e a perda do equilíbrio, existe uma sinceridade fascinante. </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> introduz com sutileza reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/marte-um-critica/"><span style="font-weight: 400;">desigualdade social</span></a><span style="font-weight: 400;">, a normalização do machismo e o ideal de maternidade. Cecília e a forma como se relaciona com o mundo é um reflexo de múltiplas partes da sociedade, um quebra cabeça composto de várias vozes unificadas em uma só. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 160 páginas, Andréa compacta a complexidade de ser. Cecília foge dos padrões esperados para uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/gaslit-critica/"><span style="font-weight: 400;">mulher</span></a><span style="font-weight: 400;"> e isso pode fazer com que alguns a considerem uma antagonista. Não é como se as atitudes da personagem fossem mediadas pela vontade de fazer mal aos outros, terceiros são apenas figurantes de uma história individual.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais absurdos que sejam certos comportamentos da médica, suas motivações são guiadas pela fragilidade e egoísmo. E é por isso que essa leitura não permite julgamentos, só quem nunca agiu motivado por interesses próprios pode atirar a primeira pedra. Ao fim, para alguém que detesta humanização, </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> é tão </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><span style="font-weight: 400;">humana</span></a><span style="font-weight: 400;"> quanto qualquer um. </span></p>
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		<title>Licorice Pizza: os amores possíveis sob o olhar de Paul Thomas Anderson</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2022 19:12:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade No início dos anos 1970, os Estados Unidos começaram a receber as primeiras respostas negativas à efervescência cultural que se deu na década anterior. Após as aberturas políticas e libertárias que se estabeleceram como força motriz da sociedade civil organizada – além de manifestações políticas profícuas e históricas –, o país começou a &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/licorice-pizza-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Licorice Pizza: os amores possíveis sob o olhar de Paul Thomas Anderson"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26315" aria-describedby="caption-attachment-26315" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26315 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-1.jpg" alt="Cena do filme Licorice Pizza. Na imagem retangular colorida, os atores Cooper Hoffman e Alana Haim correm lado a lado. Cooper é um jovem branco, possui cabelos ruivos e olhos castanhos, e veste uma camisa azul de mangas curtas, uma camiseta de cor branca e uma calça bege. Ele está com a cabeça inclinada para a esquerda, olhando para Alana. Ela é uma mulher branca, possui cabelos castanhos e olhos azuis, e veste um cropped com estampas floridas, de cores roxas, azul e branco. Os dois estão sorrindo com os dentes à mostra, e ao fundo há um campo de cor verde." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26315" class="wp-caption-text">Indicado em três categorias no Oscar 2022, Licorice Pizza é uma reflexão sobre crescer e viver em um mundo problemático (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No início dos anos 1970, os Estados Unidos começaram a receber as primeiras respostas negativas à efervescência cultural que se deu na década anterior. Após as aberturas políticas e libertárias que se estabeleceram como força motriz da sociedade civil organizada – além de </span><a href="https://smabc.org.br/a-grande-marcha-para-washington-e-a-conquista-dos-diretos-civis-para-os-negros-nos-estado-unidos/"><span style="font-weight: 400;">manifestações políticas</span></a><span style="font-weight: 400;"> profícuas e históricas –, o país começou a enfrentar uma diminuição do interesse público nas políticas liberais e de contracultura. Na esteira, ainda estava por vir a quebra da coletividade e do bem comum que nortearam os ideais </span><i><span style="font-weight: 400;">hippies </span></i><span style="font-weight: 400;">anos antes. O neoliberalismo ganhou força popular, Richard Nixon chegou à presidência (1969-1974) e o culto da imagem se estabeleceu – algo que Guy Debord já alertava em </span><a href="https://personaunesp.com.br/regresso-a-reims-fragmentos-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Sociedade do Espetáculo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1967). Mas ao contrário do que se pode imaginar, quando nada pode acontecer, tudo é possível de novo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é o caótico cenário cultural de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/blogs/cozinha-bruta/2022/03/a-maionese-desandou.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, 9º filme do diretor Paul Thomas Anderson (PTA), estrelado por Cooper Hoffman e Alana Haim, ambos estreantes em longa-metragens. Lançado nos EUA em novembro de 2021, a trama traz Gary Valentine (Hoffman), um jovem ator de 15 anos com verve de pequeno empreendedor, e Alana Kane (Haim), uma mulher de 25 anos perdida sobre o futuro, vivendo em meio aos conflitos sociais – e geracionais – de 1973. A obra concorre no </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;"> como </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/melhor-filme/"><span style="font-weight: 400;">Melhor Filme</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/melhor-direcao/"><span style="font-weight: 400;">Melhor Direção</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/melhor-roteiro-original/"><span style="font-weight: 400;">Melhor Roteiro Original</span></a><span style="font-weight: 400;"> – categoria em que é um dos favoritos à estatueta.</span></p>
<p><span id="more-26314"></span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Jonny Greenwood - Licorice Pizza (Official Audio)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/agyL7YXaRS0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i><span style="font-weight: 400;"> começa com uma pista falsa: Gary Valentine está na fila para tirar a foto de seu anuário escolar, e Alana Kane, que está trabalhando no local, surge como a idealizada mulher mais velha. O garoto então começa a puxar assunto, com a lábia de um malandro vendedor do tipo que te pega pela mão e não deixa mais ir embora, jogando elogios e a convidando para um jantar que ela não aceita imediatamente, mas comparece na hora marcada. A conversa é tão boa que nos esquecemos que Valentine tem apenas 15 anos de idade. Mas, novamente, essa é uma pista falsa. Primeiro porque Valentine, não muito tempo depois, se mostrará o que realmente é: um </span><a href="https://personaunesp.com.br/aquamarine-15-anos/"><span style="font-weight: 400;">adolescente</span></a><span style="font-weight: 400;">; segundo pois, diferente do que a cena inicial sugere, a verdadeira protagonista do filme é Kane.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aliás, pistas falsas e referências engraçadinhas permeiam todo o filme. Em uma cena, na qual os dois personagens principais estão numa lanchonete, Gary lê um anúncio no jornal sobre um filme pornográfico chamado </span><i><span style="font-weight: 400;">Garganta Profunda</span></i><span style="font-weight: 400;">. No mesmo momento, Richard Nixon aparece na pequena televisão lateral anunciando o embargo que deu origem à Crise do Petróleo de 1973. “Garganta Profunda” foi o codinome usado pelo informante que revelou aos jornalistas do </span><i><span style="font-weight: 400;">Washington Post </span></i><span style="font-weight: 400;">o escândalo político de </span><a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-o-escandalo-watergate/"><span style="font-weight: 400;">Watergate</span></a><span style="font-weight: 400;">, que veio a derrubar Nixon.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outra cena, Jon Peters (Bradley Cooper) surge como </span><i><span style="font-weight: 400;">“namorado de Barbara Streisand”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na vida real, Peters foi produtor do musical </span><a href="https://personaunesp.com.br/nasce-uma-estrela-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Nasce Uma Estrela</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1976), estrelado por Streisand, que recebeu um </span><i><span style="font-weight: 400;">remake </span></i><span style="font-weight: 400;">dirigido por Bradley Cooper em 2018, com </span><a href="https://personaunesp.com.br/casa-gucci-critica/"><span style="font-weight: 400;">Lady Gaga</span></a><span style="font-weight: 400;"> no papel principal. Por </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ator disputou somente o </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/sag-awards-22-vencedores"><i><span style="font-weight: 400;">SAG Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2022</span></a><span style="font-weight: 400;">, no qual concorreu como Melhor Ator Coadjuvante, mas não levou. Porém, rato das premiações, Cooper integra a produção de </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/cinema/o-beco-do-pesadelo-4-curiosidades-sobre-o-filme-transformacao-de-bradley-cooper-remake-e-mais-lista/"><i><span style="font-weight: 400;">O Beco do Pesadelo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, longa de </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-forma-da-agua-poesia-resenha/"><span style="font-weight: 400;">Guillermo del Toro</span></a><span style="font-weight: 400;"> que concorre na categoria no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022.</span></p>
<figure id="attachment_26316" aria-describedby="caption-attachment-26316" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26316 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-4.jpg" alt="Cena do filme Licorice Pizza. Na foto retangular colorida, o ator Bradley Cooper está olhando para um garoto, e esse garoto está de costas para a câmera, sendo possível enxergar somente uma fração de seus cabelos. Cooper é um homem branco, veste peruca de cor castanha e possui barba de cor castanha. Ele tem olhos azuis, utiliza um colar de pérolas em cor cinza e veste uma camisa branca." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-4.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-4-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26316" class="wp-caption-text">Licorice Pizza foi uma rede de loja de discos fundada em 1969, que funcionou sob o mesmo nome até 1985, quando foi vendida e renomeada Musicland (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas a cena inicial diz bem mais do que parece dizer. Após o flerte quase juvenil, apesar da desenvoltura estonteante de Gary, tudo se rompe num ato de </span><a href="https://personaunesp.com.br/maid-critica/"><span style="font-weight: 400;">machismo</span></a><span style="font-weight: 400;">, quando o fotógrafo passa a mão em Alana assim que o adolescente dá às costas. Logo no início o diretor transmite a mensagem explícita sobre a condição de aprisionamento a qual Alana vive. O encontro com Gary, um garoto de 15 anos, não parece algo tão ruim, afinal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante notar, de qualquer forma, que esse relacionamento parece meio infantil desde o princípio, e os personagens não se beijam até os minutos finais – momento em que há o único beijo de todo o filme –, e sequer tocam suas mãos sem um leve constrangimento. O diretor foi esperto ao deixar esse relacionamento no campo platônico, visto que qualquer avanço em outro sentido poderia limitar demasiadamente – e até estragar – o filme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2022, as três indicações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i><span style="font-weight: 400;"> ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> giram em torno do diretor. Nenhum outro aspecto do longa foi contemplado pela Academia, diferentemente do </span><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA</span></i><span style="font-weight: 400;">, que elencou o filme a 5 categorias, incluindo Melhor Montagem para </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/andy-jurgensen"><span style="font-weight: 400;">Andy Jurgensen</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em seu trabalho anterior, </span><a href="https://personaunesp.com.br/trama-fantasma-graca-desconfortavel-de-paul-thomas-anderson/"><i><span style="font-weight: 400;">Trama Fantasma</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2017), Anderson foi indicado a Melhor Direção pela segunda vez, somado às outras 5 categorias em que o filme concorreu. Lá, as relações de poder se estabelecem em uma disputa quase violenta entre os diálogos de Reynolds (Daniel Day-Lewis) e Alma (Vicky Krieps). Já em </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i><span style="font-weight: 400;">, a relação entre Gary e Alana é branda, e mesmo nos momentos mais emotivos há uma percepção de empatia que ambos conservam entre si. </span></p>
<figure id="attachment_26317" aria-describedby="caption-attachment-26317" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26317 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-2.jpg" alt="Foto retangular colorida do diretor Paul Thomas Anderson. Na imagem, Anderson está sentado num sofá de cor cinza, com a mão direita segurando uma câmera fotográfica de cor preta, e com a mão esquerda sob o lado esquerdo do rosto e o cotovelo esquerdo no encosto do sofá. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos grisalhos e olhos azuis, veste uma camiseta de cor cinza escuro e uma calça de cor bege. Ao seu lado há uma janela, na qual entram os raios do sol." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-2.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-2-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-2-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26317" class="wp-caption-text">Somando Licorice Pizza à Magnólia e Boogie Nights, Paul Thomas Anderson totaliza 3 indicações a Melhor Roteiro Original no Oscar; e mais 2 em Melhor Direção (Foto: Patrick Hoelck)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Paul Thomas Anderson se sagrou um dos grandes cronistas dos Estados Unidos ao retratá-los como nação despedaçada e cega pelo poder. Em </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/sangue-negro"><i><span style="font-weight: 400;">Sangue Negro</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2007) – longa adaptado do livro de </span><a href="https://www.nytimes.com/2008/02/24/books/review/Essay-t.html"><span style="font-weight: 400;">Upton Sinclair</span></a><span style="font-weight: 400;">, que rendeu o </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">de Melhor Ator para </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/5-papeis-iconicos-de-daniel-day-lewis-de-sangue-negro-lincoln-lista/"><span style="font-weight: 400;">Day-Lewis</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, a relação sádica da busca do domínio através do petróleo é traçada primorosamente. Em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=lDQhPE-KteE"><i><span style="font-weight: 400;">Vício Inerente</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2014), adaptação do excelente livro homônimo de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12873"><span style="font-weight: 400;">Thomas Pynchon</span></a><span style="font-weight: 400;">, a excitação cultural dos anos 1960 é jogada às telas com maestria. Mas olhando em retrospecto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza </span></i><span style="font-weight: 400;">soa como uma continuação do cenário explorado pelo diretor em </span><a href="https://cinepop.com.br/os-25-anos-de-boogie-nights-a-incursao-de-thomas-anderson-nos-anos-70-322516/"><i><span style="font-weight: 400;">Boogie Nights</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1997), que além de se passar nos anos 1970, transcorre na mesma cidade, San Fernando Valley. Contudo, o que Anderson sabe fazer como ninguém é contar histórias – e boas histórias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De certa forma, ao escolher a comédia romântica, PTA a subverte em seu roteiro original, dando protagonismo à personagem mais velha, e não ao jovem que se apaixona por uma versão idealizada do que seria a pessoa perfeita, como se convencionou a fazer em filmes do gênero. Alana Kane é autoconsciente o bastante para entender a situação esquisita a qual se meteu, e chega a questionar para a irmã, em determinada cena, se não é estranho que ela passe a maior parte do tempo com adolescentes de 15 anos (Valentine e seus amigos). Essa característica joga luz a mais uma brincadeira do diretor, que parece apontar para a alienação boba que outras comédias românticas trazem com protagonistas inconscientes das problemáticas básicas envolvendo a idade.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="HAIM - Valentine" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/Jc2x5aHCs6g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://variety.com/2021/film/features/paul-thomas-anderson-licorice-pizza-alana-haim-cooper-hoffman-1235107853/"><span style="font-weight: 400;">entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;">, o diretor revelou um certo caráter familiar que transpassa a obra, e não por acaso a personagem principal recebe o nome real da atriz que a interpreta. PTA já dirigiu clipes da banda</span><i><span style="font-weight: 400;"> indie </span></i><a href="https://pitchfork.com/reviews/albums/haim-women-in-music-pt-iii/"><span style="font-weight: 400;">HAIM</span></a><span style="font-weight: 400;">, composta por Alana e suas irmãs – Este e Danielle –, que também atuam no longa-metragem, ao lado de seus verdadeiros pais, Mordechai e Donna. Pouco depois do filme estrear nos cinemas brasileiros, o </span><i><span style="font-weight: 400;">power trio </span></i><span style="font-weight: 400;">divulgou a canção </span><a href="https://open.spotify.com/album/3HM2a6YdzuBPmDe5tTEV88?si=FApEOdXSTPW6xJagOrYFJw"><i><span style="font-weight: 400;">Lost Track</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que conta com mais um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HX7pXjZHT_4"><span style="font-weight: 400;">clipe</span></a><span style="font-weight: 400;"> dirigido por Anderson. Antes do lançamento oficial, o vídeo vinha sendo exibido em sessões de </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza </span></i><span style="font-weight: 400;">nos cinemas estadunidenses. Mas o fato é que, desde a idealização do roteiro, o diretor concebeu o filme com Alana Haim na pele de Alana Kane, e, ao assistir o longa, fica difícil imaginar outra atriz que casaria tão bem com o papel.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O complicado, na verdade, é tentar entender por qual razão a artista não está na lista do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, após ter entregado uma atuação primorosa e verdadeira, figurando na disputa de Melhor Atriz no </span><a href="https://gshow.globo.com/tudo-mais/pop/noticia/bafta-2022-veja-a-lista-completa-de-indicados.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e no </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/critics-choice-awards-indicados-2022"><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choice Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Do outro lado, a estreia de Cooper Hoffman tem igualmente um valor sentimental. Seu pai, </span><a href="https://hqcafe.com.br/2021/06/03/synecdoche-new-york-o-melhor-filme-da-ultima-decada/"><span style="font-weight: 400;">Philip Seymour Hoffman</span></a><span style="font-weight: 400;">, além de ter sido um dos atores favoritos de Anderson, foi também um amigo íntimo, e, segundo o diretor, a estreia do jovem Cooper não foi tão estranha, tendo em vista que já o havia dirigido em pequenos filmes caseiros. O fato é que Alana Haim e Cooper Hoffman, juntos, operam em uma sincronia e compaixão tão genuína que, invariavelmente, só podemos sentir empatia por esse casal improvável – não se trata de uma história que aponta para vilões.</span></p>
<figure id="attachment_26318" aria-describedby="caption-attachment-26318" style="width: 1080px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26318 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-3.jpg" alt="Cena do filme Licorice Pizza. Na foto retangular colorida, Cooper Hoffman está parado em frente a um clube de fliperama, com as duas mãos no bolso de sua calça. Ele é um jovem rapaz branco, possui cabelos ruivos, veste um terno e gravata em cores brancas, e utiliza uma camisa social de cor rosa. Ele está com a cabeça virada para o seu lado direito, e ao fundo enxergamos várias pessoas espalhadas de maneira disforme, a maioria de costas para a câmera." width="1080" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-3.jpg 1080w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-3-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-3-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/licorice-3-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26318" class="wp-caption-text">Um dos jogos mais interessantes que o diretor propõe é a alternância entre infantilidade e maturidade; em algumas cenas, Gary soa mais velho que Alana, e vice-versa (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da relação de amor ser o mote de todo o roteiro, Paul Thomas Anderson consegue encapsular em pouco mais de 2 horas de filme uma época nostálgica, misturando-a com sua própria formação pessoal. O título do filme surge daí, em homenagem a uma clássica rede norte-americana de </span><a href="https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2022/02/17/licorice-pizza-titulo-loja-de-discos/amp/"><span style="font-weight: 400;">loja de discos</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se popularizou nos anos 1970/80, e era frequentada por </span><a href="https://www.newyorker.com/books/page-turner/lester-bangs-truth-teller"><span style="font-weight: 400;">Lester Bangs</span></a><span style="font-weight: 400;"> e pelo próprio PTA quando jovem (a arte e grafia no título do filme são as mesmas utilizadas no logotipo da loja). Todavia, não é uma história autobiográfica. Segundo o diretor, </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza </span></i><span style="font-weight: 400;">foi concebido através de histórias muito específicas – majoritariamente de amigos, não especificamente dele – que possuem um fundo de verdade, mas que não as representam em sua totalidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como um livro de contos interligados por um mesmo tema, a obra não se restringe ao romance. As cenas e os diálogos avançam sobre as ebulições sociais, e de certa forma apontam para uma narrativa que tem como enfoque o cenário e a ambientação. Todo o entorno está sempre em movimento, e os personagens se movimentam juntos. Por essa razão, o trabalho dos protagonistas de primeira viagem ganha ainda mais força, a considerar também o fato de </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza </span></i><span style="font-weight: 400;">contar com um elenco de peso, que vai de Sean Penn e Tom Waits à Mary Elizabeth Ellis e </span><a href="https://personaunesp.com.br/joias-brutas-critica/"><span style="font-weight: 400;">Benny Safdie</span></a><span style="font-weight: 400;">, passando pelo infeliz papel de John Michael Higgins, que interpreta Jerry Frick, dono de uma rede de restaurantes especializados em comida japonesa que insiste em fazer a caricatura do que seria um sotaque japonês, soando </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-features/licorice-pizza-analysis-asian-accent-criticism-1235068375/"><span style="font-weight: 400;">bastante racista</span></a><span style="font-weight: 400;">. São apenas duas cenas em que o personagem aparece – nas duas ele finge o sotaque –, e ambas não fazem muito sentido com o resto da história; se fossem cortadas na edição final, nada seria perdido.</span></p>
<figure id="attachment_26319" aria-describedby="caption-attachment-26319" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26319 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/64730-16377722255355-1920.jpg" alt="Cena do filme Licorice Pizza. Na foto retangular colorida, Alana Haim está sentada em um restaurante iluminado à meia luz. Ela é uma mulher branca, possui cabelos longos e lisos em cor castanha, olhos azuis e está olhando para a frente, vestindo uma camisa com detalhes floridos em cor amarela. Ao fundo vemos algumas pessoas sentadas em mesas diferentes." width="1920" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/64730-16377722255355-1920.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/64730-16377722255355-1920-800x500.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/64730-16377722255355-1920-1024x640.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/64730-16377722255355-1920-768x480.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/64730-16377722255355-1920-1536x960.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/64730-16377722255355-1920-1200x750.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26319" class="wp-caption-text">Esnobada no Oscar, mas enxergada no BAFTA, Alana Haim se revela uma atriz de talento em seu primeiro trabalho cinematográfico (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das marcas do diretor são as histórias que se interligam, além dos planos longos e os </span><i><span style="font-weight: 400;">zoom-ins</span></i><span style="font-weight: 400;"> que possibilitam um estado de frenesi hipnótico. Isso se completa com a trilha sonora sempre acertada de Jonny Greenwood – que concorre no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022 pela Música de </span><a href="https://personaunesp.com.br/ataque-dos-caes-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Ataque dos Cães</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, além de ter feito os temas de </span><a href="https://open.spotify.com/album/6AGN0V4QobqBIVCWr6ZZPz?si=cd00f2cdb40544f2"><i><span style="font-weight: 400;">Spencer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> –, guitarrista do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TTAU7lLDZYU"><span style="font-weight: 400;">Radiohead</span></a><span style="font-weight: 400;"> e amigo pessoal do diretor, cuja colaboração vem ocorrendo há anos. Em 2015, ambos fizeram uma viagem à Índia, dando origem ao documentário </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dLhSyy6UM94"><i><span style="font-weight: 400;">Junun</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, de todos os filmes na carreira do californiano, </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o que menos retrata estágios de ansiedade e esgotamento mental – a exemplo de sua outra comédia romântica, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Nqv_gYTVSUo"><i><span style="font-weight: 400;">Embriagado de Amor</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2002), estrelada por </span><a href="https://youtu.be/aW_YZNFp6_I"><span style="font-weight: 400;">Adam Sandler</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, e isso se reflete nas canções – tanto nos temas originais de Greenwood quanto nas trilhas que ajudam na composição do ambiente, como </span><i><span style="font-weight: 400;">Peace Frog</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6lnoM25D-js"><span style="font-weight: 400;">The Doors</span></a><span style="font-weight: 400;">, <em>Life on Mars?</em> de <a href="https://open.spotify.com/track/3ZE3wv8V3w2T2f7nOCjV0N?si=c8a679507a064640">David Bowie</a> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0AbvnTgGH8s"><i><span style="font-weight: 400;">Stumblin&#8217; in</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Suzi Quatro e Chris Norman. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez um dos motivos para o diretor ter optado por deixar o filme mais “leve” seja, justamente, o entorno histórico que cerca Alana e Gary. Em meio a falência da </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-velvet-underground-critica/"><span style="font-weight: 400;">contracultura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ao fiasco dos Estados Unidos na </span><a href="https://www.politize.com.br/guerra-do-vietna/"><span style="font-weight: 400;">Guerra do Vietnã</span></a><span style="font-weight: 400;">, o que mais pode dar errado? Enquanto Valentine aproveita qualquer oportunidade para tentar ganhar dinheiro – provavelmente porque entende isso como uma atitude adulta –, Kane se esforça em construir sentido e significado a uma vida que, aparentemente, não oferece nenhum. Embora ambos pareçam indivíduos tão diferentes, estão ligados pelo simples fato histórico de estarem vivos na mesma época. Isso é o que torna o jogo de olhar tão poderoso no longa, de modo que ambos conversam no silêncio e conseguimos entendê-los, como se o segredo fosse confiado a nós também. No fim, o eco é um só: </span><i><span style="font-weight: 400;">Licorice Pizza </span></i><span style="font-weight: 400;">desponta como um dos mais belos e otimistas tratados sobre o amadurecimento e os amores perdidos.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="LICORICE PIZZA | Official Trailer | MGM Studios" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/ofnXPwUPENo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Os M’s de Maid: maternidade, machismo e meritocracia</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 15:22:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathalia Tetzner e Thuani Barbosa Retratando um cenário particular que reflete as diferentes realidades da maternidade, Maid exibe com fidelidade o machismo e a falta de oportunidade vivenciada por mães que sofrem com algum tipo de violência. A minissérie original da Netflix estreou arrebatando emoções e nos obrigando a preparar os lencinhos. Jovem, Alex (Margaret &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/maid-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Os M’s de Maid: maternidade, machismo e meritocracia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24910" aria-describedby="caption-attachment-24910" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24910" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11.jpg" alt="Cena da série Maid, na imagem Alex e Maddy passeiam por uma floresta. A mãe branca e de cabelo preto veste um colete de tom roxo escuro por cima de uma blusa de manga comprida no tom azul escuro. Ela também usa um gorro azul enquanto carrega a sua filha no ombro. A criança tem a pele branca e o cabelo loiro, ela veste uma jaqueta cinza com estampa infantil acompanhada de um suéter amarelo mostarda" width="1024" height="682" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24910" class="wp-caption-text">Em entrevista, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=hDMPqh310dQ">Margaret Qualley</a> falou sobre como foi importante passar tempo com Riley além do momento das gravações, para que conseguissem capturar uma essência mais autêntica como mãe e filha (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Nathalia Tetzner e Thuani Barbosa</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Retratando um cenário particular que reflete as diferentes realidades da </span><a href="https://maesqueescrevem.com.br/maternidade-acesso-a-educacao-e-a-falacia-da-meritocracia-por-nayara-ferreira/"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid </span></i><span style="font-weight: 400;">exibe com fidelidade o machismo e a falta de oportunidade vivenciada por mães que sofrem com algum tipo de violência. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=M4nrGje_pyc"><span style="font-weight: 400;">minissérie</span></a><span style="font-weight: 400;"> original da </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;"> estreou arrebatando emoções e nos obrigando a preparar os lencinhos. Jovem, Alex (Margaret Qualley) larga os estudos e o sonho de ser escritora para cuidar da filha Maddy (Rylea Nevaeh Whittet), mal sabendo que no futuro, o conjunto de registros realizados durante o seu trabalho como faxineira a salvariam. </span></p>
<p><span id="more-24909"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inspirado no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid: Hard Work, Low Pay and a Mother&#8217;s Will to Survive</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">que conta a história da adolescência e maternidade de Stephanie Land</span><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> o drama conta com a direção de </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/tv/tv-news/shameless-boss-john-wells-sets-maid-dramedy-at-netflix-1256579/"><span style="font-weight: 400;">John Wells</span></a><span style="font-weight: 400;">, produtor da aclamada série </span><a href="https://personaunesp.com.br/shameless-11a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Shameless</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i><span style="font-weight: 400;"> A estreia foi bem recebida pelo público, ficando vários dias entre </span><a href="https://pipocasclub.com.br/2021/11/14/maid-supera-o-gambito-da-rainha-mais-assistida/"><span style="font-weight: 400;">as mais assistidas no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">. O seriado aborda as vivências de Stephanie de forma muito sensível e verdadeira, contendo cenas extremamente sentimentais e subjetivas, daquelas em que o público pode sentir o que o personagem sente, criando uma espécie de aproximação e intimidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao som da música predileta de Maddy, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4vaN01VLYSQ"><i><span style="font-weight: 400;">Shoop</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">do grupo Salt-N-Pepa, Alex e sua filha dirigem sem rumo para longe do </span><i><span style="font-weight: 400;">trailer </span></i><span style="font-weight: 400;">conturbado no meio da floresta. Graças ao roteiro de </span><a href="https://observatoriodocinema.uol.com.br/series-e-tv/2021/10/criadora-de-maid-ajuda-grupos-de-apoio-a-mulheres-apos-serie"><span style="font-weight: 400;">Molly Smith Metzler</span></a><span style="font-weight: 400;">, além de não conseguir tirar o refrão viciante da cabeça, a audiência também se solidariza com as personagens logo no início da trama. Fato que acaba sendo ótimo e terrível ao mesmo tempo: cada reviravolta do enredo é sentida como um soco no estômago por quem assiste.</span></p>
<figure id="attachment_24913" aria-describedby="caption-attachment-24913" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24913 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694.jpg" alt="Cena da série Maid, na imagem Alex olha distraidamente para sua frente. Alex tem a pele branca, seus cabelos estão amarrados e são ondulados e de tons castanho escuro, veste blusa cinza e moleton azul escuro e brinco pequeno azul. Ao fundo, uma estante com vários produtos de limpeza e um aspirador de pó." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24913" class="wp-caption-text">A história de Alex é similar a de muitas mulheres brasileiras; no canal do YouTube da Netflix, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=_R9Zs4-c_bw">Stephanie Land lê comentários do Twitter</a> de outras jovens que saíram de relacionamentos abusivos (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Grande parte dos episódios é dedicada a exibir as dificuldades financeiras enfrentadas por Alex, que foge de um relacionamento aprisionador que a privou de seu dinheiro e trabalho. Assim, ela recorre aos auxílios do governo, mas eles vem com toneladas de burocracia, criando uma sensação de inferioridade que a faz em certos momentos viver situações irreais onde é humilhada. Como, por exemplo, quando imagina estar sendo chamada de desempregada fracassada e inútil. Fato que se torna um ponto a menos para a </span><a href="https://brasil.elpais.com/economia/2021-07-18/a-meritocracia-e-uma-armadilha.html"><span style="font-weight: 400;">meritocracia</span></a><span style="font-weight: 400;">, já que ela precisa e realmente merece ajuda para ter uma vida melhor, mas as condições para conseguir são tão adversas que tornam a ajuda governamental despreparada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esbanjando histórias reais, a criação conta com a atuação de Margaret Qualley e Andie MacDowell (Paula), como mãe e filha. </span><span style="font-weight: 400;">Além de dividirem a tela, elas </span><a href="https://osegredo.com.br/atrizes-da-serie-maid-tambem-sao-mae-e-filha-na-vida-real-esse-foi-seu-primeiro-trabalho-juntas/]"><span style="font-weight: 400;">compartilham dos mesmos genes talentosos</span></a><span style="font-weight: 400;">, extraindo o melhor da intimidade familiar para as cenas em que contracenam</span><span style="font-weight: 400;">, por mais que vivam em pé de guerra devido a leviandade de Paula e as exigências de Alex para colocá-la na linha, mas esses podem ser considerados os menores problemas. Paula vive em constante negação sobre a violência psicológica e financeira que a consome, sempre se envolvendo em relacionamentos infundados com homens que sem real interesse nela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através de uma decisão criativa assustadora, a tomada de consciência sobre o ciclo de abuso vivido por Alex ocorre com a narrativa de um ladrão que realmente existe, o </span><a href="https://observatoriodocinema.uol.com.br/series-e-tv/2021/10/maid-a-historia-real-e-o-que-aconteceu-com-o-ladrao-billy"><span style="font-weight: 400;">Billy Pé Descalço</span></a><span style="font-weight: 400;">. Para satisfazer o roteiro, o roubo de salgadinhos e a relação conturbada com a mãe definem o adolescente na minissérie. Obcecada em entender os cadeados e a coleção nazista do casarão que limpava, a nossa protagonista passa por um processo de identificação com Billy. Trancada no sótão do ladrão é que ela recupera a memória de se esconder nos armários da cozinha enquanto seu pai agredia a sua mãe.</span></p>
<figure id="attachment_24914" aria-describedby="caption-attachment-24914" style="width: 900px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24914" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12.jpg" alt="Cena da série Maid, na imagem estão Alex e Paula, Alex interpretada por Margaret Qualley e Paula, interpretada por Andie MacDowell. Alex tem a pele branca, seus cabelos estão amarrados e são ondulados e de tons castanho escuro, veste suéter verde bandeira. Paula tem a pele branca, seus cabelos são cacheados, longos e estão amarrados e de tons grisalhos, veste uma bata de hospital, a imagem não mostra calças. Alex está de costas para a câmera, já Paula alimenta um sorriso aberto mas tentando passar um olhar de tranquilidade. Ao fundo, ambas estão em um quarto de hospital." width="900" height="540" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12.jpg 900w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24914" class="wp-caption-text">A cumplicidade nos olhos de Paula parece genuína quando colocada em imagens, mas ao ver a cena, percebesse uma mulher confusa e emocionalmente ferida, partindo corações na esperança que ela se encontre outra vez (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em projetos que abordam o ponto de vista feminino da sociedade, é de extrema importância saber se por trás das câmeras existe </span><a href="https://mulhernocinema.com/numeros/estudo-programas-produzidos-por-mulheres-empregam-mais-mulheres/"><span style="font-weight: 400;">representação</span></a><span style="font-weight: 400;">. Quem assina a produção de </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid </span></i><span style="font-weight: 400;">é a </span><i><span style="font-weight: 400;">LuckyChap Entertainment</span></i><span style="font-weight: 400;">, empresa comandada pela atriz </span><a href="https://margotrobbie.com.br/margot-robbie-conversa-com-o-wsj-sobre-a-nova-serie-da-netflix-maid/"><span style="font-weight: 400;">Margot Robbie</span></a><span style="font-weight: 400;"> e que tem como foco obras desenvolvidas por mulheres. Não por acaso, a minissérie usufrui do mesmo recurso visual presente nos filmes </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=M2LMRXkAZSY"><i><span style="font-weight: 400;">Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2020)</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/bela-vinganca-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bela Vingança</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2020)</span></a><span style="font-weight: 400;"> da mesma equipe.</span> <span style="font-weight: 400;">Essa predileção utilizada funciona como um espelhamento de tela, mas dos pensamentos de Alex. Sempre que complicações financeiras surgem, os números de sua conta bancária ou os cálculos de seus custos aparecem na tela, aumentando ou diminuindo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de Alex e Paula, a trama conta com outras vítimas de violência doméstica, como Danielle (Aimee Carrero), </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=halfuvOMGoo"><span style="font-weight: 400;">moradora do apartamento 23</span></a><span style="font-weight: 400;"> da casa de acolhimento. Sendo sua terceira vez no abrigo, ela já conhece a burocracia e ajuda Alex a sair do fundo do poço, mostrando a jovem que precisa revidar os estigmas negativos que a sociedade e a justiça impõe às mulheres principalmente as que decidem se rebelar, taxadas como loucas, mentirosas e mães despreparadas. Denise, interpretada por BJ Harrison, é outra peça fundamental para deixar o coração do público ainda mais frágil. As conversas extremamente necessárias que ela tem com Alex servem tanto para a reflexão da protagonista quanto do espectador, acrescendo uma dose a mais de humanidade e carinho.</span></p>
<figure id="attachment_24915" aria-describedby="caption-attachment-24915" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24915" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-4.gif" alt="Gif de Alex e Maddy em um quarto infantil de tons pastéis. A mãe branca e de cabelo preto veste um colete azul por cima de um moletom cinza. Ela carrega e gira a sua filha, uma criança branca e de cabelo loiro. Maddy veste uma blusa de manga comprida cinza enquanto sorri no colo de Alex." width="700" height="394" /><figcaption id="caption-attachment-24915" class="wp-caption-text">Apesar de ser ambientada nos Estados Unidos, Maid foi gravada na <a href="https://technewsbrasil.com.br/onde-maid-da-netflix-foi-filmada/">Colúmbia Britânica</a>, uma província canadense (GIF: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Chega a ser difícil apontar defeitos na produção devido a extrema qualidade do produto, mas alguns pontos valem ser destacados: a atuação de Nick Robinson como Sean, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hDMPqh310dQ"><span style="font-weight: 400;">totalmente diferenciada de tudo que já vimos do ator</span></a><span style="font-weight: 400;">, acostumado a  trabalhar com papéis mais jovens, colegiais e com um quê de bom moço, como em </span><a href="https://personaunesp.com.br/com-amor-simon-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Com Amor, Simon</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Além de Robinson, Andie MacDowell demonstrou relutância para aceitar o papel pois via Paula como uma personagem muito desafiadora. Ainda que inesperados, ambos surpreendem em suas performances, mostrando um novo leque de possibilidades artísticas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na emocionante </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_nzgQcH0Vyc"><span style="font-weight: 400;">cena final</span></a><span style="font-weight: 400;">, a jovem mãe finalmente caminha com a sua filha até o topo de uma montanha em Missoula, cidade em que ela voltará a estudar para se tornar uma escritora. No ponto mais alto, há um M gigantesco que Alex atribui o seu significado a Maddy e esse novo mundo que será todo dela. Para nós telespectadores, a décima terceira letra do alfabeto nomeia aspectos essenciais de </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid</span></i><span style="font-weight: 400;">: a maternidade, o </span><a href="https://www.folhape.com.br/colunistas/uma-serie-de-coisas/enredo-de-maid-destaca-ciclo-de-violencia-domestica-em-geracoes/27659/"><span style="font-weight: 400;">machismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a meritocracia.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: This Is Paper Jackets" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/41EFpdLgoVJoyDr0qSZcFR?si=9efaedf04a944a3b&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>A importância do Rímel de Azzy para a representatividade feminina no rap nacional</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Nov 2021 18:30:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Livia de Figueredo Dona de um talento singular e autêntico, a rapper Azzy lança um novo EP chamado Rímel. Contando com 5 faixas que destrincham toda sua versatilidade e potencial como artista, o trabalho aborda desde músicas com temática romântica até letras que retratam a realidade feminina dentro das periferias.  Uma das principais faixas de Rímel &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/azzy-rimel-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A importância do Rímel de Azzy para a representatividade feminina no rap nacional"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24827" aria-describedby="caption-attachment-24827" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24827 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/rimel-azzy-e1637794251495.jpg" alt="Capa do EP Rímel, de Azzy. A imagem mostra uma fotografia da artista de ponta cabeça, ao lado de um espelho que mostra seu rosto. A imagem é estilizada em tons de vermelho, laranja e amarelo. Azzy é uma jovem negra de pele clara, tem cabelos alisados escuros e olha para o lado esquerdo da imagem, de perfil, com expressão séria. No canto superior esquerdo, está o nome do EP em amarelo numa fonte de letra de forma, e num tamanho menor, em cima e colorido de branco, está o nome da artista. " width="600" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-24827" class="wp-caption-text">“De São Gonçalo para o mundo, você não queria, mas eu vinguei”: na música São Gonçalo, Azzy fala sobre a sua trajetória dentro do rap nacional (Foto: Azzy)</figcaption></figure>
<p><b>Livia de Figueredo</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dona de um talento singular e autêntico, a </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper</span></i><span style="font-weight: 400;"> Azzy lança um novo </span><i><span style="font-weight: 400;">EP</span></i><span style="font-weight: 400;"> chamado </span><a href="https://open.spotify.com/album/2cqZQOpwquo3lu1aZXRkTQ?autoplay=true"><i><span style="font-weight: 400;">Rímel</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Contando com 5 faixas que destrincham toda sua versatilidade e potencial como artista, o</span> <span style="font-weight: 400;">trabalho aborda desde músicas com temática romântica até letras que retratam a realidade feminina dentro das periferias.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span id="more-24826"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das principais faixas de <em>Rímel</em> é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CjcVQ16qigY"><i><span style="font-weight: 400;">São Gonçalo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que explana grande parte da sua trajetória. A vida da artista foi marcada por um amadurecimento compulsório, visto que, aos 12 anos de idade, Isabela Oliveira foi violentada sexualmente por um parente. Sem saídas e sem o apoio familiar, ela saiu de casa para não ser mais submetida a tamanha </span><a href="https://personaunesp.com.br/never-rarely-sometimes-always-critica/"><span style="font-weight: 400;">violência</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desamparada, sozinha e na ausência de um apoio psicológico e financeiro, o tráfico de drogas foi a solução que a Azzy encontrou para sua própria sobrevivência. No </span><i><span style="font-weight: 400;">podcast </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=b75bN7NHod0"><i><span style="font-weight: 400;">Podpah</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper</span></i><span style="font-weight: 400;"> relata como foi ter que traficar até conseguir uma mínima condição de vida, para assim sair do crime e poder se dedicar à Música, que sempre foi sua paixão.</span></p>
<figure id="attachment_24828" aria-describedby="caption-attachment-24828" style="width: 1242px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24828 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-2-1-2.jpg" alt="Imagem de Azzy em entrevista ao podcast Podpah. Ao centro, existe uma mesa de madeira, onde Azzy está do lado esquerdo, usando uma blusa de moletom rosa e calça jeans azul. Do outro lado, estão dois entrevistadores. Todos tem microfones à sua frente e atrás da mesa existe uma TV que mostra o logo do podcast. A TV está presa numa parede cinza clara. " width="1242" height="1077" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-2-1-2.jpg 1242w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-2-1-2-800x694.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-2-1-2-1024x888.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-2-1-2-768x666.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-2-1-2-1200x1041.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24828" class="wp-caption-text">&#8220;A gente fala e ninguém ouve. A gente grita e ninguém ouve. A gente pede socorro e ninguém escuta&#8221;: frase de Azzy no podcast Podpah (Foto: Gabriel Carvalho)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A história de Azzy é semelhante a vivência de milhares de meninas que são violentadas sexualmente, e por consequência de uma sociedade que possui em sua conjuntura raízes discriminatórias e sexistas são invisibilizadas, e ainda tem todos os seus direitos negligenciados pela família e pelo Estado. Nesse cenário de </span><a href="https://personaunesp.com.br/never-rarely-sometimes-always-critica/"><span style="font-weight: 400;">extrema violência</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma válvula de escape que surge como um grito de resistência é se expressar através da Arte. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inicialmente, a</span><i><span style="font-weight: 400;"> rapper</span></i><span style="font-weight: 400;"> participava de batalhas de rimas no estado do Rio de Janeiro. Todavia, nem dentro do </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde pessoas negras e periféricas conseguem ganhar voz para escancarar uma realidade de estigma que sofrem, a</span> <span style="font-weight: 400;">mulher encontra seu espaço. Esse foi o preconceito que Azzy vivenciou na própria pele, quando o seu trabalho era desmerecido por conta do seu gênero, e em suas letras, ela denuncia o machismo dentro do </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i><span style="font-weight: 400;"> nacional: </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CjcVQ16qigY"><i><span style="font-weight: 400;">“Até entendo vocês odiarem uma mina rimar melhor do que vocês”</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse quadro persistente de preconceito e pouca</span> <a href="https://rapforte.com/7582/"><span style="font-weight: 400;">representatividade</span></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">Azzy, com apenas 20 anos, teve seu rosto estampado em um telão da</span><i><span style="font-weight: 400;"> Times Square, </span></i><span style="font-weight: 400;">um dos lugares mais conhecidos no mundo. A</span><i><span style="font-weight: 400;"> rapper</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma das brasileiras que compõem o quadro de artistas do projeto </span><a href="https://open.spotify.com/genre/equal-page"><i><span style="font-weight: 400;">EQUAL</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><i><span style="font-weight: 400;">Spotify</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que tem como objetivo promover a equidade de gêneros. O destaque foi para a música </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=eJupDZRIWq4"><i><span style="font-weight: 400;">Robocop</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que deixa explícita a mensagem sobre a liberdade feminina em <em>Rímel</em>. Outros artistas, como Anitta, Luan Santana, Iza e </span><a href="https://personaunesp.com.br/mc-dricka-acompanha-critica/"><span style="font-weight: 400;">MC Dricka</span></a><span style="font-weight: 400;"> colaboram com o </span><i><span style="font-weight: 400;">EQUAL</span></i><span style="font-weight: 400;">, entretanto, é inegável que a presença de Azzy é essencial para a diversidade cultural, visto que ainda há entraves para a figura feminina dentro do </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24829" aria-describedby="caption-attachment-24829" style="width: 831px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24829 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-3-1-1-831x1024.jpg" alt="Imagem de um painel na Times Square, em Nova Iorque, que mostra Azzy como o rosto da campanha EQUAL do Spotify. A imagem é vertical e mostra vários prédios espelhados ao fundo. Ao centro, está o painel que estampa uma fotografia de Azzy." width="831" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-3-1-1-831x1024.jpg 831w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-3-1-1-649x800.jpg 649w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-3-1-1-768x946.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-3-1-1-1200x1478.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/imagem-3-1-1.jpg 1242w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24829" class="wp-caption-text">“Posso dizer, como Isabela e como Azzy, o quão grandioso é estar representando tantas mulheres. Estar na Times não é só sobre mim, é sobre todas nós que sonhamos com o pódio.” (Foto: Afonso Caravaggio)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse reconhecimento internacional fez a</span><i><span style="font-weight: 400;"> rapper </span></i><span style="font-weight: 400;">se transformar numa inspiração para milhões de meninas e mulheres, que hoje podem ver o </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i><span style="font-weight: 400;"> como uma oportunidade de se expressar.</span> <span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, o </span><i><span style="font-weight: 400;">EP</span></i><span style="font-weight: 400;"> <em>Rímel </em>conta com uma participação de uma artista emblemática do gênero musical: </span><a href="https://www.google.com.br/amp/s/escutaqueebom.com/cynthialuz/amp/"><span style="font-weight: 400;">Cynthia Luz</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BNrOqTGK2HA"><i><span style="font-weight: 400;">Luzes de Neon</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Na música, a dupla  deixa claro o recado de que as minas são livres para serem, fazerem e ocuparem tudo o que desejam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atualmente, Azzy coleciona na sua carreira participações nacionalmente reconhecidas, como no </span><a href="https://www.youtube.com/results?search_query=poesia+ac%C3%BAstica"><i><span style="font-weight: 400;">Poesia Acústica</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, onde ela colaborou em três edições que tiveram mais de 650 milhões de acessos. Além disso, os dois milhões de seguidores que a </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper</span></i><span style="font-weight: 400;"> conquistou em sua conta pessoal do </span><a href="https://www.instagram.com/azzyoriginxl/?hl=pt-br"><i><span style="font-weight: 400;">Instagram</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> confirmam o inquestionável: Azzy é um fenômeno, contribuindo para a representatividade do </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i><span style="font-weight: 400;"> nacional e feminino, que infelizmente ainda hoje encontram obstáculos como a falta de investimento e o machismo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, com a figura de mulheres como Azzy, a passos pequenos outras meninas e mulheres periféricas são inspiradas a procurar uma realidade diferente da que é oferecida pela sociedade, como os abusos, violências e negligência dos mais diversos setores sociais. E finalmente, podemos nos ver como merecedoras de ocupar todos os espaços, inclusive como dignas a  atingir o pódio através de uma música que surge como um grito das </span><a href="https://www.politize.com.br/o-que-sao-minorias/"><span style="font-weight: 400;">minorias</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Rímel" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/album/2cqZQOpwquo3lu1aZXRkTQ?si=sfFJK-bsSwyfZLlfAU8yJw&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Quem tem medo de Jennifer Check?: Garota Infernal e o verdadeiro inimigo</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Oct 2021 16:56:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori Se em 2009 Garota Infernal foi considerado um crasso fracasso, após uma década de seu lançamento o filme se restabeleceu como Terror cult feminista à frente de seu tempo. Escrito por Diablo Cody, dirigido por Karyn Kusama e protagonizado pela dupla Megan Fox e Amanda Seyfried, Garota Infernal é um estudo de caso &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/garota-infernal-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Quem tem medo de Jennifer Check?: Garota Infernal e o verdadeiro inimigo"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24203" aria-describedby="caption-attachment-24203" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24203" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial. Ela se olha no espelho de um armário azul marinho, típico dos colégios estadunidenses. O espelho é arredondado com strass prata e rosa em sua volta. Na lateral superior esquerda e na lateral inferior direita do espelho estão colados dois adesivos de desenhos orgânicos, também em rosa. Não se vê nada na cena além da vista do rosto de Jennifer refletido no espelho e o fundo azul marinho do armário." width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24203" class="wp-caption-text">Fracasso comercial, Garota Infernal pouco a pouco se restabeleceu como terror cult feminista (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se em 2009 </span><a href="https://youtu.be/C8azftM5puI"><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> foi considerado um crasso fracasso, após uma década de seu lançamento o filme se restabeleceu como </span><a href="https://www.vox.com/culture/2018/10/31/18037996/jennifers-body-flop-cult-classic-feminist-horror"><span style="font-weight: 400;">Terror </span><i><span style="font-weight: 400;">cult </span></i><span style="font-weight: 400;">feminista</span></a><span style="font-weight: 400;"> à frente de seu tempo. Escrito por Diablo Cody, dirigido por Karyn Kusama e protagonizado pela dupla Megan Fox e Amanda Seyfried, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um estudo de caso sobre como um roteiro perspicaz, um enquadramento subversivo da câmera e personagens autoconscientes são capazes de transfigurar o olhar masculino predominante no gênero, pondo em foco a </span><a href="https://www.instagram.com/p/CVTmHYPrAAc/?utm_medium=share_sheet"><span style="font-weight: 400;">perspectiva feminina</span></a><span style="font-weight: 400;"> quanto às violações do corpo através de Jennifer e, </span><span style="font-weight: 400;">bem, “</span><a href="https://www.npr.org/2021/09/16/1037893623/olivia-rodrigo-jennifers-body-good-4-u-teenage-girls-anger"><i><span style="font-weight: 400;">O inferno é uma garota adolescente</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span id="more-24202"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após o sucesso do encantador </span><a href="https://youtu.be/K0SKf0K3bxg"><i><span style="font-weight: 400;">Juno</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, primeiro filme de Cody que lhe rendeu uma vitória no </span><a href="https://www.esqueletosnoarmario.com/post/redescobrindo-garota-infernal"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Melhor Roteiro Original</span></a><span style="font-weight: 400;">, um misto de expectativa e incerteza pairava acima do próximo projeto da roteirista – seria talento ou sorte de principiante? Assim, concedida total liberdade criativa pelos grandes estúdios, Cody decidiu abraçar suas ideias mais perversas ao escrever um horror pastiche que centralizasse personagens mulheres, explorasse amizades femininas e, principalmente, que fosse sobre uma garota canibal comedora de homens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, historicamente, o </span><a href="https://judao.com.br/explorando-o-exploitation/"><i><span style="font-weight: 400;">exploitation</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">carrega consigo uma </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2009/nov/02/jennifers-body-feminist-exploitation"><span style="font-weight: 400;">má reputação</span></a><span style="font-weight: 400;">. Nele, sobretudo nas décadas de 1950 à 1970, o papel das mulheres se reduzia basicamente ao prazer de sua dor, </span><i><span style="font-weight: 400;">voyeurizado </span></i><span style="font-weight: 400;">pelo</span> <a href="https://blogfca.pucminas.br/ccm/male-gaze-e-a-prevalencia-da-visao-masculina/"><i><span style="font-weight: 400;">olhar masculino</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (termo conhecido como </span><i><span style="font-weight: 400;">male gaze</span></i><span style="font-weight: 400;">, em inglês). E se o gênero por si só já é definido</span><span style="font-weight: 400;"> como “lixo”, um filme cuja narrativa concentra-se na transformação de uma garota popular em demônio que se alimenta especificamente de homens – além de ser encabeçado por uma equipe de mulheres –, certamente seria um desafio comercial na época.</span></p>
<figure id="attachment_24204" aria-describedby="caption-attachment-24204" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24204" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2.png" alt="Cena do filme Garota Infernal. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial. Ela está nua, nadando em um lago. As águas do lago refletem a luz do fim da tarde, num tom azul escuro. As partes não refletidas da água estão em tom preto. No enquadramento da cena, Jennifer está centralizada encarando a câmera. Ao seu redor só é possível ver o lago." width="1920" height="1048" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-800x437.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-1024x559.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-768x419.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-1536x838.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-1200x655.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24204" class="wp-caption-text">Assim como Jennifer Check, Megan Fox sentia-se violada, traçando paralelos entre o rito satânico do filme à indústria cinematográfica (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> ultrapassou os limites do véu que separa arquétipos igualmente condenatórios da “lésbica frígida” à “burra promíscua”, inaugurando um debate quanto à </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/por-que-megan-fox-acredita-que-garota-infernal-esta-frente-do-tempo/"><span style="font-weight: 400;">misoginia internalizada em Hollywood</span></a><span style="font-weight: 400;">. Jennifer Check (Megan Fox) não é casta, inocente e muito menos é modelo de feminismo, pelo contrário, ela é rude, egoísta e maldosa. Ela está longe de ser a vítima perfeita e, acertadamente, isso não importa no filme. Cody não entrega ao público uma mocinha fácil de se torcer, porém, em momento algum sugere que mesmo alguém tão desprezível como Jennifer mereça passar pelas agonias que passou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Jennifer acaba sozinha dentro de uma </span><i><span style="font-weight: 400;">van</span></i><span style="font-weight: 400;">, rodeada por desconhecidos, o tom de inevitabilidade é indigesto. Ao finalmente se dar conta do que está por vir, não há mais nada que a personagem possa fazer. Ela se desespera, questiona e fracassadamente implora por piedade à banda </span><i><span style="font-weight: 400;">indie </span></i><span style="font-weight: 400;">medíocre que, em busca do triunfo </span><i><span style="font-weight: 400;">à la</span></i><span style="font-weight: 400;"> Maroon 5, é capaz de sacrificá-la em dois segundos. Todavia, a cena, carregada de efeitos visuais alucinantes, traz o ponto de vista de Jennifer, de como ela se sente no momento. A visão dos assassinos não importa e Cody nos estende sua lente, nos encorajando a entender e respeitar Jennifer. Não há fetichização em seu sofrimento e, aqui, a </span><a href="https://www.facebook.com/diasdecinefilia/posts/2650699001682110/"><span style="font-weight: 400;">escrita sensível de Cody</span></a><span style="font-weight: 400;"> brilha. Por não ser virgem, o sacrifício dá errado e agora, súcubo, Jennifer inicia uma série de matanças em </span><i><span style="font-weight: 400;">Devil’s Kettle</span></i><span style="font-weight: 400;"> que estremece a relação com sua melhor amiga Needy (Amanda Seyfried).</span></p>
<figure id="attachment_24205" aria-describedby="caption-attachment-24205" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24205" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial. No enquadramento, ela está centralizada, sorrindo e encarando a câmera com um olhar obsessivo. Ela está com o rosto encardido de sujeira, maquiagem borrada e sangue na boca. Ela veste uma jaqueta branca, também suja e manchada de sangue, e argolas médias em prata. É noite e não há luz no fundo. O fundo é a casa da amiga de Jennifer, Needy, completamente escura." width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24205" class="wp-caption-text">O corpo grotesco de Jennifer foi um dos artifícios utilizados por Diablo Cody e Karyn Kusama para negar o male gaze (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os paralelos com as </span><a href="https://personaunesp.com.br/thelma-e-louise-30-anos/"><span style="font-weight: 400;">dinâmicas abusivas de poder</span></a><span style="font-weight: 400;"> na indústria </span><i><span style="font-weight: 400;">hollywoodiana </span></i><span style="font-weight: 400;">parecem ser óbvias. No entanto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> não foi produzido na era do </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/06/movimento-metoo-gera-417-acusacoes-de-assedio-em-empresas-diz-consultoria.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">#MeToo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e muita coisa mudou em 10 anos. Se esses debates de gênero e violência sexual – infelizmente atemporais –, ganharam repercussão em 2019, no ano de 2009 pouco se discutia a questão. Revelando em entrevistas as próprias </span><a href="https://youtu.be/u2JLRtWlq0o"><span style="font-weight: 400;">experiências pessoais</span></a><span style="font-weight: 400;"> pré-</span><i><span style="font-weight: 400;">#MeToo</span></i><span style="font-weight: 400;">, Fox chegou a comparar o sacrifício de Jennifer ao da própria carreira: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu sentia que estava sendo sacrificada por seus ganhos, quase sem nenhuma preocupação com meu bem-estar físico. [&#8230;] O que quer que eles precisassem fazer de mim ou me colocar, eles fariam</span></i><span style="font-weight: 400;">.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, de fato, escalada como estrela do filme, a </span><a href="https://www.indiewire.com/2018/12/karyn-kusama-jennifers-body-marketing-misogynistic-1202026860/"><span style="font-weight: 400;">estratégia de </span><i><span style="font-weight: 400;">marketing</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">se voltou à hiperssexualização do corpo de Fox. O estigma de que o terror não agrada garotas definiu o público alvo de maneira equivocada e </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi vendido para garotos adolescentes como um filme totalmente diferente do que realmente era. A divulgação consistiu apenas no apelo sexual quase pornográfico de Fox, voltado exclusivamente ao </span><i><span style="font-weight: 400;">olhar masculino</span></i><span style="font-weight: 400;"> – justamente o que Cody e Kusama propunham negar. Não há nudez explícita, Jennifer parece estar doente na metade do filme e o </span><a href="https://macabra.tv/o-medo-da-carne-nos-filmes-de-horror-corporal/"><i><span style="font-weight: 400;">horror corporal</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">não é a melhor definição de </span><i><span style="font-weight: 400;">sexy</span></i><span style="font-weight: 400;">. O desastre foi fatal.</span></p>
<figure id="attachment_24206" aria-describedby="caption-attachment-24206" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24206" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Na cena estão Amanda Seyfried, que interpreta Needy, e Megan Fox, que interpreta Jennifer, em ordem. Amanda Seyfried é uma mulher branca de cabelos loiros longos. Ela usa óculos, regata lilás e calça preta. Megan Fox é uma mulher branca de cabelos pretos longos. Ela veste uma blusa branca com manga média cinza escuro, shorts e meias listradas em cinza, branco e vermelho. Ambas estão conversando em cima de uma cama com lençol bege e coberta estampada em tons alaranjados queimados. A cama está centralizada no enquadramento, assim como as personagens. Acima da cama está uma janela com cortina de voil, onde é possível ver que é noite. À frente da janela está pendurada um pisca-pisca de luz amarelada. O fundo da imagem é um quarto. As laterais do quarto possuem forro chanfrado em branco, paredes com papel de parede floral em dourado e vermelho e cabeceiras verdes cheias de objetos. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial." width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24206" class="wp-caption-text">Needy, a amiga nerd devota, Jennifer, a garota demônio mais cobiçada da escola (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Falhando em atrair o público feminino e decepcionando o masculino, a reprovação foi consensual. Tanto a crítica especializada quanto o público, ambos compostos majoritariamente por homens cis, héteros e brancos, repudiou o filme. As </span><a href="https://www.indiewire.com/2020/09/megan-fox-jennifers-body-feminist-1234589224/"><span style="font-weight: 400;">avaliações eram negativas, até misóginas</span></a><span style="font-weight: 400;">, numa época em que artistas como Megan Fox, Salma Hayek e Angelina Jolie, por exemplo, eram tratadas explicitamente como </span><a href="https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/megan-fox-critica-machismo-em-hollywood-me-viam-como-um-casco-vazio-60767"><span style="font-weight: 400;">mercadorias sexuais</span></a><span style="font-weight: 400;">, vistas mais como um rosto bonito do que atrizes talentosas. Para mais, com o advento da </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">blogs </span></i><span style="font-weight: 400;">de fofoca, perseguição de </span><i><span style="font-weight: 400;">paparazzis</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ataque à Fox foi intensificado pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">cyberbullying</span></i><span style="font-weight: 400;">, culminando na sua reclusão, junto com a de Cody, que desencadeou problemas psicológicos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas para além do legado injusto que o filme suportou por efeito das circunstâncias externas que o envolveram, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma história sobre a </span><a href="https://mulhernocinema.com/especiais/vida-de-menina-5-filmes-sobre-juventude-estrelados-dirigidos-e-escritos-por-mulheres/"><span style="font-weight: 400;">perda da inocência</span></a><span style="font-weight: 400;"> e novas descobertas. O sacrifício de Jennifer pode ter ressuscitado-a, mas seu antigo eu foi morto, sepultado. Ela não é mais a mesma, ela se sente vazia. A amizade platônica entre Jennifer e Needy (tradução de </span><i><span style="font-weight: 400;">“carente”</span></i><span style="font-weight: 400;">, o astucioso apelido é derivado de Anita) é um dos indicativos centrais desse amadurecimento. Logo, ainda que a relação entre as melhores amigas tenha sido sempre nociva, é somente quando Jennifer se torna demônio que Needy finalmente se dá conta da ambiguidade dessa “amizade”.</span></p>
<figure id="attachment_24207" aria-describedby="caption-attachment-24207" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24207" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Na cena estão Amanda Seyfried, que interpreta Needy, e Megan Fox, que interpreta Jennifer, em ordem. Elas estão frente a frente prestes a se beijar. Só é possível ver o recorte dos narizes às bocas das personagens. Elas são refletidas por uma meia-luz em tom quente alaranjado. O fundo, que contorna o perfil das personagens, é totalmente preto." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24207" class="wp-caption-text">A cena de beijo entre Needy e Jennifer foi desconfortável para as ambas atrizes, que temiam a fetichização dela (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inicialmente, Needy olha para Jennifer com admiração. Ela deixa o namorado para seguir a amiga assim que lhe é ordenado e a tensão entre ambas é inquestionável, crescendo gradativamente até o estopim do subtexto sexual insinuado na narrativa, quando as amigas se beijam. A cena não dura mais de um minuto e traz à tona a confusão de Needy sobre seus sentimentos reprimidos. O </span><a href="https://gizmodo.com/the-real-horror-of-jennifers-body-toxic-friends-5361181"><span style="font-weight: 400;">relacionamento codependente</span></a><span style="font-weight: 400;"> delas é claramente mais intenso do que simples amizade, oscilando num complicado espectro que varia entre as melhores e piores sensações do amor e ódio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, a </span><a href="https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/24822"><span style="font-weight: 400;">leitura </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">sobre o relacionamento delas não propõe, nem ao menos tenta, ser exemplo de uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/rua-do-medo-1666-parte-3-critica/"><span style="font-weight: 400;">representação sáfica</span></a><span style="font-weight: 400;"> positiva. Ao invés disso, Cody explora a maneira como, instruídas a competir pelo pouco espaço disponível, as alianças femininas são corrompidas pelo patriarcado, ainda que reluzam sinais de paixão. Por fim, o inimigo se torna outras garotas, não o sistema em si. O brilho do olho de Needy ao olhar Jennifer, antes cintilante, agora se apaga.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Revisitando a obra com olhos contemporâneos, é inegável que </span><i><span style="font-weight: 400;">Jennifer’s Body</span></i><span style="font-weight: 400;"> reivindicou a estrutura primária do </span><a href="https://deliriumnerd.com/2020/11/19/uma-reflexao-sobre-rape-revenge-e-falso-feminismo/"><i><span style="font-weight: 400;">rape-revenge</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> por protagonistas que não se limitam aos arquétipos habituais do Terror – a vítima é cruel, a mocinha se corrompe. A cereja do bolo é o ar </span><i><span style="font-weight: 400;">camp </span></i><span style="font-weight: 400;">nostálgico que remete um universo passado com filtro de cores saturadas no qual pessoas usavam o </span><i><span style="font-weight: 400;">MySpace </span></i><span style="font-weight: 400;">e penduravam pôsteres de bandas </span><i><span style="font-weight: 400;">emo </span></i><span style="font-weight: 400;">nos quartos. Sem qualquer moralização, o filme traça metáforas ácidas sobre o trauma, onde o patriarcado é tão vil quanto o monstro demoníaco enjaulado dentro de uma adolescente canibal. E, infelizmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> provou na pele o poder do sistema, questionando: quem tem medo de Jennifer Check?</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/garota-infernal-critica/">Quem tem medo de Jennifer Check?: Garota Infernal e o verdadeiro inimigo</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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